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Opinião do leitor

Por que os brasileiros desistem mais na alta montanha ?

Indagado sobre a polêmica coluna intitulada “Porque o brasileiro desiste tanto?” publicada por Maximo Kausch em 08/05/2014, em que o mesmo afirmava que o brasileiro era o povo que mais desistia em escalada em alta montanha o curitibano Paulo Cézar de Azevedo Souza, o Máfia, escreve sua opinião e experiência sobre o tema. Máfia é um dos mais experientes montanhistas do Paraná e já escalou diversas montanhas de altitude. Leia o texto na íntegra abaixo:

Fonte: Máfia - Paulo Cézar de Azevedo Souza

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Outro dia li um artigo que dizia que os brasileiros são o povo que mais desiste nas escaladas de alta montanha (AM) ! O artigo não traz qualquer fonte, não sei qual foi a sua base de dados. Se os dados são reais ainda teríamos que fazer análises sobre números relativos e absolutos.
 
Em um primeiro momento eu acredito que um bom número de brasileiros (aqui não falo em montanhistas, já volto ao assunto) desistem com razoável frequência da escalada do Aconcágua e do Plata, a dupla mais frequentada por brasileiros. É tudo o que sei. Os dados de outras partes do mundo, ou especificamente, do restante da Cordilheira dos Andes nunca li nada de dados estatísticos, quanto mais ler alguma informação confiável.
 
Eu não me arriscaria em fazer um diagnóstico de uma situação hipotética. Seria virtual retratar um determinado perfil sobre uma base incerta. Eu retomo o número de brasileiros que desistem em escaladas na Argentina: realmente já vi muitos. Também vi centenas de montanhistas de outras nacionalidades desistirem das suas pretensões. Há uma diferença entre o montanhista brasileiro e o brasileiro que se aventura em uma escalada em (AM). Isto, por sí só, já justifica a minha observação no Aconcágua e Plata que são as (AM) mais próximas dos brasileiros. Já guiei diversos grupos e sem medo de errar 95% nem eram montanhistas. Considero montanhista aquela pessoa que já pratica o esporte, em qualquer uma de suas modalidades, por um determinado tempo. Eu já escalava rocha e fazia longas travessias há mais de 20 anos quando fui pela primeira vez para uma (AM). Já tive clientes que saíram de campos de futebol para uma escalada no Aconcágua. A determinação de alguns “jogadores”, em chegar ao cume, foi maior de que de muitos montanhistas praticantes que nunca marcaram “gol” em uma única (AM).
 
Na minha primeira escalada, estávamos porteando equipamentos para o acampamento dois quando encontramos um basco descendo. Paramos para conversar e ouvimos um relato dramático. Ele tinha congelado dedos e nariz, sentia dor, pensou em sua esposa e seus filhos, falou que tudo aquilo não valia a pena, quase morreu e que nunca mais voltaria para uma montanha de gelo. O nosso moral foi montanha abaixo junto com ele que a descia. Continuamos a subir para o porteio daquele dia com uma sensação de desconforto e de prenúncio de derrota. Passados mais três dias, já estávamos porteando do acampamento dois para o três quando encontramos um norte americano. Era um rapaz alto, forte e muito mais jovem que nós. Relatou que no dia anterior havia chegado ao cume em um dia azul, muito sol, sem vento e que havia ficado cerca de duas horas lá por cima. O nosso moral subiu junto com ele para o cume. Ao ouvir aquele relato tivemos certeza de que também chegaríamos ao cume. Nós éramos os mesmos otimistas que três dias antes estávamos pessimistas quanto ao nosso destino! Essa foi a minha primeira lição de alta montanha: a sua escalada não é igual a de ninguém! Aprendi a não me impressionar com o que acontecia com os outros, nem para mais, nem para menos. A minha escalada não seria igual a do basco e nem do norte americano, seria única. Acabei desistindo, havia muita neve e eu era inexperiente. Ao longo dos anos fui conseguindo fazer outros cumes e até hoje sou apaixonado por alta montanha.
 
É possível, em cada escalada, fazer a leitura da possibilidade de se chegar ao cume. Sorte ou não, todas as vezes que decidi seguir em frente, tive sucesso, as poucas vezes em que resolvi nem tentar ocorreram tormentas que impossibilitaram a subida de outros escaladores, independe de suas nacionalidades.
 
Outra definição que entendo como importante, aqui dou-me a liberdade de criar termos, é a de desistência. Desistência é o gênero de duas espécies: Desistência Técnica e Desistência Gratuita. A Desistência Técnica é aquela advinda de fatores alheios à vontade do escalador, normalmente ligadas ao clima e a natureza, mas também podem ser por questões de saúde (menos comuns). Em uma temporada, durante o período de aclimatação, eu decidi que não tentaria o cume. A quantidade de neve que havia na montanha impossibilitou a subida de todas as equipes que estavam lá. Ir até onde era possível, somente para provar algo que deveria ser facilmente sentido por qualquer montanhista mediano de (AM), não é razoável, fomos para outras montanhas. Em outra temporada no Aconcágua, ao chegarmos em Independência, havia dezenas de montanhistas aguardando que o vento acalmasse. Em mais uma hora, muitos montanhistas se juntaram vindos de Berlin e outros desistindo de enfrentar o vento de proa a caminho da Canaleta. Nos três dias que se seguiram o panorama foi o mesmo, acabou a nossa comida e o combustível, foi uma temporada ingrata. Praticamente para cada dia razoável havia mais três ruins, fomos embora. Quanto à Desistência Gratuita é aquela por razões inversas às motivações que levaram o montanhista até lá! Aí o elenco é grande. Problemas anteriores relacionados com: preparação física; péssima logística: equipamentos e roupas inadequados; alimentação ruim; empolgação maior que a realidade; etc. Problemas durante a Escalada: aclimatação mal feita; perder foco no objetivo; não ter paciência com clima; não ter capacidade de julgamento de quando e como atacar o cume; subestimar a montanha. Para estas falhas técnicas encontramos no “montanhês vulgar”: para mim deu, preguiça, cansaço, falta de T…., etc. Ou seja, a motivação em ir, não é a mesma de chegar ao cume! Aqui concordo que, para muitos, a foto nas redes sociais é mais importante que o cume.
 
Concluo, alta montanha é para muitos, mas não para todos. O cume é para alguns determinados. Gostaria que muito mais brasileiros praticassem escaladas e caminhadas em (AM), isto seria muito bom para o esporte. A primeira seleção é a natural - os que não se aclimatam. A segunda – é dos que não têm foco nos objetivos. Quanto às estatísticas, tenho o maior interesse em conhecê-las.
 
“ O único lugar onde sucesso vem antes do trabalho é no dicionário” (EINSTEIN)
 
Máfia - Curitiba
 

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