Os Alpes parte 1 - Grindelwald, Suíça - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Saiba tudo sobre as montanhas e vilarejos nas suas bases

Os Alpes parte 1 - Grindelwald, Suíça

Os Alpes constituem a principal cordilheira da Europa, ocupando áreas na França, Suiça, Itália, Austria, Alemanha, Liechstenstein e Eslovênia, numa espinha de montanhas com mais de 1200 km de extensão. Nos seus pontos mais altos, atinge mais de 4000 metros de altitude (há 82 montanhas acima desta marca). Além da beleza de suas montanhas e vales, os Alpes oferecem ainda dois diferenciais em relação a outras cadeias de montanhas: muitos atrativos históricos e uma incrível infra-estrutura de apoio. Com esta série de matérias, tentaremos conduzir o leitor de Alta Montanha a um breve passeio em 5 diferentes destinos alpinos, destacando especialmente as opções de atividades "outdoor" em cada um deles, nos meses do verão europeu.

Fonte: Texto de Eduardo Prestes

Preferimos destacar as opções de atividades no verão por estarem mais identificadas com os hábitos brasileiros. Na temporada de inverno, as opções são outras e em menor número, pelo rigor do clima. Ainda assim, não faltam atrativos. No frio, a preferência é dos esquiadores, snowboarders e afins. Escaladores alpinos também encontram seu parque de diversões em perfeitas condições, com inúmeras cascatas e canaletas congeladas. Os acessos às muitas vilas de montanha é garantido por uma ampla rede de trens e cabos aéreos, além de trilhas. A maioria das estradas de montanha permanece fechada nesta época, pelo acúmulo de neve e gelo.
 
Nossa primeira parada será a pequena cidade de Grindelwald, nos alpes suiços, aos pés da mundialmente famosa "face norte de Eiger". Grindelwald está localizada no centro-sul da Suiça, a 20 km de Interlaken e a cerca de 80 km tanto de Berna quanto de Lucerna. Em Grindelwald, o idioma local é o alemão, como em boa parte da Suiça. Vale lembrar que na Suiça falam-se 4 idiomas: francês a oeste (região de Genebra), alemão ao norte e ao centro (Berna, Zurique, Basiléia), italiano ao sul dos Alpes e romanche no leste (um idioma regional, de origem latina). Em Grindelwald, no entanto, por ser um tradicional destino turístico, o inglês é falado por quase todas as pessoas, especialmente em hotéis e estabelecimentos comerciais. 
 
Chegando em Grindelwald
 
Para chegar a Grindelwald, o ponto de partida costuma ser Interlaken, uma cidade com cerca de 5.500 habitantes fixos, mais uma população flutuante de turistas. Interlaken ocupa uma estreita faixa de terra entre o Lago Thun e o Lago Brienz, cruzada ainda pelo Rio Aare, o que lhe dá ares de balneário. Como a Suiça não possui litoral, os lagos "substituem" o mar, tornando-se os destinos preferenciais no verão, para uso de suas praias e para todo o tipo de atividade aquática. Há belos percursos a explorar ao longo da orla dos lagos, especialmente em bicicleta.
 
Em Interlaken, há grandes hotéis, cassino e uma ampla rede de lojas e restaurantes. A proximidade com as montanhas, no entanto, também fica evidente com a presença de lojas de material de esqui e montanhismo, além de fábricas especializadas (a Black Diamond, por exemplo, tem uma fábrica em Interlaken). No inverno, Interlaken oferece muitas opções de pistas de esqui, nas diferentes montanhas e encostas no entorno da cidade. Para seguir a Grindelwald, além da estrada, há uma linha de trem.
 
Grindelwald está a cerca de 1.000 metros de altitude, junto a imensas encostas rochosas. O cenário é impressionante, quase ameaçador. De qualquer ponto da cidade, a vista dos paredões atrai o olhar. As encostas mais próximas fazem parte de um conjunto que culmina no Wetterhorn. A chegada em Grindelwald, seja por trem ou carro, é inesquecível. A face norte do Eiger é perfeitamente visível da cidade, apesar de um pouco deslocada. Ainda assim, a base da parede está acessível por uma simples caminhada a partir da estação, passando por gramados e bosques, até os primeiros lances em rocha. Grindelwald é uma cidade pequena (cerca de 4.000 habitantes), mas que conta com uma boa rede de hotéis, lojas e restaurantes. Ainda assim, a cidade mantém um caráter pitoresco, de uma autêntica vila alpina.
 
Por dentro do Eiger até Jungfraujoch
 
Em torno de Grindelwald, existe uma extensa rede de trens de altitude ("cremalheiras"), teleféricos e cabos aéreos, que permite uma fácil circulação entre vilas, vales e alguns cumes. As vistas panorâmicas são espetaculares. Algumas vilas de montanha não possuem acesso para veículos; apenas a pé, por trem ou teleférico é possível chegar até elas. Definitivamente, os suiços não tem medo de abismos; são muitas as construções que desafiam o vazio, encravadas nas encostas das montanhas.
 
A rede de trens de altitude faz a interligação entre as vilas de Kleine Scheidegg, Wengen, Mürren, Lauterbrunnen e Stechelberg. Entre todos, o percurso mais inusitado é o que leva de Kleine Scheidegg (2061 m) até o topo do Jungfraujoch (3454 m), um cume menor e exposto, situado na crista que liga o Mönch ao Jungfrau. A complexa obra de engenharia foi inaugurada em 1912. De Kleine Scheidegg, o trem sobe mais 1 km até a estação de Eigergletscher, de onde então penetra na montanha, sempre subindo. O túnel cruza a face norte do Eiger, faz uma volta de 180º e retorna sob os cume do Eiger e do Mönch, até atingir um ponto logo abaixo do topo do Junfraujoch. No percurso, existe a inacreditável Estação Eigerwand, onde o trem faz uma parada.
 
Os passageiros podem descer e caminhar até uma linha de janelas panorâmicas, escavadas na face norte do Eiger. Dali, tem-se vistas panorâmicas de Grindelwald, das montanhas próximas e do abismo. Mesmo estando a um terço da altura da parede, a sensação de vertigem é inevitável. O contraste entre o interior relativamente aquecido da estação e o exterior sombrio e congelado da parede também impressiona. O trem faz outra parada na estação Eismeer, já na vertente superior do Eiger, com vista para o outro lado da montanha, onde existe um conjunto de imensos glaciares. A estação final é a Jungfraujoch, uma ampla estrutura com lojas, restaurantes e lanchonetes. Dali, o visual já impressiona. Mas a coisa fica melhor ainda. Através de um elevador, é possível subir ao observatório Sphinx, que ocupa exatamente o topo do Jungfraujoch. Uma boa parte da edificação é aberta ao público, com mirantes panorâmicos internos e terraços externos. A vista é total, espetacular em qualquer direção, com destaque para os cumes mais próximos, que são o Jungfrau a sudoeste e o Mönch a nordeste.
 
O ambiente é de alta montanha; sem o apoio destas estruturas, o local seria inacessível e bastante inóspito. Devido ao relevo acidentado, não há pistas de esqui junto ao Jungfraujoch; existem apenas trechos curtos sinalizados, basicamente para turistas principiantes. Alguns esquiadores arriscam descidas pelos glaciares, um terreno acidentado e traiçoeiro. Eles precisam seguir lentamente, muitas vezes encordados, contornando as gretas, com mochilas às costas, num exercício de navegação e sobrevivência. Os glaciares dão acesso a alguns abrigos, espalhados nas encostas das diferentes montanhas da região. 
 
Trilogia Bernense
 
Do Jungfraujoch, é possível acessar os cumes do Jungfrau (4158 m), do Mönch (4107 m) e do Eiger (3970 m), que constituem um famoso circuito alpino, a Berner Trilogy. Para os dois primeiros objetivos, a melhor opção é dormir nas alturas, no abrigo Mönchsjochhutte, acessível por caminhada alpina a partir do Jungfraujoch. Dali, o Mönch é o cume mais acessível (4-5 horas). O Jungfrau pode ser feito em 8 horas ida-e-volta, mas é uma escalada mais técnica, exposta e com travessia de glaciar. Para o Eiger, o mais fácil é descer na estação Eismeer, atravessando em seguida o glaciar em frente e escalando cerca de 4 cordadas até o Mitellegihutte.
 
Deste abrigo até o cume do Eiger segue-se por uma crista afiada, bastante exposta (no topo da face norte), num percurso panorâmico e de média dificuldade. No verão, estes abrigos são muito frequentados pelos escaladores. Sem reservas, é improvável conseguir lugar. O trem tornou estes cumes mais acessíveis, mas vale lembrar que o ambiente continua severo, sendo necessária uma experiência prévia em escaladas alpinas para encarar a trilogia. Evidentemente, iniciar as escaladas com o trem é "roubar" a maior parte do esforço. Para os puristas, as verdadeiras escaladas destas montanhas iniciam lá de baixo, do vale. Mas seja qual for a opção, uma escalada tradicional (do vale) ou turística (usando o trem), a experiência seguramente será inesquecível.     
 
A Face Norte do Eiger
 
Grindelwald está irremediavelmente vinculada com a face norte do Eiger, não só pela geografia, mas também pela história. Por uma soma de fatores, esta parede colossal e sombria tornou-se mítica no alpinismo e além. Primeiramente, está localizada em frente a uma frequentada vila alpina, onde o turismo iniciou ainda no século XIX (o trem chegou em Grindelwald em 1890). Na época das grandes conquistas, que nos Alpes corresponde ao século XIX, a face norte permaneceu intocada, enquanto as principais montanhas da região eram todas escaladas. A construção da linha de trem até o Jungfraujoch, em 1912, atraiu ainda mais atenção das pessoas para esta parede imensa e vertical.
 
Ao longo do tempo, desde a primeira ascensão em 1858, o Eiger foi escalado por todas as suas vertentes, exceto a parede norte. No início do século XX, esta vertente norte já era considerada um dos grandes desafios do alpinismo mundial. Mas apenas em 1935 dois alemães desafiaram a Nordwand, morrendo congelados num platô no meio da parede (desde então conhecido como "death bivouac"). Em 1936, quatro outros alpinistas alemãs tentaram a escalada, com o mesmo resultado: todos morreram. Forçados a retroceder, eles acabaram despencando. Um deles, Toni Kurz, ainda ficou pendurado em sua corda, por mais de 24 horas, sem forças para retornar à rocha. Das janelas da Estação Eigerwand e depois escalando a partir dali, os socorristas conseguiam ver e conversar com Kurz, mas foram incapazes de chegar até ele.
 
Kurz morreu exausto, preso à corda. Esta tragédia obteve repercussão mundial, pelas incríveis circunstâncias. Em 1937, outros 2 alemães atingem o "death bivouac", de onde retornam. Foi a primeira vez em que escaladores saíram vivos da Nordwand. Em junho de 1938, mais dois alemãs morrem na parede. Dos primeiros 10 escaladores que tentaram a face norte do Eiger, 8 morreram. Vale destacar que estas mortes aconteceram diante dos olhos de centenas de pessoas, algumas acompanhando todos os movimentos com poderosos telescópios, nas varandas dos hotéis de Kleine Scheidegg. Estes tristes fatos ajudaram a criar o mito da face norte do Eiger.       
 
Em julho de 1938, um quarteto de alemães e austríacos (Heckmair, Vörg, Kasparek e Heinrich Harrer) vencem a Nordwand, tornando-se verdadeiros heróis europeus. Harrer escreveu em seguida um clássico livro sobre a escalada, cujo título é "The White Spider". A via da primeira ascensão é uma linha tortuosa, que busca as poucas passagens oferecidas pela rocha de um setor a outro, consagrada como um clássico absoluto no montanhismo.
 
Desde então, muitos outros escaladores da elite mundial tiveram seu encontro com a pedra quebradiça e gelada da Nordwand. Lionel Terray e Louis Lachenal fizeram a segunda ascensão. Hermann Buhl, Gaston Rébuffat, Guido Magnone, Kurt Diemberger, Chris Bonington, Reinhold Messner e Peter Hebeler são alguns nomes que fazem parte da história da Nordwand. O maior risco da parede sempre foi a queda de pedras, que se desprendem constantemente da montanha. Walter Bonatti fez uma tentativa em solitário em 1963, da qual desistiu após ser bombardeado por pedras no primeiro bivaque: "isso não é alpinismo", declarou ele à época. Com a melhoria nas roupas térmicas, muitos inclusive sustentam que a Nordwand deve ser escalada no inverno, quando o gelo cimenta as pedras na parede. Apesar dos riscos, a lenda é forte e as pessoas seguem escalando a face norte, ano após ano. Mesmo com o progresso nos equipamentos, as mortes continuam a acontecer. Em 2012, havia 66 mortes registradas desde a primeira tentativa, em 1935. A "saída de emergência" da parede, uma inusitada porta que dá acesso ao interior do túnel do trem, permanece sempre aberta. Atualmente, existem diferentes vias na face norte.
 
Recordes foram quebrados, como a inacreditável escalada invernal do suiço Ueli Steck em 2008, que completou toda a face norte até o cume em 2h47m (a primeira ascensão levou 4 dias). O local também foi palco de inúmeras loucuras, como a escalada sem corda de Dean Potter até quase o topo, de onde fez um salto de base jump, com o pára-quedas que levava às costas. Mesmo frequentada, a Nordwand continua sendo um troféu valioso, ao menos no âmbito pessoal, pela satisfação de escalar num local que transpira história e pelo privilégio de medir forças contra um mito do montanhismo. Por curiosidade, busquei e não encontrei referências de brasileiros que já tenham escalado ou mesmo tentado a face norte do Eiger. Alguém sabe de alguma coisa ?    
 
Outras montanhas em Grindelwald
 
Evidentemente, a face norte do Eiger é um objetivo para escaladores da categoria "ninja". Para os demais, recomendam-se outros atrativos. Em Grindelwald, existem desafios para todos os tipos de montahistas, com várias formações interessantes no entorno da cidade. Por exemplo, para quem é obcecado pela Nordwand, mas não está em condições de encarar o monstrengo, uma boa diversão é subir o Rotstock. Esta formação fica logo atrás da estação Eigergletscher e parece bastante modesta, em comparação com o vizinho Eiger. No entanto, ali existe uma via ferrata de 260 metros, que leva ao cume achatado do Rotstock. Com um mínimo de equipamentos e tempo, é possível passear pela rocha quebradiça da região e perceber toda a dimensão da Nordwand, encarando-a muito de perto. 
 
Grindelwald oferece muitas outras montanhas além do Eiger. Nos Alpes, o planejamento de uma escalada inicia com a escolha do abrigo que servirá de campo-base. São cerca de 16 abrigos de montanha no conjunto dos Alpes Bernenses, todos em terreno selvagem, imersos em paisagens exuberantes. Para muitos, uma simples noite em um destes abrigos pode ser aventura suficiente. Na maioria dos casos, chegar a estes abrigos implica em caminhadas técnicas (glaciares, navegação) e até escaladas, por isso é fundamental estar bem informado. Entre as inúmeras possibilidades, destacamos nesta matéria 3 interessantes opções. 
 
O Wetterhorn (3692 m) está localizado logo acima de Grindelwald. O ponto de partida para uma investida nesta montanha é o abrigo Glecksteinhorn, localizado a 6 km ladeira acima a partir da cidade. Deste abrigo, calcula-se 5 horas para subir e descer do Wetterhorn, ao que parece sempre em rocha e sem trechos realmente técnicos. Se estiver sobrando fôlego e tempo, é possível esticar para os cumes do Mittelhorn (3704 m) e do Rosenhorn (3689 m), que ficam próximos, no mesmo maciço. Dizem que a vista do cume do Wetterhorn é realmente única, por permitir uma plena visão do vale de Grindelwald. A primeira ascensão aconteceu em 1844.
 
Ousando mais, uma visita ao abrigo Schreckhorn abre a possibilidade de escalar a via normal desta montanha, com 4078 m. A caminhada até o abrigo inicia no final do cabo aéreo de Pfingstegg e leva entre 5 e 8 horas, conforme as condições. A via normal do Schreckhorn segue a crista sudoeste. É uma escalada mista (rocha e gelo), que exige boa técnica, classificada como AD (média dificuldade). A previsão é de 10 a 12 horas de atividade até o retorno ao abrigo. Pelas dificuldades do acesso e das escaladas, o local costuma ser frequentado basicamente por montanhistas experientes. O cume do Schreckhorn foi visitado pela primeira vez em 1861.
 
Para quem sonha com emoções ainda mais fortes, nada melhor do que tentar o cume da montanha mais alta da região, o Finsteraarhorn (4274 m). O problema é que esta proeminente montanha fica no meio da cordilheira, cercada por glaciares. Portanto, o caldo já engrossa no trajeto para o abrigo, encravado na encosta do Finsteraarhorn. Há 3 opções de acesso a este abrigo. Considera-se que o trajeto mais simples inicia na estação do Jungfraujoch, descendo o imenso glaciar do Jungfrau até o abrigo Konkordian, localizado no topo de um platô, acessível por uma escada encravada na rocha. Deste ponto, é possível ter acesso a um outro vale, onde está o glaciar Fiescher, que deve ser atravessado para enfim alcançar o abrigo Finsteraarhorn. Ali é possível obter um chá quente, boa comida e uma cama seca, num prédio de 3 pavimentos. Só nos Alpes mesmo ...
 
Os guias indicam um percurso de 6 a 8 horas entre o Jungfraujoch e o abrigo. Entretanto, minha impressão é que se você não tiver um bom conhecimento de gelo, neve e glaciares, não chegará jamais. Com mau tempo, não é recomendável rumar ou deixar o abrigo. Portanto, é uma empreitada para quem está com tempo de sobra. A via normal do Finsteraarhorn inicia logo atrás do abrigo, quase toda em neve, sendo classificada entre PD (pouco difícil) e AD (média dificuldade). O tempo de escalada seria de 5 horas até o cume, mais o retorno. Como o Finsteraarhorn é o cume mais alto da região, oferece um panorama sem obstáculos, por muitas dezenas de quilômetros. A primeira ascensão da montanha é de 1829.
 
Caminhadas 
 
Entre as sugestões de atividades em Grindelwald, não resta dúvida de que a mais viável é esta: caminhar ! A região é cortada por trilhas, que serpenteiam em meio a paisagens majestosas, unindo as diversas vilas alpinas, muitas sem acesso para automóveis. Em alguns trechos, seja por cansaço, preguiça ou pressa, é possível pegar "carona" num dos trens ou teleféricos que circulam entre as localidades. Um percurso imperdível seria ir de Gridelwald para oeste, até Mürren ou além.
 
O primeiro trecho da trilha acompanha a base da face norte do Eiger, de Grindelwald até Kleine Scheidegg (1h40m/4,2 km). Este trecho pode ser feito acompanhando a linha do trem (mais fácil) ou numa trilha mais alta e aérea (e também mais interessante), a Eiger Trail, que segue colada à Nordwand, até a estação de Eigergletscher, descendo em seguida para Kleine Scheidegg. Kleine Scheidegg é uma espécie de entroncamento viário de altitude, com hotéis, restaurantes e lojas. Dali, o caminho principal acompanha os trilhos até Wengen (1h20m/4.1 km). Mas se você não estiver cansado de vistas estupendas, o melhor é desviar para Männlichen, um topo de montanha servido por trilhas e cabos aéreos. No inverno, é ponto de partida de pistas de esqui. No verão, é frequentado por turistas e trekkers, que buscam ali novos pontos de vista sobre a paisagem. Dali, a próxima parada seria Wengen, uma charmosa vila alpina, logo abaixo do Männlichen.
 
Pode-se descer caminhando ou por teleférico. De Wengen, já é possível avistar o magnifício vale de Lauterbrunnen, um lugar que só pode ser descrito como surreal. Um fundo de vale plano e verde, sulcado por um rio ao centro, cercado por imensas paredes de rocha vertical, de onde precipitam-se várias cachoeiras. Para completar, é possível enxergar os glaciares descendo das montanhas para o fundo do vale. É como chegar em Shangri-lá, a terra prometida. Lauterbrunnen fica no vale, junto da rocha, com cascatas caindo por trás dos prédios. Dizem que o vale possui 72 cachoeiras ! A descida de Wengen para Lauterbrunnen pode ser feita por trilhas ou por trem. De Lauterbrunnen, a trilha segue encosta acima, passando por Grütschalp e Winteregg até chegar a Mürren (1h40m/6km).
 
Este outro vilarejo alpino está na borda da encosta, pendurada sobre o vale. Não há acesso de automóveis, mas é possível chegar também por um sistema misto de trem e teleféricos. Uma boa sugestão é usar o funicular ou o teléferio de Lauterbrunnen até Gütschalp, para em seguida caminhar até Mürren. Na volta, a descida pode ser feita pelo outro teleférico, mais drámatico, que faz a ligação entre Mürren e Stechelberg. Em Murren, além de um bom almoço, vale uma visita ao conjunto de cascatas Trummelbach, alimentadas por água oriunda dos glaciares, com interessantes percursos dentro da rocha. Para os que adoram altura, uma opção irresistível seria dedicar 3 horas para percorrer a bela via ferrata que vai de Mürren até Gimmelwald, num percurso horizontal de 2.200 metros (descendo 300 m em altitude). A via é exposta e bastante aérea, com cabos, degraus chumbados na rocha, escadas e pontes sobre o vazio. Só é permitido seguir um sentido, a partir de Mürren.
 
Completando o dossiê, não se pode deixar de citar a principal atração turística desta área, que é o teleférico que leva, em dois estágios, até o topo do Schilthorn, onde existe mais um destes incríveis mirantes alpinos. Lá é um bom local para sentar e relaxar, tendo a certeza de ter visto ao longo das trilhas algumas das mais belas paisagens do mundo. Este percurso pode ser feito em 1 dia, mas ficaria apressado. O melhor é programar um pouso em Lauterbrunnen ou Mürren. A volta para Grindelwald pode ser feita inteiramente pelos trens e teleféricos.
 
Pensando naqueles que gostam mesmo de caminhar e preferem um ambiente mais "roots", a dica é seguir caminho de Mürren para Gimmelwald e daí para Griesalp (6h/15km). A paisagem segue estupenda. Este percurso faz parte da Trilha Verde da Via Alpina (trecho C11). Este projeto fez um mapeamento de 5000 km de trilhas nos Alpes, estruturando os diferentes trechos em 5 grandes percursos (vermelho, roxo, amarelo, verde e azul), que cruzam a cordilheira e vários países. Cada trecho exige de 6 a 8 horas de caminhada, e o site traz dicas de rotas, paradas, pontos de referência, etc. A Trilha Vermelha, por exemplo, vai de Trieste a Mônaco, em 161 trechos, passando por 8 países. Para aqueles que pretendem ir fundo na caminhada nos Alpes, vale a pena pesquisar por lá (www.via-alpina.org). De Griesalp, somente é possível voltar para Mürren a pé, pelo mesmo caminho da ida.
 
Por isso, o melhor é seguir até Kandersteg, uma bela e turística vila alpina, com todas as facilidades, inclusive trens. Este trecho desde Griesalp pode ser feito em micro-ônibus, percorrendo uma estrada estreita, famosa por sua absurda inclinação (28% no seu pior trecho), curvas fechadas e abismos. Ainda assim, se restou fôlego, o mais indicado é seguir pela Via Alpina, primeiro subindo até o Passo Hohtürli (2780 m), em ambiente de alta montanha, depois descendo até o lago Oeschinensee e dali para Kandersteg. O trecho é puxado, são quase 15 km de subidas e descidas, o que corresponde a mais de 7h de caminhada. Se a coisa ficar feia, existe um teleférico entre o Oeschinensee e Kandersteg (1h a menos na conta).   
 
Pedaladas
 
Não podíamos encerrar a matéria sem indicar alguma distração para os apaixonados por pedaladas. Em princípio, há atrações em todas as direções, mas vamos destacar um percurso em especial, que vai de Grindelwald para oeste, até Meiringen (23 km).
 
É uma rota pavimentada, mas estreita e rural, com tráfego lento e esparso. O percurso segue o vale, acompanhando os contra-fortes verticais do Wetterhorn, até o passo de Grosse Scheidegg (1962 m). Isso significa que a estrada sobe quase 1000 metros desde Grindelwald, haja perna ! Dali, a estrada desce serpenteando pelo vale, primeiro em ambiente de montanha e depois em verdes encostas, onde os suiços criam vacas, todas elas com sinos no pescoço, é uma sinfonia ... Em paralelo, há também uma trilha exclusiva para pedestres. Meiringen está a 600 m de altitude, ou seja, a descida é longa. Meiringen é uma pequena e graciosa cidade, tipicamente suiça, marcada por dois atrativos especiais. O primeiro é o Museu Sherlock Holmes, dedicado ao personagem criado por Sir Arthur Conan Doyle. Há uma estátua em tamanho natural, feita em bronze, com o Sherlock sentado no banco da praça, em frente ao museu.
 
Turista que se preza não deixa de bater uma foto abraçado ao Sherlock. Esta ligação se explica pela "morte" do Sherlock Holmes ter "ocorrido" na Cascata Reichenbach, em Meiringen (há um funicular entre a cidade e esta cascata de 250 m). No conto "O Problema Final", Sherlock Holmes luta com seu arqui-inimigo Dr. Moriarty, nas encostas da cascata, resultando na queda de ambos no abismo. Conan Doyle, no entanto, acabaria "ressucitando" o seu personagem em um último livro, mas Meiringen acabou irremediavelmente associada como o palco final da rivalidade entre Holmes e Moriarty. O segundo atrativo é a Garganta do Rio Aare (Aareschlucht), um trecho de cerca de 1.6 km onde o Rio Aare percorre um estreito cânion. Uma passarela, cuja primeira versão é de 1889, permite caminhar por toda a extensão da garganta, em meio a um ambiente único. O Aareschlutcht é acessível a partir de Meiringen, por uma curta caminhada. Há estações de trem no início e no final da garganta. Voltando às bicicletas, o retorno pode ser feito pela orla sul do lago Brienzersee, até Interlaken e dali para Grindelwald (46 km). Outra opção é seguir adiante, subindo a ladeira até o Sustenpass (a 33 km), parte de um dos mais belos conjuntos de estradas dos Alpes, e dali para Göschenen e Andermatt (temas da nossa próxima matéria sobre os Alpes).
 
Encerrando 
 
Tentamos aqui passar uma visão geral das possibilidades de atividades outdoor em Grindelwald e região. Para os interessados, não será difícil encontrar informações mais precisas e aprofundadas. Como nem tudo é perfeito, vale ressaltar que o verão corresponde à estação chuvosa em Grindelwald. Em junho e julho, a média são 14 dias de chuva por mês. Estando por lá em um dia de sol radiante, aproveite bem, pois podem ser raros em certas semanas. Agosto, setembro e outubro são meses um pouco mais secos e ainda há pouca neve. Como Grindelwald está colada nas paredes verticais dos Alpes Bernenses, fica particularmente exposta ao Föhnwind, um vento típico de montanha, quente e seco, que desce com fúria pelas encostas sob certas condições. Por sua intensidade, pode atrapalhar um dia de caminhadas ou pedaladas. Para aqueles que pretendem viajar a pé, é oportuno pesquisar o custo-benefício do Swiss Pass, um cartão de transporte que permite utilizar sem limitações a maioria dos trens e teleféricos da Suiça. Para os que sonham em escalar alguma coisa por lá, mas estão inseguros com suas habilidades alpinas, vale considerar a possibilidade de contratar guias locais. É um serviço caro, mas por outro lado, evita a compra e o transporte de equipamentos técnicos desde o Brasil. Os guias fornecem tudo, além de agilizar a investida, pelo conhecimento prévio das trilhas e rotas. Mas não espere qualquer facilidade adicional, como cordas fixas e carregadores, não há sherpas por lá. É preciso estar em boa forma física e mental para chegar ao topo de algum gigante alpino, mesmo em parceria com um guia. Fundamental ainda é escolher um objetivo compatível com a sua capacidade e experiência em montanha.
 
É isso, espero que tenham gostado deste breve relato sobre Grindelwald e das informações que reunimos sobre a região. Para os que amam as montanhas, Grindelwald oferece paisagens majestosas e vale a visita !
 
           
Fotos: E.Prestes / A.Virmond / Sites de divulgação turística da Suiça / Summit Post / Wikipedia
 
 
 

Publicidade:


Publicidade

Publicidade