As 48 Horas do Quiriri – parte 1

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A travessia interestadual morro do Araçatuba (PR) – Monte Crista (SC) ainda é pouco conhecida do público montanhista. Comparando-se com outras travessias em montanha no Brasil, percebe-se que ela é uma das mais longas, se não a mais extensa, com cerca de 60 km de trilha. Todas as histórias anteriores relatavam que as equipes levaram 4 ou 5 dias para completar seu percurso. Completar a travessia em tempo recorde foi um desafio que encheu os olhos do Elcio, disposto a realizá-la em 3 dias, ou quem sabe menos.


– Impossível! É impossível
completar aquela travessia em menos de 4 dias! 60 km é muito chão…

Isso é o que todos respondiam,
quando&nbsp, Elcio Douglas Ferreira perguntava o que achavam da idéia dele de fazer a Araçatuba –
Mte. Crista em apenas 3 dias. De fato, quando se está no morro do Araçatuba e
se observa para o sul, e se vê bem longe no horizonte os campos da Serra do
Quiriri, a tendência de qualquer um é desanimar de primeira. Como eu havia
alcançado uma boa resistência física, comprovada com as duas travessias
anteriores na Serra do Ibitiraquire, acabei aceitando o convite do Elcio (fui o
único que aceitou!).
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Numa quinta-feira do mês de julho de 2008, nos
encontramos à noite na rodoferroviária de Curitiba, e pegamos o ônibus, que em cerca de
uma hora nos deixou no começo da estrada que leva ao pé do Araçatuba.
Caminhamos rapidamente os 6 km
da estrada iluminada pela lua cheia até o sítio, e começamos a subida pela
trilha em meio ao samambaial. Durante todo o trajeto até o cume quase não foi
preciso usar lanternas, de tão clara que estava a noite.
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Como nosso objetivo era andar
rapidamente, as mochilas precisavam estar o mais leve possível. Já que o tempo
estava aberto e firme não levamos barraca e apesar de ser inverno, não estava
muito frio. Também não levamos fogareiro e nenhum apetrecho de cozinha, apenas
sanduíches e frutas. O vento forte que soprava na montanha causava uma sensação
térmica baixa. Entramos rápido em nossos sacos de dormir, e enquanto
escutávamos o vento soprando furioso, adormecemos.
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Acordei com o Elcio me chamando,
antes mesmo do sol nascer. O dia seria longo, e a nossa expectativa era chegar o
mais próximo possível da divisa estadual, aproximadamente a metade da travessia.
Comi alguns biscoitos ainda dentro do saco de dormir. O vento estava ainda mais
forte do que à noite, era até difícil permanecer em pé. Assim que o sol
surgiu, partimos.
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Um agravante nessa loucura era
que nenhum de nós conhecia o trajeto. Mesmo o GPS do Elcio pouco podia nos
ajudar naquele terreno desconhecido. O Elcio tinha apenas caminhado num trecho
já quase no final da travessia, e eu nunca tinha estado lá. Encontramos na
Internet um álbum do Picasa com fotos de um grupo que havia feito o percurso um tempo
atrás, e montamos um pequeno roteiro. Após o Araçatuba, o morro seguinte era o
Baleia, e não tínhamos a menor idéia de como chegar lá. Fomos seguindo uma bem
pronunciada trilha de vacas, que desaparecia ao chegar a um pequeno cume, antes
do vale que separa o Araçatuba do Baleia. Procuramos por um tempo, mas nada de
achar a continuação. Resolvemos então seguir pelo mato no rumo do Baleia, e no
meio da descida o Elcio encontrou a trilha. Dali pra frente nosso ritmo
aumentou de novo, e cerca de uma hora depois de sair do Araçatuba pisamos no
cume do Baleia.
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O desafio agora era chegar no
Moréia, vulgo Mocréia. O caminho até o pequeno vale entre os dois morros
parecia bem óbvio, porém havia profundos sulcos que precisávamos contornar. No
fundo do vale, outra indecisão: ou subíamos direto ou seguíamos uma trilha bem
pronunciada que contornava a montanha. A segunda opção foi a escolhida, e da
trilha bem plana pudemos ver as belas paredes e aderências na encosta do
Moréia. Logo adiante, algumas formações rochosas bem características que já
havíamos visto nas fotos da Internet nos convenceram de que o caminho era
correto. Subimos até o cume do Moréia, de onde avistamos a continuação da
travessia. A montanha mergulhava numa crista suave coberta de campos até um
vale, onde havia uma grande plantação de pinus. Do outro lado do vale vimos uma
estradinha subindo o morro seguinte. Se tudo corresse bem, deveríamos passar
por ela por volta do meio-dia.
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Mesmo sem trilha, conseguimos
andar bem rápido na crista do Moréia. Porém, o que não tínhamos visto era que
antes do bosque de pinus havia uma larga faixa de mato fechado. Isso nos
atrasou um bocado, pois ficamos enroscados em bambuzinhos e caraguatás (planta
com folhas afiadas como navalhas e pontiagudas como um punhal). Alcançamos os
pinus bem arranhados pelo matagal, e mesmo dentro da plantação o mato
continuava denso. Costumamos acreditar que embaixo dos pinus não cresce nada,
mas nós comprovamos que isso não é verdade da pior maneira possível. Sem água e
loucos para poder andar rápido de novo, não víamos a hora de sair daquela
quiçaça. Enfim chegamos até um ponto onde os pinus haviam sido cortados, e
encontramos uma turma de peões almoçando na beira de uma estradinha. Impossível
descrever o espanto deles diante dos dois seres estranhos com mochilas nas
costas que surgiram do mato! Perguntamos onde podíamos conseguir água potável e
fomos até onde eles indicaram que havia um riacho. Numa pequena cascata
saciamos nossa sede com aquele sucão e comemos alguns
sandubas, pois já passava do meio-dia.
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A estradinha que tínhamos visto
do Moréia não passava de ilusão: ela subia uma pequena colina, e entre ela e o
morro atrás, havia um vasto vale coberto de mato. Como não queríamos perder
mais tempo nos enroscando em bambu, contornamos esse vale pelos pinus, até
encontrarmos uma estradinha, por onde pudemos cruzá-lo e iniciar a subida.
Estávamos felizes por andar novamente nos campos, e a visão desoladora da
plantação de pinus sendo cortada não nos dava saudades. À medida que ganhávamos
altitude, aumentava nossa expectativa em relação ao que encontraríamos além
desse morro.
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No alto, a visão que tivemos foi
terrificante: à nossa frente se abria um vale ainda maior do que o anterior,
também coberto por plantações de pinus sendo cortadas! Uma das únicas dicas que
tínhamos sobre essa travessia dizia que a descida que nos aguardava era bem
íngreme e coberta por um bambuzal quase intransponível, e quanto mais à
esquerda, mais fácil era descer. O topo desse morro forma uma crista quase
plana que se estende no sentido Leste-Oeste. Decidimos seguir por essa crista
até achar um ponto favorável à descida. Para nossa surpresa, em pouco tempo
achamos o que parecia uma trilha de cavalo, que seguia na direção que
queríamos. Apesar da vegetação aberta, não conseguíamos andar depressa, pois
não queríamos perder a tal trilha.
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Depois de um longo trecho, saímos
numa estradinha. Agora o desafio era achar qual o caminho correto, em meio a um
labirinto de estradas. Deixamos nossa intuição e bom senso nos guiarem, e assim
não demorou muito a nos perdermos. A tarde já estava no fim, e tínhamos ainda
pouca luz para alcançar a encosta do outro lado do vale. Uma vez no alto, a
divisa estadual estaria bem próxima. Mas a rede de estradas não foi aberta
seguindo um plano lógico, como numa cidade, mas sim ao acaso. Quando
encontrávamos uma que ia na mesma direção que nós, andávamos por ela, mas logo
ela terminava no meio do nada, ou mudava bruscamente de direção. E então éramos
forçados a voltar e procurar outro caminho.
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Para nós, que amamos andar na
floresta intocada, o que mais incomodava era a desolação deixada pela derrubada
dos pinus. Mesmo sabendo que esse bosque foi plantado para isso e que a madeira
é um recurso do qual nossa sociedade necessita, não há como não se sentir mal! Como
o Elcio posteriormente bem definiu esse trecho: “Eu acho que fomos deixados naquele bosque de pinus à noite e tivemos um
pesadelo, sonhamos que estávamos andando num lugar infernal, horrível,
devastado e desolado… mas felizmente acordamos de manhã e percebemos que tudo
não passou dum sonho ruim!”.
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Novamente com pouca água, fomos
reabastecer os cantis num belo rio. Mas o Elcio não estava seguro quanto a
qualidade da água, e não quis tomar. De fato, a última coisa que a gente quer
numa travessia dessas é ganhar uma caganeira. Mas como não ligo muito pra essas
coisas, matei minha sede até não poder mais e enchi o cantil.
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Já estava quase escurecendo
quando chegamos ao outro lado do vale. E mais uma bifurcação, onde pegamos à
esquerda. No morro antes desse vale, aproveitamos para estudar o melhor
possível a rede de estradas, e havia uma que, após uma longa curva, leva até o
alto do morro seguinte. Apesar de eu achar que estávamos na via errada, o Elcio
tinha certeza absoluta de que aquela era a correta. Depois de andarmos um
tempão, ele resolveu tocar encosta acima, para atalhar a longa curva. Ainda
achando que aquela era a estrada errada, fui atrás dele. Para minha surpresa e
alegria, o danado estava certo, e achamos novamente a estradinha. Agora
estávamos muito perto do topo, e podíamos seguir rapidamente pela estrada.
Entretanto, o sol já tinha se posto, e logo teríamos que achar um lugar para
bivacar. Quando chegamos no alto, a estrada mudou de direção, então decidimos
seguir no rumo sul, em direção da divisa estadual. Mas logo encontramos um
bosque de pinus com o chão formando aquele tapete fofo de folhas de pinus. Não
tivemos dúvida: iríamos dormir ali mesmo!
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Consultando no GPS, percebemos
que estávamos quase do lado da divisa estadual. Tínhamos completado metade da
travessia em apenas um dia! Mantendo esse ritmo, era certo que alcançaríamos o
Monte Crista até a noite seguinte, terminando a tão falada travessia em apenas
dois dias!
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Continua na parte 2

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Sobre o autor

Mikael Arnemann

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