A Chapada das Mesas

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Alguns verões atrás, minha mulher e eu fizemos uma longa viagem pelo Norte e Centro Oeste do Brasil, para visitar algumas regiões específicas. Carolina no Maranhão era a principal delas. Lá foi criado um dos mais novos parques do País, com formações planas em forma de mesas e grandes cachoeiras de águas cristalinas. Bem, infelizmente a realidade mostrou-se mais modesta do que nossas expectativas, como você verá a seguir.

Placa Entrada PN Chapada das Mesas, Carolina, MA

Nos fins de 2005 foi criado o Parque Nacional da Chapada das Mesas, abarcando alguns municípios do Sul do Maranhão, o principal dos quais sendo Carolina. Os objetivos declarados para a criação desta unidade de 160 mil ha foram a defesa do cerrado, das nascentes e, em especial, das cachoeiras.

Como nenhum fazendeiro foi indenizado, a área é ainda ocupada por criações de gado de porte médio, pertencentes a pequenos proprietários. Quem sabe isto explique a falta de oposição local à criação do Parque. Sua integridade pode vir a ser ameaçada pelo enchimento do lago de uma hidrelétrica próxima, que deve afetar o Rio Farinha, sua principal atração.

Chapada das Mesas, Carolina, MA (Fonte: Divulgação)

A entrada para o Parque fica a 30 km de Carolina por asfalto, mas ele só começa outro tanto depois, por uma estrada de areião. Apresenta vegetação de cerrado e campo sujo, sem grande apelo visual. Não tem nenhuma estrutura, carece de sinalização e tem um único funcionário.

Os tabuleiros em forma de mesas são pouco atraentes: compostos por antigos arenitos um tanto heterogêneos e recobertos por vegetação, não apresentam belos perfis definidos. Nesta integração entre rocha e planta, eles se parecem um pouco com a natureza criada no filme Avatar de James Cameron. Mas foram eles que deram o nome ao Parque.

É bom lembrar que lá não existe nenhuma chapada, como a de Diamantina ou dos Veadeiros, pois a altitude não passa dos 250 metros, as terras sendo portanto de planície. E que, também, suas serras em tabuleiro estão longe de terem a regularidade das mesas. O clima é também irregular, com a rápida formação de chuvas das mais fortes que conheci.

Vale aqui uma observação. Devido à internet, o mundo está se tornando muito visual. Suas imagens podem nos induzir a visões sedutoras. Os panoramas que vimos antes da viagem nos fizeram imaginar um Parque repleto de mesas em arenito estriado, com perfis sugestivos. Sinceramente, elas não existem no Parque e, fora dele, são poucas e nem tão belas.

Voltando a nosso percurso, na extremidade norte do Parque, depois de rodar mais 15 km, corre o Rio Farinha, com duas esplêndidas cachoeiras, Prata e São Romão. São grandes volumes de água e alturas interessantes. Apesar de algumas pedras curiosas, estas quedas me pareceram as únicas reais atrações do Parque. Suspeito que, para preservá-las, não seria necessária uma unidade tão grande. Entretanto, há hoje a prática da criação de grandes áreas verdes interligadas, principalmente para defesa da fauna.

Cachoeira da Prata, Parque Nacional da Chapada das Mesas, MA

Mas existem fora do Parque bonitos locais na região, em especial ligados às águas. Não deixe de conhecer a impressionante Pedra Caída em Carolina, onde o rio jorra por dentro de uma câmara, semelhante a um cilindro oblongo de pedra, ao qual você chegará dentro d´água por um estreito e pequeno cânion rio acima. Parece uma visão encantada de sonho – não é só maravilhosa, é também comovente.

Pedra Caída na Chapada das Mesas, Carolina, MA

Há ainda os poços cristalinos no município vizinho de Riachão, são passeios muito populares na região. E ainda o cênico Portal da Chapada, que ao pôr do sol pode ser contemplado do mirante de uma bonita pedra em arenito à beira da rodovia, numa rápida subida na volta de algum passeio.

Portal da Chapada das Mesas, MA

De todas as formações, chama a atenção o Morro do Chapéu, com 505m, este sim um tabuleiro regular. Há na região duas mesas mais elevadas, a Torre da Lua (555m) e a Serra da Malícia (525m). Entretanto, o Morro do Chapéu impressiona pelo visual imponente e o grande tamanho, que parece ameaçador emergindo acima dos campos planos, sob a luz escura da sua vegetação de encosta.

É relativamente fácil chegar até o morro, pela sempre plana Estrada do Marajá. A aproximação a pé é curta, atravessando uma área de mata rala ainda de pouco aclive. A trilha a seguir é bastante clara e muito íngreme, pois não contorna a parede, subindo sempre reta. Muitos trechos exigem pequenas escalaminhadas entre muitas rochas e pedras soltas.

Na minha experiência, não é usual um caminho tão direto, mas ele mostrou-se eficiente em poupar muita volta e tempo. Se você não se impressionar com sua verticalidade, em cerca de 1 ½ hs desde a saída, os 350m da parede poderão ser superados. O calor úmido tornou bem dura esta subida: no verão, você chegará encharcado lá em cima, como se tivesse mergulhado num riacho. Como vivo no Sudeste, com altitudes maiores, pareceu estranho tanto esforço para conquistar a apenas 500m.

O Morro do Chapéu é bem plano, correndo no sentido norte-sul por talvez 1 ½ km, com trechos estreitos que não passam de 100m. Devido à falta de elevações significativas, a vista de seu cume é apenas panorâmica. Porém, algumas formações são bem peculiares, cada qual com seu formato diferente. Lá longe, o casario de Carolina e o espelho do Tocantins também podem ser avistados.

Pôr do Sol na Chapada das Mesas, Carolina, MA (Fonte: Divulgação)

A volta exige cuidado, devido à declividade da trilha escorregadia. Se você tiver saído cedo, procure compensar o calor nas muitas águas próximas, em especial nos banhos das esplêndidas cachoeiras da Pedra Caída.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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