“A” cagada rarefeita.

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Era uma vez um fulano meio brasileiro, meio português, aqui devidamente denominado “Brastuga”. Feio, magro, barbudo e fedorento. Viajava já há 65 dias, resolveu realizar o sonho de chegar ao topo do vulcão Licancabur onde foi estabelecido o record mundial de scuba diving nú por dois outros loucos de outro lugar do mundo não tão fedidos na época, obviamente, pelo banho.

Na ocasião, viajava sozinho fazia tanto tempo que resolveu se juntar a um amigo que tinha outros dois clientes para a empreitada, por pura companhia. Foi um erro tremendo.

 
Entraram no carro e partiram rumo a fronteira chilena/ boliviana, passaram pelos trâmites legais e logo estavam continuando a viagem ganhando altitude na subida vertiginosa que leva ao altiplano do deserto de atacama, consequentemente ao altiplano boliviano onde centenas de montanhas os aguardavam para vislumbre de seus olhos, e impressões eternas em suas memórias.
 
Fizeram a parada no refúgio laguna blanca a 4.350 metros para passar a noite antes da escalada, que teria início na madrugada que cairia logo. Curtiram o visual, caminharam quilômetros e quilômetros ao redor das lagunas, curtiram vida selvagem e retornaram, mais fedorentos.
 
A noite caiu, o frio pegou, e o casal infernal ficou dentro do refúgio debaixo das cobertas enquanto o brastuga saiu pra passear no frio andino, assim secava o suor e apurava o cheio do suor latino, marcando território e avisando à montanha que estava indo. 
 
Mais tarde o brastuga voltou pro quarto e deitou com pensamentos mil, mas algo não estava correto, um alien pronunciava evidência de vida dentro de suas entranhas, se movendo e gritando de vontade de sair. Mas como nada mais aconteceu, o brastuga pensou que tudo sairia bem na manhã seguinte, sem maiores complicações. Adormeceu.
 
“- Piii…piii…piii”, disse seu relógio de madrugada, acordando a todos no dormitório. Saltou da cama feito cangurú australiano macho alfa, mijou ao redor e sobre tudo dentro e fora do refúgio, bebeu um chá de coca e foi pro lado de fora curtir o silêncio da madrugada andina, onde o frio corta a pele e congela os ossos. O casal de cristal demorou um pouco, mas logo saiu.
 
Daí uns cinco minutos o guia sorridente veio, cheio de dentes, e colcou a gurizada no carro, e começaram a aproximação a base do enorme adormecido por cinco centenas de anos. Nenhuma atividade extra-terrestre (intra intestinal) até o presente momento.
 
Chegaram na base, bem abaixo dos cinco mil metros, iniciaram a caminhar com velocidade, consistência, pureza. Nada de anormal, nenhuma dificuldade. Em apenas uma hora quebraram a barreira dos cinco mil metros, ascendendo mais de trezentos metros verticais em pouco tempo. 
 
O casal princesa pediu um descanso, que foi imediatamente atendido pelo guia e companheiro brastuga. Depois de cinco minutos, seguiram adiante.
 
Contatos imediatos do terceiro grau começaram a rolar nas entranhas do brastuga. Ele pensou que teria mais tempo, pensou que em 2001 quando estivesse na sua odisséia no espaço poderia participar da missão de Apollo 13 sem problemas, ou quem sabe em 2010 faria algum contato? Mas nada disso deu certo, a Missão Marte afundou, e suas preocupações giravam em torno do Predador dentro de sua lingüiça de metro, procurando o Alien na oitava curva da longa via.
 
Passaram da linha dos cinco mil e quinhentos metros, e os heróis começavam a perder a batalha. Esta, decisiva para o brastuga e a guerra que lhe gerava estrelas à vista, sonhos de um vaso sanitário chanel, ar condicionado e papel de seda, mas isso não iria acontecer, tudo que via à sua frente era Homens de Preto anunciando a chegada do Alien. Pânico assumiu o controle de sua mente, e tudo que um amigo o disse um dia de nada mais valia: “Lembre-se Parofes, sua mente pode destruir!”. Porra nenhuma!
 
A mente não pode, mas o intestino bate o martelo.
 
A cinco mil e oitocentos metros a coisa estava crítica. Sinos ecoavam no silêncio do deserto, o conclave chegava ao fim e uma fumaça de tom marrom lavado surgia do lado sul, e os sons só atingiam os ouvidos de um membro da aventura, o brastuga, que já sofria com suor frio e arrepios por todo corpo.
 
A cinco mil, oitocentos e quarenta metros, seguiu a jornada sozinho pois o guia resolveu que o casal capivara deveria descer por exaustão. Carregando o rádio adicional, o brastuga se afastou dos demais rumo ao cume, pois é claro, só o cú-me interessa. Como diria o poeta: “O vento no Cume bate…A rosa no Cume cheira…Quando vem a chuva fina…Salpicos no Cume caem.”
 
Exceto que nesse caso não havia rosas, elas não crescem em tal altitude. Só havia vida, vida gritando por liberdade. Brastuga arriou as calças na hora.
 
Um tremor de terra atingiu o local naquele momento, o fulano teve que se segurar nas rochas pra não ser engolido pela terra, e depois de se contorcer, a criança nasceu. Feio, escuro, molenga, com certeza coisa de outro mundo.
 
Cordão umbilical decepado, hora de subir as calças e continuar pro topo. Até porquê, o odor dos gases liberados pelo vulcão durante o tremor eram medonhos, coisa do monte Olimpo de Marte.
 
Meia hora depois que o brastuga chegou ao topo o casal kinder chegou lá, colocando os bofes pra fora. Muito curtiram por lá, fotos e apertos de mão. E a descida pra dupla dinâmica foi ainda mais sofrida. Coitadinhos…
 
Ahhh, que cagada…
 
OBS: Este conto não é fictício, aconteceu com um amigo dum amigo meu!
 
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Sobre o autor

Parofes (in memorian) - Colunista

Parofes, Paulo Roberto Felipe Schmidt (In Memorian) era nascido no Rio, mas morava em São Paulo desde 2007, Historiador por formação. Praticava montanhismo há 8 anos e sua predileção é por montanhas nacionais e montanhas de altitude pouco visitadas, remotas e de difícil acesso. A maior experiência é em montanhas de 5000 metros a 6000 metros nos andes atacameños, norte do Chile, cuja ascensão é realizada por trekking de altitude. Dentre as conquistas pessoais se destaca a primeira escalada brasileira ao vulcão Aucanquilcha de 6.176 metros e a primeira escalada brasileira em solitário do vulcão ativo San Pedro de 6.145 metros, próximo a vila de Ollague. Também se destaca a escalada do vulcão Licancabur de 5.920 metros e vulcão Sairecabur de 6000 metros. Parofes nos deixou no dia 10 de maio de 2014.

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