A Ética e o Montanhismo

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O montanhismo é também esporte e tem sede de conquistas. Para um iniciante escalar o Pico Paraná pela primeira vez é uma conquista inesquecível e de nada importa que caminhou por uma trilha aberta, verdadeira avenida, por onde já caminharam milhares de pessoas. Para um colecionador de cumes e paisagens brasileiras é um roteiro obrigatório. Em ambos os casos se trata de uma grande conquista individual, mas e para aquele que trilhou este caminho cinco ou cinqüenta vezes?

Escalar o Pico Paraná é sempre uma conquista para qualquer montanhista, mas nunca comparável aquela primeira vitória. Chegar ao cume com uma mochila cargueira pesando 15 ou 20 quilos, sob um calor de 40ºC, em 3 horas de ataque, na primavera, no verão, sob chuva, cerração ou com temperaturas abaixo de zero numa noite de geada, com 20 ou 60 anos de idade será sempre uma grande conquista. Mas a verdadeira conquista do Pico Paraná se deve a Maack, Stamm e Mysing num distante 13 de julho de 1941 depois de várias tentativas e 18 dias de luta.

Ser pioneiro no montanhismo não tem preço.

Contra Maack, Stamm e Mysing estavam a imprevisibilidade do clima, a distancia, o precário conhecimento do relevo, o peso do equipamento e outras limitantes impostas pela tecnologia da época. Muitos destes problemas foram superados ou ao menos facilitados, mas em seu lugar surgiram outros. As mesmas qualidades que fizeram deles heróis para muitas gerações são agora criticadas e os poucos que ainda as conservam são constantemente ameaçados pela mediocridade de seus “pares”.

O montanhismo é um esporte praticado por egos fortíssimos. É a luta de um homem contra seus medos e dúvidas mais profundas na solidão da natureza mais inóspita. É um esporte interior disputado contra suas próprias limitações, superar-se é o objetivo e maior é a vitória para um grande competidor.

Assistimos a recente conquista dos 14 oito mil pela coreana Oh Eun Sun sempre por rotas ditas “normais”, acompanhada por uma legião de auxiliares, oxigênio artificial, câmeras de TV, cordas fixas e muita paparicação. Conquistar as 14 mais não é tarefa fácil e independentemente dos métodos escolhidos há grande mérito pessoal em quem se propõem a esta empreitada. Mas o destino colocou nada menos do que Gerlinde Kaltenbrunner também sonhando com os 14 oito mil no mesmo momento histórico. Gerlinde escala por rotas incomuns, sem pressa nem estardalhaço e principalmente sem oxigênio artificial. Realiza claramente um projeto pessoal.

Alguns percorrem um caminho conhecido, usam de facilidades artificiais e apreciam as luzes da celebridade, outros fazem seu próprio caminho e terminam celebres.

Há ética no montanhismo?

Sim, há muita ética no montanhismo, mas não se trata desta ética bocó a que se dedicam alguns clubes excursionistas que dominam o “montanhismo oficial”, aparelham listas de e-mail e tomam de assalto os conselhos de órgãos ambientais. Retornar com o lixo, eliminar facilidades artificiais e não colher flores já estão assimiladas até no manicômio. A ética do montanhismo é algo muito maior que esta gente desconhece totalmente e não tem o menor interesse em aprender. Não conseguem aceitar que cada um tem sua estatura própria e tentam nivelar a todos por baixo.

Mas se neste mundo não há mais montanhas para um novo Mallory, para outro Hillary ou até para um novo Stamm, as há de sobra para quantas Gerlinde aparecerem. Até mesmo no humilde Pico Paraná sempre haverá lugar para eles. Cada um com sua própria estatura, lutando contra suas próprias limitações.

O professor desta matéria tem por método nivelar o acesso a montanha pela capacidade dos clientes enquanto faz lobby pela proibição dos demais. “Confunde” mínimo impacto com impacto nenhum, mas se realmente deseja contribuir para um mundo de mínimo impacto que comece em casa, enforcando-se! E pare de encher o saco alheio com discursos vazios sobre temas que desconhece.

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Sobre o autor

Julio Fiori - Equipe AM

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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