Careta e Bandeira

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Leia a seguir sobre uma serra um pouco distante, numa região de onde partem travessias por terras altas, e sobre uma montanha que por muitos anos quis conhecer, por formar um conjunto misterioso de três pirâmides.

A Serra da Careta tem um perfil curioso, parecendo o desenho de uma cara deitada, com um nariz protuberante e um peito abaulado. Vista do norte, de Caxambu ou de Baependi, apresenta um corpo compacto, surgindo isolada acima dos campos vizinhos. Impressão enganosa, pois a serra faz uma volta que fica oculta. Calculo que seja extensa, com cerca de 10 km.
 
Que eu saiba, existem três trilhas até seu cume. A mais utilizada é a do Chapadão, que aproveita as elevações a norte, num trajeto longo e suave – tempos atrás, foi por ela que conheci a Careta. A mais íngreme sobe pela calha verde da face oeste, certamente é a mais curta delas. A que fiz desta vez partiu do Vale da Vargem e é intermediária entre as outras duas. 
 
Baependi é a origem de uma bela travessia de quatro dias até Aiuruoca. Ela passa por Vargem, que permite acessar a Careta. Chegar a Vargem a partir de Baependi é relativamente longe, serão 30 km. No caminho você terá uma impressionante vista do Pico do Canjica, formação dominante de Baependi, com suas encostas vertiginosas e sua bela corcova. O Canjica pertence à Serra do Papagaio, onde há um Parque Estadual, para o qual Baependi contribuiu com metade da área. O Papagaio é a mais importante montanha desta região. 
 
Ao se aproximar de Vargem, você notará que estará contornando a Careta pelo sul. Vargem é uma vila minúscula, num vale cenicamente fechado pela Serra do Alegre. Sua trilha começará numa fazendola, sendo nítida em toda sua extensão, apesar de não ser passagem para outro vale, apenas para a Careta. 
 
É um traçado bacana, que evita as subidas mais íngremes. Apresenta três trechos distintos. O primeiro passa por pastos baixos, o segundo sobe continuamente por uma capoeira e o terceiro atravessa um belo campo arbustivo, com vassourinhas e carquejas. 
 
Aqui você estará olhando de frente a face vertical da Careta, suba facilmente pela mata até o morrote do nariz e, daí, ao alto rochoso do Morro do Chapéu (1.960m).  Como o vale está pouco acima de 1.200m, sua ascensão foi de aprox. 700 metros. Esta é uma trilha curta, com 5½ km, portanto íngreme. Você avistará sucessivamente o Canjica, o Alegre, os altos de Itamonte e de Pouso Alto. Num ritmo moderado, tomará 4½ horas de caminhada ida e volta.
 
Quando estiver retornando, repare na mata à volta. As árvores com copas claras são as capoeiras brancas, as de folhas verde vivo são os guatambus e as mais comuns, com folhas esmaecidas, são as candeias de amplo uso. Você também encontrará cedros e ipês. Um animal comum nas encostas da região é o mico sarará, que faz companhia aos quatis, tatus e jaguatiricas. Com alguma sorte, você encontrará seriemas sempre aos pares, jacus de voo curto, tucanos e gaviões. 
 
Meu interesse pelo Bandeira ou Francês era antigo, veio da época em que avistei do alto da Pedra do Papagaio três pirâmides em perfeito alinhamento. Eram os Três Irmãos, de cujo ponto culminante, o Moquém, escrevi uma coluna tempos atrás. O Bandeira é a formação logo ao sul do Moquém. Ao subi-lo, achei muito interessante o corpo longo e abaulado do Bandeira e voltei à região para conhecê-lo.  
 
O Bandeira fica em Carvalhos, uma pequena vila a 50 km de Caxambu. A estradinha de terra que liga Carvalhos a Aiuruoca passando pelo bairro das Posses (existem outras ligações) é deslumbrante. São 18 km através de platôs elevados que permitem vistas espetaculares das serras e vales da região.  
 
O Pico do Bandeira fica no bairro do Moquém, não no do Francês. É curioso que também o Moquém não fique no bairro de mesmo nome. Existe uma bela serra no Francês – porém, não se comunica com o Bandeira, por ser esta uma formação isolada, o que até o torna mais cênica. O nome Bandeira parece ter resultado de uma bandeira que um dia foi desfraldada do alto da montanha.
 
Chamo neste artigo o Bandeira também de Francês, pois é assim chamado na região, estando ao lado de um córrego de mesmo nome, e também para não confundi-lo com o Tamanduá Bandeira (sobre o qual fiz uma coluna), que pertence ao corpo da Serra do Papagaio. Já o nome Francês tem uma origem antiga, do período colonial. Naquela época, alguns franceses expulsos do Rio vieram a se instalar nos fundos de Carvalhos, onde se dedicaram à mineração de ouro.
 
É curioso como existem tantas montanhas com o nome de Bandeira – das quais a mais famosa fica na Serra do Caparaó, antigamente considerada o ponto culminante do Brasil. Conheço ainda outra com este nome em Brasópolis, onde fica um observatório astronômico. Equivale acho eu ao nome Véu de Noiva para as cachoeiras. 
 
A quase 9 km do início, você chegará a uma igrejinha à frente do Moquém, com o perfil maciço do Bandeira ao fundo. Eu achava que a subida seria frontal, pela face leste, mas ao me aproximar percebi que esta seria uma rota difícil. A subida é pelo lado norte, no rumo de Aiuruoca, onde existe uma picada a um pouco além de 12 km desde Carvalhos.
 
Agora sua orientação será bastante simples: você terá de atravessar os íngremes pastos à sua frente, subir em diagonal a parede da pedra e prosseguir à esquerda pela crista até o seu cume. Serão portanto apenas três direções. Atravessar os pastos é um tanto cansativo, e não existe um local definido por onde subir a montanha: se você for um escalador, pode escolher à esquerda com mais parede e rocha ou, caso contrário, à direita, com uma altura menor e maior presença de gramíneas.
 
É uma parede grande, suponho que com mais de 300 metros. Não soube de relato algum sobre escalada, de forma que sua rocha parece ainda aguardar o primeiro conquistador. Ao passar por ela, note que existe uma caverna a meia altura, dizem não ser pequena. Chegando lá em cima, você deve andar pela crista mais ½ km até o cume. A ascensão deve ter sido de até 400 metros, para 1 ½ horas, num percurso ida e volta de 7 km.
 
O topo do Bandeira (1.660m) é infelizmente recoberto de grama, sem um piso rochoso. Mas a vista é compensadora: ao norte você verá as montanhas irmãs do Moquém e do Calambau (no mapa, Mato Grosso) e, mais além, a vila de Carvalhos. A Mitra do Bispo estará logo ao sul e, a seguir, a Serra da Aparecida e o Morro Verde. 
 
Bem longe no horizonte, a Pedra Selada de Mauá com seu inconfundível perfil com dois bicos. O magnífico Papagaio aparecerá logo à sua frente à esquerda. Por fim, você verá ainda a vila do Moquém, com suas casas esparsas e pitorescas à volta da igrejinha que você já conhece, esperando por sua volta.
 
 
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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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