A Lendária travessia ALPHA-ÔMEGA.

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Relato de uma das mais lendárias travessias de nossa Serra do Mar Paranaense realizada por Caroline. J. Kutz, Murilo Hartmann, Iury Rech Franceschi (iury) e Moizes Jose Oliveira.

A referida travessia é realizada em uma parte da unidade de conservação Estadual, ou seja, de proteção integral à natureza que abrange os municípios de Piraquara, Quatro Barras e Morretes no estado do Paraná. Foi idealizada nos anos 60 pelo honrado montanhista Henrique Schmidlin (Vitamina) e concluída somente na década de 90 por Paulo César Souza (Máfia) e Dálio Zippin Neto (Dalinho).

Se não bastasse o difícil caminho entre vales e cumes o tempo estava contra nós, o nosso trajeto era de aproximadamente 20 km, que teria que ser percorrido em três dias. Pois, o objetivo final era descer pela trilha noroeste (trilha vermelha) do Marumbi.

No dia 05 de maio de 2019, eu, Caroline, tive a “feliz” ideia que naquela semana o A.O teria que ser feito. Ah, essa minha “bendita” ansiedade! Resolvi convidar e enlouquecer meu amigo Murilo que nós teríamos que fazer a travessia, eu não teria outra chance.

E no dia 08 de maio de 2019, iniciamos a alucinante travessia conhecida como “A.O”, eu precisava desse desafio, eu precisava sentir o meu coração vibrar, eu ia até o fim com os meus amigos.

A vontade e o sentimento de todos em concluir a travessia era imensurável, tal sentimento pode ser descrito em uma das músicas dos Engenheiros do Havaí:

“Não vim até aqui
Pra desistir agora
Entendo você
Se você quiser ir embora
Não vai ser a primeira vez
Nas últimas 24 horas
Mas eu não vim até aqui
Pra desistir agora

Minhas raízes estão no ar
Minha casa é qualquer lugar
Se depender de mim
Eu vou até o fim […]”.

Foi com essa vontade que eu, Caroline, e meus amigos, Murilo, Iury (iury) e Moizes, nos encontramos na quarta-feira pela madrugada e às 07h30min, do dia 08.05.2019 demos início pelo Morro do Canal à famosa A.O.

Primeiro dia – Do Canal ao Mesa.

O Morro do Canal, sabe-se que é muito frequentado, portanto, a trilha toda é bem demarcada, com fitas, grampos e cordas, consideramos de nível fácil tendo em vista o que nós aguardávamos. Às 07h30min, começamos a subir o Canal o tempo estava instável, nublado e garoava razoavelmente e ao atingirmos o cume seguimos em direção ao Vigia, que era o segundo morro do dia.

Entrada do Morro do Canal

O mais engraçado da travessia era o bom humor contagiante do Sr. Moizes, “o tio do crocs rosa”, tudo estava lindo mesmo sem sol o otimismo fazia com que o grupo se desse muito bem.

Cabe ressaltar que na A.O, diferente de muitas travessias, os trechos em cada cume não seguem exatamente um padrão, mas sim, são percorridos por vales úmidos de vegetação fechada e com a chuva o grau de dificuldade redobra.

Às 09 horas alçamos o cume do Vigia, como o tempo estava instável não tivemos vista e com a garoa que caia seguimos direto para o cume do Ferradura, cuja, bifurcação um pouco abaixo do cume do vigia.  A partir deste momento a vegetação se tornou mais fechada e o caminho menos demarcado.

Do cume do Vigia ao Ferradura é um “pulo”, desta vez, não marcamos o tempo, e aos chegarmos no Ferradura começamos a descer o vale que vai para o Morro do Carvalho, local onde é se encontrado destroços de um avião que caiu na Serra do Mar no ano de 1967.

O vale que vai até o Carvalho é um, dos mais desgastantes, pois, no local há uma escalaminhada/ escalada de baixo grau pelo leito seco, que no dia parecia uma cachoeira, tivemos que passar por duas cordas para ascensão ao cume e  a subida nós cobrou um pouco mais que nos cumes anteriores, neste momento a garoa já havia virado chuva, mas nós não iriamos desistir. Ao chegarmos no cume do Carvalho fomos procurar os destroços do avião, claro, que no caminho ouve alguns tropeços e escorregões, mas nada que fosse grave.

Destroços do Avião (Morro do Carvalho).

E, então às 12 horas seguimos caminho para o acampamento fantasma, local onde se há uma lona azul abandonada e nas árvores existe um par de botas e uma mochila pendurada. Resolvemos almoçar debaixo da lona para depois seguirmos caminho ao sem nome, durante a refeição decidimos que iriamos acampar no Mesa devido ao desgaste e frio que estávamos.

Até o momento não tivemos problema de navegação, tudo corria conforme o planejado e após à ascensão no cume do sem nome fomos rumo ao mesa, neste vale a caminhada se tornou mais atenta, como eu, Caroline, já conhecia avisei os meninos que o local era cheio de gretas e todo cuidado era pouco.

O Murilo e Iury prosseguiram na frente para que conseguíssemos chegar antes do anoitecer no acampamento 01 e às 17 horas um pouco antes do cume do Mesa armamos nossas barracas, já desgastados pelo frio e pela chuva. Nosso descanso durou quase 12 horas, fomos castigados por “São Pedro”, há há ha, que ele não me ouça.

– Cumes atingidos no Primeiro dia: Canal, Vigia, Ferradura, Carvalho e Sem Nome e Mesa.

Acampamento Fantasma.

Segundo dia – Dos Alvoradas (4,3 e 2) ao Pelado.

No segundo dia (09.05.2019), amanheceu com um clima mais aberto e às 12 horas, após uma fotossíntese, como uns míseros raios de sol partimos sentido para às Alvoradas (4, 3 e 2), trajeto esse que tínhamos em mente que seria mais complexo. O objetivo era chegar até o cume do pelado nós não tínhamos tanto tempo e com a atenção redobrada e um trabalho em equipe, vencemos os vales e só paramos para respirar no Alvorada 3.

Pulmão em seu lugar, sabíamos que já se passava das 14 horas, apertamos o passo e a próxima parada seria no cume do pelado. Meu caro leitor, aí que vem o problema, mais vales cujo qual é um sobe e desce sem parar, chuva no lombo,  a cargueira se tornava um peso, pois à todo momento alguém se enroscava na vegetação, sem falar nos tombos e escorregões, as pernas pesavam  parecia que tudo conspirava contra nós.

Lembro-me até agora, que as encostas das montanhas que desviamos pareciam assustadoras, gretas e mais gretas a umidade reinava nos vales. Quando finalmente  começamos a subir o Pelado, adivinha, uma corda de 90 (noventa) graus e ainda teria mais uma,  no meio do caminho começou a escurecer e resolvemos acampar às 18 horas, um pouco antes do cume, pois o nevoeiro já havia tomado conta, mal sabíamos que estávamos do lado do cume.

Nesse segundo dia tivemos que prepara as comidas dentro das barracas, visto que, lá fora está insuportável aguentar o frio. Nosso cardápio foi risoto e macarronada com queijo e azeitonas, precisávamos nós alimentar bem, porque não paramos para o almoço.

Observa-se, que até o momento nós teríamos navegado a travessia sem GPS e Wikiloc, tomamos alguns perdidos mas nada que alterasse nosso destino.

Destroços do Avião no Pelado.

– Cumes atingidos no Segundo dia:  Alvorada (4, 3 e 2) e Pelado.

Terceiro dia – Do Pelado à Estação Marumbi.

Enfim, o terceiro dia (10.05.2019), levantamos cedo e para nossa surpresa o tempo abriu, minha nossa que visão magnifica! Parecíamos criança ao visualizar a serra limpa, merecíamos e com essa benção seguimos o caminho mais alegres.

Paramos uns minutos na famosa asa do avião e fomos rumo ao vale do Ângelo e que vale monstruoso!  Começamos a subir o vale aproximadamente às 10h30 min, um vale extenso, difícil, cheio de gretas e rochas no caminho. Não parávamos mais de subir e até que uma luz no fim do túnel, eis que, o cume do Ângelo. Ufa, dali iriamos para o Leão e logo Boa Vista.

Ao chegarmos no cume do Boa Vista (às 16 horas), depois de passar por uma corda sinistra, descansamos um pouco, porque logo estaríamos concluindo a travessia. Ah, doce inocência, quando começamos descer o Boa Vista fomos para a Muralha passando por precipícios e assim atingimos a pedra da lagartixa, ufa!

Cume do Boa Vista e despedida da A.O.

Cume do Boa Vista ( O tio do Crocs Rosa)

Chegamos ao cume do Olimpo às 18 horas, que sensação indescritível nós estávamos exaustos, sujos, mais orgulhosos. Momento este, que descemos pela Noroeste (trilha vermelha) passando pelos cumes do Gigante e Ponta Tigre. A descida parecia não ter fim, estava molhada, já era noite, o cansaço tomava conta e tudo o que nós queríamos era um banho quente, uma Coca-Cola e um vinho para brindar o “suicídio”. Confesso que nos momentos finais eu, Caroline, tive vontade de me jogar da trilha ou sentar no chão e não ir mais embora, mas graças aos meninos tudo deu certo e às 22 horas chegávamos a Estação Marumbi.

Na Muralha rumo ao Olimpo e descida pelo Noroeste.

– Cumes atingidos no Terceiro dia: Ângelo, Leão, Boa Vista, Olimpo, Gigante e Ponta do Tigre.

Considerações Finais.

Após três dias intensos na Serra do Mar, fica um tanto difícil descrever um relato, são sensações e emoções que só podem ser vivenciadas pelos que se atrevem a desafiar a cobiçada A.O.  Não foi fácil, se desgastamos durante o percurso por vários motivos, mas o que realmente fez a diferença foi o companheirismo e o espirito de equipe que havia entre nós.

A travessia (A.O) exige conhecimento de navegação pois são vários vales, cumes fechados, gretas e um terreno traiçoeiro.  Pesquise, leia, converse com pessoas que já fizeram e quando estiver pronto embarque nessa aventura.

Admito, não foi fácil, mas se for fazer algo, faça por você! Conquiste os seus sonhos e nunca deixem que lhe digam que você é incapaz.

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Sobre o autor

Carol Kutz

Caroline Kutz, 27 anos, Natural de Curitiba-PR, , Formada em Direito pela OPET. Pós-Graduada Direito Penal e Processo Penal pela Abdconst. Montanhista desde 2017, praticando assídua, tem paixão pelo Pico Paraná. Já fez várias travessias no PR e SC. Atualmente iniciando na prática da Escalada em Rocha.

2 Comentários

  1. Getúlio R. Vogetta
    Getúlio R. Vogetta em

    Fala sério! Cordas no Pelado??
    AO está virada em passeio no parque mesmo.
    Não é desmerecer o desafio da travessia, mas já foi o tempo em que essa travessia era realmente selvagem.

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