Chapéu-de-Sol

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Alguns minutos antes havia despertado angustiado de um sonho claustrofóbico onde imaginava ter liberado sonora e redonda flatulência, tão densa que flutuava no dormitório como imensa bolha de sabão que crescia desmesuradamente ao invés de se dispersar. Acuado contra o colchão temia a inevitável explosão de metano e enxofre quando subitamente fui libertado pelo soar do despertador e do nada a expressão tomou conta da mente. “Por fora; bela viola e por dentro; pão bolorento”. Talvez tenha relacionado à história a triste sina do inverno curitibano que de tão úmido apodrece a alma e mofa os pensamentos.

Sábado perfeito depois de uma semana maravilhosa com sol, calor e céu de brigadeiro e o domingo prometia um belo passeio pelas matas verdejantes com destino ao Chapéu de Sol, no início da Serra da Graciosa. Apenas 1500 metros distante da estrada e talvez não mais do que 200 metros de desnível para apreciar o imponente vale do Rio Mãe Catira serpenteando encachoeirado por entre duas cadeias de montanhas.

A princípio nada mais simples, entrar pelo Marco 22 na estrada da Graciosa, e seguir reto por 950 metros em direção ao norte e depois dobrar a direita caminhando outros 550 metros para o nordeste. Mas em se tratando da Serra da Graciosa nada é o que parece. Em 2005 lá esteve o Johny (João Carlos Andrade) com o Simepar (Emerson Stenge) e o professor Pill numa caminhada de 6 horas de ida para apenas 1,5 hora de retorno e não se tem notícia sobre outra investida mais recente com sucesso.

As 6:30 da madruga nos foi comunicado a primeira baixa. O Hilton telefonou do trono noticiando mais uma das suas já tradicionais diarréias e estava fora. Acompanhado do Paulo Marinho e do Moisés Lima rumei para a serra debaixo da espessa neblina matinal até estacionarmos no Recanto Engenheiro Lacerda totalmente deserto. Ao sair do carro, o Moisés encontrou um aparelho de celular – roubado ou quebrado porque não tinha chip – perdido no pátio e resolvemos testar com ele a honestidade do dono do quiosque ao lado. O deixamos no chão, embaixo da porta do motorista, para ver se nos era devolvido no final do dia quando retornássemos.

Descemos pela estrada com céu nublado e muita esperança de ver o sol brilhando antes do meio dia. Adentramos na mata pela Trilha da Santinha, no Marco 22, e descemos até a primeira bifurcação, à esquerda, na direção desejada. Caminhamos 18 minutos e recomeçamos a ouvir o ruído dos motores, mais alguns passos e vencida uma forte subida reencontrei a estrada a cinco metros do Marco 22. Isto é a Serra da Graciosa e nós que julgamos conhecê-la andamos meia hora em círculo para, sem ao menos desconfiar, chegar no exato ponto de partida.

Alertados novamente de que o lugar não é para amadores, agora com bússola e carta topográfica em mãos, voltamos para o mato seguindo direto para o norte. Mas não existe linha reta na selva e avançamos por uma barrenta “trilha de palmiteiros”, entre árvores gigantescas de um magnífico e interminável bosque. Sobe e desce se equilibrando pelas encostas até crescer nos ouvidos a melodia das águas escorrendo sobre as pedras de um riacho.

Poucos passos a frente, no alto da encosta, encontramos a barraca de lona plástica preta ocupando um espaço de 4 x 5 metros no centro de uma grande clareira. Dormitório com duas camas elevadas e cozinha com fogão de pedras empilhadas. Roupas, botas, ferramentas, panelas e toda a equipagem para uma sobrevivência miserável. Ao lado, reunidas numa pilha colossal, estavam as garrafas de bebida. A preferência indiscutível é da 51, mas não faltavam exemplares de Velho Barreiro e garrafões de vinho ordinário. Só bebendo muito para suportar a vida nestas condições.

Mas o que estariam retirando destes grotões? Palmito, xaxim e orquídeas já se acabaram há muito tempo. Um grande pedaço de cajarana usada como banco antecipa parte do mistério. Cajarana é a parte dura dos troncos de antigas árvores enterradas no chão da floresta que são vendidas aos turistas nos quiosques ao pé da serra para enfeite de jardim. Adiante encontramos uma grande árvore de madeira extremamente dura, recém serrada, pronta para o desgalhe e posterior remoção. Em outra elevação haviam cavado dois grandes buracos na argila rígida da encosta e os indícios de presença humana vão sumindo até desaparecerem por completo após cruzarmos um segundo riacho descendo para o leste.

Continuamos avançando para o norte em suave elevação pelo bosque virgem e sombrio até o terreno começar a nivelar. Surgem grandes bacias de lama preta e mudamos o rumo em 45º, para nordeste, a procura da primeira crista que vai se desenhando muito lentamente. O bosque sinistro vai abrindo espaço para taquaras, trepadeiras e vegetação mediana que preenchem todo o espaço iluminado e as encostas se levantam e afunilam a um só tempo numa comprida e afiada crista. Não mais do que um metro de largura repleto de obstáculos permite a passagem pela aresta com grotas íngremes em ambos os lados. Encostas quase verticais que se perdem na profundidade da floresta exuberante. Surgem os primeiros mirantes obstruídos pela névoa branca e opaca que nada permite enxergar.

Seguindo sempre a nordeste descemos uma grota profunda e sombria para escalar a face oposta até percorrer nova crista que, muito adiante, vai se dissipando na encosta a esquerda e penetrando num bosque úmido e sóbrio para cruzar um riacho seguindo diretamente para o norte. Sabíamos ser este o limite do Chapéu de Sol e avançamos sobre a encosta levemente inclinada, vazando a densa vegetação em solo encharcadiço. Encontramos ali uma estranha poça d’água. Não era natural do terreno e não havia sido cavada com as patas. Aparentava ser fruto da fricção de algum animal coçando a barriga ou as costas até fabricar aquela curiosa depressão. Depois de um grande e bonito pé de xaxim, suficiente para cortar uns 10 ou mais vasos de bom tamanho – que os “palmiteiros” não o encontrem – a vegetação volta a se adensar numa encosta suave que rapidamente se eleva até tornar-se quase vertical nas proximidades do castelo de cume formado por grandes degraus de pedras cobertas de limo e folhas mortas que se escala por entre grandes moitas de caraguatás afiados.

Após explorar o cume e descobrir que mesmo subindo nas árvores não se via nada além da densa neblina, tratamos de melhorar as condições de conforto para a comilança que se seguiu. Mas a falta de movimento trouxe o frio e alguns pernilongos pra lá de venenosos que provocavam grande reação alérgica a cada picada. E a chuva não tardou a dar as caras. A neblina se transformou em garoa e pouco demorou a grossos pingos d’água despencarem das copas das árvores. Hora de ensacar a viola e cair fora marcando o caminho com fitas para, com tempo favorável, brevemente retornar e apreciar as deslumbrantes panorâmicas prometidas.

No quiosque do recanto Eng. Lacerda, caprichamos nos procedimentos de higiene para prolongar a estada e permitir a devolução do celular, mas todos os atendentes mantiveram a tradicional cara de paisagem de réus no “mensalão”. Ninguém viu e nem sabe de nada, afinal, achado não é roubado! Terminamos o dia comendo pastel ao lado do Portal da Graciosa.

“Por fora; bela viola e por dentro; pão bolorento”. O Brasil, como a Serra da Graciosa, definitivamente não é para amadores!

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Sobre o autor

Julio Fiori - Equipe AM

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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