A Pedra do Major

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Situada a 90 km de São Paulo, a pacata Cabreúva não só deve seu nome á árvore do mesmo nome como foi fundada no inicio do século 19 por estar estrategicamente alocada num amplo vale situado entre três grandes serras: Japi, Guaxatuba e Itaguá. Mas esta introdução didática da cidade é apenas pra dizer que foi nesta última serra, a de Itaguá, que se deu minha chinelada do último final de semana. Chamada equivocadamente de Morro do Jair, foi lá que andarilhamos numa tranquila vereda que alcança sua ampla cumeeira, coroada por um belo e cênico mirante rochoso a quase 900m, a Pedra do Major. No entanto, apesar de ser um programa sossegado, esta é mais uma caminhada proibida, pois este simpático caminho percorre uma propriedade particular.

Serra do Itaguá

A ideia era sair cedo e retornar logo depois do almoço uma vez que a previsão meteorológica estimava pancadas a partir da tarde. Mas isso não seria problema uma vez que o rolê daquele dia era coisa rápida, a despeito de sua relativa alta declividade. E era justamente isso que discutia com Alberto, no carro, enquanto rasgávamos a Rodovia Dos Bandeirantes (SP-348) em direção ao nosso destino. “Fica tranquilo quanto dificuldade, é um morro e não uma montanha!”, dizia pra ele. “Leia o artigo ´O que é uma Montanha´? Tem que ter um desnível mínimo de 300 metros! Não posso arriscar minha (pouca) reputação sendo visto num morro!”, respondia ele. Independente de ser morro ou montanha, o fato era que minhas informações davam conta que o lugar era chamado de Morro do Jair e eu me fiava de que realmente fosse rápido e tranquilo. Vejamos.

E assim, após tangenciar Jundiaí, contornar quase todo espigão da Serra do Japi pela SP-300 e cruzar Jacaré, distrito norte do município de Cabreúva, finalmente chegamos no centro da pacata cidade que recém levantava. O dia estava radiante e nem as poucas nuvens no firmamento insinuavam que o contrário pudesse ocorrer. Cabreúva, cidade que se desenvolvera a partir da produção de aguardente, recém levantava naquele horário, onde meu celular indicava pontualmente 9h! De ruas estreitas e ar interiorano, cruzamos a simpática pracinha central de onde destoam os traços da Igreja Matriz Nossa Senhora de Piedade, até finalmente cair na Estrada dos Romeiros (SP-312) onde pegamos asfalto na direção de Itu.

Mas não se anda sequer três ou quatro quilômetros pela rodovia que logo encostamos numa discreta (e quase imperceptível, de tão tomada de mato), entrada a direita da estrada. Ali tem algum entulho despejado e uma precária cerca de madeira que sinaliza o acesso á serra ser por ali, uma vez que dali parte uma larga vereda que ganha suavemente um ombro alargado da mesma. Ali temos também o vislumbre do alto espigão que antecede o morro que, propriamente dito, se encontra logo atrás. Ali então, perto dos 590m, a motora Alê nos deixa, pra marcar de nos encontrar horas mais tarde no mesmo lugar. Ah, e conosco teríamos a ilustríssima companhia canina, uma vez que o Alberto trouxera seu fiel escudeiro pra queimar energias, o intrépido e gorducho Luvinha!

Começa numa estrada particular.

Cruzamos a porteira e começamos nossa chinelada, tranquila e sem pressa, vereda acima. O caminho toca logo de início numa linha reta, sempre norte, ganhando altura suavemente num trecho descampado, cruza outra porteira (esta aqui metálica) e se pirulitar serra acima mergulhando num trecho de vastos reflorestamentos de eucaliptos. O caminho é visivelmente uma antiga estrada de extração desativada, ou quase, uma vez que no chão há vestígios da passagem dos adeptos de duas rodas. A subida é lenta, uma vez que vou ao ritmo ditado pelo Alberto, embora o pulguento Luvinha eventualmente dispare na dianteira indiferente à gente.

Trilha bem tranquila

Depois de ganhar o ombro serrano, a vereda desvia sentido nordeste pra então subir bem forte, na diagonal, aquele íngreme contraforte do morro. O bosque então nos permite uma breve janela de visibilidade ao cortar um aceiro de linhas de alta tensão, nos dando uma noção de quanto que já foi ganho em altitude. O caminho então vira abruptamente pra oeste, agora ladeando a serra sem muita declividade, quase em nível, se mantendo assim por pouco tempo. Este trecho apresenta o solo bem seco, porém escorregadio, nos obrigando a pisar com cautela pra não carimbar o quinto apoio de forma inadvertida.

Mas é somente quando nossa rota retoma a direção norte que a vegetação se torna mais exuberante, mesclando mata ciliar aos onipresentes trechos reflorestados. Visivelmente adentramos no miolo do serra, onde as sucessivas dobras e espigões formam um íngreme vale interno, do qual consegue se ouvir muita água correndo lá no fundo. O caminho então tangencia novamente a linha de alta tensão pra então acompanhá-la à distância, á esquerda. Mas é na cota dos 750m que começam a surgir enormes pedras a margem da vereda, onde uma árvore parecida ao Baobá do “Pequeno Príncipe” chama não só minha atenção como a do Alberto. “É figueira?”, perguntei curioso. “Não sei!”, ele respondeu. E assim ficamos com esse ponto de interrogação a respeito daquele majestoso gigante da floresta.

Mega árvore no caminho

Foi ali, logo após cruzar a árvore, que cruzamos com uma decrépita caminhonete que se empenhava em andar naquele caminho relativamente acidentado, parando ao nosso lado. “Quem são vocês?”, nos pergunta o tiozinho com forte acento interiorano. “Aqui é propriedade particular!”, emenda. Pronto, era o que faltava. No entanto, educadamente, terminamos tendo uma esclarecedora conversa com o sujeito, que se apresentou como Homero e dizia ser dono daquelas terras que atendiam pelo nome de Fazenda do Major. Perguntei do tal Morro do Jair e ele frisou que Jair era o proprietário da propriedade vizinha, a leste, a Fazenda Taguá. Queixou-se das incontáveis “invasões” por parte dos ciclistas e que em breve o acesso seria fechado. Preocupado com nosso rolê, perguntamos se poderíamos ao menos chegar ao alto da pedra e ele terminou dando de ombros: “Pode ir, mas fica desde já sabendo que não pode vir aqui. e que em breve tudo vai mudar, vamos fechar tudo! Com multa e tudo!”.

Nos despedimos do tiozinho e prosseguimos nossa chinelada morro acima, agora na direção oeste, cruzando uma área de várzea no miolo do vale supracitado, na cota dos 780m. Nessa área se concentra toda a umidade que a serra acumula, inclusive, dali que nascem os afluentes que formam o Córrego Cabreúva, que corta a cidade do mesmo nome. Daqui é que temos o primeiro contato visual do alto da Serra do Itaguá, a nordeste, cuja encosta alterna pasto e focos de mata. Chapinhando em meio a troncos e capins dançando ao vento, cruzamos então o trecho de brejo pra prosseguir nossa andança novamente no chão seco. A exceção do Luvinhas, claro, cachorro este que não pode ver água que já quer se refrescar. Dito e feito, num piscar de olhos a barriga do pulguento pingava água e lama, pra satisfação do seu zeloso dono.

Trecho interno com muito brejo

Cruzado o trecho de charco a subida se dá pela encosta oposta do vale, ganhando uma íngreme pirambeira que serpenteia sinuosamente um novo ombro serrano ascendente, novamente retomando a direção norte. Antes disso, porém, passamos por um túnel espesso de vegetação e um trecho plano bem gramado, onde se encontram as ruínas da outrora Fazenda do Monjolo, antigos proprietários daquelas terras, segundo consta na carta da região. Ali, pouco antes da cota dos 800m, um casebre caindo aos pedaços divide espaço com fundações de outras construções, enquanto do lado há algum maquinário enferrujado largado ao tempo, inclusive um enorme silo sendo engolido pelo mato. Foi neste trecho que cruzamos com vários bikers fazendo downhill do morro e perguntei ao Alberto se eles também haviam sido parados pelo tiozinho da caminhonete. “Certamente que não!”, respondeu.

Ruínas da antiga Fazenda Monjolo

A ascensão então prosseguiu de forma morosa, porém ininterrupta pela encosta esquerda do vale, que lentamente se abria revelando o contraforte central da Serra do Itaguá, predominantemente descampado e coberto de pasto. Dali também já se avista a Pedra do Major, alocada num cocoruto proeminente do alto da serra e o melhor era se via perfeitamente uma trilha que ia direto ao encontro dela! Perfeito! Bastava apenas nos manter no caminho palmilhado – o principal – até interceptar o rabicho da vereda avistada. Navegação visual facílima!

Pela encosta de pasto

 

Este rabicho de caminho surgiu na cota dos 850m, quando abandonamos a via principal (que por sua vez toca pro norte e desce pro outro lado da serra) e ganhamos a íngreme encosta de pasto, agora na direção nordeste. Este caminho é um trilho de boi bem batido que sobe imperceptivelmente até o alto da serra na basicamente na diagonal. As sujeirinhas deles indicam isso. Trajeto bem simpático que sobe e desce o pasto, cruza dois grandes focos de mata onde destoam enormes cactos, e eventualmente intercepta uma ou outra vereda, mas que não representam problema, pois o sentido a tomar é óbvio. Sem erro algum.

Cruza foco de mato

E assim, por volta das 10:45 alcançamos os 890m da grande rampa rochosa e proeminente que se projeta do alto daquele contraforte serrano. O alto da serra é grande e largo, com trechos recobertos de eucaliptos e cujo ponto mais alto figura em torno dos 905m, mas isso pouca importância tinha pra gente, pois estávamos na tal Pedra do Major. Vestígios de fogueira sobre a rocha porosa sugerem o lugar como acampamento perfeito pra noites estreladas. E lixo? Incrivelmente não havia nenhum! A vista por sua vez privilegia todo o verdejante quadrante sul, onde se eleva de forma imponente a Serra do Guaxatuba, a sudeste; enquanto Cabreúva sequer aparece a seus pés, oculta pelo primeiro contraforte da Serra do Itaguá. E ali empoleirados naquela enorme rampa nos brindamos um breve pit-stop de descanso e algumas mastigadas do lanche trazido nas mochilas.

O descanso estava bom, mas o Alberto sugeriu começar a descer tendo em vista as nuvens grossas que começavam a se avolumar no firmamento, que até então estava limpo feito brigadeiro. Partimos dali quase meia hora após ter chegado e decidimos acompanhar a vereda que partia da crista, na direção oeste, caminho simpático e felizmente bem sombreado. Como que prevendo, interceptamos o caminho da ascensão e dali o refizemos no sentido contrário. Pra economizar chinelada, fomos cortando caminho por oportunas trilhas que desciam diretamente pelo pasto e nos deixaram num piscar de olhos nos fundos das ruínas da Fazenda Monjolo. Dali em diante prosseguimos pelo caminho principal, embora eu tenha observado que é possível descer (afastando mato) pelo aceiro da linha de torres de alta tensão. No caminho, o travesso Luvinha não deixou por menos e mandou ver um tibum no brejo da cabeceira do vale.

Visual do topo da Pedra do Major

Chegamos finalmente no comecinho da trilha por volta das 12:30h, onde a Alê nos aguardava pacientemente. Sim, pra variar a descida foi bem mais rápida que a subida. E após uma rápida limpada nas patinhas do Luvinha – que se estatelou no banco traseiro, cansado – retornamos pra Sampa sem pressa pela Rodovia dos Romeiros, via Santana do Parnaíba e Barueri, ainda a tempo de tornar produtivo o restante daquele domingo. E contrariando a previsão meteorológica, não caiu um pingo de água nem em Cabreúva nem na Paulicéia Desvairada.

Pra finalizar gostaria de tecer duas questões referentes ao rolê: a primeira é sobre sua nomenclatura, uma vez que o lugar é conhecido informalmente como “Morro do Jair”. No entanto, pelos esclarecimentos dados pelo proprietário essa designação é equivocada, pois Jair é o proprietário da fazenda vizinha. Sendo assim eu e o Alberto tomamos a liberdade de chamar o lugar de Pedra do Major, fazendo jus ao seu dono legítimo. A outra consideração é referente ao acesso, que tecnicamente é proibida. Apesar disso, durante nossa visita tropeçamos meia dúzia de ciclistas transitando pelo mesmo caminho, o que nos leva a crer que a fiscalização é meio “seletiva”. Mas isso deve mudar, conforme as palavras do proprietário. Haverá multa em breve. Bem, agora se você vai encarar a Pedra do Major, um programa simpático e bem sossegado, aí cabe a você decidir.

Eu e o Luvinhas

No topo

 

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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

2 Comentários

  1. Avatar

    O nome Morro do Jair surgiu porque o cantor Jair Rodrigues, vizinho do Taguá, fazia suas caminhadas por lá e frequentemente cruzava com ciclistas off road de Itu.

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