Bito Meyer – uma lenda do montanhismo

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Bito Meyer que já escalou e conquistou centenas de vias, em todo o país e no exterior ao longo de mais de 40 anos de experiência em montanha, é uma das lendas do montanhismo nacional e sul americano


Bito Meyer foi um dos primeiros brasileiros a escalar montanhas de extrema dificuldade como o Fitz Roy, Cerro Torre e Agulha Poincenot (um dos recordes de velocidade de ascensão mantidos até hoje) na Patagônia, Bolívia, El Captain nos EUA e a ter conquistado em terras brasileiras centenas de vias de escalada por todo o país.

Bito Meyer continua realizando grandes conquistas, como por exemplo a face sul da Pedra Riscada (Veja matéria: www.brasilvertical.com.br), que é o 5º maior monolito do planeta. A conquista da Via “Cria Cuervos” (7 E5 D6) com seus 1200m de parede que foi realizada ao longo de cinco anos e segundo o próprio Bito foi a via mais difícil e arriscada que ele já conquistou até hoje.

A nova geração de montanhistas deposita grande respeito e admiração por Antônio Carlos Meyer, ou simplesmente Bito, tido como um dos grandes nomes do alpinismo no Brasil. Bito nasceu em Curitiba, em 5 de julho de 1957, filho de Albino Meyer e Odila Meyer, e traz seu apelido, desde os tempos de infância recebendo por ser “meio pesado”, o apelido de Chumbito que mais tarde, graças à mania nacional de abreviar tudo, resultou no atual Bito. Até os treze anos de idade, viveu em Alegrete, Rio Grande do Sul, onde vivia em constante contato com a vida ao ar livre, o campo, a fauna e a flora local.

Certa ocasião acompanhou o pai numa pescaria, fato que acabou se tornando na faísca que faltava para incendiar a fogueira. Daí para frente a sede de mato era tanta, que resolveu ingressar no escotismo, onde permaneceu alguns meses, até descobrir, que sabia mais que eles. Mais tarde voltou para Curitiba, dando continuidade aos seus estudos. Em janeiro de 1970, num belo fim de semana, resolveu conhecer, em companhia de três colegas, o então desconhecido (para eles) Marumbi. O quarteto resolveu subir o Abrolhos, num passeio que prometia ser um sucesso, se não fosse o fato de na descida, terem entrado na picada do rio seco, que obrigou o destemido quarteto a mais de seis horas de penosa caminhada até chegarem a Estação do Marumbi. Naquele dia, Bito jurara, por tudo que é santo, que não voltaria mais ao Marumbi.

De fato, como todo montanhista que se preza, no dia 14 de março voltava ao Conjunto e fazia a sua primeira escalada “técnica”, a Bandeirantes no mesmo Abrolhos.

Em meados de 1970, Bito e mais alguns amigos, resolveram conhecer o Anhangava. Saíram de Quatro Barras, traçando uma linha reta até algumas paredes que viam a distância e que não tinham a certeza ser o Anhangava, pois ninguém em Quatro Barras, sabia onde era o tal morro Anhangava. Os nativos apenas conheciam o morro da Santa. Na falta de informações mais precisas, saíram transpondo fazendas, casas, riachos, correndo de cachorros, até chegarem as almejadas paredes. Esgotaram todas as possibilidades que as pedras ofereciam escalando sempre com segurança de cima, pois a maioria das vias escaladas não estavam grampeadas.

Daí para frente, não sossegou mais tendo virado todos os cantos da Serra (Serra da Prata, Pico Paraná, Arenitos de São Luiz do Purunã, algumas grutas, etc…) e que culminou com a 1ª Expedição Brasileira em 1973, ao Pico Illimani (Face Oeste) na Bolívia, onde escalou gelo pela primeira vez, acompanhado dos amigos Danilo, Leonel, Inglês. No Brasil, conheceu quase todas as montanhas escaláveis incluindo à “Pássaro de fogo” no Rio de Janeiro, tida como uma das escaladas mais difíceis no Brasil.

Bito é um incansável defensor da “escalada com segurança de cima”, pois acredita que este sistema de escalada oferece mais vantagens do que as rotas pré-estabelecidas (grampeadas). A escalada com segurança de cima, oferece condições supremas e de todos os níveis aos montanhistas, que precisa seguir uma linha prefixada, ganhando assim mais liberdade nos movimentos, que por conseqüência tornam-se estes movimentos mais harmônicos. Com este sistema, o montanhista pode escapar naturalmente das situações que a pedra lhe impõe, de acordo com sua situação, condição e capacidade afinal, “a montanha não é um inimigo a enfrentar e sim um amigo a freqüentar”.

Bito cita o caso da via Principantes (no Anhangava), escalada que muitas vezes subiu em livre com segurança de cima, sem maiores dificuldades, até que um dia colocou-se um verdadeiro paliteiro no local, desvirtuando uma belíssima rota natural. Bito, vêm de um tempo, onde o importante era escalar e conquistar, pouco importando se batia ou não grampos. Hoje em dia, existe a mania de considerar rota conquistada somente as grampeadas, que muitas vezes levam nomes pomposos, e que nem sempre são concluídas, porque seus autores não conseguem entender que alpinismo não é uma coisa doméstica. Alguns montanhistas infelizmente estão mais interessados em publicidade em torno de seus nomes, em entrarem para a posteridade batizando alguma escalada, do que propriamente, em escalar.

Na década passada, Bito recorda-se que o montanhismo era feito “meio na louca”, laçava-se grampo, amarrava-se corda na cintura, usava-se de tudo que é meios e artifício para subir, todo mundo se bitolava no Anhangava. Nesta época conheceu Leonel Mendes, com quem iniciou uma parceria que perdurou por muitos anos. Leonel na época, não praticava alpinismo com freqüência, mas tinha sólidos conhecimentos de tudo que se passava no montanhismo europeu e americano, através de revistas e periódicos que recebia.

Assim começou uma espécie de intercâmbio de informações onde Leonel entrava com os conhecimentos técnicos e Bito com conhecimentos práticos. A dupla tinha uns lances pitorescos, pois quando iam a montanha, invariavelmente um vestia uma camiseta verde, e outro uma camiseta amarela, o que naturalmente provocara risos e gozações por parte dos colegas. Engraçada ou não, a dobradinha verde-amarela era incansável, e entre outras escaladas fizeram todas as fendas da Esfinge, a Oeste em todas as suas formas e todas as escaladas do Parque do Lineu, também foram escaladas por Bito em solo.

A dupla, além de esforçada tinha grandes ideais, pois almejavam atualizar o montanhismo paranaense, colocando-o entre um dos melhores do mundo. Mas esta pretensão, era no sentido de não se submeterem. Bito em muitas ocasiões chegou a passar a imagem de arrogante, por suas posições neste sentido.

Esta vontade ferrenha de evoluir e melhorar, levou Bito a pensar na criação de um clube onde aficcionados do esporte, pudessem conversar, trocar idéias e se atualizar. Bito recorda que era frustrante ver os jovens da década passada irem para o Marumbi, passarem seu tempo entre “bebedeiras e mulheradas” enquanto os veteranos dedicavam-se as suas caminhadas, que tampouco interessavam aos jovens. É verdade, que este problema existe hoje em dia, mas com uma diferença fundamental, que entre as “mulheres e bebedeiras” existe um bom grupo de jovens interessados e que praticam alpinismo.

O Clube Paranaense de Montanhismo nasceu de uma brincadeira de crianças, um sonho, que aos poucos foi ganhando contornos de realidade. O Clube, passou alguns anos sem ter existência jurídica (estatutos registrados, atas, etc…) mas tinha existência física. Deu-se o nome, criou-se o distintivo, que aliás, foi extraído de um Clube de Montanha do Canadá. Para que o distintivo não fosse exemplo de um plágio gritante, providenciou-se algumas mudanças trocando-se a neve que existe no original por nuvem, e o pinheiro canadense por uma regionalíssima araucária. Bito acha que o Clube atualmente, atingiu uma proporção difícil de acompanhar, talvez por estar afastado algum tempo do Clube pois mora em outro Estado. Mas, apesar de não poder sentir toda a realidade em torno do CPM, acha que o Clube está bem assessorado, e tem bons amigos, como a ADEA, ITC, SUREHMA, SECRETARIA DO INTERIOR entre outros, e isto é muito promissor.

Quanto aos sócios, sentiu que a gurizada (que me desculpem) está muito devagar. Falta pique pra moçada. Outro problema é a desunião, formação de alguma “panelinha”, autoridade no sentido de ter que esperar uma ordem para aprender, quando a pedra está ali, bastando apenas ir a ela. O pessoal confunde alpinismo com “boulder”, que não passa de uma brincadeira para passar o tempo. Quem sobe o meio fio de uma calçada, ou tropeça numa pedra está fazendo “boulder”. Que não fiquem perdendo tempo, medindo quem tem melhor técnica pois de nada adianta saber fazer um 10º grau Sup. Se não consegue transcender o menor amor por aquilo que está fazendo.

Bito, sempre soube se relacionar muito bem com os jovens, por isso, ao término desta entrevista, solicitamos, que transmitisse um pouco de sua experiência a nova geração de montanhistas, através de algumas palavras. Finalizou esclarecendo que a base de seu entendimento com os jovens, sempre foi o respeito recíproco, e não ficar “podando” os meninos, cada vez que tentam externar sua vontade, não o seguissem, e tampouco copiassem outros alpinistas. Usem de toda a sua espontaneidade e liberdade para criar. E acrescenta, que não coloquem ninguém em pedestais distantes demais, pois a distância acaba impedindo de ver, do que esta pessoa é feita.

Só se aprende a escalar indo a pedra, de outra maneira a coisa não acontece. Ir a um Clube não basta, mesmo porque um Clube somente será de montanha, à medida que seus sócios freqüentarem a montanha. Vençam suas próprias limitações, quebrem seus próprios recordes, lembrando que só vai ser alpinista, quem estiver na pedra. Quando descer, enrolar a corda, a coisa transforma-se em papo e marola. Stamm* já dizia, quem quer escalar “pega a mochila e se manda”.

Atualmente Bito Meyer reside em São Paulo e mantém junto com Karina Filgueiras o site especializado em escalada Brasil Vertical.

“Eu escalo, simplesmente jogo o jogo, e não como se fosse uma penitência, mas sim, como uma dádiva.”
&nbsp,&nbsp,&nbsp,&nbsp,&nbsp, Bito Meyer

Fontes: CPM – Boletim Informativo Bimestral nº 06 – maio/junho de 1985, Site Brasil Vertical
*Rudolph Stamm – Um dos grandes nomes do montanhismo paranaense, um dos conquistadores do Pico Paraná, entre outras montanhas do estado.

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Sobre o autor

Texto publicado pela própria redação do Portal.

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