As Grandes Travessias de Crista

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Se você recuar para meu texto sobre a TransMantiqueira, verá referências a duas destas travessias de crista, da Serra Fina e do Marins. Acrescento agora a da Serra dos Órgãos.

Na coluna passada, comentei sobre as três travessias no Parque Nacional de Itatiaia. São caminhos maravilhosos feitos em um ou dois dias, variando de 24 a 32 km. Mas não são de cristas e sim de vales ou encostas. Fiquei então pensando sobre as outras grandes travessias brasileiras – acho que, na minha experiência, seriam ao todo pelo menos uns quinze ou mais longos percursos em ambientes variados, nem sempre por cristas.

Castelo do Açu, Travessia Petro-Teres

Como este espaço é destinado a comentários rápidos sobre minhas vivências na natureza, vou apenas esboçar abaixo um resumo destes caminhos. Começo aqui pelas três trilhas de cristas montanhosas, todas elas radicais. Quem sabe você comente depois sobre outras travessias.

As Altitudes das Serras Finas e Ibitiraquire

Não tenho receio em afirmar que a principal travessia brasileira é a Serra Fina, cujos 50 km são normalmente feitos em 4 dias. Atravessá-la não tem nada de óbvio, devido ao relevo recortado, ao clima traiçoeiro e às cristas transversais. Isto significa que na maior parte do tempo você encontrará dificuldades, para avançar ou orientar-se. Esta travessia foi uma conquista do Clube Alpino Paulista, envolvendo durante os doze anos de 1970-83 talvez mais de 30 montanhistas. Os acessos eram outros, até que se estabeleceram a entrada oeste pela Toca do Lobo e a saída leste pela Fazenda do Pierre, que vieram a resolver a travessia, que era até então uma incógnita.

Pedra da Mina ,Travessia da Serra Fina, RJ

Como a Serra Fina é o centro da Mantiqueira, dos seus altos são possíveis vistas inacreditáveis dos demais maciços, Marins e Itatiaia, e em particular do Agulhas Negras. É comovente rever de uma só vez tantas montanhas conhecidas do Sul de Minas e do Vale do Paraíba – e até mesmo avistar lá longe a Bocaina e os Órgãos. Além disto, a própria Serra Fina contém vistas fantásticas: o dorso abaulado da Pedra da Mina (2.800m), os perfis afiados do Capim Amarelo (2.400m) e do Três Estados (quase 2.700m), a longa crista rochosa do Cupim de Boi (2.600m), a bacia plana e ocre do Vale do Ruah, as enormes paredes rochosas ao sul, as verdejantes encostas mineiras. Você andará 6-7 hs por dia, ou seja, 12-15 km por vez.

Morro Cupim do Boi, Serra Fina com Agulhas ao Fundo, RJ

Como muitos dos leitores do Alta Montanha são paranaenses, vou incluir um comentário acerca da sua principal montanha. Os frequentadores do temível Pico Paraná dizem às vezes que as travessias ao longo da Serra de Ibitiraquire, onde ele está situado, são semelhantes à da Serra Fina. Por exemplo, entre vários, há um trajeto entre o distante e isolado Ciririca e o panorâmico Cerro Verde, chegando ao Itapiroca (1.800m), uma montanha amena razoavelmente próxima ao Paraná. Ou então, os caminhos entre o íngreme Ferraria e o amplo Caratuva (1.850m) ou ainda do Tucum ao Camacuam, montanhas estas que fazem parte do impressionante escudo frontal ao Pico Paraná (quase 1.900m). Variam de talvez 85 km em quatro dias a 20 km bate e volta.
Mas a Serra Fina tem um longo espigão longitudinal, que aqui não acontece, acho que o conceito de travessia de crista não se aplica, por mais árduos que sejam os percursos paranaenses. E talvez sejam de todos os mais duros, pois esta região abriga uma incrível coleção de 30 picos, com orientações, rampas e vegetações muito difíceis, pioradas pelo clima horroroso. Não a conheço bem, nela estive apenas por três vezes e confesso que sempre com contratempos.
Considero Petro-Teres nossa segunda principal travessia, aliás foi a primeira que fiz. Ela tem 30 km e pode ser percorrida em dois ou três dias, através da Serra dos Órgãos. Apresenta três trechos distintos, o primeiro sendo do Bairro do Bonfim em Petrópolis até o Castelo do Açu (2.200m). Este é um espetacular abrigo rochoso no alto de um platô com uma vista maravilhosa. É o mais curto e penoso, com 7 km, quase todo em subida. O segundo trecho é o mais perigoso, confuso e bonito, passando por vários vales altos e terminando na Pedra do Sino (quase 2.300m), ponto culminante do percurso, onde começa a descida. O terceiro contém a longa e monótona rampa sinuosa da encosta da serra, até a sede do PNSO em Teresópolis. Cada um destes dois tem aproximadamente 12 km.
É um visual extraordinário, desde o verdejante Vale do Bonfim e a azulada e alegre Baía da Guanabara, até as impressionantes montanhas do Dedo de Deus, do Sino e do Garrafão – são associadas a elas importantes conquistas do montanhismo brasileiro. Mas é também muito bonito passar por formações como o Morro da Luva e a Pedra da Baleia. E a ascensão do Sino tem seus lances, facilitados por uma escada de ferro – ela foi bravamente colocada por um montanhista de Petrópolis chamado Endre de Gyalokay.

No Alto da Petro-Teres com Vista do Dedo de Deus, RJ

Chamo de Mariguaré o percurso entre o Marins (2.400m) e o Itaguaré (2.300m), as duas principais montanhas do maciço dos Marins – que compõe o espigão mestre da Mantiqueira. São 25 km, sendo 15 km de cristas e 10 km de encostas, podendo ser percorrida em dois dias, naturalmente em qualquer dos sentidos. Éramos apenas dois quando a atravessamos, o que nos deu um forte sentimento de harmonia e serenidade. Foi este trajeto que ocupou o imigrante japonês Hideki Maeda muito tempo atrás durante meio ano, quando ele o implantou de forma primorosa. Na realidade, ele também sinalizou uma rota alternativa, que chega diretamente ao Marinzinho, já quase no meio da serra.

Cume do Marinzinho à frente do Marins, Marmelópolos, MG

É um percurso mais compacto do que os outros dois, menos variado e colorido do que a Petro-Teres e menos espaçoso e dramático do que a Serra Fina, mas também esplêndido no panorama do monumental Marins, na travessia direta pela crista do Marinzinho e na visão das impressionantes escarpas do Itaguaré. O acampamento na Pedra Redonda é um dos mais belos que conheço, perdido naquela fina crista entre as duas montanhas imensas, num isolamento feliz e único.

Vista do Maciço dos Marins a partir do Morro do Careca, MG

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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