A Conquista do Pico Paraná

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O Pico Paraná é único por podermos afirmar ter registro de nascimento que aconteceu em 1940 por obra e lavra do geólogo alemão Reinhald Maack, que em suas determinações a respeito da tectônica da Serra do Mar, fez algumas observações “estarrecedoras”.

Enquanto conferia rumos e altitudes, munido de seu inseparável teodolito, constatou a existência de duas elevações bem próximas ao Marumbi, com cotas acima dele: Leão e Ângelo. Ao conferir a altitude, outro susto: estabelece a marca de 1.547 metros contra os 1.800 metros anteriormente a ele atribuída pelo engenheiro Leopoldo Weiss.

Prosseguindo sua análise orográfica, alcançou o quadrante norte verificando no limbo das altitudes angulares verticais, o registro de valores ainda maiores. Refaz as leituras e não satisfeito, desejando confirmar estas descobertas, faz outras sete incursões a Serra do Mar com as mais variadas aberturas azimutais, que lhe permitiram descobrir o Pico Paraná.

“ao mesmo tempo, a descoberta da montanha mais alta do Paraná, que por não ter nome algum, dei o nome de Pico Paraná”…

Depois de todo o rigoroso procedimento para confirmação das descobertas, Maack legitimou estas observações e retificações junto aos órgãos públicos responsáveis: “A altura obtida trigonométricamente foi controlada pelo Marumbi mediante medições de ângulos de profundidade, sendo integrada por uma série de observações de pressões barométricas e hipsométricas”.

Na condição de estrangeiro convidado para trabalhos de levantamentos, nominou cada cume descoberto com nomes de importantes personalidades de nossa história: Eusébio da Mota (pioneiro de nossa geologia), Manoel Ribas (interventor do Paraná e responsável pela vinda de Maack ao Brasil), Getúlio Vargas (presidente da república), Hans Staden (primeiro cronista alemão de nossas plagas), Ulr Schmidel (primeiro alemão que atravessou nossas terras) e outros. Deste período sobreviveu apenas o nome de Getúlio para erroneamente identificar um dos topes de acesso ao Caratuva.

Depois alertado que leis brasileiras regem a toponímia dos acidentes geográficos e vedam totalmente o uso de nomes de pessoas vivas ou mortas, num rasgo de genialidade, os substituiu exclusivamente por vocábulos indígenas: Caratuva, Itapiroca, Camapuan, Camacuan, Ciririca, Tucum, Tupipiá e assim por diante.

Na idade de ouro do marumbinismo, alcançado na década de quarenta do século passado, as escaladas restringiam-se exclusivamente as circunvizinhanças do Marumbi e o comunicado de Maack impulsionou o pessoal para novas eminências. A notícia causou sensação nos meios científicos e impacto sobre os grupos esportivos especializados, estimulando o “animusmarumbinistas” para alcançá-lo e desbravarem uma região fecunda de colossos mais elevados que o Marumbi.

É importante salientar as dificuldades naturais e físicas daquela época. A Serra do Mar é uma formação rochosa vinda do norte do Brasil e descambando até o Rio Grande do sul. Constitui-se numa verdadeira muralha ciclópica correndo, mais ou menos, costeando o Atlântico, separando a faixa litorânea do hinterland. Na sua porção paranaense, desde as divisas de São Paulo e Santa Catarina, distingue-se nitidamente quatro maciços: o do Capivari Grande, Ibitiruçu, Mãe Catira – Farinha Seca, Marumbi – Canal e Castelhanos – Araraquara. O Ibitiruçu, onde se encontra o Pico Paraná, está cercado por altos picos, totalmente isolado e protegido contra qualquer incursão civilizatória. Ainda não existiam a BR 116 (Regis Bittencourt) e nem a estrada Antonina – Guaraqueçaba. Em 1940 a única estrada para São Paulo partia do Bacacheri e seguia do Atuba rumo a Bocaiúva do Sul e Capitão Bonito, se afastando da serra. Para o litoral só havia a estrada da Graciosa seguindo direção oposta e terminando em Antonina.

As observações que Maack fez do alto do morro Mãe Catira garantiram a impraticabilidade do ataque pela estrada da Graciosa. Um cinturão contínuo e dominando 10 ou 20 quilômetros de largura precintava o conjunto desde as suas bases. Maack em seus estudos concluiu que a melhor investida só poderia ocorrer pelo lado do planalto. A via de acesso com maior aproximação rodoviária, ainda que precária era a estrada de Praia Grande. Seguia-se pela Graciosa até a altura do “alto da serra” (no restaurante do Elpídio) e ali se desviava à esquerda, por mais 28 km para Taquari, Timbó e Praia Grande. Adiante era puro sertão. Não existiam levantamentos aerofotogramétricos, mas algumas sondagens aéreas executadas por Schiebler comprovavam o acerto da abordagem pela face oeste.

As barracas de estilo canadense eram feitas de lona pesada e sem forro. Saco de dormir ainda não se conhecia. As botas eram de couro, cano alto, costuradas e solados pregados. As costuras estouravam com a umidade e as tachinhas perfuravam os solados, invariavelmente machucando os pés, com sérios revezes para a marcha. Lanternas comuns de duas pilhas grandes e nunca impermeáveis. Alimentação exclusivamente a base de enlatados e spaguetti com sardinhas. Era obrigatório o emprego do facão, uma vez que a selva era inóspita e exigia perfeita abertura da picada para garantir o retorno seguro e a sobrevivência.

Num feliz e oportuno casamento entre Maack os interesses da dupla Mysing e Stamm, ensejaram a montagem de uma expedição com o intuito de alcançarem o ponto culminante do Estado. Após muitas considerações e uma estimativa de provisão para um máximo de oito dias, partem animados no dia 28 de junho de 1941, com o concurso de um carro fretado e o rumo de Praia Grande, onde Maack já previamente acertara o apoio de três tropeiros e ainda mais carga. A epopéia durou 18 dias entre marchas e contra-marchas. Seguiram pela rota tradicional; Av. João Gualberto, Juvevê, Bacacheri, Atuba, Palmital, Canguirí, Quatro Barras e Elpídio (parada dos ônibus). A seguir encruzilhada para Timbó, Taquari e Praia Grande. Avarias no carro alugado provocadas pelas pedras soltas na pista e providencial passagem de um caminhão. Foram acolhidos por Juca Órfão (José Gonçalves Nogueira) que providenciou cargueiros (mulas) e mateiros. Montam acampamento junto a uma fabriqueta de farinha de mandioca e após o almoço sobem um morro próximo na vã tentativa de estudar o ataque.

Ali nova dificuldade técnica causada pela própria conformação da serra, que na verdade, constitui-se de duas fileiras de cumeadas progredindo na mesma direção, paralelas entre si e separadas por enorme valo. A primeira formação, conseqüentemente mais próxima do observador, integrada pelo Ferraria,  Taipabuçu, Caratuva, Itapiroca e Tucum impediam a visão para a outra fileira de picos que incluíam o Ibitirati, União, Paraná, Camelos, Ciririca e Agudos. Nestas condições tornava-se difícil determinar a rota adequada para uma ascensão segura. Terminam optando pelo ataque na extremidade meridional do conjunto, envolvendo as cumeadas do Camacuan, Camapuan e Tucum. Partem no dia 29 de junho de 1941 com o apoio de dois cavalos providos com cangalhas feitas com balaios de bambu, conduzidos pelos tropeiros Dulcídio e José Aldino. Integram a expedição os mateiros Manoel Bacha e Manoel Teles, mestres no manuseio da foice e o guia Chico Tigre.

Ao anoitecer montam acampamento na base do Camacuan. Todos os dias cumpriam este ritual; armar barracas, preparar a fogueira e cozinhar duas panelas de feijão preto, para ser deglutido de manhã e à noite, acompanhado de farinha. Almoço à base de broa preta, manteiga, toicinho ou schmierwurst (patê rosado). Invariavelmente, durante toda a empreitada, o despertador de bolso do Stamm disparava às 5 horas, para o Aldino ativar o fogo e colocar as panelas de feijão, e às 6 horas, alvorada geral.

No dia seguinte largaram os cavalos e partiram para a escalada propriamente dita, concluindo a primeira etapa às 15 horas. Enquanto ajustavam as coisas, Maack procedia os estudos e apontamentos necessários. Stamm e Mysing resolveram avançar no programa e alcançar o Tucum, onde foram recompensados por irresistível panorama, num desmedido anfiteatro. As condições do terreno, agora constituído de campos de altitude, facilitou a conquista do novo ponto, que por vários dias, enquanto o pessoal abria caminho com foices e facão, tornou-se o acampamento principal. Até ali havia dispendido dois dias no esforço de abrir caminho por entressachados de arbustos flexuosos, caraguatás e unha-de-gato.

Houve acirrada discussão para identificação do Pico Paraná. Mysing, gritando entusiasmado, prometeu comer uma vassoura se "aquele ali" não fosse o PP. No centro desse cenário alpestre envolvente, soerguia-se o impoluto Pico Paraná. O visual sobre o desconhecido serviu para aumentar o anseio pelo mais alto. Os seis expedicionários decidem pela continuação da marcha rumo ao objetivo tão almejado, apesar da considerável distância que ainda os separava. Dois grupos se revezavam de hora em hora, na dura faina da picada: Stamm e Chico Tigre; Mysing e Aldino. Os dias 2, 3 e 4 de julho foram dedicados a atingir o PP mais ou menos numa linha direta, mas sofreram horrores na tentativa de transpor o profundo vale que os separava do Cerro Verde. Logo constataram que a velocidade da marcha, mesmo com o emprego de braços resolutos, pouco representavam na prática, apenas perlongavam os sofrimentos. No dia 4, uma rápida mudança de condições atmosféricas trouxe a certeza de que a coisa ia piorar. Diante das informações recebidas diariamente pelos batedores, Maack ordenou o recuo para Praia Grande. Não lhes restava outra alternativa do que recuarem  para tentarem por outra via. Debaixo do maior aguaceiro retornam ao acampamento base, para reiniciar os trabalhos no dia 07 de julho, tendo já completados dez dias.

Em Terra Boa ficam sabendo da existência de um caboclo de nome Josias Armstrong que já estivera num dos picos da região, logo identificado como sendo o Caratuva (antes denominado Getúlio Vargas) e que concordou em auxiliá-los. Incorporados ao grupo, Josias Armstrong e Benedito Lopes de Castro, partem com destino ao Caratuva. Partiram divididos em dois grupos revezando-se a cada hora na frente e no transbordo da carga. Seguem na estreita picada aberta 11 anos antes pelos Armstrong, para catar mate. A picada já estava bem fechada, mas facilitava por seguir uma rota já estabelecida. Primeiro pernoite na "lagoa", que é até hoje um ponto de referência para os que sobem o PP. No dia 9 de junho, com muito esforço, alcançam o cume do Cartauva e desfrutam inigualável vista sobre um perfil fantástico, empinado a pique do Paraná, tendo a sua frente uma possante parede de tono marrom avermelhado, afigurando-se numa muralha sensacional. Veio também a certeza da rota perseguida. Estancaram surpreendidos pelo fastígio das montanhas. Cuidadosas avaliações confirmaram a trajetória que deve prosseguir por uma apreciável bocaina, separando as vertentes do Caratuva e Paraná, terminando em uma estreita selada recheada de terríveis despenhos.

Encontram uma pequena superfície plana e baixa pra instalar as barracas e a parafernália do Maack. A expedição tinha dois propósitos: estudos e a conquista do PP. Mal alcançaram o topo e o tempo virou em tempestade. A chuva foi tão intensa que o local passou a ser chamado Jardim da Tempestade (onde atualmente está a antena de radio-transmissão). Com o tempo ruim, desceram os mateiros e carregadores, para voltarem em dois dias com novas provisões. Ficaram ilhados no topo do Caratuva do dia 10 ao dia 12, quando conseguiram avançar até o Pouso da Sorte, com o tempo melhorando. No dia 13, com toda a equipe já reunida, avançaram pela crista, por impérvios refertos de bromélias espinescentas e outros percalços. A expectativa do desconhecido no talvegue felizmente assegurou-lhes a passagem. Vararam-na por uma estreita faixa numa combinação de salientes e reentrantes, galgando terreno escabroso alcançaram a vertente do PP, propriamente dita.

Às 13h45, chegaram ao Campo Inclinado (na altura do atual Abrigo de Pedra). Transmudando-se a flora, Maack permanece envolto com seus instrumentos, anotações e cuidadosas observações enquanto liberava seus companheiros, Mysing, Stamm e um tropeiro para explorar um pouco adiante, apesar do adiantado da hora. Benedito tentou seguí-los, mas breve retorna exaurido. Josias estava extenuado pelo esforço do transporte da pesada carga, permanecendo na ajuda dos trabalhos científicos. Os dois escaladores persistem, apesar das imensas dificuldades intercorrendo paragens inéditas por entre fragais de granitos expostos, radiculares e vegetação virente sobressaindo-se às copas baixas das vilosidades entumecidas por caratuvas. Próximo ao final, num estreito rechã, assoma uma parede vertical cindida por intrigantes traços silhares dando a impressão de hieróglifos ou mensagens cabalísticas…Finalmente, logram alcançar o páramo descalvado do Pico Paraná.

Gritos de júbilo e o espolcar de 2 rojões anunciaram a vitória sobre o ponto mais alto do Paraná (1877m). Estavam no dia 13 de julho de 1941 e deixam uma placa provisória trazendo gravado o nome de todos os expedicionários. Estava conquistado o ponto culminante! Os dois consagrados escaladores totalizaram 3 horas entre sair e retornar ao Campo Inclinado, permanecendo apenas 20 minutos no cume, para as necessárias fotografias. Após a conquista, retornaram ao Pouso da Sorte.

Nos dias 14 e 15 permaneceram na casa dos Armstrong e no 16 procedeu-se o retorno pela rota usual da época, antes de existir a BR 116, de Terra Boa pegaram carona numa tropa de muares até Cacatu aonde chegaram no dia seguinte e dali, em canoa de remo para Antonina onde apanharam o “Flecha” (ônibus) até Curitiba desembarcando no dia 19.

A segunda escalada aconteceu quatro anos depois, em 18/04/1945, pelo Hatcbach, Bresemayer, Schiebler, Pereira e Josias Armstrong. Maack só pode alcançá-lo em 27 de julho de 1946. As primeiras mulheres a chegar no cume do Pico Paraná foram a Ely Claassen (mãe da Lize, de Morretes) e a Rosemarie Blohm. Com a abertura do desvio da “Sela” pelo Pugsley e o Adyr, terminou a obrigatoriedade da escalada do Caratuva.

Setenta e dois anos nos separam!

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Sobre o autor

Vitamina - Colunista

VITAMINA – Henrique Paulo Schmidlin Como outros jovens da geração alemã de Curitiba dos anos de 1940, Henrique Paulo foi conhecer o Marumbi, escalou, e voltou uma, duas, muitas vezes. Tornou-se um dos mais completos escaladores das montanhas paranaenses. Alinhou-se entre os melhores escaladores de rocha de sua época e participou da abertura de vias que se tornaram clássicas, como a Passagem Oeste do Abrolhos e a Fenda Y, a primeira grande parede da face norte da Esfinge, cuja dificuldade técnica é respeitada ainda hoje, mesmo com emprego de modernos equipamentos. É dono de imenso currículo de primeiras chegadas em montanhas de nossas serras. De espírito inventivo, desenvolveu ferramentas, mochilas, sacos de dormir. Confeccionou suas próprias roupas para varar mata fechada, em lona grossa e forte, cheia de bolsos estratégicos para bússola, cadernetas, etc. Criou e incentivou várias modalidades esportivas serranas, destacando-se as provas Corrida Marumbi Morretes, Marumbi Orienteering, Corridas de Caiaques e Botes no Nhundiaquara, entre outras. Pratica vôo livre, paraglider. É uma fonte de referências. Aventureiro inveterado, viaja sempre com um caderninho na mão, onde anota e faz croquis detalhados. Documenta suas viagens e depois as encaderna meticulosamente. Dentro da tradição marumbinista foi batizado por Vitamina, por estar sempre roendo cenoura e outros energéticos naturais. É dono de grande resistência física e grande companheiro de aventuras serranas. Henrique Paulo Schmidlin nasceu em 7 de outubro de 1930, é advogado e por mais de uma década foi Curador do Patrimônio Natural do Paraná. Pela soma de sua biografia e personalidade, fundiu-se ao cargo, tornando-se ele próprio patrimônio do Estado, que lhe concedeu o título de Cidadão Benemérito do Paraná.

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