ENTREVISTA: Maximo Kausch pretende guiar montanhas virgens pelo Gente de Montanha - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
NOVO PROJETO

ENTREVISTA: Maximo Kausch pretende guiar montanhas virgens pelo Gente de Montanha

Fizemos uma entrevista com o renomado alpinista e guia de montanhas Maximo Kausch que acabou de anunciar o próximo projeto de sua empresa, o GentedeMontanha.com: Levar clientes para montanhas virgens com mais de 5000 metros de altitude! Sua empresa ganhou proporções enormes e é hoje um dos grandes nomes quando se fala em expedições comerciais no Brasil.

Fonte: Redação

AltaMontanha: Como anda seu projeto dos 6000? 
 
Maximo Kausch: Olá! O projeto já está quase no cume número 70! Os últimos foram na Bolívia onde consegui terminar todas as montanhas com mais de 6000m de lá. Agora quero terminar as 15 que faltam na Argentina e Chile juntos!
 
AM: E as guiadas? Você está vivendo disso? 
 
MK: Sim! Vivo disso no momento. Estou guiando aproximadamente 6 meses do ano com expedições principalmente nos Andes. O GentedeMontanha.com cresceu muito e hoje já somos líderes no Brasil em vários roteiros. Em julho por exemplo tivemos 34 clientes na Bolívia!!!
 
AM: Todos esses clientes já têm alguma experiência? 
 
MK: Então, a minha idéia é acompanhar as pessoas desde o começo. O mercado de esportes de aventura no Brasil está bem restrito e falando em nome do esporte, estamos “perdendo” praticantes para vários outros esportes. Acredito que isso é por mitificação e/ou divulgação ruim. Muitas pessoas querem fazer algo ao ar livre mas não sabem exatamente o que. Esses possíveis futuros alpinistas acabam tendenciando para coisas mais acessíveis como corrida de montanha, por exemplo. Acho que o leigo realmente se assusta quando tenta descobrir um pouco mais sobre montanhas geladas.
 
Os poucos que fazem isso no Brasil profissionalmente ou não divulgam nada ou fazem parecer que alpinismo é somente para semi-deuses, o que acaba prejudicando o esporte e temos cada vez menos praticantes. Lembro bem disso quando eu era criança e estava começando na montanha enquanto morava no Brasil. Os poucos que escalavam naquela época me passavam a impressão de que eu nunca ia conseguir pisar no cume de uma montanha gelada. Estou aqui para mudar isso! O alpinismo é para todos que se identificarem de alguma maneira com o esporte. Portanto respondendo à pergunta (rsrs.. Desculpe me empolguei) muitos dos meus clientes que começam com o GentedeMontanha.com (na Bolívia por exemplo) não tem experiência em altitude. Para mim é extremamente importante estar participando daquele primeiro contato com as pessoas e poder acrescentar algo nos valores que ele ou ela terá sobre montanhas pelo resto de sua vida!
 
AM: Você já tem outro projeto em mente? 
 
MK: Olha, projetos não faltam! Sempre estou sonhando sobre coisas que quero fazer e olhando para o horizonte em vez de olhar para trás... Enquanto estive fazendo o mapeamento dessas montanhas de 6000m, descobri outras centenas de montanhas de 5000m e agora já estou namorando várias!
 
AM: Como funciona a medição dessas montanhas? Como vocês descobrem elas? 
 
MK: É um tanto complexo definir o que é uma montanha hoje em dia, porém acho que finalmente já chegamos num consenso. Existem pelo menos 4 argumentos diferentes que são fortes para definir o que é uma montanha:
1) Histórico: Um dos mais fortes, o critério histórico que diz que uma montanha é chamada “montanha” quando ela tem alguma importância histórica. A idéia é boa no entanto deixa muitas brechas para discussões. A minha principal contradição é que uma montanha só é uma montanha quando ela já foi escalada e isso deixa muitas regiões inexploradas de fora, portanto não achei válido.
 
2) Distância: Para reforçar o argumento acima, apareceu uma linha que diz que uma montanha deveria ser chamada de independente quando é longe uma da outra. Porém aparecem muitas discussões na hora de quantificar essa distância. Novamente não deu certo.
 
3) Colo de 300m: Acho que o mais válido que apareceu até alguns anos foi o argumento da prominência topográfica que dizia que um cume passa a ser uma “montanha” quando o ganho de altitude desde o colo mais baixo entre este e outra montanha maior é superior a 300m. Isso foi muito bom para os alpes e serviu para separar muitas montanhas. No entanto em regiões mais altas como Andes ou Himalaia a proporção 300m para 6000 ou 8000m era muito pequena.
 
4) Dominância: A regra da dominância apareceu através de um pesquisador alemão e faz justiça a todo mundo. Esta usa uma formula matemática e tem 12 classificações diferentes para qualquer cume. A idéia é muito boa e usa critérios matemáticos somente. Adotei esse critério para as minhas pesquisas nos Andes assim não gera nenhuma briga.
 
As pesquisas são feitas sobre os dados da missão SRTM da Nasa. No entanto como a missão teve uma série de erros, acabei usando outras 2 fontes de dados topográficos. O trabalho de pesquisa nesses dados está levando 4 anos! Desde o ano passado comecei a receber ajuda de uma amiga de UK chamada Suzie Imber, ela é Phd em física e está acostumada a trabalhar analisando dados de missões não tripuladas para outros planetas. Ela desenvolveu uma lógica muito interessante para encontrar essas montanhas matematicamente usando somente os dados topográficos. A coisa está num outro patamar hoje em dia! Até o último mês de dezembro eu usava excel e google! 
 
AM: E dessas novas que você descobriu existem muitas desconhecidas? 
 
MK: Acho que a parte mais legal de toda essa pesquisa foi descobrir exatamente isso. Muitas montanhas que não se dava atenção antes são na verdade montanhas independentes! No momento estou trabalhando com pelo menos 28 mil montanhas com mais de 5000 metros. Destas estamos separando aproximadamente 1120 montanhas com mais de 5000m que são montanhas independentes e outras 104 que são de 6000m. O mais legal veio quando descobrimos que destas 1120 montanhas independentes pelo menos 120 não tem nome. Ainda preciso confirmar isso, mas esses são os últimos dados da pesquisa. Como dependo de fontes humanas para conseguir os dados sobre os nomes das montanhas, a coisa demora. Mas já tenho o apoio de 4 institutos geográficos de 4 países diferentes.
 
AM: Como vocês fazem para dar nome à essas montanhas? Qual é a ética? 
 
MK: Muita gente coloca o nome de um amigo ou de um familiar…. ou mesmo da namorada para agradar ela pois ela já está brava pelo namorado passar tanto tempo na montanha.. rsrsrs.. No entanto acho que muitas vezes os locais já têm nomes para essas montanhas. Acho que a primeira coisa que temos que fazer para nomear uma montanha desconhecida é falar com os locais. Se não há locais, acho que deveríamos usar nomes já existentes de acidentes geográficos que já existem no local. Se nenhum desses dois é existente, aí sim poderíamos começar a pensar em algum nome externo.
 
AM: Como você sabe se essas montanhas já foram escaladas? Existe algum registro? 
 
MK: Essa parte é complicada! Teoricamente existe algo chamado “Clube de Montanha” e teoricamente esses sabem os nomes das montanhas locais e poderiam ajudar muito no projeto. Porém isso é bem diferente da prática. Estou concluindo cada vez mais que esses clubes só servem para juntar um bando de amigos que tem a montanha como interesse comum. É raro alguém ajudar passando quais foram os feitos locais. O único jeito é fazer pesquisas que são bem extensas às vezes, para saber quais foram as escaladas novas, onde são e quando. Aí sim posso chegar às conclusões. Acho que sempre há uma margem de erro antes de afirmar algo assim, mas acho que hoje posso dizer que de fato há pelo menos 100 montanhas com mais de 5000m que não foram escaladas. Quando eu digo “não foram escaladas”, quero dizer em tempos modernos, pois há indícios de centenas de incas que escalaram montanhas andinas há mais de 500 anos. Minha idéia é estabelecer uma lista e partir para a porrada com essas de 5000m.
 
AM: Você pretende escalar elas sozinho ou dessa vez será diferente? 
 
MK: Escalei boa parte dos 6000 completamente sozinho, porém com os 5000 virgens quero fazer diferente e quero dividir isso com mais gente. Acho que nada mais justo que começar a levar outras pessoas para que possam ter a sensação de escalar um cume pela primeira vez. 
 
AM: Então você quer dizer que quer comercializar montanhas virgens nos Andes? É isso? 
 
MK: Exatamente! E porque não? Existe uma certa resistência com isso hoje em dia. Alguém tem que fazê-lo! Rsrs…
 
AM: E como fica a questão das próximas gerações, eles perderão o direito de fazer coisas virgens também? 
 
MK: Jamais. Existem literalmente milhares de pico à serem feitos pela primeira vez. Eu estou apenas usando um critério que acho que hoje seja justo mas vai lá saber o que vai se considerar como critério seletivo no futuro! Fora isso o alpinismo começou em 1789 na Europa ou talvez lá pelo ano de 1400 nos Andes peruanos. Já passamos dezenas de gerações e já escalamos a grande maioria dos grandes picos virgens que haviam na Terra. As pessoas hoje romantizam: porque por exemplo é ok que um inca escale uma montanha no ano de 1500 e é incorreto que eu escale a mesma montanha em 2014? Porque é tão incorreto que a sociedade moderna vá para lugares inexplorados?
 
AM: Como você vai lidar com a questão ambiental já que você estará lidando em regiões intocadas? 
 
MK: Trabalho com expedições há muitos anos e vamos para lugares bem inexplorados. Com questões de lixo, acho que é importantíssimo que baixemos tudo e deixemos a montanha do jeito que a encontramos. Digo isso como alpinista e frequentador dessas regiões pois não gostaria de chegar na montanha e encontrar lixo. Porém se começar pensar na ética da coisa, qual é o real impacto de um saco de lixo deixado num glaciar remoto comparado com um lixo à céu aberto na base da mesma montanha? Reconheço que há prioridades em questões ambientais e estas não são as montanhas. Vejo gente se organizando em mutirões de limpeza, etc, mas eles vão de carro para limpar essas regiões, passam por 3 lixões, dezenas de animais mortos na beira da estrada, estradas abertas em vegetação primária… tudo isso é ignorado e é feito somente para suprir aquela necessidade de “fiz minha parte”. Em muitos casos nos Andes existem empresas mineradoras removendo literalmente 1/4 da montanha. Porém isso também é ignorado e o foco é dado naquele saquinho de lixo encontrado na trilha. Portanto, devemos descer todo o lixo da montanha? sim, porém não é a prioridade! Como tudo, hoje em dia as pessoas romantizam muito essa questão ambiental e mitificam muito dizendo que a natureza deve continuar intocada. Porém, isso acaba afastando praticante. O afastamento faz com que menos pessoas tenham amor pela montanha e na hora de criar leis e tomar atitudes para proteger esses lugares, eles não vão dar a mínima porque nunca foram. Portanto, mais gente visita a montanha, mais gente vai querer proteger ela. Não tem como não ficar comovido vendo um pôr do sol desde 5000m pela primeira vez. É óbvio que essa pessoa vai criar um certo afeto por montanhas e vai querer proteger elas dali em diante… Isso não acontece quando a montanha é proibida por exemplo… Acho que muita gente vai ler o título desta matéria e já ir lá para baixo fazer algum tipo de crítica baseado nesses dogmas que a sociedade moderna tem sobre que a natureza deve continuar intocada!
 
AM: Para quando você pretende iniciar essas atividades?
 
MK:  Acredito que ali para abril de 2015 vou escolher uma dessas montanhas e levar uma expedição comercial como teste.
 

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