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Sete montanhas na temporada

7 expedições e 7 cumes: O sucesso de Maximo Kausch como guia de montanha

Como viver do montanhismo? Logrando o feito de ter levado clientes no cume de todas as expedições que guiou nesta temporada, o experiente Maximo Kausch nos conta como seu vasto curriculum em expedições esportivas o ajudou a ser um guia de montanha de sucesso.

Fonte: Redação

Nesta temporada de verão, o guia Maximo Kausch liderou 7 expedições em montanhas: 1 Cerro Plata, 3 Aconcáguas, 1 Mercedário, 1 Vulcão Vicuñas e 1 Ojos del Salado. Quase todas montanhas acima de 6 mil metros com dificuldades particulares. Levando brasileiros em todas estas expedições, o guia que nasceu na Argentina, mas se criou no país, conseguiu pôr no cume clientes em todas as expedições, mudando a “fama” que os brasucas tem lá fora de desistirem fácil. 
 
Maximo nos contou, em uma entrevista exclusiva, como foi sua bem sucedida temporada e como ele tem conseguido levar tanta gente ao ponto mais alto da montanha e aos poucos está transformando o Brasil num país de andinistas. Confira: 
 
AltaMontanha: Antes de mais nada Maximo, como você se tornou um guia de montanha? 
Maximo Kausch: Comecei guiando com 23 anos no Himalaia. Fui como assistente de uma mega expedição ao Lhotse e ao Everest. Após isso comecei estudar por conta própria para poder me virar em várias disciplinas essenciais para um guia de montanha, como medicina de alta montanha, cartografia, climatologia, condução de grupos, etc. Mas acho que o essencial mesmo é experiência.
 
AM: Você que guiou por anos estrangeiros  no Himalaia, por que decidiu vir aos Andes e por que decidiu guiar brasileiros, sendo que no Brasil não há tradição no montanhismo?
MK: Pois é, apesar de ter ótimos montanhistas o povo brasileiro não tem muita tradição. Uma das coisas que me chamou a atenção foram os preços muito mais altos do que a média internacional que eram cobrados no Brasil. A outra coisa que me chamou a atenção foi a pouca experiência em montanha que muitos dos guias tinham por aqui. Além disso as guiadas tão seguidas às grandes montanhas do Himalaia estavam me fazendo mal. Entre outros, esses foram os principais motivos que me fizeram montar o meu acampamento-base no Brasil.
 
AM: Você escreveu uma coluna polêmica aqui no AltaMontanha falando que os brasileiros tinham fama de desistir fácil. De onde você ficou sabendo desta fama e por que então trabalhar com este público com fama tão ruim? 
 
MK: Só quem já trabalhou com clientes de várias outras nações sabe dizer essas grandes diferenças de público que há com os brasileiros. No geral o brasileiro é um público bem fácil de lidar, eles confiam muito no guia e são pessoas bem alegres em expedições. Geralmente faço grandes amigos quando termino uma expedição. Isso não acontece com austríacos ou alemães por exemplo, no entanto estes dois são muito mais fortes que os brasileiros quando falamos em termos de resultados: Cume. Os brasileiros, de longe são certamente os que mais desistem em montanhas de altitude. Estou tentando mudar isso e investindo em logística e staff para atender melhor este público. Numa expedição de 8 europeus ao Aconcágua por exemplo, pode ser facilmente guiada por 2 guias. Para o mesmo número de brasileiros precisa-se de pelo menos 3 guias. Enquanto numa expedição de brasileiros os clientes mal conseguem levar o seu próprio equipamento pessoal, os europeus insistem em ajudar a levar barracas e panelas. Acho que é uma questão de tempo para os brasileiros começaram a ganhar experiência em montanha e estarem mais à vontade. Me sinto no dever de mudar isso e participar da formação da próxima grande geração de alpinistas brasileiros
Já estou conseguindo uns resultados do trabalho que comecei há 2 anos. Nesta temporada tivemos muito mais brasileiros no cume do que o ano passado e inclusive mais do que qualquer outra empresa no Brasil. Na expedição de janeiro por exemplo, tivemos 10 de 12 no cume do Aconcágua!
 
AM: Então vamos ao que interessa: Você guiou 7 montanhas nesta temporada e fez cume em todas? Como foi esta experiência?
 
MK: Foi duro! Não foi nada fácil planejar, organizar e executar 7 expedições de grande porte nos Andes. Comecei nos primeiros dias de dezembro e fiquei trabalhando até a semana passada! Tive descansos curtos entre expedições, na média de 4 ou 5 dias.
 
Por outro lado foi muito gratificante ter tanta gente nos cumes andinos, um lugar que gosto muito! Fiz incontáveis amizades e me diverti muito! Além de tudo implementei muitas coisas novas este ano e todas deram certo. Temos por exemplo uma previsão de tempo infalível e uma logística imensa para suportar tanta gente. Nosso corpo de guias aumentou consideravelmente e estou muito orgulhoso em ver como foi a performance deles! Temos o Pedro Hauck por exemplo, que é o montanhista brasileiro com mais montanhas de 6000m nos Andes. Ele guiou mais 2 expedições para a gente este ano e se saiu muito bem! Temos também o Edu Tonetti que é de São Paulo mas mora em Mendoza. O Edu estudou por 3 anos para se formar como guia e este ano está cursando mais uma fase do curso que garantirá a credencial de guia de montanha. Este ano ele trabalhou em 6 das 7 expedições comigo e acompanhei de perto o trabalho dele. Hoje ponho minha mão no forno por eles. Sem essa equipe o GentedeMontanha.com não teria metade do sucesso que teve!
 
AM: Bom, dentre seus clientes você teve o mineiro Gustavo Ziller, que está se preparando para fazer os 7 cumes. Como foi guiar o Ziller? Você irá participar do projeto inteiro ou foi somente o Aconcagua?
 
MK: Sim, foi muito legal. Confesso que logo que ouvi que o Ziller viria já fui logo taxando ele de várias coisas achando que ele estava ali por fama. Mas assim que conheci ele, uma das primeiras coisas que ele disse após eu ter falado sobre a nossa tentativa foi "vamos ver se a montanha vai deixar". Ali eu percebi que o cara está lá com o mais puro sentimento. Tenho certeza que ele vai se dar bem! Aliás, o première do documentário é hoje e a estréia no Canal Off é dia 11!
 
Nos demos muito bem e trabalhamos muito bem em equipe, portanto o Ziller me deu a ideia de participar das outras 6 etapas. Algumas delas são montanhas bem fáceis e é um pouco diferente do que estou acostumado. Mas o desafio de levar uma equipe de TV é completamente outro! Estou adorando a experiência!
 
AM: Com quase 7 mil metros, não é fácil guiar o Aconcágua. Como foi ter guiado estas 3 expedições seguidas?
 
Para mim, como esportista, escalar o Aconcágua já não é um grande feito. Foi no passado quando comecei escalar montanhas grandes. No entanto guiar uma montanha desse calibre é algo completamente diferente. Tudo bem que é uma montanha bem frequentada e com uma logística bastante completa. Este último fato é algo que atrai muita gente inexperiente de países sem muita tradição no montanhismo como do Brasil. Para os guias Isso torna as coisas muito mais difíceis já que o cliente estará lidando com muitas coisas novas pela primeira vez na vida. Para ter sucesso 3 vezes seguidas, aumentei o plano de aclimatação e fiz a escalada por partes. O foco é acabar uma para começar a outra. O cume é a última etapa e nem falamos em cume até não termos completado a etapa de aclimatação. Outra coisa que lapidamos muito bem este ano foi a previsão de tempo. Semanas antes de tentar o cume já começo estudar a previsão de tempo e os gráficos de vento e precipitação para ver como eles evoluem. Com isso crio um padrão climático temporário em cada expedição. Está dando bem certo...
 
Na expedição de janeiro inclusive tivemos 10 pessoas no cume do Aconcágua! Só 2 delas infelizmente não chegaram no cume. 10 de 12 no cume foi o recorde das empresas brasileiras
 
AM: Bom, voltando ao assunto dos 7 cumes. O que você acha deste projeto?
 
MK: Acho um projeto bem comercial que está se popularizando muito com a galera que está começando em montanha. Acho uma ótima introdução ao montanhismo pois a pessoa vai conhecer muitos tipos diferentes de montanhas. A única coisa em comum entre elas é que todas são bem comercializadas e não dá muita experiência em logística e como realmente se virar sozinho. O problema é que muitos leigos acreditam que um montanhista atinge o auge da carreira quando escala os 7 cumes. Para mim ele estaria apenas começando
AM: Durante esta temporada tão longa, teve alguns imprevistos?
 
MK: Sempre há imprevistos numa expedição acima de 6000m. Isso é exatamente o que torna esse esporte tão atraente. Como lidamos com imprevistos é o que nos faz guias melhores ou piores. Pessoalmente adoro imprevistos e mantenho muito a calma em situações completamente bizarras. Este ano não tivemos acidentes em nenhuma das 7 expedições que liderei. Tivemos no entanto alguns clientes com diversos problemas de saúde. O mais grave que tivemos foram alguns com edema pulmonar. No entanto detectamos a doença bem cedo e em um dos casos conseguimos estabilizar, reverter o quadro e o cliente ainda fez cume! Em outros casos os clientes tiveram que descer por motivos de segurança, mas não corriam risco de vida.
 
Acho que o maior imprevisto que tivemos foi na nossa última expedição que foi ao Ojos del Salado. Fizemos cume no dia 23 de março e no dia 23 mesmo chegou a última versão da previsão de tempo com meio metro de neve. Apesar de cansados saímos às pressas da montanha com bem pouca neve caindo e chegamos na mesma noite à nossa cidade base. A previsão estava certa e não só caiu neve mas o norte do Chile recebeu as piores chuvas dos últimos 28 anos! Inclusive 20 pessoas estão ainda desaparecidas, provavelmente mortas. Para nós foi uma experiência em tanto e um transtorno para conseguir que todo mundo pegue seu voo para o Brasil.
 
AM: Para finalizar, que mensagem você daria às pessoas que estão começando e querem participar de uma expedição em montanha?
 
MK: Para os que estão começando, recomendo não irem sozinhos logo de cara a grandes montanhas. Outra recomendação é não querer começar nas maiores montanhas como o Aconcágua. Há que fazer um passo por vez.
 
Também acho legal os iniciantes saberem que o alpinismo deve ser praticado se a vontade de ir à montanha vem de dentro de você. Se a intenção é aparecer ou ficar famoso, o alpinismo é o esporte errado para você. Escalar montanhas vai te fazer uma pessoa mais humilde e fazer enxergar o mundo de uma forma completamente diferente. Se você praticar ele com frequência, você vai aprender coisas que nunca imaginaria. Após um tempo você vai perceber o quão simples é o alpinismo. As montanhas estão lá, basta escalá-las.
 
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