A caminho do topo do mundo

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Em primeiro lugar peço perdão pela ausência de noticias por tempo tão longo. Esses últimos meses desde que desci com sucesso do cume do Cho Oyu (8201 metros), a sexta mais alta montanha da Terra, foram muito corridos.


Aliás, olhando para trás, esses últimos 24 meses foram uma grande sequência de montanhas, trekkings, escaladas tanto só eu e a Andrea como guiando nossos grupos. Fiquei em média mais de 250 dias por ano nesses dois anos nas montanhas e dormi muito mais noites em minha barraca do que nas camas de hotéis.

Desde que inciamos nosso plano de escalar o Everest há 2 anos, escalamos 14 montanhas, entre elas as mais altas da Bolívia, do Equador, da Europa, da África, da América do Norte e o Cho Oyu. Além disso fizemos trekkings no Nepal, Bolívia, Peru e Nova Zelândia. Por esse longo tempo tive uma só idéia, estar preparado para o que acontecerá em poucos dias, escalar o ponto mais alto do planeta, o Monte Everest com 8850 metros.

Para chegar a me sentir como me sinto agora, preparado física, mental e espiritualmente para o grande desafio um cuidadoso plano foi levado a cabo. Nas montanhas da América do Sul treinamos técnicas de escalada em neve e gelo, resgate em cravasses e travessia de glaciares.  O McKinley no Alaska nos confrontou com tempestades imensas, frio de menos 40 graus e mais de 50 quilos em nossas mochilas e trenós. O Cho Oyu nos mostrou que somos capazes de estarmos felizes em uma longa expedição mantendo o foco, o bom humor, a saúde e a vontade de concretizar o que nos propusemos a fazer. Também nesta montanhas testamos nosso equipamento e aprendemos a usar as máscaras e reguladores do oxigênio suplementar que iremos usar no Everest.

Agora, há apenas 5 dias da partida para o campo base minhas emoções ameaçam dominar minha serenidade. Sonho constantemente com o Everest, as vezes com a temida cascata de gelo, as vezes com o dia de cume. Penso muito durante o dia nos riscos que estarei correndo. Apesar de ter feito o cume do Cho Oyu sem muitas complicações sinto que os 650 metros adicionais se traduzem em um outro grau de dificuldade e risco. Não estou com medo, apenas a cada dia que o objetivo tão sonhado se aproxima me concientizo de que estarei embarcando na mais intensa, maravilhosa e potencialmente arriscada jornada de minha vida.

E é isso que quero no decorrer dos próximos 65 dias dividir com vocês. Não sei qual será o resultado dessa expedição, ninguém pode saber. Entro no Chogolungma com humildade querendo sua permissão e não para conquistá-lo. Isso seria tolice. Se puder olhar o Terra do seu cume ficarei muito grato pela vida ter me dado essa oportunidade, mas se isso não acontecer sei que ainda assim estarei muito agradecido por ter podido ter tentar.   

Manoel Morgado é médico e guia de montanha com
mais dezoito anos
de experiência guiando grupos de brasileiros em viagens de trekking e
escalada em vários países do mundo. Se quiser saber mais sobre as
expedições organizadas e guiadas por Manoel Morgado visite o site www.manoelmorgado.com.br
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Sobre o autor

Manoel Morgado - Colunista

Manoel Morgado é médico de formação, mas trabalha como guia de montanha há 20 anos, atuando em vários países ao redor do mundo. Há 15 anos é montanhista, tendo como ápice de sua carreira a conquista do Everest e também a realização do projeto 7 cumes. Ele nasceu no Rio Grande do Sul, se criou em São Paulo e dede 1989 não tem casa.

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