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Na Serra da Estrela

Novo setor de escalada tradicional em Portugal

Foi inaugurado um novo setor de escalada tradicional na Serra da Estrela em Portugal. São 15 novas vias de escalada privilegiando o mais puro estilo limpo, evitando ao máximo proteções fixas. Confira o relato de Sergio Duarte sobre como foram as conquistas.

Fonte: Chinelo de meter o dedo

Muitas foram as deslocações à Serra da Estrela na tentativa de abrir mais uma via no Sector “Lagoa Cumprida” e muitas foram as banhadas. Não sendo os Alpes, a nossa pequena mais alta montanha de Portugal pode ser ao mesmo tempo muito surpreendente, tão surpreendente como as fissuras que tinha avistado no meio de tanta chuva e ventos gélidos.
 
“O Pastor” é um pequeno sector de escalada clássica, ou de auto protecção, que conta com dezena e meia de vias que surgem das fragilidades da rocha, fissuras, diedros, offwidth, desenterrados do que restava do grande incêndio. A minha ideia sempre foi abrir de baixo para cima, escalar em livre ou artificial, sem recorrer a pontos fixos, excepto o top, e, só no final, limpar a via rapelando. Embora a falésia tenha apenas altura para um largo, a experiência neste processo foi muito enriquecedora dando lugar a algumas surpresas!
 
Numa dessas visitas ao Sector “Lagoa Cumprida”, e depois de mais uma banhada, completamente encharcado, gelado e irritado, decidi apostar tudo naquelas fissuras perto da estrada, aproveitando a preciosa ajuda do Miguel Leite e do José Silva.
 
No início não foi fácil, a rocha molhada e os duros movimentos iniciais apenas protegidos por um pitão de rocha e um micro-friend não foram suficientes para aguentar a minha queda ao chão. Com ajuda dos estribos lá consegui ultrapassar estes movimentos e seguir pela evidente fissura até, precariamente, recorrer à máquina para finalmente meter o primeiro top. O Miguel, de segundo, limpou a fissura e rapidamente descemos para, mais à esquerda, eu iniciar o evidente e fácil diedro que foi aberto e escalado em livre e repetido pelo Zé. Assim nascia o Sector “O Pastor” com duas vias: a primeira inicialmente apelidada de “Só Cabras mais de 50″, mas que acabaria por ficar com o nome do sector, enquanto que a segunda “O Voo do Ninó” homenageava o pequeno pássaro que seria salvo por nós nesse dia!
 
Estas aberturas quase não tinham resultado em trabalho de limpeza, mas sabíamos que se quiséssemos continuar a abrir teríamos muito trabalho pela frente. Assim, eu, o Alcino e o Miguel reservamos 4 dias de férias para serem passados na Estrela, somente a trabalhar e sem nunca escalarmos. Ainda assim foram dias de montanha fantásticos na companhia do rebanho, da lua que iluminava os nossos banhos e, sim, essa grande figura: o Pastor, Tio Luís!
 
Íamos abrindo as vias à medida das nossas possibilidades e de seguida fazendo a árdua tarefa de limpar. À noite, reuníamos com os pastores e, além, de conhecermos um pouco mais desta nobre actividade, também encontrávamos a inspiração necessária para baptizarmos os nossos projectos.
 
Nestes quentes dias de Julho, mas na fresca sombra das paredes, vivíamos momentos únicos de escalada e, curiosamente, sem nunca calçarmos os pés de gato ou recorrermos ao magnésio.
 
Pelas mãos do Alcino e Miguel nascia a via ”Pé-de-Cabra”, com clara referência ao instrumento ao qual o Alcino recorreu para fazer uma limpeza eficaz.
 
Mesmo ali ao lado, eu testava a minha destreza em artificial ao abrir em solitário a “A Ovelha Negra” que, no final da via, um pedaço de rocha cedia e testava o meu aparelho de segurança num voo que me traria uma ruptura de um tendão da perna. Ainda assim, terminei a via, mas os restantes 3 dias foram de muito sofrimento.
 
 “Queso da Sierra“, via aberta pelo Alcino e pelo Miguel, era uma clara alusão ao queijo que é vendido por toda a Serra da Estrela mas que o leite provém do outro lado da fronteira, facto que não deixou de nos indignar e, principalmente, surpreender.
 
 “Choque de Rebanhos” era um desses raros e hilariantes momentos que todos os dias presenciávamos e que nos mantinha o ânimo em alta para a árdua tarefa de limpeza, que acabava sempre com um banho ao luar.
 
O “Lobo de Duas Patas”, esse ser que veio substituir o lobo ibérico, foi o mote para esta fantástica via que surgiu depois de vários dias de limpeza mas que, certamente, vai fazer as delícias de quem lhe puser as patas em cima!
 
Meses mais tarde as visitas para limpeza sucederam-se e o Emanuel também traria um pouco do seu colorido a esta parede com “A Ovelha Choné“, enquanto que o Fred acabaria por desenterrar literalmente o seu “Factor C“.
 
Numa deslocação em família à serra, eu e a Ana arranjamos finalmente condições para abrirmos a nossa primeira via juntos: “Tí Luís”, que é neste momento um dos projectos da parede, uma fissura que tem para oferecer muito mais do que entalamentos de mãos e dedos…
 
Inspirados com o trabalho feito, fomos espremendo as fissuras até às mais ínfimas possibilidades de escalada e protecção. O Alcino abre a via “Sonhos“, enquanto que eu sonho com o um futuro ao estilo da escalada Escocesa e crio a via “M3“.
 
15 vias depois, o trabalho parece estar a terminar e esperamos pela oportunidade de o podermos saborear e começarmos finalmente a escalar; mais de metade das vias continuam sem o FA, muito por causa da falta de tempo mas, também, por falta de performance.
 
Todos os anos “O Pastor” regressa trazendo mais vida à serra. Não estranhem que num belo dia de Verão encontrem em centenas de chocalhos a banda sonora ideal para escalar com tranquilidade!
 
Pelo meio, eu e o Alcino arranjamos ainda tempo para inaugurar um outro sector – “Curral” – com uma via completamente diferente: os seus quase 120m são por si só tamanho suficiente para a próxima história…
 
Fotos: Alcino Sousa, Ana Duarte, Emanuel Maio, Frederico Silva, José Silva, Miguel Leite, Nuno Teixeira, Paulo Ramos e Sérgio Duarte
 
Agradecemos ao Clube de Campismo do Porto, nomeadamente à Secção de Montanha, que nos facultou algum do material de clássica, assim como os tops para as vias!
 
Quase todas as vias foram abertas de baixo, sem recurso a plaquetes, recomendamos que a parede se mantenha livre dos expansivos.
 
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