23 e 24/01/05 - Fim da Expedição em Mendoza - Altitude 760m - Temperatura
31 graus
Despertamos tarde hoje no Hotel Refúgio. Depois de todo o susto um
descanso era merecido para alivar também a preocupação. Tomamos um café da
manhã simples mas muito saboroso. Era o primeiro café nosso preparado por
outros depois de tantos dias. Chá, café, bolacha e pão com manteiga assado
na grelha sobre um aquecedor a gás que se encontra no meio do refeitório
do hotel.
Devido ao problema de ontem alugamos duas mulas. Uma para transportar as
cargas e outro para transportar um de nós (Murilo). O motivo da mordomia é
evitar esforço até poder visitar um cardiologista em Mendoza. Foram 6
horas de caminhada e 4 horas e meia de mula.
No final da tarde nos encontramos na entrada do parque para fazer o
check-out. Neste momento os guarda-parques carimbam nossas permissos para
marcar a saída e verificam se os sacos de lixos e de dejetos orgânicos
estão de
volta. Senão são aplicados 100 doletas de multa. Tudo certo. Temos uma
carona do Hotel Refúgio nos esperando na porta do parque.
Sempre que se aluga uma mula, a empresa responsável oferece transporte da
entrada do parque para as cidadezinhas mais próximas. O morotista Mauricio
do Hotel Refúgio com seu sapato todo remendado nos leva até Puente Del
Inca. Olhando para nossas botas ele não parava de perguntar se não as
venderíamos. A todo instante mostrava seu sapado todo rasgado e pedia para
que falassemos o preço da bota, mas não adiantou a insistência. Mauricio é
um novo amigo aqui.
A idéia era chegar em Puente Del Inca e pegar um ônibus direto para
Mendoza. Não teve jeito. O último ônibus sai as 9 da noite, mas é um micro
ônibus e não permite levar mochilas grandes. Tivemos que dormir a noite em
Puente Del Inca. Mauricio nos indicou um refúgio, uma espécie de Albergue.
Muito simples mas na atual situação muito confortável. Nossa percepção de
conforto se modificou bastante depois de mais de 13 dias dormindo em
barraca. É só ter uma cama e um banheiro que o hotel é 5 estrelas para
nós.
Puente Del Inca é um vilarejo onde grande parte dos homens que vivem ali
são arrieiros que trabalham transportando carga através das mulas para os
acampamentos bases do Aconcágua. Eles tem um jornada diária de mais ou
menos 13 horas de trabalho. É uma vila muito simples, mas muito simpática.
Em todos os lugares que estavamos as pessoas nos comprimentavam. Jantamos
um sanduíche chamado Lomo. O sanduíche era muito grande, mas não foi
suficiente. Pedimos um outro para dividir. Até agora achamos que foi o
sanduíche mais soboroso que comemos aqui na Argentina. Muito cansados
fomos dormir. O ônibus parte as 12:00 do dia seguinte.
No dia seguinte acordamos as 10:00 horas da manhã. Tomamos café e fomos
visitar alguns pequenos pontos turísticos da vilazinha. Um deles é um
hotel abandonado que foi construido junto a um fonte de águas termais. A
estrutura do hotel ainda existe e é possível visitar alguns quartos. Os
quartos tem banheiras que estão cheias de águas termais. Em alguns deles é
possível até tomar um banho, mas nós ficamos mesmo só no visual. Afinal,
para quem está a 13 dias sem tomar banho, um a mais ou a menos não vai
fazer a menor diferença.
As 12:00 entramos no ônibus. São 4 horas de viagem até Mendoza. Chegando
em Mendoza buscamos um lugar para ficar. Queremos agora comer muito e ir a
um hospital. Fomos diretamente a uma rua de restaurantes aqui em Mendoza.
A comida tradicional aqui chama-se parrilhada. Parrilha nada mas eh que
carne grelhada. Carne é o que precisavamos. Pedimos cada um um bife
grelhado de mais ou menos 500g cada. Muita comida para muita fome. Sabor
demais.
Terminada a destruição perguntamos ao pessoal do restaurante sobre um
hospital próximo a rua que estavamos. Foi uma peregrinação até conseguir
um médico cardiologista. A grande maioria das clínicas só atendiam
emergência médica. Fomos obrigado a ir no melhor hospital da cidade, o
Hospital Espanhol. Ali um de nós (Murilo) passou pela avaliação de um
cardiologista e fez três exames: eletrocardiograma, ecocardiograma e exame
de sangue para avaliar enzimas do coração. Tudo normal para o alívio de
todos.
Segundo o médico, a causa mais provável das arritmias foi a queda de
potássio no organismo. O exame de sangue apontou um índice muito baixo de
potássio.
Avaliando nosso cardápio, verificamos que os alimentos eram pobres em
potássio, mesmo considerando os complementos vitamínicos. Tivemos bastante
preocupação durante o planejamento da expedição em montar cardápio preciso
em termos de peso, que não fosse perecível e que fosse saboroso, mas não
nos preocupamos com a questão nutritiva. Fica a lição que a alimentação é
um negócio muito sério. Na próxima, vamos atrás de um nutricionista.
O cume do Aconcágua teve que ficar para uma próxima. Apesar de não termos
conhecido o "Topo das Américas", voltamos com muita experiência nova,
muitos valores pessoais reconsiderados e muita saudade do Brasil. A
montanha é maravilhosa e continuará lá por muitos anos.
Essa foi nossa primeira expedição para uma alta montanha, e gostamos. Que
venham as próximas!
Agradecemos todos aqueles que nos apoiaram e que contribuiram para que
esse projeto saisse do papel: Roberto da Mundo Terra, Gilmar da Suunto,
Hilton e Beto do AltaMontanha.Com, José Cássio, Laura e Gerson Loturco,
Marcelo Brizzotti, Kelly Peres, Greg e Heather Willians, Vitor Negrete,
Truta, Fon, Roberto
Paiva, Victor Vargas, e todos nossos amigos que nos incentivaram desde o
início. A todos muito obrigado.
Murilo e Rurik
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