A primeira vez é mesmo inesquecível

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Todos me perguntam como é eu comecei a guiar expedições na montanha. Até gostaria de contar uma história mirabolante e bem sucedida. Mas a verdade é que minha primeira experiência no ramo foi um verdadeiro fiasco!

Comecei em uma montanha chamada Lhotse, a quinta mais alta do mundo. Aos que nunca ouviram falar do Lhotse, é fácil apresentá-lo: escale o Everest até os 8.000 metros de altitude e vire à esquerda. Basicamente, o Lhotse divide a aproximação e os três primeiros acampamentos com a famosa e histórica rota nepalesa do Everest, porém é menos conhecida e, dependendo das condições, é tecnicamente mais difícil.
 
Naquela ocasião, tínhamos 17 clientes para o Lhotse e somente 8 para o Everest e eu fui como assistente da expedição. Além de mim, havia outros quatro guias, encarregados de cuidar do bem estar dos clientes pagantes.

 

Reunir todo o equipamento em Kathmandu não foi fácil. Eram sete toneladas de bagagem. Além disso, somente uma hora antes de voarmos para Lukla, onde a caminhada começa, é que as passagens aéreas chegaram. A Yeti Airlines tem aviões bimotores, e carregam até 16 pessoas. Era preciso três aviões para acomodar toda a expedição e cada um deles tem que voar com a maior carga possível. Todos os compartimentos vão cheios de cereais, malas e coisas do gênero.

Depois de uma hora e meia de voo, o momento mais perigoso de toda a expedição: o pouso. A pista tem 20 graus de inclinação, e termina em uma parede de rocha. Na última vez que estive por ali, um avião colidiu porque o piloto simplesmente se esqueceu de abrir o trem de pouso. Para se ter ideia, o aeroporto de Lukla está no programa"10 World's Most Dangerous Airports", da Discovey Channel. E ele é o número 1 da lista.
 
Para transportar a carga, tínhamos 45 yaks– animais que chegam a pesar meia tonelada – à nossa disposição, em uma semana de trilhas, pontes e glaciares.

Nos primeiros três dias, quatro clientes tiveram edemas pulmonares. O estado de um deles era tão grave, que podíamos ouvir a respiração há cinco metros de distância. Todos foram evacuados por helicópteros ou yaks até as terras mais baixas. Com tantos percalços, os sherpas, que são pessoas extremamente supersticiosas, começaram a dizer que nossa expedição teria "bad juju", que significa “má sorte”. Fizemos uma cerimônia budista para reverter a situação. Participei de dezenas destas cerimônias, que são chamadas de "Puja". Um Lama benze todos os equipamentos que vão tocar a montanha, inclusive as cordas, piquetas, capacetes e parafusos de gelo. Foram várias horas de cerimônias pedindo licença aos deuses para escalar aquelas montanhas.
 
Estava tudo indo bem, quando um corvo preto decidiu parar bem em cima da torre rochosa que foi montada para a cerimônia. Para os budistas, isso é má sorte. O bicho insistiu em ficar, parecia estar esperando a cerimônia terminar para comer os restos de comida. Não sou religioso e muito menos supersticioso, mas é inegável que os sherpas tinham um alguma razão, considerando a nossa chegada à base.
 
COMEÇAMOS A SUBIDA À MONTANHA. Temos que lembrar que, em montanhas imensas como aquela, leva-se 60 dias para chegar ao cume. O motivo é aquela coisa chata chamada aclimatação. Devemos subir vagarosamente, e deixar o corpo se adaptar à altitude extrema. Além disso, temos que transportar toneladas de coisas para os acampamentos mais altos. Como se não bastasse, nestes ambientes existe um dos piores fenômenos meteorológicos testemunhados pelo homem: os ventos conhecidos como "Jetstreams", que chegam a uma velocidade de 200 quilômetros por hora.
 
Ao sair do acampamento, há uma imensa cachoeira de gelo de 4 quilômetros, que separa a base da montanha do acampamento 1. São torres, túneis, pontes, paredes de 50 metros, abismos de 80 metros… Tudo de gelo. É até bonito ver uma dessas cachoeiras coberta de pedrinhas de gelo. O problema é que estas pedrinhas têm o tamanho de uma casa. E elas se mexem.
 
Tive azar na minha primeira investida na cachoeira de gelo, subi com uma mochila pesada, de 30 quilos, e me aproximei rapidamente das imensas torres de gelo que tinham a altura de um prédio de 20 andares. O acampamento base se tornava cada vez mais distante, e uma linda montanha chamada Pumori começou a dominar a visão, a oeste do horizonte. As grandes torres de gelo que estavam no flanco oeste do Everest começaram a me preocupar, mas elas não se mexeram naquela ocasião. Pelo menos não naquele momento.

Após já ter percorrido o que eu acreditava ser 3/4 do caminho até o acampamento 1, parei em um platô de gelo para descansar e comer um chocolate. Até então sem escutar uma voz há um tempo, ouvi um grito vindo atrás de uma torre de gelo, não muito longe dali. Deixei minha mochila no local, com o chocolate em cima, prometendo a mim mesmo que voltaria logo.
 
Continuei a subida – sem mochila – para ver o que estava acontecendo. Entre uma torre e uma grande greta, a 5.800 metros de altitude, estava um casal Pelos gritos e posição, parecia que o homem tinha fraturado a perna. Logo que cheguei, notei um sherpa vindo na direção do acampamento 1. A primeira atitude foi tirar o homem do perigo e colocá-lo em cima de uma plataforma estável. Depois foi hora de imobilizar a fratura. Tive a ideia de usar as barras de alumínio de uma mochila (que não fosse a minha). A do sherpa acabou sendo a vítima: colocamos uma barra de cada lado da perna e amarramos com fitas de escalada que estavam na minha cadeirinha. A fratura foi na altura da canela, e o pé ficou pendurado pela pele e músculos. Acabei usando o meu colchonete para isolar a perna do frio, afinal estávamos a quase 6 mil metros de altitude. Mais dois mosquetões e duas fitas de escalada, a perna estava pronta para a viagem. Teríamos que descer o homem até o acampamento base.
 

O ferido se apresentou como Ben Webster, líder de uma expedição canadense. Ele nos deu a ideia de construir uma cadeira para transportá-lo até o acampamento base, que eu avistava de cima e parecia bem distante dali. Enquanto isso, sua companheira passou o pedido de auxílio por radio. Algumas expedições se organizaram na base, e mandaram mais seis sherpas para nos ajudarem. Um deles tinha uma mochila de armação, e acabou cedendo-a para a fabricação da cadeira. Mais algumas fitas e mosquetões e Ben estava sentado na cadeira improvisada. E nós estávamos prontos para carregá-lo.

A primeira greta foi bem trabalhosa, já que minha experiência em carregar pessoas, limitava-se a carregar pessoas mortas. Logo um grupo de sherpas vindos do acampamento 1 apareceu e, sem questionar, pulou na nossa frente para carregar a cadeira. Isso nos deu uma oportunidade de descansar e começar a revezar na traseira (a parte mais pesada). Ben não parava de reclamar de dor, mas isso iria acabar, pois os sherpas que se aproximavam, vindos do acampamento base, traziam morfina. Durante horas, prometíamos a Ben que a morfina estava chegando em “10 minutos”. E assim foi por toda a descida.

Cruzamos mais seis gretas, quatro delas com escadas. Na última, percebi que estava extremamente cansado. Cruzar uma escada carregando um homem de 80 quilos, próximo a um abismo de várias dezenas de metros, não é nada fácil. Eu tinha que encaixar os meus crampons em cada degrau da escada, com um campo de visão que se limitava à fresta entre meus antebraços, pois estava segurando a cadeira.
 
Ao percorrer 8 metros com Ben, eu já tremia, de tanta força que tinha que fazer. O sherpa sentia o mesmo. Faltando um metro para terminar a escada de alumínio, praticamente o jogamos do outro lado da greta para salvar nossas vidas. A corda plástica de 8 milímetros não iria aguentar uma queda simultânea de três pessoas, e nós sabíamos disso. Estávamos exaustos e descansávamos na borda da greta, quando um grande grupo de fortes sherpas chegou, levantou Ben e continuou a viagem.

Subindo o mais rápido que podia, demorei quase uma hora para chegar de volta à minha mochila. Antes que acontecesse alguma outra coisa, finalmente comi meu chocolate, sem nem sentir o gosto.
 
Algumas nuvens vindas do Pumori, que se acumulavam há horas, trouxeram a neve. Eram quase 5 horas da tarde quando avistei as barracas no acampamento 1. Meus companheiros estavam do lado de fora, esperando por mim.
 
"O que aconteceu? Por que demorou tanto?". Exausto, respondi:
 
"Vocês não acreditariam o “presente” de boas vindas que o Khumbu me deu!". Khumbu é o nome da famosa cachoeira de gelo.

Dois dias depois, estávamos no acampamento 2, a 6450 metros de altitude. Descansávamos em uma barraca em forma de domo, que montamos para acomodar todo mundo na hora de comer e descansar. Meio que entorpecidos, ficamos reunidos no meio da barraca. Cada um contou um pouco de sua vida e das pessoas de quem tinham saudade. Falamos também muito sobre comida e sobre o que queríamos comer quando retornássemos à civilização. Lembro-me que insistia na ideia de comer um churrasco. Um australiano falava em hambúrguer, enquanto outros ficavam entre pizza ou hambúrguer. Um norte americano chamado Mike mudou totalmente a linha de conversa, dizendo que queria comer a carne enlatada que tínhamos no acampamento base. Todos ficaram meio que em silêncio, pois ninguém gostava de carne enlatada. Mas ele não se abalou, e disse que gostava de colocar bastante ketchup. Alguns aceitaram a ideia da carne enlatada, mas Mike reforçava que queria ketchup. Isso acabou virando um tipo de brincadeira entre nós. Qualquer coisa que fosse, ele sempre falava: "Ponha ketchup".
 
Nossa aclimatação no acampamento 2 terminara, e era hora de voltar à base. O dia que escolhemos para descer se apresentou péssimo. Neve e vento assolavam a cachoeira de gelo. Num grupo de sete pessoas, descemos juntos, e paramos no acampamento 1 para descansar. Estávamos exaustos. Metade do grupo decidiu permanecer no acampamento, enquanto os outros decidiram continuar, mesmo cansados e sujeitos a condições meteorológicas ruins. Continuou a nevar durante toda a tarde, e eu mal sabia eu o que estava acontecendo mais abaixo.
 
FIQUEI ESPERANDO MEUS COMPANHEIROS CHEGAREM AO ACAMPAMENTO BASE para que eu pudesse falar pelo rádio. Cinco deles chegaram. Mike, porém, jamais retornou ao acampamento. Enquanto eu estava ali, tranquilo e quentinho dentro da minha barraca, Mike O’Brien caíra dentro de uma greta. Ele acreditava que o único dano que sofrera foi uma perna quebrada. Infelizmente, não era só isso. Ele jamais soube que aquelas poucas horas que ficou no fundo da greta seriam suas últimas. Um sangramento interno o levou à morte. Ao saber sobre a queda, percorri rapidamente os 200 metros que me separavam dele, mas não havia nada que pudesse fazer.

Seu irmão, Chris O’Brien, esteve o tempo todo com ele. Descemos na greta e passamos as últimas horas juntos com Mike. Ele faleceu aproximadamente às 4 horas da tarde do dia 1º de maio de 2005. Mike estava bastante lúcido, e foi ficando pálido. Sua pele ficou praticamente da cor da neve, apesar de seus olhos continuarem brilhando. Sentamos juntos, contemplando o pequeno pedaço de céu azul que tínhamos olhando para cima. Falamos sobre praias, carne e ketchup. Ele foi bem-humorado até o seu último minuto de vida. Em determinado momento, parou de falar e inclinou a cabeça para dormir… E nunca mais acordar.
 
Tentei ignorar o momento, e me fiz acreditar que estávamos todos cansados e que apenas havíamos sentado para descansar. Na hora de levantar-nos, porém, Mike ficou ali sozinho. Sua perna direita, que estava quebrada, foi parar ao lado de seu rosto. Antes de subir a greta colocamos a perna no lugar assim ele congelaria nesta posição durante a noite. Eu não soube o que dizer, ou como me despedir dele. Então dei meia-volta e comecei a subir a profunda greta, de volta ao conforto do acampamento.
 
Na chamada das 18 horas, informamos a tragédia à base. Eu não sabia o que pensar. Todos já estavam no acampamento base, e a primeira coisa que pensei foi em descer o corpo, mas não havia mais nada a fazer. Mal comi ou dormi naquela noite. Ao descer na manhã seguinte – a 100 metros mais acima de onde Ben Webster tinha quebrado a perna – no fundo de uma greta, lá estava Mike.

Naquele mesmo dia resgataríamos o corpo. Todos estavam arrasados quando cheguei ao acampamento base. Chris estava sentado na frente de sua barraca, olhando para o nada. Eu não sabia o que dizer a ele. Acabei tentando fugir da situação, e fiquei me sentindo culpado por não ter conseguido salvá-lo.
 
Ainda exausto pelo tempo que fiquei na altitude dias atrás, comecei a comer e a me hidratar para ter energia para a próxima tarefa. A ideia era trazer o corpo ainda naquele dia para que Chris e seu irmão pudessem voltar para casa. Por rádio, marcamos uma reunião com outras expedições, pois duas delas se ofereceram para ajudar a recuperar o corpo. Como eu já tinha experiência prévia em carregar corpos, sugeri o "Aconcágua style, em que os corpos são arrastados dentro de tambores plásticos cortados.
 
Com uma maca emprestada pela Alpine Ascents e 17 pessoas (na maioria sherpas), começamos a jornada de subida. Parecia gente demais, mas tínhamos que considerar que o corpo estava a quase 6.000 metros de altitude, no fundo de uma greta e, acima de tudo, Mike media 2 metros pesava 120 quilos.
 
Obviamente, os sherpas chegaram antes ao corpo, e fizeram sozinhos a parte mais importante do trabalho, que foi tirar Mike da greta. Quando cheguei, ele já tinha sido colocado no outro lado da greta onde ele caíra.
 
Mesmo após absurdas 6 horas de trabalhos, o corpo acabou não chegando ao acampamento base, e Chris teria que esperar mais um dia. Decepcionados, voltamos ao acampamento base.
 
Normalmente, a educação vai aos ares num acampamento com 15 homens que estão juntos a um mês. Naquela noite, porém, todos ficamos quietos, e só falávamos o necessário. Durante o jantar, silenciosamente passamos o ketchup pela mesa. Cada um colocou um pouco na comida. Todos ali, menos o cozinheiro, sabiam do que se tratava. Comer comida com ketchup foi como honrar aquele alto e engraçado homem com quem convivemos as últimas quatro semanas.
 
Sem muito mais o que dizer ou pensar, fui dormir. Outra noite e outra manhã bizarra daquelas e novamente estávamos ao lado de Mike. Seu corpo não estava muito longe do acampamento base mas, dessa vez, somente a nossa expedição iria ajudar no resgate.
 
Com um experiente guia do Alaska coordenando o resgate, seguimos puxando, empurrando ou mesmo levantando a carga de acordo como era dito. Passamos por degraus verticais, com três metros de altura, rapéis de 30 metros, pontes de 10 metros, túneis de um metro… Nem aquilo, no entanto, se comparava ao que tínhamos passado com Mike no dia anterior.
 
Finalmente avistamos a base. Como havia pedras ali, tínhamos que levantar o corpo, pois não poderíamos arrastá-lo como fizemos no gelo. Uma secção de escada de alumínio de quatro metros foi pedida por rádio para quando chegássemos. Carregamos ela sobre nossos ombros, e aquilo machucava bastante. Fiquei com uma longa cicatriz no ombro, que ainda durou meses após aquela expedição.
 
Entrávamos nos limites do acampamento base. Enquanto as pessoas no acampamento comiam e outras descansavam, nós carregávamos o corpo de um homem de 120 quilos sobre uma escada. Em respeito, vários membros de outras expedições apareceram para nos cumprimentar e prestar condolências. Outros, em contrapartida, filmavam todas atividades mostrando total desrespeito. Os sherpas, muito supersticiosos, jogavam pedras nos cinegrafistas e nas câmeras, com medo que a alma de Mike fosse parar dentro das câmeras. Isso gerou vários atritos entre a nossa expedição e outras três que estavam filmando. Houve até uma briga, que chegou “aos finalmente”.
 
Ainda tínhamos que chegar ao nosso acampamento. Exausto, avistei nossa grande barraca vermelha. Tivemos que tirar o corpo da escada e empacotá-lo para voar no dia seguinte.
 
O cozinheiro – que também é um Lama (sacerdote budista) – preparou uma cerimônia à noite, ao lado do corpo. Com o frio “abaixo de zero” do acampamento base, acendemos uma fogueira em forma de despedida. Queimamos o que tínhamos – eu mesmo queimei um livro de um famoso autor brasileiro que odiei.
 
Todos falaram alguma coisa a respeito de Mike diante do fogo. Eu estava tão cansado que não sabia o que dizer. Apenas mexi as brasas, liberando faíscas ao céu frio. Aquilo foi muito bonito.
 
O fogo se acabara. Era hora de um merecido jantar, que foi em silêncio por parte do irmão do falecido. O resto das pessoas tentava animá-lo, mas ele continuava sério e pensativo. Eu imaginava o quanto aquilo estava sendo difícil para Chris – perder o irmão na montanha. Ele mal tinha contado à família e a notícia já estava no everestnews.com. Isso tudo graças aos nossos “vizinhos”, que não podiam perder a oportunidade de publicar uma notícia tão quente como aquela.
 
Cambaleando de sono, entrei no meu saco de dormir. Os poucos minutos de pensamentos que eu tive antes de dormir foi um dos poucos momentos de sanidade daqueles dias cheios de tragédia. Perguntava a mim mesmo se meus amigos e minha família imaginavam o dia bizarro que tinha tido.

AS AVALANCHES QUE CHEGARAM COM OS PRIMEIROS RAIOS DE SOL ME ACORDARAM ÀS CINCO E MEIA DA MANHÃ. Lembrei que tinha que ajudar a carregar Mike até o helicóptero, que chegaria dali a meia hora. Vários dos meus companheiros de expedição – e também alguns curiosos – já estavam de pé. Ao chegar na plataforma de pouso, reparei que alguém falava no rádio, próximo dali. Curioso em saber do que se tratava a conversa naquela hora da manhã, liguei o rádio. Um scan nas frequências revelou uma voz a 144,4 MHz. “Uma avalanche acabou de varrer o acampamento 1 do mapa". Paralisado, continuei a escutar o desfecho da tragédia. A pessoa no rádio começou a identificar de que expedição eram as vítimas:
 
Momentos de silêncio e então… “Parivar, parivar, parivar."

“Parivar” significa “família” em nepalês, mas é também o nome da agência que cuidou de nossas permissões.
 
Do topo da colina onde eu estava, podia ver um grupo de integrantes da minha expedição reunidos ao redor de um rádio VHF, na frente da barraca-refeitório. Todos esperavam saber de que expedição foram os atingidos pela avalanche. A confirmação de que a nossa expedição foi a única atingida mobilizou todo o nosso acampamento base. Cozinheiros corriam com panelas quentes na mão. Alguns calçavam as botas e colocavam a cadeirinha, enquanto comiam o mais depressa que podiam antes de subir. Todos ajudaram no resgate, seja direta ou indiretamente. Os que não subiram ajudaram a equipe de resgate a se equipar e organizar o equipamento.
 
Enquanto eu me equipava, olhava as paredes de gelo da cachoeira e imaginava como é que iria subir, mais uma vez, em menos de 24 horas. Aquela manhã fria se aqueceu rapidamente nas mentes dos que subiríamos para resgatar. Após tomar uma café da manhã de emergência que foi preparado, me defrontei com a carga que me esperava: uma maca enrolada, uma garrafa de oxigênio de quatro litros, três litros de água e comida para os feridos; além do meu equipamento pessoal.
 
A cozinha mais parecia uma linha de produção. Alguém sentava na cadeira e um colocava os crampons. Outro enfiava as coisas na mochila, e o cozinheiro colocava comida na nossa boca. Um forte tapa na nuca era para ser entendido como: “Pronto, agora vai escalar”. E então o próximo era chamado. Sem nem saber o que estava acontecendo, cinco sherpas e quatro estrangeiros começaram a adentrar o Khumbu comigo.
 
Após ter progredido apenas 500 metros no gelo, comecei a escutar o barulho de um helicóptero vindo do acampamento base. Era o resgate de Mike e Chris O’Brien. Surpreendentemente, era um helicóptero militar de 2 lugares e não um helicóptero de carga russo como esperávamos. O mau tempo fez com que ele voasse com o tempo e o combustível no limite. Chris teve que se espremer para levar seu irmão, congelado e morto, sobre suas pernas. Durante uma parada para recuperar o fôlego, vi a aeronave sobrevoando o Khumbu. Consegui ver Chris acenando da janela do helicóptero. Foi uma cena muito triste.
 
Um mês mais tarde eu ficara sabendo que o voo durou apenas 7 minutos. Soube depois que a viagem lhe custou 9 mil dólares. Mas Chris ainda teve que esperar dois dias pelo tempo bom. Todo esse tempo, sem qualquer sistema para refrigerar o corpo de Mike.

Com o VHF ligado, comecei a escutar as notícias contadas pelos escaladores que desceram do acampamento 2 para ajudar. No total, quatro expedições estavam envolvidas no resgate. A narrativa de um dos membros de uma expedição americana que desceu do acampamento 2 não era muito atrativa. Ele disse que um homem com sotaque francês teria sido lançado a 150 metros do acampamento. Supostamente, este seria Pierre Bordeau, um canadense que também fazia parte de nossa expedição. Um sherpa chamado Durga também teria que ser imobilizado e para descido numa maca, pois se suspeitava que sua coluna estivesse quebrada. Outra pessoa, não identificada, teria tido escoriações por todo o corpo, além de perder as botas. Outros dois integrantes de nossa expedição ainda estavam desaparecidos.
 
Quanto mais altitude ganhávamos, mais notícias chegavam e, ao adentrarmos nos limites do que um dia foi o acampamento 1, tivemos uma ideia clara do que aconteceu. Quando cheguei onde supostamente era o acampamento 1, não havia mais nada. Cinquenta barracas simplesmente desapareceram. Uma gigante "língua" de neve e rochas, que não estava lá antes, cobria o exato local do acampamento 1.
 
A única expedição que escapou da destruição foi uma iraniana, que, ironicamente, tinha quatro barracas no meio de uma grande greta – a princípio o que é considerado perigoso. Aproximadamente 10 expedições tinham barracas ali, mas somente a nossa teve o azar de ter gente dentro no momento em que a avalanche ocorreu. Toneladas de gelo se desprenderam do flanco oeste do Everest causando a tragédia. Provavelmente, foi a mesma avalanche que ouvi na manhã que o helicóptero de Mike e Chris veio.
 
No total, perdemos sete barracas com tudo o que estava dentro. As duas primeiras barracas do lado oeste foram arrancadas pelo deslocamento de ar. O chão delas ainda estava enterrado. Outras permaneceram no local, mas todas amassadas, com as varetas quebradas. Ao atravessar uma greta a caminho do acampamento base, reparei numa das barracas no fundo da greta. Jamais soube de quem era ou o que tinha dentro.
 
Do topo de um serac (torre de gelo), onde se tem a visão para o acampamento base, comecei a passar a situação pelo rádio para a base. Outros três sherpas estavam ali comigo descansando. De repente, a imensa torre de gelo começou a se mexer inteira. Naturalmente, peguei a minha mochila e corri em direção ao acampamento 1. Apesar dos 6000 metros de altitude, não hesitei em correr várias dezenas de metros até sair dos limites do bloco principal. Os sherpas fizeram o mesmo. Para piorar, desde o amanhecer, nevava do Khumbu para cima da montanha.

Finalmente todos os cinco membros de nossa expedição que ficaram espalhados pelas redondezas do acampamento 1, foram reunidos no topo dos grandes seracs, e a descida ao acampamento base foi iniciada. De fato, tivemos que descer três deles, sendo um deles numa maca.
 
Pierre Bordeau quebrou alguns ossos numa mão, mas ele e Jason Barilla, apesar de bastante machucados, conseguiam caminhar. Jowan Gauthier tinha sido atingido por uma pedra nas costas, e aquilo danificara seu rim, além de causar uma dor tremenda que o fazia urinar sangue. Ele engatinhou boa parte do caminho. Improvisamos joelheiras para ele. James Bach foi atingido no rosto e no pé direito. O impacto esmigalhou vários ossos de seu pé. Ele usava meias na hora da avalanche, pois estava dormindo. Tivemos muito trabalho com James.
 
Durga foi quem deu mais trabalho. Como ele não conseguia se mexer, o descemos numa maca. O processo foi muito doloroso para ele. Foram várias as vezes que quase tombamos a maca com o pobre Durga dentro. Isso porque tínhamos que fixar parafusos de gelo em determinados pontos onde as paredes eram muito inclinadas.
 
Ligamos o oxigênio a ele em tempo integral, e também tivemos que ministrar fortes doses de remédios contra a dor. Demoramos cinco horas para levar todos os cinco sobreviventes ao hospital improvisado do acampamento base.
 
Confesso que, naqueles meses de tragédia, no Himalaia comecei a acreditar em Karma e Juju. Os sherpas realmente tinham um ponto. Maldito corvo!
 
Não pude nem descansar ,pois tínhamos que voltar ao acampamento 1 para resgatar o equipamento enterrado na neve. Se esperássemos muito, a neve se consolidaria e ficaria impossível de cavar. Gastamos todo o dia cavando, e não conseguimos quase nada. Recuperamos alguns sacos de dormir, um pouco de equipamentos, estacas, piolets, mas isso não era nem metade do que perdemos na avalanche. Alguns acampamentos foram soterrados por 10 metros de neve! Milhares de dólares foram perdidos somente no nosso acampamento. Arrastamos tudo o que encontramos até um lugar mais protegido, e montamos duas barracas. O novo acampamento 1 aguentou firme e forte mesmo após os ventos noturnos. Jamais olhei para aquelas torres de gelo a oeste com os mesmos olhos.
 
O grande helicóptero russo que resgataria os feridos da nossa expedição atrasou, e os feridos tiveram que ficar na base por mais alguns dias.
 
Depois das avalanches e tragédias, era hora de continuar com a expedição, afinal, tínhamos que instalar mais de 1.100 metros de cordas fixas no flanco do Lhotse, começando a 7.700 metros de altitude. Precisávamos começar a transportar cordas, estacas e parafusos aos acampamentos mais altos para realizar o trabalho.
 
Como se nada mais pudesse dar certo, alguns sherpas se negaram a subir o Lhotse, pois a expedição estaria amaldiçoada. Para os sherpas, se as coisas não andam bem, é melhor não arriscar. Sugerimos fazermos outra Puja e atirar em qualquer corvo que se aproximasse. Acabamos demorando uma semana para convencê-los a voltar a trabalhar.
 
VIREI SHERPA! Tive que começar a subir as cargas para, em duas semanas, iniciar os trabalhos com as cordas a 8.000 metros e tentar o cume. Com mochilas de 30 quilos, começamos com a escalada no Khumbu. Seguindo a nossa linha de boa sorte, uma leve tempestade no começo de tarde ficou bem forte, e revelou-se uma das piores de toda a temporada. Nevou a noite e na manhã seguinte. Tivemos quase um metro de neve no acampamento 1.
 
Era a segunda semana de maio, quando finalmente conseguimos transportar praticamente toda a carga que precisávamos ao nosso terceiro acampamento, localizado a 7.100 metros de altitude. Era hora de descer para altitudes mais baixas, pois já tínhamos terminado a aclimatação. Antes da descida, no entanto, numa breve conversa que tive com o sirdar (sherpa chefe) de uma expedição canadense, soube que nossas duas barracas no acampamento 3 teriam sido enterradas por um deslizamento de neve. Detalhe: somente cinco das 40 barracas do acampamento 3 tinham sido soterradas. Claro que as nossas tinham que estar na lista.
 
Tivemos infinitos problemas em quase todos os dias na montanha. Nosso computador também pifou, e não conseguíamos enviar ou receber emails. Nossa cozinha no acampamento 2 explodiu, e rendeu um buraco de 1 metro na barraca-cozinha. A monção de verão que todo o ano chega na mesma semana, atrasou pela primeira vez em 50 anos, o que ocasionou vários problemas. Um dos integrantes da expedição teve problema dentário, e eu tive que consertar o dente dele com meios precários a 7.300 metros de altitude. O sistema – protótipo – de oxigênio que estávamos usando falhou, e tivemos que trocar 10 reguladores. Durante uma das minhas subidas pela cachoeira de gelo, estava cruzando uma plataforma às 5 horas da manhã. O gelo quebrou e revelou um imenso lago de água represada que derretera no dia anterior. Fiquei submerso até a cintura, e a roupa congelou instantaneamente. Aquela expedição realmente parecia estar amaldiçoada.
 
Mas um dos fatos que mais marcou o péssimo Juju da nossa expedição, foi um acidente aéreo com um MIL Mi17, o segundo maior helicóptero que já foi feito. Nós mesmos construímos o heliporto com pedras, localizado há apenas 20 metros de nosso acampamento. Durante uma das tentativas de pouso, nosso companheiro norte-americano, Shane, estava sinalizando para ajudar o helicóptero a pousar. A aeronave possui instrumentos de nivelação mas, mesmo assim, geralmente uma pessoa sinaliza ao piloto a posição das rodas enquanto a aeronave desce. Só que o Mi17 não está projetado para pousar em grandes altitudes – muito menos a 5.400 metros. O piloto russo insistiu, e a aeronave mais parecia estar sambando enquanto descia.
 
Num dos movimentos, a roda traseira demoliu um terço da “plataforma” de pouso. Shane sinalizou para a aeronave subir, mas já era tarde demais. O piloto continuou descendo. O rotor traseiro encostou no chão e explodiu. Com o estrondo, o piloto tentou levantar voo, porém ele não tinha mais cauda, e o imenso helicóptero começou o espiralar. Uma das pás da hélice principal se soltou e caiu na nossa barraca refeitório. É uma imagem um tanto assustadora ver o segundo maior helicóptero do mundo, que tem uma hélice de 22 metros de diâmetro, caindo do lado da sua barraca. Maldito corvo!
 
Por sorte, ninguém morreu no acidente, e o helicóptero permaneceu ali por alguns anos.
 
Obviamente, não chegamos ao cume do Lhotse naquela ocasião. Mas, sem dúvida, foi uma das expedições ao Himalaia que eu mais aprendi. Dois meses de tragédia podem assustar algumas pessoas, mas, para quem ama a montanha, é diferente.
 
Mesmo que lutemos e batamos o pé para não voltarmos a certas montanhas, algumas semanas depois, lá estamos nós novamente, como uma crianças sonhando. As tragédias nunca são suficientes para manterem os escaladores longe das montanhas. Quanto mais se escala, mais habilidade se ganha em esquecer-se das coisas ruins e sempre querer voltar.

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Sobre o autor

Maximo Kausch

Maximo é atualmente guia em grandes montanhas do Himalaia e Andes. Ele passa praticamente o ano todo em grandes altitude e ganhou muita experiência. Ele escala há 15 anos e além de escalar em grandes altitudes, ele pratica escalada mista nas horas lives, escalada em gelo, escalada em rocha e livre. Maximo é responsável por grande parte dos artigos técnicos do AltaMontanha.com

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