A Lua e o Frade

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Se você olhar a Pedra do Frade de dentro da encosta da Serra do Mar, vai pensar que dificilmente conseguirá escalar aquele cilindro liso que emerge protuberante e ameaçador da vegetação fechada ao seu redor.

Chegar até este ponto foi para mim, minha esposa Myriam e o garoto Martin, e para os dois locais que nos acompanhavam, uma longa aventura atolados na lama, que a chuva e os palmiteiros tinham causado.

Nascer do Dia na Pedra do Frade, Bocaina, RJ

Na clareira chamada Baixada dos Cachorros deixei várias vezes meu tênis no barro (na época, ainda não usava bota), mas afinal chegamos na grota a partir da qual começaria a ascensão final.
Tínhamos caminhado dentro de uma frente fria que nos envolvia em persistente neblina. Nossa expectativa era ter uma primeira visão da pedra a partir da Baixada, mas tudo o que enxergamos foi o véu branco da névoa.
Mas tive então na grota duas más notícias: Precisamos comer, disseram nossos acompanhantes. Estávamos no começo da tarde e haveria tempo suficiente para chegar ao cume, quando então poderiam cozinhar. Mas concordei com eles e fui surpreendido por uma enorme panela, saindo de repente da mochila. Dela foi produzido mais tarde um ótimo arroz.
Arrumei então minha mochila para partir. Não vamos, a pedra é mal assombrada, quem dorme lá escorrega para a morte, disseram. Respondi que iria com ou sem eles. Isto os intimidou, acho que ficaram receosos de pousar sozinhos na grota e acabaram nos acompanhando.
A subida do Frade foi uma surpresa, pois vinte anos atrás um grupo de crentes havia colocado degraus de madeira que facilitavam o caminho, sem a meu ver ofender a natureza. Umas oito horas depois da partida, chegávamos ao topo da pedra.

Pedra do Frade na Serra da Bocaina, Angra dos Reis, RJ

Mas a maior surpresa foi encontrar uma cama de capim tão amena que nos fez dispensar a barraca – e uma das mais lindas luas cheias, que tornou nossa noite uma experiência mágica. Pois a frente fria havia passado e o nascer do sol nos mostrou ao lado a verde e ondulada Bocaina e à frente o cintilante mar enorme.
Amanhecer no topo de uma montanha sempre me parece uma prática gloriosa, dá vontade de nunca mais voltar. Mas claro que não foi o caso – como ninguém havia escorregado para a morte, chegamos sem maiores acidentes os cinco de volta na tarde seguinte.
Ao longo de tantos anos depois, voltei a enxergar o perfil arrogante do Frade, de baixo no litoral, de lado na Bocaina e de cima nas serras da região. Mas nunca retornei lá, para outra mágica noite de sono.
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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