A Lua e o Frade

0

Se você olhar a Pedra do Frade de dentro da encosta da Serra do Mar, vai pensar que dificilmente conseguirá escalar aquele cilindro liso que emerge protuberante e ameaçador da vegetação fechada ao seu redor.

Chegar até este ponto foi para mim, minha esposa Myriam e o garoto Martin, e para os dois locais que nos acompanhavam, uma longa aventura atolados na lama, que a chuva e os palmiteiros tinham causado. 
 
Na clareira chamada Baixada dos Cachorros deixei várias vezes meu tênis no barro (na época, ainda não usava bota), mas afinal chegamos na grota a partir da qual começaria a ascensão final. 
 
Tínhamos caminhado dentro de uma frente fria que nos envolvia em persistente neblina. Nossa expectativa era ter uma primeira visão da pedra a partir da Baixada, mas tudo o que enxergamos foi o véu branco da névoa.
 
Mas tive então na grota duas más notícias: Precisamos comer, disseram nossos acompanhantes. Estávamos no começo da tarde e haveria tempo suficiente para chegar ao cume, quando então poderiam cozinhar. Mas concordei com eles e fui surpreendido por uma enorme panela, saindo de repente da mochila. Dela foi produzido mais tarde um ótimo arroz. 
 
Arrumei então minha mochila para partir. Não vamos, a pedra é mal assombrada, quem dorme lá escorrega para a morte, disseram. Respondi que iria com ou sem eles. Isto os intimidou, acho que ficaram receosos de pousar sozinhos na grota e acabaram nos acompanhando.
 
A subida do Frade foi uma surpresa, pois vinte anos atrás um grupo de crentes havia colocado degraus de madeira que facilitavam o caminho, sem a meu ver ofender a natureza. Umas oito horas depois da partida, chegávamos ao topo da pedra.
 
Mas a maior surpresa foi encontrar uma cama de capim tão amena que nos fez dispensar a barraca – e uma das mais lindas luas cheias, que tornou nossa noite uma experiência mágica. Pois a frente fria havia passado e o nascer do sol nos mostrou ao lado a verde e ondulada Bocaina e à frente o cintilante mar enorme.
 
Amanhecer no topo de uma montanha sempre me parece uma prática gloriosa, dá vontade de nunca mais voltar. Mas claro que não foi o caso – como ninguém havia escorregado para a morte, chegamos sem maiores acidentes os cinco de volta na tarde seguinte.
 
Ao longo de tantos anos depois, voltei a enxergar o perfil arrogante do Frade, de baixo no litoral, de lado na Bocaina e de cima nas serras da região. Mas nunca retornei lá, para outra mágica noite de sono. 
 
Compartilhar

Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

Comments are closed.