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Os Alpes parte 2 - Andermatt, Suiça

A segunda parada de nossa peregrinação nos Alpes é Andermatt, uma pequena cidade de 1.400 habitantes, localizada a 75 km ao sul de Lucerna e a 90 km a leste de Interlaken. Os prédios em estilo tipicamente alpino e as ruas limpas fazem de Andermatt um local bastante agradável. Todavia, situada em um vale plano (altitude de 1.450 m), cercado de montanhas mais baixas, o centro de Andermatt não oferece atrativos realmente importantes. No inverno, as encostas próximas do Nätschen e do Gemsstock (com acesso por teleférico) são frequentadas por esquiadores, que buscam preços mais acessíveis nesta região, se comparados aos de outros centros mais concorridos (como Zermatt ou Saint Moritz).

Fonte: Texto: Eduardo Pretes

O grande destaque em Andermatt são as estradas que cortam a região, entre as mais bonitas dos Alpes e provavelemente do mundo. Andermatt é uma espécie de entrocamento de rodovias e ferrovias, na principal rota de ligação entre o norte da Europa e a Itália, desde Lucerna, percorrendo o vale do Reuss, Passo de São Gotardo, Lugano até chegar, mais adiante, a Milão. Esta passagem nos Alpes vem sendo usada desde o Império Romano, dando origem a inúmeras obras de engenharia e de apoio ao longo dos séculos. O último acréscimo importante foi o Túnel Rodoviário de São Gotardo, com mais de 16 km, iniciado em 1969 e concluído em 1980. Este túnel passa por baixo de Andermatt e permitiu a manutenção do tráfego em todos os meses do ano. Desde 2002, está em construção um duplo túnel ferroviário sob o Passo de São Gotardo, com 57 km de extensão (será o mais longo no mundo), a ser inaugurado em 2017. Estes túneis são necessários não só para encurtar distâncias, mas também porque as estradas de altitude estão abertas apenas no verão, da segunda quinzena de junho até a primeira quinzena de outubro, conforme a quantidade de neve. Nos demais meses, elas são fechadas ao tráfego, sendo somente possível cruzar os Alpes pelos túneis.
 
Os circuitos
 
Para explorar as estradas de Andermatt, concentramos nossa atenção num circuito principal, que percorre 3 belas passagens entre as montanhas. O percurso sai de Andermatt para Göschenen (6 km), daí pelo Sustenpass até Innertkirchen (50 km), seguindo pelo Grimselpass até Gletsch (32 km) e dali retornando pelo Furkapass até Andermatt (31 km). No total, são cerca de 120 km de estradas deslumbrantes. Este percurso pode ser feito de carro ou de moto, num único dia inclusive (ensolarado, logicamente). Mas para vivenciar ao máximo as possibilidades, o melhor seria percorrer os caminhos em bicicletas, com uma boa reserva de tempo (uma semana ou mais). Para quem gosta de caminhadas, um bom início é seguir de Andermatt até Göschenen, e dali para a área em torno do Göschenenalpsee. Também a partir das estradas existem numerosas trilhas, levando a diferentes montanhas e lagos alpinos.   
 
Um segundo circuito de estradas, mais ao sul, inicia em Andermatt, seguindo pelo Passo de São Gotardo até Airolo, já na Suiça italiana (27 km). Dali, o percurso segue à direita, ao longo do Vale Bedretto, subindo até o Nufenenpass e descendo para Ulrichen (39 km). Dali, pode ser feito o retorno para Gletsch (12 km) e dali pelo Furkapass até Andermatt (31 km). Este segundo percurso teria um total de uns 110 km. 
 
Uma terceira possibilidade é sair de Andermatt para leste, em direção ao Oberalppass, até alcançar o Oberalpsee (10 km). Dali, pode-se retornar para a cidade ou seguir adiante, em um outro circuito. De Andermatt até Mustér, pelo Oberalppass, são 32 km. Dali, o circuito vira ao sul, pelo Passo de Lucomagno até Biasca (62 km), retornando para Airolo (37 km) e dali, pelo Passo de São Gotardo, até Andermatt (mais 27 km). No total, seriam uns 160 km de estradas neste circuito, muito procurado por motociclistas.
 
Nesta matéria, no entanto, o foco será mesmo o primeiro circuito, que oferece inesquecíveis paisagens e atividades, em meio ao conjunto de montanhas do Uri Alps (ou Urnen Alps).
 
A Ponte do Diabo
 
Saindo de Andermatt, para o norte, a primeira parada obrigatória é a Ponte do Diabo (Teufelsbrücke ou Devil's Bridge), sobre a Garganta Schöllenen, a cerca de 3 km do centro. O local é espantoso, serão certamente algumas das melhores fotos de sua vida. Além da ponte original (somente para pedestres), existem mais 2 pontes, para trens e veículos. Ao fundo da garganta, o rio Reuss corre rápido, formando quedas, num espaço confinado por imensas paredes de granito. Depois de explorar diferentes ângulos deste ambiente único, é possível subir a encosta por uma estreita estrada, no outro lado do túnel, em direção a Rossmettlen. Dali, é possível ter visões panorâmicas de Andermatt e das montanhas em volta. É uma boa opção para caminhar ou pedalar.
 
Para os escaladores, a estada na Devil's Bridge deve ser mais longa. Há interessantes vias esportivas e tradicionais no entorno da ponte, ou mesmo iniciando na própria estrada. Algumas vias são inteiramente protegidas por chapeletas. Atrás da ponte ferroviária, na Teufelswand, também existem linhas a descobrir, entre 3 e 5 cordadas, num granito de excelente qualidade. Para descer deste setor (ou subir), há uma trilha, saindo do estacionamento na estrada e passando por um túnel escavado na rocha, mais ao alto. Mesmo sem corda, é possível entrar na festa. Ao lado do memorial russo, está o início da via ferrata Diavolo, com 450 m, que sobe o granito da garganta até perto do topo do Tüfelstalboden, de onde se tem belas vistas do Vale do Reuss e do Uri Alps. A Diavolo é um clássico da região, equipada com cabos, degraus e escadas, mas com trechos de boa exposição vertical. A descida é feita por trilha sinalizada.     
 
Vale do Rio Reuss
 
Da Ponte do Diabo até Göschenen são mais 3 ou 4 km, por trilha ou estrada. O Rio Reuss, no entanto, segue descendo por um estreito vale, preso entre encostas e paredes rochosas, até o Lago Urner (32 km desde Göschenen). Acompanhando o curso do rio, há um linha férrea, uma auto-estrada e uma estrada local. Além destas opções, é possível percorrer o trajeto em uma trilha exclusiva para pedestres e ciclistas, junto da água. É um percurso muito interessante. Além de aproveitar obras antigas (como pontes e muros de arrimo), foram feitos novos investimentos, com estruturas modernas de aço em mirantes e pontes tensionadas. A trilha permite conhecer recantos do Rio Reuss, escondidos das estradas, com piscinas e cascatas. A trilha segue um trajeto independente, sendo uma opção para mountain bikes. O passeio pode prosseguir pela orla dos lagos, em via exclusiva, até a bela cidade de Lucerna. Seriam mais 42 km (orla sul) ou 54 km (orla norte). A volta para Andermatt ou Göschenen pode ser feita em trem.     
 
Muita rocha em Göschenen
 
Göschenen é uma pequena vila, com menos de 500 habitantes, no Vale do Rio Reuss. Além dos atrativos próximos, Göschenen pode ser considerada a porta de entrada para o Uri Alps (ou Alpes Urienses), um conjunto de montanhas com cerca de 82 cumes, em 8 diferentes áreas. O ponto culminante do Uri Alps é o Dammastock, com 3629 m. Pela menor altitude, as montanhas nesta área são mais secas, com neve e gelo apenas nos cumes mais altos. Para quem gosta de escalada em rocha, os Alpes Urienses têm muito a oferecer, tanto pela variedade de vias e cumes rochosos como também  pela excelente qualidade da rocha. O granito desta região é tido como um dos melhores da Suiça para escalada e o local tem longa tradição no montanhismo europeu.       
 
Nesta matéria, vamos apresentar apenas alguns dos destinos clássicos dentro dos Alpes Urienses. As possibilidades no local, logicamente, são bem mais numerosas. A investida inicia com a subida de Göschenen até o lago Göschenenalp, numa distância de 9 km (há micro-ônibus também). Dali, uma caminhada de cerca de 2h para o norte leva ao Bergsee Hütte (2370 m), base ideal para a escalada do Schijenstock (3161 m), do Bergseeschijen (2815 m) e do Hochschijen (2634 m). Estas montanhas oferecem um amplo cardápio de vias, de fáceis a extremas, tradicionais ou esportivas, sempre em rocha de excelente qualidade. No Schijenstock, um aquecimento seria a via normal, na aresta sudeste, uma escalada fácil que leva ao cume da montanha. A via clássica, no entanto, seria a aresta sul, uma escalada longa e moderada, atravessando 9 torres até o topo do conjunto, com duração 6 horas ou mais. No Bergseeschijen, há uma série de vias entre 250 e 300 metros, nas faces sul e leste. A face oeste é negativa e possui vias de alta dificuldade. A descida Bergseeschijen é feita por uma via ferrata, com escada e cabos, com trechos de escalaminhada. Mesmo baixo, o Hochschijen abriga um dos clássicos da região, a escalada da aresta sul, com 370 metros de escalada tradicional moderada, numa rocha descrita como "fantástica". Logo ao lado, a torre conhecida como Westgratturm possui mais de 10 vias esportivas de média a alta dificuldade, multi-cordadas, todas com proteções fixas.
 
Para quem está sem corda, uma excelente opção é a via ferrata Bergsee (Krokodil), com extensão de cerca de 400 metros, percorrendo 3 cumes menores, com uma ponte em cabos de aço. A duração esperada é entre 1h30m e 2h30m e o início está situado perto do Bergseehütte.
 
Outra montanha muito procurada nesta região é o Salbitschijen (2981 m), um conjunto imponente, com várias agulhas de granito, formando um mesmo maciço. A crista leste é a rota mais acessível, mas a via clássica seria a crista sul, uma linha técnica que atravessa uma série de agulhas de granito, até o cume. O tempo esperado de escalada seria de 5 a 8 horas. Há várias outras vias no Salbitschijen, algumas de grande dificuldade. A crista oeste, por exemplo, é uma escalada exposta, com 35 cordadas, passando por 5 cumes diferentes, sem uma única chapeleta.
 
Outro atrativo espetacular nesta área são as trilhas, especialmente o percurso entre o Salbit Hütte e o Voralp Hütte. O percurso é bem sinalizado e, apesar de bastante aéreo, não exige equipamentos. Todavia, não é uma caminhada no parque, é preciso estar ambientado com altura. A trilha pode ser iniciada em uma curva da estrada, num local chamado Voralpkurve. Dali, o caminho sobe um vale até outra encruzilhada, chamada Horefelli,  e dali sobe ao Salbitbiwak, uma pequena cabana encravada na encosta do Salbitschijer. Para quem vem do Bergsee Hütte, o caminho contorna o vale, percorrendo o alto da encosta até o Voralphütte antes de seguir ao Salbitbiwak. Nestas imediações, a trilha é exposta, com algumas escadas chumbadas na rocha e travessias asseguradas por cabos de aço. O ponto alto da trilha é a Salbitbrücke, uma belíssima ponte "nepalesa", transpondo uma garganta, em uma altura absurda. Dali o caminho segue ao Salbithütte e em seguida desce para Regliberg, uma encruzilhada com um simpático restaurante. Deste ponto, é possível descer para a estrada ou seguir por trilha até Göschenen. Este percurso pode ser feito em um único dia, com início e fim em Göschenen, mas serão cerca de 10 horas de atividade. O melhor é programar um pernoite em algum dos abrigos.
 
Ainda falando em montanhas, para quem não abre mão de subir (ou sonhar) com o cume mais alto da região, o Dammastock é uma escalada alpina, e portanto mista (em gelo e rocha). A vertente leste, mais vertical e técnica, é alcançada a partir do Dammahütte, a oeste do Lago Göschenenalp. A vertente oeste, mais "deitada", é alcançada a partir do Furkapass.
 
Sustenpass
 
O Sustenpass faz a ligação entre o Vale do Rio Reuss e a cidade de Innertkirchen, num percurso de cerca de 46 km. A partir de Göschenen, a estrada asfaltada sai de uma altitude de 916 m, alcança um ponto a 2224 m (ou seja, uns 1300 metros de desnível), descendo em seguida pelo belíssimo Vale Gadmen até Innertkirchen, a 625 m. A estrada serpenteia pela encosta, com túneis, cascatas e curvas de 180º, num percurso de vistas espetaculares. Logo após o "passo", num local chamado Steingletscher, há um hotel e estacionamento. Dali, uma caminhada de 3 a 4 horas leva ao abrigo Tierbergli. É possível usar também a via ferrata Tiebergli, um divertido aquecimento para outros objetivos mais exigentes. Dali, em mais 3 ou 4 horas, chega-se ao cume gelado do Sustenhorn (3503 m), um bom destino para quem busca uma rota alpina fácil.
 
Mais abaixo do Sustenpass, há a vila de Gadmen (meros 228 habitantes), em meio a três atrativos bem interessantes. Para o sul, há o lago Trift. É possível subir em teleférico ou por uma trilha com belos mirantes, acompanhando uma garganta com cascatas sucessivas, numa caminhada de 1h30m. Suspensa sobre o lago, há uma longa e ousada ponte tensionada para pedestres, a Triftbrücke, com vistas para montanhas e glaciares. Em vez de voltar pelo mesmo caminho, seria mais proveitoso seguir para o abrigo Windegg e dali para Guttannen, já na estrada para o Grimselpass. O percurso todo levaria uma 9 horas. No caminho, há algumas escalaminhadas, auxiliadas com cabos e escadas verticais. De Guttannen, é possível seguir pela estrada até Innertkirchen (mais 8 km).
 
Já no vertente norte do Vale Gadmen, há uma estreita via (sem acesso a carros) que leva até o Engstlensee, um lago natural, cercado de montanhas, usado como reservatório de água. A partir dali, existe um sistema de cabos aéreos e teleféricos (e também trilhas), que levam à cidade de Engelberg e ao topo do Pequeno Titlis (Klein Titlis). Esta área é um desenvolvido centro de esqui, com uma ampla infra-estrutura turística. Do restaurante, é possível subir até o cume do Titlis (3238 m), uma caminhada de meia hora, com uma vista que compensa o esforço. Para quem escala muito e busca algo desafiador, na face leste do Titlis, os escaladores Stefan Glowacz e Markus Dorfleitner estabeleceram em 2004 uma das vias mais técnica dos Alpes, com 500 metros e 13 cordadas (crux de 10B brasileiro ou 8B francês).  A parede é linda, o problema é sair do chão !
 
Mas se um 10B ainda não está ao alcance, ainda assim é possível curtir uma boa escalada no Sustenpass, mesmo sem corda. A partir das vilas de Furen ou Gadmen, deve-se seguir para o Tälli Hütte, na base das imensas paredes do Tällistock. Este percurso pode ser feito a pé ou por teleférico (chamado de Tällibahn). Nas imediações do abrigo está a base da Tälli Klettersteig, uma via ferrata bastante vertical e exposta, inclusive com passagens negativas. A Tälli foi a primeira rota deste tipo estabelecida na Suiça, sendo portanto um clássico nacional ! A via percorre uns 600 metros e a descida (demorada) é feita por trilha, para o outro lado, em direção ao Engstlensse. O circuito completo a partir do abrigo deve levar umas 8 horas, sendo umas 2h30m na via. Além desta rota, existem outras vias de escalada nas paredes do Tällistock, boa parte delas nas imediações do Tälli Hütte. A maioria são escaladas em estilo tradicional e expostas. Um via recomendada, para encarar encordado, é a Inwyler-Bielmeier, uma escalada de 14 cordadas e 450 metros, estabelecida em 1960.  
 
Como é possível perceber, quem simplesmente passa de carro pelo Sustenpass acaba conhecendo muito pouco do que oferece a região. É saindo da estrada que a coisa começa realmente a ficar divertida.
 
Innertkirchen
 
A cidade de Innertkirchen é um dos "vértices" de nosso circuito, localizada na encruzilhada entre o Sustenpass (após a descida do Vale Gadmen) e a ladeira que leva ao Grimselpass. Innertkirchen possui pouco menos de 1000 habitantes, mas dispõe hotéis, restaurantes e outros serviços. A cidade está integrada à malha ferroviária, por isso é um dos acessos mais usados para a região. Innertkirchen está localizada a apenas 6 km de Meiringen, e as cidades dividem um atrativo importante. A garganta do Rio Aare (Aareschlucht) tem um extremo em Meiringen e outro em Innertkirchen, com estações de trem em ambos as pontas. Esta garganta é um ambiente único e vale percorrer seus 1,6 km, ao longo de uma bela passarela (40 min). 
 
De Meiringen, há um teleférico (em 4 estágios) até o Alpen Tower, um mirante / restaurante a 2224 m, com vistas espetaculares, inclusive do Titlis e do Vale Gadmen. Há outros percursos em cabos aéreos nesta mesma área, uma vez que estas encostas são muito procuradas por esquiadores no inverno.
 
Outro destino a partir de Innertkirchen seria para Gauli Hütte, na encosta do Hangendgletscherhorn (3292 m). A partir deste abrigo, há várias rotas em rochas ou alpinas para as montanhas da região, inclusive o próprio Hangend. Um pouco acima, o glaciar Gauli desce das encostas Wetterhorn. Este glaciar ficou famoso mundialmente por ter sido palco de um milagre da aviação, quando em 1946 um Douglas C-53C com 12 pessoas conseguiu "aterrisar" no gelo, sem que ninguém morresse. Hoje em dia, o avião está imerso no glaciar, mas um dia deve reaparecer mais abaixo.
 
Grimselpass
 
Nosso circuito segue de Innertkirchen (a 625 m de altitude) para Gletsch (a 1757 m), num percurso de 32 km através do Grimselpass, cruzando por 3 lagos e 4 vilarejos alpinos. Além da estrada asfaltada, uma via histórica (Via Sbrinz) também cruza o vale, calçada com pedras artesanais. Às vezes, o percurso coincide com a estrada, mas em outros trechos segue independente, distante do tráfego de veículos. É uma excelente opção para caminhar ou para percorrer em mountain bikes. A trilha inteira parte de Lucerna, transpondo os Alpes até Domodossola, na planície italiana. Na região dos Alpes Urienses, o percurso pode ser feito de Innertkirchen até a cidade de Obergesteln, cerca de 6 km além do Grimselpass.
 
Saindo de Innertkirchen, a primeira atração seria a vila de Guttannen, a 8 km, com edificações em madeira, espremida entre áreas inundáveis e outras sujeitas a avalanches. De Guttannen, é possível subir por trilha até o passo Furtwangsattel (2553 m) e dali descer para o abrigo Wendegg (1887 m), já perto da Trift Brücke, um trajeto de umas 6 horas. 
 
Seguindo o vale Grimsel, a próxima parada obrigatória é Handegg (ou Handeck), logo abaixo do Glemersee. Junto à estrada, além do Hotel Handeck e de um estacionamento, há uma bela cascata, sobre a qual existe uma ponte pênsil para pedestres. A visão conjunta dos túneis da estrada, do vale, da garganta, da cascata e da ponte compõe um recanto único. Atravessando a ponte, chega-se ao Gelmerbahn, um funicular muito, muito inclinado, que sobe dali até o Gelmersee, um lago represado. No alto, há uma trilha que faz toda a volta no lago, um percurso básico para os visitantes (2 h de caminhada). Também é possível subir ao abrigo Gelmer (Gelmerhütte), a 2412 m, localizado numa canaleta cercada por agulhas de granito. O abrigo é um centro de escalada tradicional, com inúmeras vias a poucos minutos de caminhada, com destaque para as esbeltas agulhas do Ofenhören (2943 m). As rotas variam entre 2 e 12 cordadas e todos os croquis estão disponíveis no abrigo (assim como no site). Também é possível investir em rotas alpinas, até o topo do Diechterhorn (3389 m) ou do Tieralplistock (3383 m), entre outros. Para descer, se a emoção do funicular foi forte demais, é possível descer por uma escada (ao lado dos trilhos) ou ainda por um outro caminho, que leva do lago até a estrada, mas num ponto um tanto acima de Handeck, às margens da represa do Räterichsbodensee. 
 
Este local chama-se Gärstenegg e é um paraíso de vias em aderência ! Se você curte esta técnica de escalada, aqui estão disponíveis cerca de 30 vias, subindo rampas de um granito perfeito e liso, com excelente grampeação. As vias variam entre 1 e 15 cordadas, as maiores com uns 400 metros de extensão, em 5 setores diferentes, começando a poucos metros da estrada. Num clima seco, é pura diversão.  
 
Subindo mais algumas curvas está o Lago Grimsel e um tradicional hotel sobre um promontório, o Grimsel Hospiz. O Grimselpass está em meio a um sistema de espetaculares represas, sendo as maiores a do Grimselsee e a do Obera see, logo acima. Do hotel, inicia uma trilha, ao longo da margem do Grimselsee, em direção do Glaciar Lauteraar, de onde se tem acesso às difíceis faces leste do Finsteraarhorn (4274 m) e do Scheckhorn (4078 m). Mas a melhor vista dos lagos e das represas é obtida a partir do teleférico Sidelhorn, que inicia junto ao Grimsel Hospiz, passando sobre o Grimselsee até próximo do cume do Sidelhorn (2764 m). Dali, é possível caminhar na crista da montanha, com vistas para os lagos, para o Furkapass e o Nufenenpass, além do Alpes Urienses e Bernenses. É promessa de belas fotos. A trilha mais usada vai para o pequeno Lago Trübten, e o retorno para a estrada pode ser feito pelo teleférico ou por trilha. 
 
O último lago na subida até o Grimselpass é o pequeno Totesee, que marca o ponto mais alto deste trecho, a 2165 m. Na curva em frente ao lago, inicia um estrada secundária que leva até a represa do Oberaarsee, que vale uma visita. Após o Totesee, superando o Grimselpass, a estrada desce em curvas de 180º, até Gletsch (1757 m), um aglomerado de construções vinculadas a uma estação ferroviária. Décadas atrás, neste ponto estava o final do Rhonegletscher, um volumoso glaciar que desce do Dammastock. Nas últimas décadas, o glaciar recuou muito e perdeu grande parte de sua antiga imponência. Gletsch está junto do entrocamento com o Furkapass, para onde seguirá nosso trajeto. 
 
Furkapass
 
Saindo de Gletsch, em direção a Andermatt, a primeira parada seria o Hotel Belvedere, encravado em uma das curvas da estrada. O Hotel está próximo ao atual limite do glaciar Rhône, funcionando como sua porta de acesso. Para os leigos, é possível caminhar sobre o glaciar ou visitar os inevitáveis túneis escavados a cada verão. Para os montanhistas acostumados com gelo, o glaciar Rhône permite o acesso às encostas do Galënstock (3583 m) e do Dammastock (3630 m), ponto culminante dos Alpes Urienses. São escaladas acessíveis, feitas em um dia longo, se as condições estiverem boas. 
 
Para os aficcionados em escalada em rocha, a parada deve ser feita um pouco mais acima, no estacionamento junto ao Furkapass (2429 m). O Klein Furkahorn oferece a visão de um cume alpino cobrando pouco esforço, cerca de 2 horas de escalaminhada a partir da estrada, sem necessidade de corda. Já o Gross Furkahorn, logo ao lado, é uma pirâmide de granito com excelentes opções de rotas. A partir do Hotel Belvedere, são 3 horas de escalaminhada até a base do pináculo do cume, que possui cerca de 30 metros, uma escalada fácil, mas vertical. Somente bons escaladores vão querer solar este trecho. Pelo outro lado, a partir do estacionamento no Furkapass, é possível acessar rapidamente a crista sudeste do Gross Furkahorn, uma espetacular escalada moderada, aérea e num granito de qualidade. São cerca de 4 horas até o cume por esta via, estabelecida em 1908. Existem ainda mais de 50 vias esportivas e tradicionais espalhadas pelo Gross Furkahorn. Para quem gosta de escalada tradicional e pretende ficar uns dias na região do Furkapass, o Gross Bielenhorn oferece um cardápio de vias mais técnicas, com até 15 cordadas. É possível ficar no Sidelenhütte, a cerca de 1h de caminhada a partir do Furkapass. Nas imediações, há outras opções interessantes, como a Agulha Hannibal, que possui 4 vias técnicas e bem protegidas por chapeletas, com até 6 cordadas e que levam a um inacreditável banco de praça no cume ! Para completar o conjunto, uma placa de parada de ônibus ! O que esses caras andam fumando ?
 
Seguindo a leste, além do Furkapass, está o hotel e restaurante Tiefenbach (2106 m). A partir dali, é possível caminhar até o abrigo Albert Heim, encravado em meio a uma outra bela área de escalada. Os destaques seriam o Gletschhorn, a Graue Wand (vias verticais de até 400 m), o Lochberg e o Winterstock. Do abrigo, há uma trilha histórica e panorâmica que percorre o alto da encosta, conduzindo até a Garganta do Diabo, com desvios (descendo a encosta) para Realp, Hospental ou Andermatt. O trajeto total seria de uns 10 ou 12 km. 
 
Já a estrada, após o Hotel Tiefenbach, desce em curvas fechadas para Realp e cruza o vale até Andermatt, nosso ponto de partida. Ao longo do vale existe também uma linha de trem, que acompanha parcialmente a estrada, com túneis e pontes. Por esta linha passa o famoso Glaciar Express, que liga Saint Moritz (no leste dos alpes suiços) a Zermatt, passando por 91 túneis e 291 pontes, durante 7 horas de viagem. Entre Realp e Oberwald, durante o verão, existe ainda uma linha diária de trem a vapor, com propósitos turísticos. Como todas as demais passagens, fora do verão o Furkapass está fechado, sendo possível viajar de um lado a outro apenas pelo Furkatunnel, um túnel ferroviário com cerca de 16 km, sob as montanhas.
 
São Gotardo e Nufenenpass
 
Para quem está de carro ou moto, dá para dizer que seria obrigatório esticar o passeio ao Passo de São Gotardo (2108 m) e em seguida ao Nufenenpass (2478 m). O percurso é realmente espetacular. Interessante notar que esta região faz parte da Suiça italiana, o que já fica claro no nome das vilas e montanhas. O Nufenenpass, por exempo, também é conhecido também como Passo Della Novena. Para quem está em bicicletas ou pretende explorar algumas trilhas e montanhas, existem também alguns trajetos mais rústicos, saindo do asfalto. 
 
A partir de Andermatt, pouco antes do Passo de São Gotardo, há uma bifurcação para o Lago di Lucendro, onde há uma trilha circular interessante para caminhar ou pedalar. Junto ao Passo de São Gotardo, existe uma estrada que leva à represa do Lago della Sella, passando por Grasso di Fondo, Pontino, Orello, Val Canaria, Pautàn e daí para Airolo, já na estrada principal. É um ótimo percurso para bicicletas e para quem já conhece a estrada principal no Passo de São Gotardo. 
 
Após a descida do Passo, virando a oeste, está o Val Bedretto, que pode ser percorrido de 3 formas. No fundo do vale, está a estrada asfaltada que leva ao Nufenenpass e Ulrichen, passando pelas pitorescas vilas de Bedretto e All'Acqua. Mas existem percursos secundários, sem pavimentação, no alto das encostas sul e norte. São excelentes opções para um trajeto panorâmico sobre o vale, a pé ou em bicicletas (neste caso, até um certo ponto). Na vertente norte, existe um trajeto que inicia antes da descida para o vale, seguindo ao longo da encosta até Ciuréi di Mezzo, já próximo ao Nufenenpass (uns 18 km no total). Nesta área, a melhor opção para um pernoite entre as montanhas é a Capanna Pianseco, próximo da vila de All'Acqua (no vale). Há interessantes escaladas em volta deste abrigo, especialmente o Pizzo Rotondo (ponto culminante neste conjunto, com 3192 m) e o sólido granito do Poncione de Cassina Baggio (um maciço com vários cumes e agulhas).
 
Na vertente sul do Vale Bedretto, uma área interessante seria em torno do abrigo Corno Gries, com vários cumes e agulhas próximos. Além de montanhismo, a região oferece belas trilhas. De Corno Gries para a Capanna Cristallina, passando pela impressionante represa do Lago Cavagnöö, são 8 horas de caminhada. Uma trajeto mais leve seria do abrigo Corno Gries até o Griessee, outra lago de represa, junto da face vertical do Fülhorn (2864 m), visível do Nufenenpass. Para ir e voltar, seriam umas 4 horas.  
 
Encerrando
 
Como foi possível perceber, uma área relativamente pequena reúne um amplo cardápio de atividades. Somente esta matéria sugere 4 vias ferratas, 8 áreas de escalada, 7 teleféricos ou funiculares, cerca de 10 trilhas (com 2 pontes supensas), 10 lagos, além dos atrativos das estradas e das vilas. Uma visita a esta região em torno de Andermatt pode durar de um dia a dois meses, sempre com novas descobertas. 
 
Para quem pretende pedalar, o melhor mês seria setembro, quando ainda estão abertas as estradas e as férias dos suiços acabaram. Nesta época, portanto, o trânsito diminui. O Governo Suiço, numa excelente iniciativa, organizou um sistema de aluguel de bicicletas a partir das estações de trem, como as de Göschenen ou Innertkirchen, facilitando a retirada e a devolução dos equipamentos. 
 
Para quem gostaria de conhecer mais a fundo as montanhas, mas não está disposto carregar 50 quilos de equipamentos nas costas, as vias ferratas e trilhas de montanha são as alternativas ideais. Basta levar na mochila uma cadeirinha, 2 auto-seguros expansíveis, 1 auto-seguro estático e capacete (ou seja, nada que pese muito na bagagem). Apenas vale ressaltar a necessidade de um conhecimento prévio das técnicas para via ferrata, lembrando que algumas delas são bastante expostas e verticais.
 
Já os que planejam investir em escaladas técnicas, é prudente providenciar um seguro para despesas hospitaleres e um eventual resgate. Sem o seguro, você receberá o mesmo atendimento, o problema é a conta que será apresentada depois. É melhor nem imaginar o custo de um resgate por helicóptero na Suiça. O camping selvagem é, via de regra, proibido. Mas escolhendo um local discreto, e desmontando a barraca cedo pela manhã, dificilmente surgirão problemas. Somente será preciso observar cuidados especiais nos ambientes alpinos. Como quase não há decomposição, em uma permanência maior junto às montanhas, seria importante carregar um "shit tube". Lavar panelas nas águas límpidas oriundas dos glaciares também pega muito mal, o correto é lavar a seco, longe dos cursos de água. Com a ampla rede de abrigos de montanha, as escaladas nos Alpes costumam durar 1 ou 2 dias apenas, o que minimiza o impacto da presença humana em áreas selvagens. Para evitar qualquer aborrecimento, o objetivo deve ser não deixar nada para trás. Para escalar na Suiça, não é necessária qualquer permissão específica, mas sempre é bom atualizar este tipo de informação. 
 
A partir dos dados aqui reunidos, os interessados não terão dificuldade em pesquisar mais a fundo a região, obtendo mapas e outras imagens. O importante é saber de antemão que as belas estradas de Andermatt não esgotam as possibilidades dos Alpes Urienses e que muito há para descobrir em uma exploração mais demorada deste setor da Cordilheira. 
 
Fotos: E.Prestes / A.Virmond, exceto quando indicada outra fonte.
 
 
 

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