A Extinção da Megafauna

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Acho o assunto da extinção das espécies extremamente doloroso. Gostaria que todas elas pudessem continuar convivendo conosco. Muitas foram extintas antigamente por razões naturais, ligadas ao meio ambiente. Mas as extinções mais recentes são ainda mais cruéis – foram principalmente causadas pelo homem. Ao longo destas colunas, você irá encontrar vários relatos a respeito, começando pela exótica megafauna.

O mais recente período da pré-história é chamado de Quaternário. Ele começa na época do Pleistoceno e termina no atual Holoceno. O Pleistoceno é testemunha da origem e desenvolvimento do homem e da atual conformação dos vegetais e animais. Ele se estendeu desde 2.5 milhões a pouco mais de 10 mil anos atrás.

Homens Primitivos no Pleistoceno

O Pleistoceno foi palco de inúmeras glaciações, quando cresceram as calotas polares e caiu o nível dos mares. A vegetação preponderante eram as tundras frias, ou desertos gelados recobertos de líquenes. Nos períodos interglaciares surgiram as pastagens temperadas e a aridez fez recuarem as florestas. Ele terminou no calor ameno do Holoceno.

Visão do Pleistoceno na América do Norte

Foi durante o Pleistoceno que os ancestrais humanos evoluíram e migraram da África para a Europa. As diversas espécies de hominídeos foram suplantadas pelo vitorioso Homo Sapiens, do qual um seu representante lê agora esta coluna. Esta foi também a época do surgimento da megafauna, de grandes mamíferos pré-históricos.
O gigantismo destes animais sugere ter havido abundância de alimento no seu ambiente. Além disto, adaptaram-se ao frio através de camadas adiposas, grossas peles e pelos espessos. Entretanto, no último período interglacial quase todos esses fantásticos animais desapareceram, no que foi chamada de extinção em massa. Ou ainda, de sexta extinção, ainda em andamento – mas este é um assunto ao qual voltarei depois.

Quais as razões desse desaparecimento? Em muitos casos, foram naturais. Principalmente ligadas à mudança climática, pela variação de temperatura que afetou grandes animais pouco flexíveis. Quando o clima esquentou, as savanas cederam espaço às florestas e os grandes herbívoros perderam suas pastagens. A natureza se fragmentou e a qualidade da alimentação decaiu. Subiu o nível dos mares, inundando áreas antes comodamente habitadas pela fauna.

Manada de Mamutes na Era do Gelo

Entretanto, muitos animais de porte conseguiram sobreviver, mesmo na presença de florestas densas. São exemplos os elefantes, ursos, rinocerontes e antílopes. Além disto, a extinção parece ter sido mais ou menos simultânea em todo o globo, embora a megafauna habitasse então tanto regiões geladas como temperadas. Então, outros fatores devem também ter operado.
Um deles estaria associado à explosão demográfica da espécie humana. Os homens passaram a ocupar novas terras, a coletar alimentos em vastas regiões e, por serem onívoros, a competir com as espécies carnívoras e herbívoras. A caça deve ter ocorrido com maior intensidade na Europa e América do Norte, que estavam sujeitas à glaciação.
Além da caça, teriam havido outras ações predatórias dos homens, como a doença e o fogo e, indiretamente, a redução da biodiversidade que favorecia a vida animal. Além disto, se o clima fosse adverso, os animais sempre poderiam migrar para regiões mais propícias, o que não aconteceu – talvez por terem sido erradicados antes pelos homens.
Vou citar (com adaptações) o excelente Yuval Harari: Nossos antepassados levaram à extinção todas as outras espécies humanas do mundo, 90% dos animais de porte da Austrália, 75% dos grandes mamíferos da América e 50% de todos os grandes mamíferos terrestres – e tudo isso antes de plantar o primeiro trigo, criar a primeira ferramenta de metal, escrever o primeiro texto ou cunhar a primeira moeda.

Mas, inversamente, a África e a América do Sul não passavam então por uma glaciação e nelas não havia a necessidade de recorrer à caça sistemática. Além disso, as técnicas de caça não eram suficientemente aperfeiçoadas para abater grandes animais. Então, a extinção teria sido neste caso causada principalmente pela mudança adversa da vegetação, derivada do clima – e, portanto, natural.

As Exóticas Macrauquênias na Savana

A importância do fator climático tem um aliado na atual existência da megafauna na África. Lá a umidade e o aquecimento que diminuíram as savanas na Europa tiveram um efeito inverso. Transformaram os grandes desertos que então existiam ao sul e norte da África em savanas, favorecendo a sobrevivência (até hoje) de elefantes, girafas e leões.
Assim, você pode escolher uma dessas duas hipóteses, climática ou humana – ou ambas. Na realidade, não me parece que a extinção da megafauna seja até hoje completamente explicada.

Mas queria falar agora de alguns desses extraordinários animais que perdemos, antes de sequer tê-los conhecido no período histórico. Comento a seguir algumas das espécies encontradas nas Américas.

Megatério se Alimentando de Folhas

Os megatérios, gênero de preguiças gigantes, eram do tamanho de um elefante, com até 5 toneladas. À semelhança dos tamanduás, acionavam sua língua para colher as folhas das árvores. Apesar de sua altura, eram bichos pacíficos e lentos, embora muito fortes. Não atacavam, mas podiam se defender com suas enormes garras.

Mastodonte Americano, Precocemente Extinto

Os mastodontes eram herbívoros que comiam folhas e ramos. Foram precocemente extintos, diferentemente dos mamutes, dos quais algumas variedades existiram até 2 a 4 mil anos atrás. Mamutes podiam chegar de 20 toneladas, mas havia também as espécies anãs. A ação do homem foi importante na sua extinção, pela busca de sua carne, ossos e couro.

O Estranho Toxodonte, Semelhante a um Hipopótamo

Outro herbívoro gigantesco era o toxodonte, que chegava a 2 toneladas. Lembrava o hipopótamo, com suas patas curtas e seu corpo arredondado. A posição baixa de sua cabeça indicava alimentar-se de pastagens. Há evidências de que foi caçado pelos homens, por causa de seu tamanho e lentidão. Desapareceu no período de intercâmbio entre as espécies na América, criado pela ponte de terra no Panamá.

Talvez os mais estranhos herbívoros tenham sido as macrauquênias. Tinham uma cabeça comprida, uma pequena tromba e um longo pescoço, assemelhando-se às girafas. Com até 1 tonelada, eram um tanto vagarosas, mas capazes de se esquivar dos felinos. Últimas de sua linhagem, foram extintas pela maior competição causada pelo intercâmbio entre espécies do norte e do sul da América.

Gliptodonte, o Bizarro Tatu Gigante

O gliptodonte era um bizarro tatu ancestral com cerca de 2 toneladas. Era um herbívoro lento, com uma carapaça rígida e grossa e uma bola espinhosa na cauda, que funcionava como uma poderosa maça. Alimentava-se de vegetações rasteiras. Suas carapaças serviam de abrigo para os humanos – e sua carne era também cobiçada.

O smilodon foi um felídeo, conhecido como tigre dentes de sabre. Maior do que os atuais felinos, com longos e protuberantes caninos curvos e grandes membros anteriores, era predador dos grandes herbívoros. Os maiores espécimes chegavam a 1/2 tonelada. Foram provavelmente extintos pelo desaparecimento dos animais que caçavam. Não se sabe se eram animais solitários ou sociais.

Smilodon ou Tigre Dente de Sabre

Hipidions eram cavalos selvagens, com um só dedo que formava o casco e com uma pequena tromba. Eram relativamente grandes, com 1/3 de tonelada. Isto lhes permitia comer as folhas das árvores, não só a grama do chão. Eram na América os equivalentes das zebras da África. Apesar de animais corredores, foram extintos pela ação dos felinos e dos homens.

Hippidion, o Cavalo Primitivo

Como o mundo seria mais interessante se, mesmo apenas em reservas, pudéssemos avistar esses animais gigantescos e extravagantes.
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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