Aquecimento Global: O que só as montanhas revelam

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Reflexão sobre a atual dramática realidade em grandes montanhas

Desde que o alpinismo começou há 2 séculos o desafio deixou de ser o de conquistar um cume por si só e hoje foca-se no como esse cume é conquistado. Existem aqueles que tentam escalar uma montanha por uma rota mais difícil, também tem os que tentar ir o mais rápido possível e ainda tem aqueles que vão da maneira mais limpa possível utilizando a quantidade mínima de recursos. A evolução natural do esporte sempre nos levará a apimentar mais e mais as escaladas e é difícil hoje imaginar quais serão os limites no futuro. Há no entanto um desses desafios adicionais que como alpinistas modernos não podemos evitar e ficará mais difícil após cada ano. Trata-se das dificuldades trazidas pelo aquecimento global.
Noto que cada ano as rotas técnicas estão ficando mais e mais complexas. Os acessos estão cada vez mais acidentados e tem cada vez menos água nas montanhas. Normalmente quando falamos sobre aquecimento global logo lembramos daquelas imagens de um pobre urso polar se equilibrando sobre um último pedaço de gelo que restou de uma área que era totalmente congelada. Sempre aparecem aquelas ilustrações futuristas de um mundo de baixo d’água.
 Em grandes cidades porém são poucos os efeitos evidentes que conseguimos observar do tal aquecimento global. As únicas evidências disso em geralmente aparecem por meio de histórias dos nossos pais “quando eu tinha sua idade o inverno era bem mais frio”. O pouco ou quase inexistente efeito que essas mudanças trazem às nossas vidas acaba fazendo com que as ignoremos.
 Em montanhas contudo a coisa é bem diferente! Como alpinista e guia visito muitos lugares que já visitei no passado e acabo comparando com o que vi no passado. Vejo glaciares encurtando, fontes de água secando e neve parando de cair. Hoje para mim a questão não é mais SE o planeta está de fato esquentando, mas por que?
 Esta sequência de fotos foi tirada no dia 2 de agosto de 4 anos diferentes e é óbvio que algo está acontecendo.

Derretimento em apenas 12 anos – Fotos de Pedro Hauck, Maximo Kausch e Paula Kapp
 Ao ver imagens como estas a primeira coisa que vem na cabeça é que é tudo a nossa culpa. A primeira vez que percebi alguma mudança com o tal aquecimento global foi em 2004 no Aconcágua. Lembro de haver estado ali 2 anos antes e naquela ocasião o glaciar Horcones Superior terminava pelo menos 200 metros mais abaixo do que em 2004. Prontamente já fui me sentenciando e assumindo uma certa culpa por aquela cena. Todas aquelas vezes que andei de carro e fiz fogo certamente contribuíram para aquilo acontecer…
 Anos depois, também nas montanhas, observei marcas deixadas por glaciares que hoje não só não existem mais mas o gelo mais próximo dali fica a 20 quilômetros de distância. Isso me fez questionar muito sobre o quando isso aconteceu e qual influência o homem realmente teve para que esse mega derretimento comece. A resposta é óbvia e ficou claríssimo que massas continentais de gelo vêm derretendo desde muito antes o homem existir. Como humanos somos extremamente imediatistas e tendemos só a enxergar o momento.
 Nossa espécie já passou por dezenas de períodos muito mais quentes do que hoje. Um belo exemplo é o Optimum Climaticum que durou 4 milênios e esquentou a terra até 4 vezes mais do que consideramos normal hoje. Agora se formos falar da história climática do planeta, estamos falando de centenas de picos quentes na temperatura da Terra. Todos esses sem exceção não tiveram a ajuda do homem. De repente no Pleistoceno (1,2 milhões de anos atrás) aparece uma criatura chamada Homo sapiens. Ignorando completamente toda a história climática da Terra e se baseando em um pequeno pico climático, esta curiosa criatura alega ser responsável pela mudança global na temperatura.
 Acho que a questão hoje não é mais como vamos reverter o aquecimento ou até mesmo pará-lo. A questão hoje é como vamos nos adaptar à ele a aceitar essas mudanças que sempre aconteceram e sempre continuarão acontecendo em tempos apenas, não humanos.
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Sobre o autor

Maximo Kausch

Maximo é atualmente guia em grandes montanhas do Himalaia e Andes. Ele passa praticamente o ano todo em grandes altitude e ganhou muita experiência. Ele escala há 15 anos e além de escalar em grandes altitudes, ele pratica escalada mista nas horas lives, escalada em gelo, escalada em rocha e livre. Maximo é responsável por grande parte dos artigos técnicos do AltaMontanha.com

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