Calcinha de mulher

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Calcinha de mulher Neste último sábado (7/11/09) abrimos uma nova linha em uma fenda perfeita em Zipaquirá (Colômbia), que foi batizada de Calcinha de Mulher. Vou explicar.

Conquistar uma via como essa é QUASE tão bom quanto fazer sexo, mas isto depende do julgamento de cada um. Como a maioria de vocês sabem, o bom sexo é aquele completo que começa com carícias, o desejo vai aumentando paulatinamente e tem um pré- ápice quando tiramos lentamente aquelas calcinhas sex das mulheres… Depois o processo continua, mas sem pressa… Algumas vias de escalada quase se aproximam disso, como esta última que Juan Santiago e eu abrimos.

Quando vimos a fenda ainda de longe sentimos uma atração enorme que foi aumentando na medida em que a estudávamos – Parece um pouco quando iniciamos a relação trocando aqueles olhares maliciosos com as mulheres . A fase de preparar o material selecionando as peças para as fendas e todo o proceso de encordamento fez com que o coração batesse mais forte, aumentando a vontade de subir – É uma sensação parecida quando tiramos a calcinha de uma mulher. A subida da fenda foi como o sexo em si, a cada trecho  da fenda era um sussurro de prazer, até o término da escalada.

Infelizmente esse foi um “sexo” rápido porque a linha tem apenas 40 metros. Aproximadamente 60% da fenda em rocha quartzito é de entalamento de dedos que pode ser V (5o), o resto é de entalamento de mãos, inclusive um tetinho e algumas passagens em regletes, onde fica o crux (VIIa). A paisagem é muito
bonita.

Depois da conquista, extasiados, fomos repetir uma via em outro setor de escalada, numa área mais popular. O Juan quiz guiar uma fenda de VIIb que ele não conhecia. Ele é um excelente escalador de vias esportivas, mas não de fendas. Enquanto a escalada estava fácil (IV) ele foi subindo e colocando poucas proteções, até que a via ficou mais difícil (VI+) e ele começou a tremer e procurar um lugar para proteger. Porém, como estava com medo, entalou o único dedo que era possível naquela fenda com bordas afiadas, típicas de quartzitos.

Mas entalou de tal forma que o dedo ficou preso…

Eu lhe dava segurança e ao meu lado estava o Nicolá, outro escalador que conhecia bem a via. Ele era muito calmo e quando viu a situação, disse baixo e pausadamente: “Isso vai dar merda”  – Dez minutos se passaram e o Juan estava lá na mesma posição, com as pernas tremendo como o Elvis Presley (Síndrome de Elvis – como é conhecido nos EUA) e sem conseguir colocar nenhuma proteção – A última se encontrava a 7 metros abaixo e ele com o dedo preso… Uma agonia – E o Nicolá fala de novo no mesmo tom de voz… “Isso vai dar merda”. Poucos segundos depois ouvimos o grito “MERDAAAAAAAAAAAAAA”.

O dedo do Juan finalmente saiu da fenda e veio junto com ele, que despencou numa queda terrível de quase 20 m. Parou a um metro da base. A cara dele era de pavor, a mesma que você tem quando a mulher te pergunta com aquela voz de preocupação: “Você estava usando camisinha?” Mas você não a colocou porque pensava que ela, a mulher, estava protegida. Da mesma forma que a escalada acima, este é um sexo ruim que via de regra termina de forma nada agradável.

É óbvio que apenas as pessoas que tiveram essas experiências podem entender essas palavras.

Tenham muito prazer em suas escaladas e que tenham a sorte de um dia abrir uma via como a Calcinha de Mulher.

Antonio Paulo Faria (Escalador e sexólogo)

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Sobre o autor

Antonio Paulo Faria - Colunista

Antonio Paulo escala há tanto tempo que parece que já nasceu escalando... 30 anos. Até o presente, abriu mais de 200 vias no Brasil e em alguns outros países. Ele gosta de escalar de tudo: blocos, vias esportivas, vias longas em montanhas, vias alpinas... Mas não gosta de artificiais, segundo ele "me parecem mais engenharia que escalar propriamente". Além disso, ele também gosta de esquiar, principalmente esqui alpino no qual pratica desde 1996. A escalada influenciou tanto sua minha vida que resolveu estudar geografia e geologia. Antonio Paulo se tornou doutor em 1996 e ensina em universidades desde 1992. Ele escreveu sobre escalada para muitas revistas nacionais e internacionais, capítulos de livros e inclusive um livro. Ou seja, ele vive a escalada.

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