As Travessias de Itatiaia

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Já escrevi antes sobre a TransMantiqueira, uma trilha de 400km que atravessaria toda esta serra. Eu nunca a completei, talvez um dia eu faça, pois já percorri sua maior parte. Mas, se tivesse feito, gostaria de chegar a seu fim por uma dessas travessias no interior do PN Itatiaia, que descrevo a seguir.

 
O Parque Nacional de Itatiaia é para mim um verdadeiro monumento natural, a mais emocionante paisagem brasileira. Você talvez ache interessante conhecer um pouco da história de sua criação. 
 
Foi o sueco Loefgren, que participou da formação de inúmeros hortos florestais em nosso país, quem primeiro propôs o estabelecimento do PNI. Bem depois de sua morte e com o apoio de muitos naturalistas, o Parque foi afinal criado por Getúlio Vargas em 1937 – nosso primeiro Parque Nacional. No ano seguinte, surgiram as duas outras unidades mais antigas do Brasil, Foz do Iguaçu e Serra dos Órgãos. 
 
O grande administrador do PNI foi Wanderbilt de Barros, cuja gestão durou por 13 anos, até 1956 – foi dele praticamente toda a estrutura que hoje existe. Tirando um mandato (nada notável) de dez anos na década seguinte, a permanência de gestores desde então não chegou em média a dois anos cada. Desta instabilidade resultou em parte o lamentável estado do PNI, que tantas vezes visitei invadido por animais, abandonado pela fiscalização ou ressecado pelo fogo.
 
Esta situação perdurou até a chegada de Walter Behr em 2005. Sua longa administração (já encerrada) foi capaz de recuperar trilhas e instalações. E de pacificar as relações com as comunidades vizinhas, frequentemente ignoradas pelos gestores que o precederam. Foi a partir dele que as travessias, então proibidas, foram sendo habilitadas.
 
Existem três longas travessias através do Parque. Todas têm em comum o fato de partirem do Abrigo Rebouças (2.350m). Ele foi nomeado em referência ao engenheiro e professor que primeiro propôs a criação de parques naturais no país, à semelhança de Yellowstone nos Estados Unidos – que foi o primeiro parque do mundo. Apresentam uma parte inicial alta nos platôs do PNI e uma metade final baixa, dentro da floresta de encosta. E terminam na sede do Parque ou em Visconde de Mauá (a 1.100m)
 
A mais simples delas segue pela direita ou pelo sudeste e chama-se Ruy Braga. Ele era um excursionista que inacreditavelmente costumava percorrer todas as semanas o caminho no sentido inverso, para chegar aos esplêndidos maciços de cima. A razão é que não havia o acesso pela Garganta do Registro, hoje chamada Rodovia das Flores, não sei bem o porquê deste nome meio bobo. Assim, todos os antigos abrigos ficaram ao longo desta primeira rota. O mais notável deles é o Abrigo Massena, que homenageia o também engenheiro de Aiuruoca que conquistou o Agulhas Negras, que ele chamava de atrevida montanha.
 
A travessia tem 24 km e é percorrida em um só dia. Sua parte alta tem cerca de 10 km, quando você terá o Agulhas à sua esquerda distante e as Prateleiras mais a Pedra Assentada, à direita. Ela acaba um pouco depois do Massena. Se o trecho inicial no planalto é glorioso, o seguinte no interior da mata é bastante monótono. Ele vai até as Cachoeiras do Maromba, perto da sede do Parque, numa bonita região sombreada (nada a ver com o Maromba de Mauá, trata-se aqui do Rio Campo Belo que você já conheceu lá em cima).
 
A segunda travessia de 32 km é feita em dois dias e parte à esquerda, ou seja, a noroeste. Ao invés das montanhas do caminho anterior, você contornará a Pedra do Altar e chegará ao delicado Vale do Aiuruoca. Você voltará a encontrar (e terá de atravessar) este rio cerca de 12 km após a partida, quando começará o trecho baixo. Novamente dentro de uma mata um tanto rala e pouco interessante, você percorrerá mais 10 km razoavelmente planos até a comunidade de Matão, onde deverá pousar. Veja que você está percorrendo uma grande curva, o que torna esta trilha maior.
 
No segundo dia, subirá até o cênico Morro Cavado, um grande campo, local onde se encontram caminhos do interior mineiro. A partir daí, descerá por agradáveis 10 km numa antiga rota de tropeiros até o Escorrega do Maromba ou a Cachoeira de Santa Clara, ambos em Visconde de Mauá. Aconselho intercalar um dia a mais, para subir ao Pico da Serra Negra (quase 2.600m), pois é a mais norte e uma das mais elevadas das montanhas visitáveis do PNI.
 
Mas a meu ver a mais radical das travessias é a do Rancho Caído, com 27 km que cruzam o Parque por seu centro, e é também feita em dois dias. Seu nome vem de um antigo curral da época em que animais pastoreavam o Parque, vindos de baixo. É neste local que você deve acampar, talvez 10 km depois do início, envolvido por um arco maravilhoso de montanhas e protegido por uma clareira sombreada. Antes, você terá passado entre a Pedra do Altar e o Agulhas Negras, contornado o Ovos da Galinha e atravessado o manso Vale dos Dinossauros, num verdadeiro delírio visual.         
 
No dia seguinte, você terá de descer pela rampa do Mata Cavalos (imagine a razão deste nome), até ingressar na mata montana das encostas de Visconde de Mauá. Serão mais de 15 km bem maçantes até o Vale das Cruzes. Mas, novamente, sugiro investir um dia a mais na subida do Pico do Maromba (2.600m). Caminhe então até a sua extremidade chamada de Cabeça de Leão, um lindo anfiteatro de blocos rochosos. Aliás, este percurso de crista torna o Maromba uma formação única no Parque.
 
Estas travessias foram sendo liberadas pelo PNI na ordem em que as relatei. E eu também as percorri nesta mesma ordem. Mas tive de esperar por quase 20 anos para conhecer a última delas. Neste país, a gente tem de sofrer antes, para poder depois ser feliz.
 
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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