Big 1000 nos Pirineus Franceses

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Um sonho começa com metas e possibilidades, desde que comecei a procurar lugares de escalada em Ariege que é uma região no Pirineus na França, pois é lá que acontece o evento transcultural Dança da Águia que vou todo ano, é uma vivência de limpeza dos corpos, físico, mental e Espiritual. E após o quis unir o útil ao agradável de escalar, após o retiro.

Encontrei o Dente de Orlú, que é uma formação de granito com o cume de 2222m na cadeia de montanha dos Pirineus no Vale D’Orlu. Dentre muitas opções de vias desde 30m a 1000m, escolhi a via Les Enfant de La Dalle 940m, com 25 enfiadas, um lance de A0 e crux na 14 enfiada com 6a + francês. Muito bem organizado os setores e os croquís no seguinte site: www.cafma.free.fr .

Dente de Orlú

Quando vi que a via estava entre 1000m de escalada, acendeu a luz interior e a motivação veio a mil. Perguntei pra o parceiro Mathieu que é francês e mora nos Alpes, se ele topava, ele disse que sim, combinamos então que eu só levaria meu equipamento pessoal, o restante ele tinha lá.

Dois dias antes do Big wall, fomos conhecer o tal Vale Orlú e escalar algumas vias pra conhecer o acesso, pois não poderíamos perder tempo no dia da aventura, ainda mais que vimos a possibilidade de precipitação em 60% no fim da tarde, mas não teríamos outra oportunidade neste ano. Vamos assim mesmo, decidimos.

É uma Vale muito bonito, com um rio que atravessa ele e serpenteia. Tem trekking partindo desse vale, tem um setor de Boulder na sombra a beira do rio, muita natureza.

Aproximação pela manhã

No dia 22 de setembro de 2018 terminamos de organizar as coisas as 23h, hora do descanso. Acordamos as 4:20 da matina, pois faríamos 1h30m de carro e mais 1h de trilha até a base da via que dá 450m de desnível. Recomendo dormir já no Vale.

Café da Manhã na base da via, pedindo licença e proteção a mãe natureza, começamos a escalada as 8h, a via estava um pouco molhada e escorregadia nas primeiras enfiadas, tinha neblinado no dia anterior.

Logo passando do meio dia, ficou seca, é bem protegida até a crista, já nas últimas enfiadas achei menos protegida. É uma escalada mais técnica em aderência e oposições, pela tradução já se vê: que Dall significa = liso.

Com o croquis desenhado no braço.

Candra, Mathieu e a via.

Visual do meio da via para o Vale.

No meio da parede.

É um visual impressionante o tempo todo, da cadeia de montanhas e vales dos Pirineus, era um dia generoso por não estar muito quente, tinha algumas nuvens. Na 20 enfiada, estava fazendo a segue e vejo um águia vindo em direção ao Mathieu, ela sobrevoa, circulando e analisando, por uns momentos, logo se vai.

Ao aproximar da crista que fica a partir da 18 enfiada, vimos mais longe a formação de chuva e até conversamos a possibilidade de rapelar. Pois a partir daí o rapel seria impraticável, de acordo com o croquí. Decidimos continuar, a parte mais exposta e arriscada foi a crista. Nas últimas 3 enfiadas começaram a cair pingos de chuva, molhou a rocha e tive que fazer alguns lances em artificial. Agilizando tudo o mais rápido que podia pra chegar no final antes da chuva, me ancorei e dando segue pra Mathieu na última enfiada, desabou o céu, chova forte com raios, sentimos no nosso corpo uma pequena descarga elétrica. Granizo, muito vento e chuva durou por uns 20min, foi a nossa sorte. Foram 9h de escalada, onde em algumas paradas, atropelava e fazia duas enfiadas em uma e algumas proteções que optava em não colocar.

 

Reabastecemos com alimento, e tentei continuar a escalaminhada em direção ao topo, montei na pedra como se estivesse num cavalo e fui me arrastando, muito escorregadio e arriscado na crista, decidimos fazer o rapel.

Iniciamos o rapel quase as 18h com bastante nuvem ainda da tempestade que ali passou. Olhando as encostas lá embaixo, córregos fortes e cachoeiras com tanta água da chuva. Foram 5h de rapel com a rocha bem molhada, ficamos encharcados na descida. Faltavam 2 dias para a lua cheia, entre as nuvens da tempestade e os ventos ela as vezes surgia. Chegamos de volta na base da via as 23h, lanchezinho pra repor e descidão até o carro, com uma satisfação e sorriso no corpo. O trajeto mais difícil foi ficar acordado de copiloto no retorno de carro.

Ao total 21h de atividade, onde pudemos contar com os dias mais longos do verão Francês.

Escaladores:
Caiuá – Guia, escalador na Chapada Diamantina – Bahia

Mathieu – Construtor e Escalador – Alpes – França

Está feito e é uma coisa boa, Pilamayahey

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Sobre o autor

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Sou nascido na Chapada Diamantina – Vale do Capão, Brigadista Voluntário, Guia e escalador.

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