A trilha do cemitério do Juquery

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Com a vizinhança de um controverso hospital psiquiátrico de um lado e um presídio na ativa no outro, o P. E. Juquery surge como oásis verde e ótima opção de lazer pra quem busca trilhas perto de Sampa. Com caminhos oficiais e outros nem tanto, aproveitei meio período de um domingo pra bisbilhotar veredas reminiscentes do setor oeste que palmilham limites bastante tênues da área de conservação com seus polêmicos vizinhos. Uma delas vai de encontro a ruinas que flertam com o atual Centro de Progressão Penitenciária; a outra desemboca no antigo cemitério do maior hospital psiquiátrico do país, uma “descoberta” macabra que escancara não só o triste passado da instituição como ilustra sua desoladora situação atual.

Sem planejar nada previamente naquele domingão onde as cobertas me seguraram além da conta no berço, levantei enfim disposto a caminhar nalgum lugar próximo por meio periodo. Imediatamente me veio a mente o Juquery tendo em vista o fácil deslocamento e as possibilidades variadas de roteiros no lugar. E assim sendo saltei na Estação Franco da Rocha (da linha Rubi da CPTM) pouco antes das 9hrs. Manhã fria e repleta de brumas, ao invés de tomar condução decidi tocar a pé mesmo à portaria mais próxima do parque, situada no setor noroeste da unidade de conservação, em frente à Vila Ramos. Bem disposto e empenhado em andar, a caminhada pela sinuosa Rod. Luis Salomão Chamma (SP-023) transcorreu num piscar de olhos e serviu apenas pra esquentar o corpo naquela manhã típica de finalzinho de outono.

Meia hora depois me pirulitava pelo discreto pórtico de madeira da “Portaria 2”, cumprimento cordialmente o guardinha  e sigo pelo caminho principal indicado pela eficiente sinalização do lugar. Já logo no inicio tomo uma vereda que nasce na encosta direita, como que indo no sentido contrario, que é o final do trecho novo aberto aos bikers. Esta trilha me passou despercebida na última vez que estive aqui e esta foi a deixa pra conhecê-la. Resumidamente, esta vereda de pouco menos de 2km era utilizada pra fins de pesquisa (pois há um pluviômetro desativado) e ganha o alto da primeira colina desenhando uma espécie de “U” pra seguir na direção sudeste. O caminho é bonito e exibe um vasto platozão coberto de capim avermelhado que tanto dança na brisa como reluz ao orvalho matinal. A presença da bicharada se faz presente sob a forma da plumagem duma infeliz ave devorada e das fezes de algum pequeno carnívoro no caminho.

A trilha desemboca enfim no “Quiosque da Seriema” pouco antes das 10hrs, e a partir dali me valho pelo tradicional caminho que vai em direção ao Ovo da Pata, que por sinal se encontra totalmente imerso em brumas. Nunca tinha vindo aqui com este tempo, mas francamente o véu enevoado sobre o parque confere um charme especial aos agora ocultos largos horizontes típicos do lugar. Sem sinal do Ovo da Pata e sem sinal das Torres de observação, a vegetação retorcida de cerrado a minha volta também ganhava contornos sinistros, como de filme de terror. E o chiado de um gavião reclamando da minha intromissão apenas corrobora de que sou o único visitante naquele inicio de dia.

Abandono o alto das abauladas colinas em favor do caminho da “Árvore Solitária”, e dali começo a descer suavemente em direção a um fundo vale a oeste. Ao passar pelo belo exemplar de copaíba que é um dos atrativos do parque o vento ameaça dispersar o nevoeiro, que ainda mantem oculto as encostas do vale, embora dê pra avistar as ruinas do casarão abandonado entre as dobras da serra. Uma vez no fundo atento pra uma discreta picada a esquerda, quase do lado do belo espelho d’água do lago. E é por ela que me mando sinuosamente, margeando o lago a certa distancia. A picada ta quase escondida, ta repleta de teias de aranha e algum mato teima em cair sobre ela, mas é passível de ser transposta. E após um trecho de capim mais medonho  e com algum sobe e desce, desemboco finalmente num belo remanso quase no extremos sul do lago. Apetrechos indicam que alguém pesca aqui, o que numa unidade de conservação é ilegal.

Retorno então à vereda principal e transponho um belo túnel de enormes bambus, ignorando a cascatinha cujo som se faz audível à minha direita. Mas um pouco mais adiante, outra trilha derivando discreta e quase imperceptível a direita, em meio a mata, chama minha atenção. Mergulho nela com certa dificuldade, mas depois abranda e rasga sinuosamente que encosta a oeste dum morro. Passo por um belo túnel dominado por taquarinhas perfiladas onde apenas um enorme gigante da floresta destoa da vegetação ao redor. E logo mais abaixo a vereda cruza o que parece ser um decrépito portão, onde um casebre precariamente construído de madeira indica ali ser limite de alguma coisa. Mais adiante a então trilha se alarga e dá espaço a quase uma antiga estrada coberta de grama e terra, onde visivelmente deduzo já estar noutra propriedade. Ruinas de dois grandes casarões marcam o local que, cobertos de mato e com as paredes deterioradas, indicam ali já ter sido extensão ou da antiga fazenda que deu origem ao parque, ou da unidade prisional ao norte. A via prossegue no sentido norte, mas o bom senso me limita a ir apenas ate ali. Até porque não é minha intenção levar chumbo do prováveis guardas da penitenciaria, logo adiante.

 

Voltei ao caminho principal, que abandonou aquele fundo de vale pra ganhar novamente os vastos horizontes descortinados do alto da morraria. O tempo mudara da água pro vinho e agora ao invés dum céu alvo da neblina sob o parque agora havia um céu estupidamente limpo e azul a minha frente! A vereda começa a virar pro sul e é ali q encontro as primeiras pessoas do rolê, um velho casal praticando cooper ao sol brando das 11hrs. Pois bem daqui tomo uma vereda que surge na encosta a minha direita, cruza outro lago menor, e se enfia no baixo capinzal a oeste. Trilha bonita, cercada de mato e bem obvia que não tarda em me deixar noutra via maior, ou seja, uma via principal que percorre este extremo oeste do parque. Na verdade, esta vereda é a sua divisa não oficial.  Ao longe, meu olhar consegue o alvo Cristo de Caieiras, elevando-se num morrote a oeste.

Uma vez nesta via que percorre a lombada de morros paralela à anterior, me mando em direção ao arvoredo de reflorestamentos que me garantem um trecho de sombra fresca. Daqui nasce  uma via pra oeste q começa a descer serra abaixo, suavemente, e termina dando na portaria oficial do parque de Caieiras, por sinal fechada, do lado do Jd. Nova Era. Esta deveria ser uma base de fiscalização ativa, mas estava aparentemente largada, abandonada. Voltei a via principal que toca de vez pro norte, acompanhando a florestinha anteriormente citada. Dali ela muda pra outra encosta da colina e começa a subir em direção ao grande morrão que surge na frente, onde cruza inclusive uma linha de torres de alta tensão.

Pois bem, uma vez no alto do morro é que começa uma zona de trilhas erodidas, boa parte tocando pro norte e sempre descendo. Esse trajeto já foi mencionado noutra ocasião e termina dando nos fundos das dependências da “colônia de pacientes” do Hospital Psiquiatrico do Juqueri, e onde provavelmente haverá que dar satisfações de sua presença ali. Ao invés disso me mantenho noutra picada bem menos visível que acompanha a linha de torres de alta tensão e começa a descer na direção oeste atraves de ombros serranos bem erodidos. Antes disso, uma ultima olhada pro parque, em especial pro domo abaulado do Ovo da Pata erguendo-se sobre o Juqueri de forma altiva e imponente.

E lá vou eu, descendo desimpedidamente aquela improvável vereda avermelhada e erodida que desce degraus serranos sucessivos pra oeste, como que percorrendo uma crista descendente naquela direção. Às vezes surge mato na frente mas nada que os braços não afastem da maneira mais convencional possível. Trechos abertos se alternam com outros florestados, mas no geral a picada é agradável e tranquila. Após perder certa altitude, a via desemboca numa estrada de chão tao sinuosa quanto pedregosa que deduzo ser do hospital. Ao invés de ir na direção do mesmo, prossigo pela estrada que aparentemente começa a descer a continuidade daquele suave ombro serrano, onde incrivelmente existem caraguatás típicos de vegetação de altitude.

Não dá nem 5 minutos pela estrada quando me deparo com uma placa escrito “Cemitério”, um decrépito portão de ferro, e algumas placas avisando da entrada ser proibida e das punições por lei de quem se atrevesse a violar ou profanar os túmulos! Sim, havia chegado involuntariamente ao famoso e proibidão cemitério do Juqueri, pois aqui só se tem acesso com permissão autenticada pelo cartório! Como dali avistei uma via descendo morro decidi entrar na improvisada necrópole pois não sairia pela “porta da frente” de forma alguma. Claro que fiquei na expectativa dalgum funcionário ou segurança vir ao meu encontro, mas que nada! Não havia aparentemente ninguém ali!

Prossegui a pernada atravessando aquele lugar, mas mesmo com sol a pino e tempo aberto não tem deixar de sentir aquele ambiente tão carregado negativamente como desolado. Uma infinidade de túmulos brancos e algumas cruzes azuis forravam aquele enorme descampado, sob o mato alto. Cruzes quebradas com minúsculas plaquinhas padronizadas, vegetação crescendo dentro dos sepulcros, alguns deles precária e parcialmente detonados. Apenas uma minúscula capelinha alva se mantem em pé, dando um pouco de dignidade ao lugar, visivelmente mal cuidado. Mas a sensação de tristeza é o sentimento que predominou durante minha breve passagem por ali. Atualmente desativado, naquele cemitério eram enterrados os pacientes que não tinham mais contato com a família. Mas há quem diga o lugar tem mais “inquilinos” q o oficial, uma vez que dizem q o hospital também serviu aos interesses da ditadura, nos anos de chumbo. Independente de origem, estão todos ali e sabe-se-lá o que esse pessoal passou. É, a impressçao final que ficou é que da mesma forma que se varre convenientemente sujeira pra baixo do tapete, o cemitério foi empurrado pra bem longe da instituição, varrido pro meio das dobras serranas na divisa do parque.

Me pirulitei rapidinho não apenas pelo receio de ser flagrado por alguém tomando conta mas pelo aspecto sinistro que o trecho final próximo a floresta ganhava, deixando filme de terror no chinelo. A via logo se embrenhou na encosta extremo oeste do morro, descendo em diagonal através do espesso e frondoso arvoredo. E foi ali que dei graças ao bom Deus de ter cruzado esse setor mórbido na luz do dia e não de noite. Pelamor! Finalmente, a vereda toda esburacada e repleta de mato me deixou no asfalto aos pés do morro, numa via interna com a parte “permissível” do hospital e que serve de acesso para as ambulâncias. Dali bastou apenas tocar rumo norte, pra um tempo depois cruzar o hospital propriamente dito.

No complexo hospitalar o cenário é menos sinistro que no cemitério, mas igualmente triste. Tudo envolto em mato, jardins em desalinho, uma infinidade de cachorros ocupando os assentos de madeira das antigas áreas de espera na parte externa dos prédios. Em tempo, é proibido bater fotos da bela arquitetura dos belos edifícios e construções. A desculpa é do lugar ser tombado pelo Estado (Condephat), mas a verdade é que a direção do Hospital não quer borburinho da imprensa no local. Principalmente jornalistas sensacionalistas no lugar.

Chego em Franco da Rocha por volta das 14hr ainda com tempo de sobra pra passar no mercado e me abastecer de generosas dosses da minha “ampola de cevada” antes de partir, embora um certo gosto amargo permaneça de modo geral. Sim, o PE Juquery infelizmente ainda busca reverter o fardo de ter seu nome imediatamente associado a sofrimento e desamparo por conta da sua antiga e extinta colônia penal. E está conseguindo, mesmo aos poucos. Com o advento desta oportuna área de lazer, esta e outras mais podem suplantar de vez o passado sombrio que cerca a bela unidade de conservação, que atualmente não apenas oferece sua bela paisagem a toda família como diversidade de trilhas pro andarilho mais disposto. E isso, por menor que seja, já é um sinal de mudança.

 

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Sobre o autor

Jorge Soto - Colunista

Jorge Soto é mochileiro, trilheiro e montanhista desde 1993. Natural de Santiago, Chile, reside atualmente em São Paulo. Designer e ilustrador por profissão, ele adora trilhar por lugares inusitados bem próximos da urbe e disponibilizar as informações á comunidade outdoor.

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