A Serra Morena de Jataizinho

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Jataizinho é uma cidadezinha situada a cerca de 35km de Londrina, as margens do Rio Tibagi e cujo desenvolvimento se deu com a implantação da E. F. São Paulo-Paraná. Com relevo pouco mais acidentado q sua vizinha mais ilustre, o destaque é um serrote q emerge elegantemente 13km ao norte. Chamado de Serra Morena, este acidente geográfico deu nome inclusive a uma das estações ferroviárias na sua base, o atual vilarejo de Cruzeiro do Norte, já no município de Uraí. Mas foi de Jataizinho mesmo q resolvi conhecer esta outrora temida elevação de acesso bem tranquilo, me valendo da histórica malha ferroviária local, estradas de chão e algumas veredas. Eis mais uma pernadinha sussa de meio período (com direito a tchibum) por este rincão natureba do Norte Pioneiro Paranaense.

Desencanado e sem muitas infos minha intenção era ir pra Jataizinho com o intuito de conhecer os serrotes alinhados em seu quadrante norte, no caso, uma tal de Serra Morena. Pra isso nem precisou tomar busão na rodoviária de Londrina, pois a simpática atendente  no guichê da Garcia avisou q em frente ao terminal passava um coletivo metropolitano da Ouro Branco q fazia o mesmo trajeto pretendido. Ótemo! E o melhor, a um preço de tarifa comum de qq municipal na cidade. Sem pressa, me prostei num pto qq da Av. Dez de Dezembro q não deu nem 20min embarquei no latão, q se mandou pela Av. Brasilia (BR-369) sentido Ibiporã e, na sequência, Jataizinho.
Viagem rápida esta, pois em questão menos de meia hora e após cruzar a ponte sobre o Rio Tibagi desembarquei na pequena rodoviária de Jataizinho, creio q por volta das 9hr. Situado bem ao lado do cemitério, ainda no minúsculo terminal busquei me informar dos horários de retorno do mesmo buso apenas pra saber q circulam de meia em meia hora. Jataizinho é uma cidadezinha predominantemente horizontal, com raras construções com mais de 3 andares. Menor q Cornélio Procópio e Ibiporã, a cidade se encontra as margens da BR-369, principal rodovia de ligação do norte do Paraná com São Paulo.
Mas minha rota não acompanha a BR-369 e sim o Rio Tibagi, na direção norte, e pra isso percorri td a Av. Antonio Brandão de Oliveira, cruzei com a Av. Getúlio Vargas (onde já avaliei um boteco pra celebrar a volta), passei por uma pracinha e fui conhecer a Estação Jataizinho, q parece réplica da Estação Sabaúna, de Mogi das Cruzes. Casario simpático, porém bem mal cuidado.
Pois bem, dali comecei a caminhada pelos trilhos da EF São Paulo-Paraná numa tranquilidade só. De um lado o Rio Tibagi marulha a distancia enqto do outro tenho a cia duma poeirenta PR-443, via de chão q interliga a cidade a Uraí. Vegetação arbustiva e trechos bem arborizados  me garantem sombra necessária neste inicio de manhã quente, porém agradável. Mas logo de cara um pontilhão metálico me abriga a passar sobre um manso e barrento Ribeirão Jataizinho, observo as ultimas casas da Vila Pavão até abandonar os limites da cidade. Daqui em diante o clima rural toma conta de td paisagem ao meu redor, onde as baixas colinas forradas de pasto alternavam-se com poucos capes de mata e uma ou outra fazenda no caminho. Vale mencionar a enorme qtidade de ruínas de olarias espalhadas ao largo de td trajeto, e isso se explica pelo fato da antiga fabricação de telhas e tijolos (feitos com areia extraída do Rio Tibagi) ter sido gde fonte econômica no passado.
A pernada se mantém inalterada por um bom tempo, sempre com o rio dum lado e a estrada do outro. Após um tempinho contorna um baixo serrote pela sua base, onde intercepta a via de chão, mais precisamente na frente do Rancho Trindade. Aqui abandono os trilhos pois percebo q o trilho irá contornar o morro sgte dando uma volta desnecessária. Sem perder tempo encaro a estada de chão, q contorna o mesmo morro pelo outro lado, porém em suave aclive onde alcanço um selado q o interliga a outro morro menor.
Descendo pro outro lado tenho finalmente o primeiro vislumbre da Serra Morena, espichando sua abaulada  e discreta muralha verde ao norte. Mas a partir dali retomo a pernada pelos trilhos qdo estes tangenciam outra vez a via de chão, um kilometro adiante. Diferente do inicio bem arborizado, aqui os descampados e largos horizontes sem sombra predominam, e isso me faz lamentar não ter levado um boné. A distância avisto uma ou outra chácara espalhadas naquele mundão, mas a principio a paisagem natureba predomina. Outra coisa, veículos q passaram por mim foram contados numa mão só, o q dilui consideravelmente a esperança duma eventual carona.
Mas após andar mais um pouco e passar pelo pontilhão sobre o Córrego Floresta, pouco antes das 11hr piso no pacato bairro rural de Frei Timóteo, lugar q nasceu a margem da estação do mesmo nome. Composto por algo de uma dúzia de casas e um boteco, a estação ganhou esse nome em homenagem ao religioso italiano Timotio de Castelnuovo, q desempenhou gde papel tanto na colonização como catequização dos indígenas daquela região. A estação, por sua vez, foi ocupada por uma família q agora reside nela, mas cuja edificação ainda esta bem conservada e guarda mta semelhança com a arquitetura da Sorocabana ou Mogiana. Não se assuste com os estridentes cachorros q dominam o lugarejo, pois eles latem pra qq um q passe.
Aqui praticamente estamos aos pés da Serra Morena, mas é preciso buscar um lugar de acesso. Pra isso continuei na direção leste, acompanhando o pé da serra a distancia. Pra isso bastou me manter na linha férrea ou na precária via de chão q a segue, sinuosa e discreta, na direção desejada. Eu alternei ambos trechos pois precisava ver onde era melhor aceder á serra propriamente dito. Mas cerca de 2km depois reparei um selado acessível, onde havia inclusive uma precária via de chão q dava acesso pro outro lado da serra. Logicamente q não pensei duas vezes e me pirulitei por essa via, q aliás é uma bifurcação da principal, q prossegue bordejando o pé da serra até o vilarejo de Serra Morena, 6kms a leste.
Agora me vejo subindo suavemente pela supracitada via, em meio a vegetação baixa ressequida e uma gde roça de milho a minha direita. Conforme ganho altitude os horizontes se expandem, na mesma medida em q os contrafortes da serra exibem seus paredões pouco abruptos e verdejantes vales mergulhados entre suas dobras. Uma vez no selado (onde já se ganhou quase metade da altitude da serra!) q dá acesso pro outro lado, tomo uma larga e poeirenta picada q começa a subir sua íngreme face leste, sem gdes dificuldades. A vereda é larga e há sinais até de veículos tracionados sobre ela. A ascensão é breve e direta, porém forte, eventualmente descrevendo ziguezagues, mas de modo geral uma retão pra cima só!
Uma vez no alto me deparo com um cume amplo, largo e beeem espaçoso. Na verdade o topo consiste num vasto platozão forrado de capim, vegetação arbustiva e até uma improvável plantação de feijão! Um laguinho acessível através duma vereda em meio ao arvoredo completa o panorama deste simpático topo, de onde se tem uma vista interessante de Londrina, ao sul. Uma panorâmica contempla igualmente Jataizinho e algumas fazendas salpicando uma paisagem predominantemente natureba, recheada de verde, modestas elevações e alguns cultivos esparsos. Dureza é a ausência total de sombra, uma vez q o topo é bem descampado, onde apenas a brisa suave serve como alivio pro calor escaldante do quase meio-dia e pouco. Uma rápida bisbilhotada nas beiradas da serra revela mais espessa, espinhenta e agreste em seus contrafortes, o q diluiu qq intenção minha de rasgar mato de modo a descer direto pra Frei Timóteo. Percebo muitas picadas indo em varias direções, mas depois deduzo q sejam apenas trilhos de boi, pois estes estão espalhados por td canto nesta região.
Após um breve descanso a beira do laguinho “altiplânico” retorno pelo mesmo caminho da ida, pois já havia saciado minha curiosidade referente aquela simpática serra. Uma exploração minuciosa pelo interessante setor oeste demandaria mais tempo e, provavelmente, pernoite, algo q tava fora de cogitação naquela ocasião. Fica pra próxima, pois o setor oeste da continuidade da serra me pareceu mais rústico e quem sabe, selvagem. E assim, após descer o morro opto por retornar pela estrada de chão, preocupado em não perder o busão em Jataizinho.  Claro q em Frei Timoteo fiz uma breve parada pra interagir com locais e molhar o bico no botequinho, q aquela altura tava aberto. Conversando com a dona, q amaldiçoava o atual governo, tomei conhecimento do isolamento q o vilarejo se submete pela precariedade de acesso e do transporte coletivo inexistente. Sim, tds no vilarejo dependiam de carona.
Lá pelas 14hr retomei minha jornada de volta mas não pelos trilhos e sim pela estrada de terra, com mínima esperança de pegar carona. Claro q não passou ninguém meados da tarde naquele fim de mundo. E tome chão poeirento e sol na cabeça. No entanto, a meio caminho me dou luxo de fuxicar uma trilha q me passara despercebida na ida, e qual minha surpresa q ela desembocava num belo remanso do Rio Tibagi, utilizado pelos locais como balneário e local de pesca. Não pensei duas vezes e mandei ver um refrescante tchibum pra fechar de vez aquela despretensioso reconhecimento á Serra Morena. Mas claro q o banho foi bem rente a margem, com segurança, pois a correnteza do rio tava relativamente forte e logo adiante havia umas corredeiras maiores onde, se fosse levado, viraria facilmente carne moída.
Pisei novamente em Jataizinho pouco depois das 16hr, a tempo de tomar minha condução de volta pra “Pequena Londres”, concluído assim mais uma visita nas baixas elevações típicas deste Terceiro Planalto Paranaense. Sim, foi uma visita breve de reconhecimento quem nem arranhou a totalidade da Serra Morena, mas q lançou sementes de futuras investidas mais interessantes e duradouras. Notei q é possível esticar até o setor oeste da serra, pernoitar no topo, e em seguida tomar direção ao vilarejo da estação Serra Morena, atualmente chamado de Cruzeiro do Norte. E lá tentar condução de volta ou retornar pela estrada vicinal vinda de Uraí, totalizando um circuitão em formato de “O” de quase 35kms. O único inconveniente, a meu ver, é q deve-se levar já td água pra consumo pois não senti firmeza na potabilidade dos ribeirões no caminho. Por outro lado, o lugar é repleto de bons locais pra acampamento, o q pode render uma boa rota peregrinatoria pelas históricas estações ferroviárias. Estes são motivos mais q suficientes pra retornar à Serra Morena, além de constatar q mesmo próximo da “Capital do Café” existe muita atividade outdoor ainda esperando pra ser descoberta.
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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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