As Gêmeas da Mãe Catira

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Colocamos roupas secas e nos dirigimos ao quiosque da Vista Engenheiro Lacerda, no alto da estrada da Graciosa, pra tomar uma água de coco e comer uma espiga de milho verde. Silas, o atendente, mostrava-se curioso e ansioso para iniciar a conversa, mas antes queria certificar-se de onde estava pisando.
Começou perguntando:
– Foram nas Gêmeas? Pela picada da Santinha?

A picada da Santinha é o nome genérico de um conjunto de trilhas obscuras que nascem atrás do marco de pedra no quilômetro 22 desta centenária estrada, onde existiu até meados da década de 70 uma capelinha com a imagem de Nossa Senhora. Perguntei por que a santa foi removida dali.

    – Diziam que tinha ouro escondido debaixo do altar. E voltando ao assunto principal: Conhecem a outra cachoeira grande? A da nascente?
Demorei em entender que ele se referia a cachoeira da Santa, na borda do dique de diabásio, pois as nascentes do rio estão ainda muito distantes. E no rolar da conversa foi ficando cada vez mais confiante. Queria saber o quanto sabíamos, plantava verde.

    – Antigamente sempre ia até lá, mas nunca mais encontrei o caminho. E os acampamentos? Viram os acampamentos?
    – Claro, no último feriado até dormi naquele na curva do rio acima da cachoeira. Foi você quem o fez? Perguntei desinteressadamente.
    – Com meus amigos, mas faz tempo que não vamos até lá. Tem também o de lona preta no cocoruto que usamos como ponto intermediário para chegar ao outro.

Assim confirmei que eles não usam o rio, mas trilhas escondidas para chegar aos acampamentos e só imagino o volume/peso que transportam para gastar mais de dois dias neste trajeto. Sem críticas perguntei se iam lá para caçar ou extrair palmito.
    – Só prá passear. Quando descerem no mato pra voltar no mesmo dia é só me chamar que vou junto. Garantiu.

Sem a menor dúvida, está anotado no meu caderninho prá nunca esquecer.

A primeira visão das Gêmeas da Mãe Catira foi marcante demais para mim quando ainda não havia completado 8 anos de idade. A estrada da Graciosa era a única ligação com o litoral e da janela do ônibus vi a cachoeira dupla despejando espuma no fundo da grota. Nascia ali um desejo louco, uma fascinação absurda a corroer a alma.

Passados dez anos, em 1975 realizei com amigos, as primeiras investidas visando alcançá-la. Exploramos o Rio Cascatinha e depois o Rio da Grota Funda munidos de facão, corda de cânhamo, calças jeans e coturnos do exército. Aventuras épicas que nos levaram até o leito do Rio Mãe Catira, mas muito abaixo do objetivo. Então há alguns anos atrás – com o Hilton, o Pedro Hauck e o Marcelo Brotto – sem perceber tomamos um ramal desconhecido da Trilha da Santa e resolvemos explorá-lo quando chegamos numa grota perigosíssima em meio a uma seqüência absurda de grandes corredeiras e enormes quedas d´água. O dia estava horrível, com muita chuva e as pedras ensaboadas não nos animaram a circular por ali, mas fiquei com a dúvida instalada: Será?

Narrei estes fatos ao Paulo Marinho e combinamos de um dia retornar lá para explorar melhor o lugar, mas o tempo foi passando e esquecemos o assunto. Até domingo passado quando acordei com o celular berrando na mesinha de cabeceira.
    – Não está chovendo, vamos tentar encontrar as Gêmeas? Passo aí em meia hora.

Duas horas depois estávamos no meio do mato, encharcados até a medula e batendo queixo dentro dos anorakes no início da Trilha da Santinha. Dentro da mata não havia garoa, apenas um gotejar gelado e incessante, um silêncio profundo na atmosfera densa, úmida e fantasmagórica. Na última vez, errando, encontrei a trilha certa, mas agora procurando-a sabíamos que seria difícil. Começamos a explorar todos os ramais que surgissem a direita, o primeiro nos levou a uma arapuca feita de troncos e cipós para caçar animais silvestres. Depois de fotografá-la sob diversos ângulos comecei a estudar seu mecanismo de gatilho, então "sem querer" ela se desarmou.

A segunda nos fez fazer um giro de 360 graus e andar sobre nossas próprias pagadas, até que na terceira tentativa tivemos mais sorte e o caminho galgou um cocuruto, mas também desembocou na trilha principal uns 500 metros a frente. Finalmente na bifurcação seguinte obtivemos sucesso e o trilho encaminhou-se para uma vertente muito inclinada. O chão barrento e escorregadio levava rapidamente ao fundo da grota e nos vimos desescalando um barranco a pique com o rio rugindo mais abaixo.

Chegamos ao mesmo recanto que estivera antes, no meio de uma avassaladora corredeira entre duas grandes quedas. A chuva já havia cessado e o rio estava mais cheio, as lajes mais lisas e o lugar mais perigoso que da primeira vez. Cuidadosamente iniciamos a exploração da queda inferior. O rio corre por uma imensa laje escorregadia até chocar-se contra os paredões de pedra da margem oposta, lançando-se num vazio de 50 metros sobre outro degrau de altura indeterminada para ressurgir a frente numa imensa piscina que se perde na curva do terreno. O barulho é ensurdecedor.

Subindo pelas imensas pedras ensaboadas a centímetros da torrente líquida fui encontrando profundos poços repletos de redemoinhos, sumidouros e inúmeras quedas menores até uma barreira de enormes pedras roladas. Vencido este boulder, o rio se contorce a esquerda e por entre uma fenda no paredão seguinte aparecem as duas grandes cachoeiras, lado a lado, arremessando-se num vazio de 70 metros até um reboliço delirante de espuma branca e pedras negras. Escalamos a encosta barrenta até um mirante elevado e 44 anos depois o menino finalmente a encontrou frente a frente, olhos nos olhos.
 

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Sobre o autor

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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