A Pedra Roxa de Guarulhos

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O “Morro da Pedra Roxa” é a forma genérica de como aventureiros de Guarulhos (SP) designam um conjunto de morros interligados que antecede a Serra da Cantareira. Conhecido da galera off-road pelos circuitos realizados na sua base, seu agregado de suaves elevações forradas de capim varrido são também desculpa pra curtos passeios ao ar livre e belos visus, alguns com direito até acampamento. Aproveitando um dia qualquer, me pirulitei curioso em conhecer o lugar. O que vingou num agradável breve rolê urbanóide e de baixo desnível que começou na “Pedra Roxa” e foi além do “Morro do Macaco”, 8kms a leste. Noutras, um bate-volta simples que revela uma simpática serrinha doméstica na zona norte da capital paulistana.

Domingão preguiçoso e sem nada previamente programado, lembrei duma dica soprada por uma colega guarulhense anos atrás. Era um morro que a galera da Vila Rio costuma acampar no topo, e que seu lugar de encontro costumava ser um shopping center ali perto. Imediatamente fui no computador buscar as infos de transporte e lá me mandei conhecer aquele desconhecido lugar tão perto mas aparentemente promissor prum bate-volta, ao menos pra mim. Pra minha surpresa o acesso mais viável era o mesmo utilizado pra ir pro Núcleo Cabuçu, do PE Cantareira.
Hora e meia depois estava nos pontos dos intermunicipais ao lado da Rod. Tietê, onde embarquei no azulzinho “337 Guarulhos – Jd Acácio”, que num piscar de olhos rasgou além dos limites da paulicéia desvairada, onde o cinza urbanoide logo deu lugar a um verde semi-rural denotando a proximidade da serra. Uma vez ao rodar pela extensa e poeirenta Av. Pedro de Souza Lopes ou “Estrada do Cabuçu”, cujos trocentos outros nomes podem confundir o forasteiro desavisado, impossível não reparar na janela do buso emoldurando, a direita, estruturas curvadas aparentando conter as encostas daquele lado. Contudo, as mesmas nada mais são q tubulações remanescentes da época em q a Represa do Rio Cabuçu abastecia São Paulo com seu precioso liquido. Já do outro lado é possível observar o que restou do ribeirão supracitado, serpenteando seu curso poluído pra desaguar no Rio Tietê, alguns bons kms adiante.
Depois de muito sacolejo pela poeirenta estrada, saltei pouco depois das 11hr na “Praça do Teiú”, cerca de 3 ou 4 pontos antes da entrada do Núcleo Cabuçu, do PE Cantareira. A praça é minúscula, porém pitoresca, com pequenas e simpáticas estatuetas dos répteis que emprestam seu nome a ela. Mas é dali que nasce a bifurcação que nos leva ao pé da serra, no caso, a Av. Benjamin Harris Hannicutt, que toca pro sul em suave aclive. No caminho, cruzo com o corte gigantesco na serra das nababescas obras do Rodoanel Norte, rasgando o quadrante local de leste a oeste. No entanto, a sudeste e bem próximo, é possível já ter a primeira vista duma das extremidades do serrote almejado, que alterna sua encosta oriental entre campos e mata secundária.
Pois bem, após andar quase 2km e já ladeando a Vila Operária e adentrando na perifa da Vila Rio, abandono então a via asfaltada por outra de chão q nasce a minha esquerda q atente por rua Brasilina Ignes Brancaleoni Trama. Uma vez nela não tem mais segredo. O frescor do verde imediatamente me envolve assim como o rumorejo de água correndo em meio a mata, que logo se revela um minúsculo afluente do Córrego dos Cabos. Após uma tal “Fazenda 4×4” e até ruinas duma antiga de arquitetura colonial, abandono a via de chão pela ramificação da direita, onde o horizonte se abre de modo q revela a primeira encosta do morro a vencer.
Um enorme banhado seguido de lama numa junção de vale me desvia do caminho principal e a tendência é sempre ir na direção das trilhas visíveis, a leste. Mas não, o correto é tocar nas picadas sentido norte, subindo. Mesmo não portando bússola a navegação é bem fácil, basta acompanhar a linha das torres q vai na direção desejada. Bem, após cruzar um foco de mata ganho um enorme patamar plano onde há trilhas pra todos os lados (de novo), mas me valendo do artificio supracitado evito tropeçar com uma mureta divisora de propriedade e dar continuidade á ascensão sgte. Vale frisar que a vereda se resume a um trilho seco, erodido e terrivelmente escorregadio, motivo que redobra minha atenção nos aclives maiores. No caminho há vários cortes na encosta que revelam a possível origem do nome do lugar: terra roxa e avermelhada (cuja tonalidade se deve a presença de minério de ferro) reluz ao sol, resultante de milhões de anos da decomposição de rochas basálticas.
Ainda acompanhando o trilho ascendente, no aberto e bordejando o que parece ser uma propriedade, é que o caminho embica de vez ao mesmo tempo que ladeia o fundo e verdejante vale supracitado inicialmente. Guarulhos reluzindo pequenina por sobre o ombro denuncia a altitude ganha em tão curto tempo. No entanto, o suor escorre farto naquele dia limpo, de sol e calor a pino; mas não há pressa alguma e prossigo no meu ritmo, compassadamente. O frescor só revigora meu rosto qdo mergulho novamente na mata fechada, repleta de belos exemplares de gigantes da floresta, onde me deparo com a pirambeira final até o topo propriamente dito.
E após uma subida bem desgastante é q finalmente alcanço os menos de mil metros do cume da Pedra Roxa, pouco antes das 13hr. Uma clareira com restos de fogueira dividem espaço com algum capim e um arvoredo baixo capaz de oferecer sombra num dia claro. E no descanso á sombra dum solitário eucalipto, mastigo o chocolate a tiracolo na pochete (sim, fui sem mochila alguma!)  enqto aprecio a vista tão panorâmica qto polarizada a minha volta: o quadrante sul revela-se totalmente coberto da civilidade urbana de Guarulhos; enqto o norte mostra-se mais simpático pela silhueta verde da Cantareira estendendo-se pelo horizonte, pincelada por um ou outro vestígio urbano; o setor oeste revela-se parcialmento coberto por mata secundária, enqto no sentido oposto aprecio a crista ondulada daquela agradável serrinha espichando-se em suaves lombadas cobertas de pasto ralo.
Após breve descanso me mando pela crista daquela simpática serrinha, sentido leste, onde a brisa sopra agradavelmente o rosto no mesmo tempo em que varre a campina que cobre o morro. A rota não tem erro, pois ela segue paralela ás obras do Rodoanel, único vestígio de civilidade em meio a este verde pré-Cantareira. O terreno, totalmente aberto, permite visu das 2 gdes elevações que me esperam no decorrer da pernada, assim como os abruptos selados situados no caminho. Em meio ao verde natureba a minha esquerda, não posso deixar de repara no espelho d’água da represa Cabuçu, refletindo o céu limpo do daquele início de tarde.
Pois bem, antes da primeira lombada serra tropeço com uma dupla de jovens acampados, aos quais aceno cordialmente. Pelo que entendi da breve troca de palavras estavam limpando algumas trilhas pois haveria uma corrida de montanha nos dias sgtes. Nesse interim, não pude deixar de reparar numa enorme Bíblia entre seus utensílios de acampamentos. Dando continuidade a pernada e vencido o primeiro, longo e suave declive, ganho o cocoruto sgte sem maior problema apesar da declividade. Ali no topo do morro sgte consigo avistar, pequeninos, duas pessoas trilhando ao longe, noutra direção da serra. Sentido bairro, provavelmente.
O selado que me separa do Morro do Macaco é o mais íngreme, erodido e escorregadio, motivo pelo qual este trecho o faço com cautela, usando pés e mãos, e não raramente me segurando no mato a margem da vereda. Quem quiser desviar desta piramba reparei na existência duma discreta vereda (em meio ao capinzal) que desvia desta buraco e toca pela lateral, de forma suave, ao alto do “Morro do Macaco”. A subida se dá nos mesmos moldes da descida, mas a dificuldade em ganhar o novo topo é incrivelmente reversa á anterior.
No cume do “Morro do Macaco” faço mais uma breve parada pra remover carrapitchos, como pra observar a paisagem que se revela ao meu redor. Sentado nos pequenos rochedos que coroam o cume – que dividem espaço com mais restos de fogueira – observo tanto um novo olhar do caminho percorrido, a civilidade de Guarulhos e a proximidade com o bairro que atende pelo nome de “Sitio dos Morros”. Contudo, a trilha após cruzar focos de mata e por um campinho de futebol praticamente margeia o bairro pela esquerda, no meio duma florestinha.
Mas logo adiante a picada parece findar no quintal duma casa, onde sou obrigado a cair numa estradinha que agora percorre a crista. Cruzo algumas casas e vou de encontro à linha de torres de alta tensão, que vão no sentido desejado e me mantêm ainda apegado á crista principal. E é lá onde a picada de fato tem continuidade, afastando-se dos limites do bairro e adentrando num trecho mais natureba, repleto de eucaliptos, pinheiros e salpicado de belos rochedos no gramado. Pra variar, reparei que há uma picada que segue paralela a minha, abaixo a minha esquerda, mas a evito pra me manter sempre na cumieira dos morros, sem perda desnecessária de altitude.
E após um suave descidão ganho o novo cocoruto, onde algumas ruinas de residências parecem outra vez me sinalizar a proximidade do bairro da vez. Dito e feito, mais alguns minutos e desemboco as margens do Jd Acácio, coisa das 14hrs, que teoricamente coloca fim na minha pernadinha pelos morros. Digo teoricamente pois a picada ainda prossegue sentido oeste, descendo rumo o asfalto após uma sequência de baixas colinas. Mas como não queria dar no asfalto e sim num lugar fácil de tomar condução de volta, abandonei a picada e me pirulitei pelas ruas do pacato bairro, perdendo altitude rapidamente.
Me informando com locais cheguei rapidamente num pto final de vários coletivos, onde havia possibilidade de ir pro Metrô Tatuapé. Contudo, optei por esperar condução na via maior ao lado, a Silvestre Pires de Freitas, onde voltaria pela mesma linha que me deixara ali horas antes, isto é, no Metrô Tietê. Antes de retornar, claro, encostei num boteco onde molhei a goela com gosto com muita breja. Afinal, o dia fervia de calor e não portava mochila e água alguma sequer. Aproveitei pra trocar informações com  a galera local pra ter a ciência de mais rotas que partem dali rumo a Cantareira, caminhos já anotados pruma nova investida no lugar.
Em tempo, o “Morro da Pedra Roxa” não é nenhum programa desafiante ou perrengoso. Pelo contrário, é bate-volta breve, simples e bem fácil numa região pouco conhecida por quem não frequenta Guarulhos, mas que oferece uma pernadinha descompromissada numa elevação modesta e com belo visual. Algo bem parecido com os morros do Saboó (São Roque), Pedroso (Sto André) ou Capuava (Pirapora B. Jesus). Por ser coisa de menos de meio período, recomendaria emendá-la com a própria visita ao Núcleo Cabuçu, do PE Cantareira. Outra coisa: tempo limpo é fundamental pra aproveitar razoavelmente o lugar, pois com mera previsão de chuva perde-se não apenas a bela paisagem da Cantareira e da zona norte da cidade; transitar pela picada torna-se tarefa hercúlea e quase impossível, uma vez que as pirambas repletas de sedimento ficam lisas feito sabão.
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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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