Crônicas do Karakoram: Resultados finais de 2012 - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Estatísticas das expedições

Crônicas do Karakoram: Resultados finais de 2012

As últimas expedições deixaram o Paquistão no final de setembro, e, assim, é possível dar uma passada geral e final nos números e nas histórias que marcaram essa temporada empolgante de 2012.

Fonte: Texto de: Rodrigo Granzotto Peron

K2

 
Os últimos anos vinham sendo muito difíceis no K2. Em 2008, a queda de um serac na altura do Gargalo da Garrafa, rota normal, ceifou a vida de onze alpinistas. Nas duas temporadas seguintes, o K2 passou em branco e ninguém fez cume. Em 2011, novamente o tempo instável defletiu a maior parte dos times, e apenas quatro montanhistas foram até o cume, pela Face Norte.
 
Em 2012, o K2 estava de muito melhor humor, e permitiu uma quantidade impressionante de trinta cumes. Com esse volume, esta foi a segunda melhor temporada em todos os tempos.
 
O grande diferencial foi a expedição comercial Seven Summits Treks, de Mingma I Sherpa (o primeiro nepalês a completar todos os 14 cumes 8000). Liderada por seu irmão Chhang Dawa, uma verdadeira armada de sherpas fixou cordas na rota inteira e abriu caminho, facilitando a vida dos demais escaladores.
 
Dentre os que fizeram cume, os renomados Chhang Dawa Sherpa (13 cumes 8000); Oscar Cadiach (ESP, 11); Yang Chun-Feng (CHIN, 10); Azim Gheychisaz (IRAN, 9); Rao Jing-Feng (CHIN, 8); Kim Mi-Gon (C-S, 8); Kim Hong-Bin (C-S, 7); Tunç Findik (TUR, 7); Dawa Chhiri II Sherpa (6); Sanu Sherpa (6). Além deles, Fabrice Immparato (FRA), Zhang Jiang-Yuan (CHIN), Khoo Swee-Chiow (CING) e outros treze Sherpas.
 
Culminaram pela segunda vez o K2 tanto Mingma Thinduk I Sherpa quanto Muktu Lhakpa Sherpa. Fazer cume no ponto mais elevado do Karakoram é uma distinção para qualquer alpinista. Fazer cume duas vezes, algo raro e impressionante, feito que, até agora, somente foi realizado por seis pessoas. Ninguém até hoje subiu três vezes.
 
Ainda obtiveram sucesso Peter Hamor (SLK, 10), Adam Bielecki (POL, 3) e Pavel Bem (CZE, 2), todos sem oxigênio suplementar.
 
Por fim, redimindo-se do fiasco de “ter imaginado que fez cume” alguns anos atrás, Chris Stangl (AUT) finalmente pisou no ápice do K2, e segue a passos firmes no seu projeto Triplo Sete Cumes, pelo qual pretende subir os três pontos mais altos de cada continente.
 
NANGA PARBAT
 
No Nanga Parbat, em 2012, foi escrito um dos capítulos mais bonitos da história do Himalaia.
 
Essa montanha é notória por possuir a maior aresta entre todos os 8000, a temida e cobiçada Aresta Mazeno, de catorze quilômetros de extensão, sempre acima dos 6000 metros. Ao longo dela, há onze cumes (entre 6200 e 7150 metros), além de vários pináculos, antes de se prosseguir até o cume do Nanga Parbat. É um dos desafios mais desgastantes na Ásia.
 
A Aresta Mazeno havia sido tentada, sem sucesso, onze vezes antes. A primeira tentativa foi em 1979, e o intento mais bem sucedido até então havia se dado em 2004, quando Doug Chabot e Steve Swenson percorreram quase a integralidade dela, em seis dias, atravessando todos os cumes da aresta, mas não tiveram forças para prosseguir até o Nanga Parbat.
 
Em 2012, a sul-africana Cathy O’Dowd liderou time composto por Sandy Allan e Rick Allen, escortados por Lhakpa Rangdu, Lhakpa Nuru e Lhakpa Zarok. Após épicos quinze dias na rota, os últimos dos quais sem água nem comida, os dois britânicos completaram, finalmente, após quase 35 anos de tentativas frustradas, toda a Aresta Mazeno e concluíram a saga com o cume do Nanga Parbat. Sobre a façanha, mencionou Cathy: “Esta é uma rota muito especial. As novas rotas nos 8000 hoje em dia são linhas diretas tecnicamente difíceis. Porém, a rota que escolhemos é de um tipo diferente, de teste dos limites da resistência humana. Esses testes de endurance praticamente tinham sido deixado de lado pelos alpinistas modernos, quase que remontam a uma época anterior”.
 
BROAD PEAK
 
No Broad Peak, houve treze cumes. Além dos irmãos iranianos Reza e Sohbatollah Bahadorani, fizeram cume cordada eslovena (Andrej Gradisnik, Matej Flis, Ludvik Golob, Jurej Gorjanc e Tadej Zorran), expedição taiwanesa (Zhoumin Zhuang e Chen Huang-Wen, que tornaram-se os primeiros alpinistas de Taiwan nesse 8000, com seus dois sherpas Tashi Tshering e Aangdu) e Pawel Michalski (POL).
 
Ademais, Zuzana Hofmannova tornou-se a primeira mulher tcheca a culminar o Broad Peak, e também bateu o recorde de idade feminino (fez cume aos 53 anos e é a mulher mais velha). Em nota triste, Zuska faleceu na descida, ao escorregar e cair mais de 200 metros para a morte. Ela possuía três cumes 8000 no currículo.
 
Além dessa tragédia, também pereceu no Broad Peak o paquistanês Mohammad Baqir, igualmente por queda, por volta dos 7800 metros.
 
Nota: Waldemar Niclevicz iria tentar o Broad Peak, mas infelizmente sua expedição acabou cancelada por falta de patrocínio.
 
GASHERBRUM I & II
 
No Grupo Gasherbrum tivemos muito poucos cumes nessa temporada: nenhum no Gasherbrum I (8.068m) e apenas sete no Gasherbrum II (8.035m).
 
Ferrán Latorre, retomando sua carreira, liderou expedição espanhola, que colocou no cume Manuel González Diaz, José Enrique Carboné, Fernando Fernandez-Vivancos, Miguel Angel Navarrete e José Francisco Saldaña. Com o Gasherbrum II, Latorre agora possui sete oitomil culminados. Aproveitando a trilha aberta pelos espanhóis, também culminou o iraniano Mahdi Gholipour.
 
Nota: três sulamericanos tentariam o Gasherbrum. Os brasileiros Niclevicz e Marcelo Delvaux cancelaram suas participações por falta de apoio financeiro. O colombiano Aníbal Piñeda González chegou a tentar o Gasherbrum I, sem êxito.
 
MONTANHAS MENORES
 
Gasherbrum IV (7925m)
 
Time francês – Aymeric Clouet, Christian Trommsdorff e Patrick Wagon – tentaria uma nova linha direta numa das paredes mais difíceis de toda a Ásia: Face Oeste do Gasherbrum IV. Todavia, não chegaram nem a iniciar a tentativa, pois no processo de aclimatação, no vizinho Gasherbrum V, Clouet e Wagon foram colhidos por uma gigantesca avalanche e arrastados montanha abaixo, resultando em lesões em ambos (Wagon quebrou o tornozelo).
 
Masherbrum (7803m)
 
O time italiano de Elena Simona Balzarini, Andrea Balzamani e Andrea Tosi não conseguiu culminar o Masherbrum.
 
Kanjut Sar (7760m)
 
Agora o placar aponta Kanjut Sar 4x0 Lev Loffe. O experiente alpinista russo naturalizado americano tentou o Kanjut Sar em 2004, 2008, 2010 e 2012 sem êxito. Nesta temporada, ele escalou para compor o time Yuri Soyfer, Vladimir Belous, Alexey Panchenko, Alexander Chesnokov e Serguey Sukharev, pela Face Sudeste. Mas, novamente, não foi possível culminar essa elusiva montanha. Na verdade, há um grande mérito em Loffe. Ao invés de optar por um 7000 ou um 8000 fácil, e ir ao cume pelas rotas tradicionais, ele prefere escalar montanhas remotas, pouco usuais e difíceis. Parte do princípio que é melhor escalar 500 metros por terreno virgem do que 5.000 por uma rota conhecida e escalada à exaustão.
 
Em tempo: o Kanjut Sar somente teve duas ascensões (1959, italianos; 1981, japoneses). Fazem, portanto, mais de 30 anos que ninguém faz cume por lá.
 
Kamet (7756m)
 
O Grupo Militar de Alta Montanha do exército francês (GMHM) conseguiu a proeza da primeira ascensão da poderosa Face Oeste do Kamet, no final de setembro. No cume, Didier Jourdain, Sebastien Bohin, Sebastien Moatt e Sebastien Ratel. Batizaram a rota de “Spicy Game”.
 
Chogolisa I (7665m)
 
David Lama (AUT), Peter Ortner (AUT) e Corey Rich (EUA) tentaram, sem sucesso, o Chogolisa. Mas não voltaram para casa de mãos abanando. Na sequência, rumaram para a Torre sem Nome do Trango e ascenderam a clássica rota Eternal Flame.
 
Passu Sar (7478m)
 
O Passu Sar é uma montanha monumental no Karakoram, perto da vila de Gilgit, e que foi tentada poucas vezes (sete expedições, a primeira delas em 1994), com apenas duas ascensões: 1994 e 2011.
 
Na presente temporada, houve o influxo da expedição alemã de Bernard Kern, que tentaria nova rota, mas não conseguiram ir até o ponto mais alto.
 
Muztagh Tower (7273m)
 
A Muztagh Tower é uma impressionante agulha de granito da região do Baltoro, Karakoram, no caminho que leva ao K2. É uma montanha impressionante e que não possui rota fácil. Quando foi visualizada pela primeira vez, faz mais de um século, supunha-se ser impossível fazer cume. Os tempos passaram, e a montanha foi desvirginada em 1956, por duas cordadas simultâneas, uma britânica (Face Oeste) e outra francesa (Face Leste).
 
A terceira subida veio em 1990, por dupla sueca.
 
Em 2012, a quarta ascensão, pelos russos Serguey Nilov, Dmitry Golovchenko e Alexander Lange, liderados por Serguey Kotachkov. O time soviético optou por abrir uma nova rota, pela Face Norte até o esporão Nordeste, e de lá ao cume. Essa linha é tecnicamente desafiadora e muito elegante, e mostra a qualidade técnica dessa equipe russa.
 
Diran (7266m)
 
Expedição tcheca, de Pavel Matousek, tentou nova linha no Diran.
 
Ogre (7245m)
 
O Ogre, localmente denominado Baintha Brakk, é uma das montanhas mais difíceis e exigentes no planeta. Tentada quase 60 vezes ao longo dos anos, tinha sido palco de apenas duas ascensões: 1977 e 2001.
 
Em 2012, os norte-americanos Hayden Kennedy e Kyle Dempster mostraram suas tenacidade e genialidade na Parede Sul do Ogre, e forjaram uma nova rota, batizada simplesmente de Rota Americana. A forte dupla teve um verão magistral no Karakoram, e se consagra com duas novas e tecnicamente desafiadoras rotas, uma no K7 outra no Ogre. Um verão para entrar para a história, com esse double-header inédito.
 
Rimo III (7233m)
 
O Rimo é um grupo montanhoso que fica na tríplice fronteira da Índia com o Paquistão e a China, na Kashemira, e que é uma região volátil, de instabilidades e disputas territoriais. Bem por isso, tem sido palco de raríssimas expedições, já que ninguém quer se arriscar numa zona de guerra.
 
Apesar dos percalços, trio britânico formado por Malcolm Bass, Paul Figg e Simon Yersley resolveu tentar a segunda ascensão do Rimo III. Por azar, ficaram vinte e seis dias no campo base, mas durante esse período somente choveu forte e nevou, e eles nem chegaram a escalar propriamente as encostas da montanha. Após esse revés, partiram para o vizinho Dunglung Khangri e desencavaram a primeira ascensão desse 6000.
 
Latok I (7145m)
 
Ninguém fez cume no Latok I em 2012.
 
Lá estiveram os russos Valery Shamalo, Oleg Koltunov, Vjacheslav Ivanov e Ruslan Kirichenko (Aresta Norte); os sul-coreanos Joon Kim-See, Koo Eun-Soo, Wang Joon-Ho, Kim Jae-Yun, Ryung Cho-Woo, Tae Byun-Gi, Ghi Woo-Hun e Hong Seung-Gi (Aresta Sudeste); e os americanos Nathan Anders, Josh Wharton e Michael Pennings (Face Norte).
 
Latok II (7108m)
 
Na monumental Face Oeste do Latok II, time francês composto por Antoine Bletton, Pierre Labbre, Mathieu Maynadier e Sebastien Ratel completou uma rota extrema, cognominada Theoreme de la Peine. Infelizmente o tempo virou quando estavam a ponto de prosseguir ao cume, e tiveram que se contentar com a antecima apenas. Não obstante, não tira o brilhantismo da façanha, pois completaram a integralidade do Flanco Oeste.
 
K6 II (7040m)
 
O K6 II foi tentado cinco vezes ao longo dos tempos (1975, 2005, 2006, 2007 e 2008), mas permanece virgem. Em 2012, expedição britânica, com Jon Griffith e William Sim, organizou a sexta expedição a esta agulha paquistanesa, mas novamente sem sucesso. O K6 II permanece como um dos raros 7000 ainda virgens no planeta.
 
Spantik (7029m)
 
Expedição japonesa, pela Aresta Sudeste, foi ao cimo, com êxitos de Shen Luo, Li Fuqing, Yuan Fudong, Suolang, Lang Jia-Duoji, acompanhados dos paquistaneses de apoio Abdul Jabbar Bhatti, Naveed Iqbal, Saeed Mohammad, Mohammad Ali V e Fida Ali.
 
Khan Tengri (7010m)
 
Experiente time kazaque, liderado pelo top climber Vassili Pivtsov (todos os 14 oitomil), e integrado por Alex Sofrygin e Ildar Gabassov, abriu uma impressionante e dificílima linha direta na monumental Face Norte do Khan Tengri. Essa é a sexta rota nesse flanco.
 
K7 (6934m)
 
Forte e experimentado time integrado por Hayden Kennedy, Kyle Dempster e Urban Novak abriu uma nova rota na íngreme e complexa Face Leste do K7. Essa bem sucedida expedição realizou a quinta ascensão dessa agulha.
 
Great Trango (6375m)
 
O ace climber Dodo Kopold, em parceria com os também eslovacos Michal Sabovcik e Martin Krasnansky, escalou a rota normal da Grande Trango em 23 de julho, para aclimatar. Duas semanas depois, eles abriram uma nova e difícil rota na Parede Noroeste, batizada de “Out of Reality”.
 
Não conseguiram fazer cume os franceses Christian Trommsdorff, Patrick Wagon e Aymeric Clouet, juntamente com o austríaco Lisi Steurer. Eles tentavam o vizinho Trango Ri I, mas atingiram apenas a antecima, em junho.
 
Dunglung Khangri (6365m)
 
Os britânicos Simon Yearsley, Malcolm Bass e Paul Figg desvirginaram esse 6000.
 
Trango – Nameless Tower (6251m)
 
Na poderosa Torre Sem Nome do complexo Trango, houve quatro expedições bem sucedidas.
 
Time iraniano colocou no ponto mais alto Hassan Gerami, Hamid Reza Shafaghi, Abbas Mohammad e Pejman Zaafari, pela Rota Iuguslava. Eles tornaram-se os primeiros iranianos no Trango.
 
Na sequência, os famosos David Lama (AUT), Peter Ortner (AUT) e Corey Rich (EUA) desbravaram a rota Eternal Flame.
 
Por essa mesma rota, em agosto, os sul-africanos Douard Le Roux, Alard Hufner e Rob Powell igualmente fizeram cume.
 
Por fim, Michal Krol (POL) e David Zavacky (SLK) completaram a safra, utilizando da Rota Iuguslava. David tornou-se o primeiro eslovaco a culminar o Trango.
 
Outro time escalou até a antecima, mas não conseguiu culminar a montanha: o inglês Tim Emmett e os franceses Jerome Blanc-Gras, Liv Sansoz e Manu Guy.
 
Laila Peak (6096m)
 
O Laila Peak é uma das montanhas mais bonitas do Paquistão, e seguramente uma das mais plasticamente belas do planeta.
 
A primeira ascensão deu-se em 1987, e depois o Laila Peak ficou esquecido por muitos anos, até que teve uma retomada na presente década, com múltiplas expedições tentando suas encostas.
 
Em 2012, a montanha foi desafiada por cordada internacional, com Luca Pandoffi (ITA), Paul Holding (UK), Brendan O’Sullivan (IRL) e Edward Blanchard (ESP). Tinham planos de fazer uma nova linha direta na Face Noroeste, e depois descer de esqui. Mas não conseguiram ir até o cume, devido às imensas avalanches que espocavam, e desistiram a 5500 metros.
 
Duas outras equipes espanholas tentaram a mesma face do Laila Peak, ambas sem cume. A primeira liderada por Ramón Portilla; a segunda, por Ruben Martinez.
 
 
Por: Rodrigo Granzotto Peron
Texto finalizado em: 9-10-2012
 

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