Crônica da Temporada de Primavera 2017 – Parte dois - AltaMontanha.com - Portal de Montanhismo, Escalada e Aventuras
Resumo da temporada

Crônica da Temporada de Primavera 2017 – Parte dois

Segunda parte da cobertura de final da temporada, abordando os fatos mais relevantes e as curiosidades da primavera de 2017.

Fonte: Redação

por Rodrigo Granzotto Peron
 
 
ALPINISTAS QUE COMPLETARAM OS 14 OITOMIL
 
34º) Romano Benet (Itália)
 
Tudo ia bem para o italiano até 2009. Tinha acabado de culminar o Manaslu e já somava 11 montanhas de 8000 metros. Naquele ano, escalando o Kangchenjunga, sentiu-se mal a ponto de não conseguir ficar em pé. Sua esposa Nives Meroi desistiu do cume e ajudou o marido a escapar da morte. De volta à terra natal, Romano foi diagnosticado com uma rara doença degenerativa: anemia aplástica. Foram necessários vários transplantes de medula e uma recuperação lenta e dolorosa, mas Benet deu a volta por cima e voltou a escalar em 2014, culminando o Kangchenjunga. Ano passado, pisou no ápice do Makalu, e em 2017 fechou todos os 14 com chave de ouro no Annapurna, sem oxigênio engarrafado e na companhia de sua esposa. Dupla vitória!
 
35ª) Nives Meroi (Itália)
 
Até 2009, a italiana era uma forte candidata a ser a primeira mulher a completar os 14 oitomil, mas tudo mudou com os problemas de saúde de seu marido no Kangchenjunga. Ela abdicou de suas conquistas pessoais: “Romano vem em primeiro lugar”, e acompanhou todos os passos da recuperação de seu amado. Retornaram com tudo em 2014 e finalizaram no Annapurna a busca por todos os 8000, o primeiro casal a pisar no cimo de cada uma das catorze em conjunto. Além disso, Nives Meroi é a 4ª mulher a culminar todas as 14, e a 2ª sem oxigênio engarrafado.
 
36º) Peter Hamor (Eslováquia)
 
Começou sua saga no Everest em 1998. Depois, ficou quase uma década afastado, mas voltou com apetite total, escalando 8000 após 8000, até concluir todos os 14 no Dhaulagiri. Alguns dos pontos altos de sua carreira foram a escalada da Trilogia Alpina (faces nortes do Eiger, Matterhorn e Grandes Jorasses), uma nova variante na Aresta Leste do Annapurna em 2006 e a tentativa de travessia entre o Gasherbrum I, Gasherbrum II e Gasherbrum III, em 2008, façanha que não conseguiu concluir, mas que redundou em um incrível double-header (dobradinha). Hamor é o primeiro eslovaco a entrar para o ilustre rol dos alpinistas com todos os 8000 no bolso.
 
37º) Ferran Latorre (Espanha)
 
O carismático espanhol começou a carreira tentando escalar os 8000 por rotas tecnicamente desafiadoras (como o corredor Hornbein no Everest). Após, passou uma fase participando da equipe espanhola do programa Al Filo de lo Impossible, acompanhando Edurne Pasabán em muitas de suas expedições. Nos últimos anos, variou bastante de parceiros e se empenhou na finalização de todos os 8000, completando o lote de 14 no Everest este ano, para tornar-se o primeiro Catalão a angariar todos.
 
??) Azim Gheychisaz (Irã)
 
Por certo os mais atentos notaram: e o Azim Gheychisaz? Com o cume no Lhotse ele completou os 14 oitomil, certo? Errado!
 
O iraniano entrou naquela categoria de alpinistas que não comprovaram todos os seus cumes adequadamente. No caso dele, faltou o Manaslu, escalado em 2012. As fotos que ele providenciou do “cume”, e que inclusive estão em seu website, enfocam a antecima, e não o cume principal da montanha, de tal modo que Azim somente tem comprovados 13 dos 14 oitomil.
 
TRAGÉDIA: AS MORTES NA TEMPORADA
 
30.04 - Ueli Steck (Suíça, 41) - queda nas encostas do Nuptse
06.05 - Min Bahadur Shershan (Nepal, 85) - ataque cardíaco no BC do Everest
20.05 - Ravi Kumar (Índia, 26) - desapareceu no Everest
20.05 - Ang Nima Sherpa (Nepal, 30) - desapareceu no Dhaulagiri
21.05 - Francesco Marchetti (Austrália, 54) - mal da montanha no Everest
21.05 - Roland Yearwood (EUA, 50) - ataque cardíaco no Balcony, Everest
21.05 - Vladimir Straba (Eslováquia, 50) - edema cerebral e pulmonar no Everest
 
Foram, assim, sete mortes, uma no Nuptse, uma no Dhaulagiri e cinco no Everest.
 
Com quantidades absurdas de cumes e pouquíssimas mortes, a temporada de primavera de 2017 foi uma das com periculosidade mais baixa, apenas 0,75%.
 
O obituário mais triste e mais comentado foi o de Ueli Steck, apelidado de “Máquina Suíça”, um dos maiores e mais destacados alpinistas de sua geração. Ele morreu nas encostas do Nuptse, por volta dos 7000 metros, quando perdeu o equilíbrio e caiu mais de um quilômetro encosta abaixo, no processo de aclimatação para a sua tentativa de realizar a primeira travessia completa entre o Everest e o Lhotse. 
 
Deixou um legado incrível: a) bateu o recorde de velocidade nas três faces norte mais famosas dos alpes suíços: Eiger, Matterhorn e Grandes Jorasses; b) realizou as primeiras escaladas solo da difíceis Face Norte do Cholatse (6440m) e Face Leste do Taboche (6505m) em 2005; c) abriu uma nova rota, solo, na Face Sul do Annapurna em 2008. Por suas escaladas, ganhou o Piolet d’Or duas vezes (2009 e 2014), além de outras premiações de prestígio, além de ter sido eleito o Aventureiro do Ano de 2015 pela National Geographic.
 
MISTÉRIO: O QUE ACONTECEU COM O ESCALÃO HILLARY?
 
O Escalão Hillary (com 12 metros de desnível, por volta dos 8790 metros) é talvez o acidente geográfico mais famoso e emblemático do Everest, o último obstáculo técnico antes da chegada ao cume pela Rota Nepalesa.
 
O nome foi dado em homenagem a Edmund Hillary, que o transpôs pela primeira vez em 1953, e fez a primeira descrição detalhada desse tramo da montanha.
 
Logo após o terremoto de abril de 2015, com magnitude de 7,8, surgiram boatos de que parte do Everest tinha colapsado, incluindo a parte rochosa do Escalão Hillary. No ano passado, os boatos aumentaram a partir dos relatos de alguns alpinistas, mas nada foi confirmado.
 
Em 2017, a polêmica reacendeu a partir da frase de Tim Mosedale, que viralizou e foi reproduzida em todos os lugares: “The Hillary Step is no more” (“O Escalão Hillary não existe mais”).
 
O Governo do Nepal, temendo impacto negativo no turismo, principal fonte de renda do combalido país asiático, apressou-se a desmentir as declarações e afirmou em documento oficial que o escalão continuava intacto.
 
Não obstante, há inúmeras fotos e relatos dizendo que realmente houve mudança na posição das rochas que formavam o Escalão Hillary e que a topografia do Everest de fato foi alterada pelo terremoto.
 
Enquanto o caso não é elucidado com mais detalhes, é fato que a ausência desse obstáculo tornou a escalada pela face nepalesa bem mais fácil e os terríveis engarrafamentos nesse ponto efetivamente evaporaram em 2017.
 
NOVA ROTA NA FACE SUDOESTE DO SHISHAPANGMA
 
Outro dos feitos mais destacados da temporada foi a incrível nova rota na Parede Sudoeste do Shishapangma, forjada com toques de maestria por Hervé Barmasse (Itália) e David Goettler (Alemanha) no dia 21 de maio. Além de abrirem nova rota em um 8000, a dupla ainda o fez em tempo recorde, vencendo os 2200 metros de desnível em meras 13 horas, em estilo alpino, sem oxigênio. Bravo!
 
Com isso, a Face Sudoeste do SH agora possui cinco rotas completas até o cume principal: Rota Britânica (1982), Rota Eslovena (1989), Rota Polaca (1993), Rota Sul-Coreana (2002) e Rota Barmasse-Goettler (2017).
 
Vide: http://altamontanha.com/Noticia/5390/nova-rota-no-shishapangma-em-tempo-recorde
 
PLANOS NÃO CONCRETIZADOS
 
a) Min Bahadur Sherchan
 
O octogenário nepalês tentava ser o mais idoso a culminar o Everest (aos 85 anos), mas um ataque cardíaco fulminante no campo-base frustrou seu sonho.
 
b) Carlos Soria
 
Infelizmente, o carismático espanhol septuagenário bateu na trave novamente no Dhaulagiri. Esta foi sua oitava tentativa nessa montanha. Em 2017, ele sentiu que se forçasse mais, devido ao vento, “chegaria ao cume, mas não teria forças para voltar”, razão pela qual abortou aos 7500 metros.
 
Continuam-lhe faltando o Dhaulagiri e o Shishapangma para concluir os 14 oitomil.
 
c) Nova Rota na Face Norte do Cho Oyu
 
O heterogêneo mas fortíssimo time composto por Louis Rosseau (Canadá), Adam Bielecki (Polônia), Rick Allen (UK) e Felix Berg (Alemanha) buscava abrir uma rota direta na descomunal e super vertical Face Norte do Cho Oyu (8188m). A única rota nessa parede monumental é a eslovena, de 1988, mas que não enfrenta a parte rochosa central, derivando para a direita (Aresta Norte).
 
O time foi negativamente surpreendido por novo conjunto de regras para o permit, impedindo alpinistas que estiveram no Paquistão nos últimos três anos a escalar na China.
 
A partir disso, mudaram seus planos para a perigosa e complicada Face Noroeste do Annapurna I (8091m), escalada também uma única vez, por Reinhold Messner e Hans Kammerlander em 1985, mas tal qual na Face Norte do Cho Oyu, a dupla derivou para a direita, evitando a verticalidade das encostas superiores, e foi ao cume pela Aresta Noroeste.
 
Após aclimatizarem no Tilicho, começaram as atividades no Annapurna em meados de maio. As maiores dificuldades da via escolhida foram encontrar lugar para os bivaques e as constantes avalanches. Escalaram até onde as condições de segurança permitiam e retrocederam a partir dos 6500 metros.
 
d) Travessia Everest -> Lhotse
 
Tentada algumas vezes antes, sem sucesso, é uma das mais incríveis realizações ainda não conquistadas na Alta Ásia.
 
Para 2017, Ueli Steck, na companhia do sherpa Tenji, buscava encadear as duas montanhas em alto estilo, utilizando as não usuais Rota Hornbein no EV e Rota Urubko no Lhotse. Todavia, no processo de aclimatação, Ueli faleceu no Nuptse, e deixou um grande vazio no alpinismo de alta qualidade e alta performance.
 
e) Travessia de todos os Kangchenjunga
 
A única travessia completa foi feita por enorme time soviético em 1989, repleto de top climbers. 
 
Em 2017, Simone Moro e Tamara Lunger não chegaram sequer a fazer cume no Yalung Kang, primeira etapa da Kangchenjunga Skyline Expedition. Simone sofreu com problemas estomacais e virose ao longo do seu tempo no campo-base, o que o debilitou e impediu uma tentativa mais concreta.
 
f) Face Norte do Everest
 
O japonês Nobukazu Kuriki tem verdadeira obsessão pelo Everest, tentado por ele sem oxigênio engarrafado seis vezes, todas sem sucesso. Na tentativa de 2012, ele pagou preço bem alto, tendo passado duas noites seguidas no relento a 8.200 metros, em temperaturas de até -30ºC, em decorrência do que sofreu congelações severas que resultaram na necessidade de amputação parcial ou total de nove dedos das mãos. Após longa recuperação, retornou em 2015 e 2016, no outono, em tentativas sérias que terminaram por volta dos 7700 metros.
 
Para 2017, Kuriki escolheu a imensa Rota Hornbein (Supercouloir) na Face Norte do Everest. Devido às dificuldades da rota e ao incrível acúmulo de neve, que gerou um verdadeiro rio de avalanches, o japonês deu a expedição por encerrada no final de maio.
 
g) Face Sudoeste do Everest
 
Ano passado, o eslovaco Vladimir Strba tentou a vertical Face Sudoeste do Everest na companhia de Zoltan Pal. Sofreram uma avalanche aos 7200 metros que obrigou Zoltan a ser evacuado de helicóptero. Em 2017, Strba retornou sozinho e foi até os 7600 metros, não conseguindo completar a rota.
 
SPEED ASCENT NO EVEREST – KILIAN JORNET
 
Um dos momentos mais marcantes e um dos fatos mais comentados da temporada foram os dois speed ascents do espanhol Kilian Jornet no Everest.
 
Em 22 de maio, ele partiu do BC (ponto de partida nunca antes utilizados nos speed ascents anteriores) e chegou ao cume 26 horas depois. No meio do caminho teve náuseas e problemas intestinais, que interferiram em sua performance e o obrigaram a não completar a descida (ele não retornou ao ponto inicial, ficando no ABC).
 
Insatisfeito, novamente atacou o cume em 27 de maio, partindo agora do ABC, do mesmo modo que todas as tentativas anteriores à dele, e chegou ao cume 17 horas depois.
 
Com esses êxitos, Jornet tornou-se o primeiro ocidental a culminar duas vezes o Everest sem oxigênio engarrafado em uma mesma temporada. Monumental !
 
E como ficaram os recordes na Rota Tibetana após os êxitos de Kilian Jornet?
 
Ele ficou com a terceira melhor marca (17 horas), atrás de Christian Stangl (Áustria), 16h42m (em 2006) e Hans Kammerlander (Itália), 16h45m (em 1996).
 
 
Autor: Rodrigo Granzotto Peron
Finalização do texto: 16.06.2017
 

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