Como Funciona a Altitude?

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Em muitas ocasiões senti o chamado mal da altitude, felizmente sempre de forma moderada, bem como ouvi e li bastante sobre ele. A coluna a seguir procura explicar como e porque ocorre – e como pode ser evitado e tratado. Esta coluna pertence à série iniciada ao descrever a proeminência e continuará ao comentar os acidentes geográficos.

Estamos em La Paz e no dia seguinte voaremos para Cuzco, de onde começaremos a Trilha Inca. Aproveitamos a tarde e vamos direto de carro até Chacaltaya, a mais alta pista de esqui do mundo. Começo a caminhar e me sinto muito mal, o fôlego escasso, a visão escura e a cabeça latejando. Na volta, chego a desmaiar e só me recobro depois de uma dose de oxigênio.
Estamos retornando do Kilimanjaro na Tanzânia, depois de uma aclimatação gradual que nos fez chegar ao cume em boa condição. É uma montanha popular, há sempre uma galera nas suas encostas. Entre outros, fomos acompanhados por um jogador de futebol americano, jovem, alto e forte. Para nossa surpresa, passamos por ele carregado por dois companheiros, acometido de náusea, febre e vertigem.
Subo lentamente a encosta nevada do Aconcágua, mas não me sinto bem. Enxergo às vezes estranhos vultos, sobrevoando minha ascensão, tornada lenta pela fadiga e pelo enjoo. De repente, meu boné some, ele cai lá em baixo na brancura da encosta. Sou invadido por tristeza e desânimo, olho para ele como se fosse uma perda fatal que me deprime e desmoraliza. Perco completamente a vontade de prosseguir, mas continuo a duras penas mesmo assim.
O que há em comum com todos estes relatos é o fato de que se passam na altitude, entre 4.500 e 5.500m. São exemplos benignos, até mesmo banais, dos males que nos afligem quando trocamos a comodidade das terras baixas pelo desconforto do ar rarefeito das montanhas.
Mas há casos terríveis, como o do montanhista que, sentindo-se mal ao escalar, resolveu acampar ao invés de descer – e acordou morto. E dos exploradores que acabaram mutilados ao não saberem combater a confusão metal que os atingiu. Ou a comentadíssima morte por edema cerebral de Scott Fischer na tragédia de 1996 no Everest (e também a de seu concorrente Rob Hall). Ou ainda os casos de hemorragia, apagão, trombose, desidratação, pneumonia, infecção, enfarto. Achei que seria interessante explicar, ainda que de forma leiga, o funcionamento do mal de altitude.
Foi o montanhista Charles Houston, ao longo das expedições ao K2 entre as décadas de 30 e 50, quem primeiro estudou os efeitos da altitude. Ele recolheu dados minuciosos em câmaras de despressurização. Acreditava-se ser impossível chegar ao topo do Everest sem oxigênio suplementar – o que foi refutado pela histórica ascensão de Messner e Habeler em 1978.
Os trabalhos de Houston foram continuados pelo lendário escalador Tom Hornbein. Junto com Willi Unsoeld, realizou nos anos 60 a primeira travessia no Everest, subindo pela crista oeste e descendo pelo colo sul. Continuava vivo enquanto escrevo este artigo.
O assim chamado mal da montanha (ou AMS – acute mountain sickness) é uma doença que costuma afetar viajantes a partir de 2.400m acima do nível do mar. Ela é basicamente causada pelo hipoxemia, ou seja, carência de oxigênio. Vou explicar porque isto acontece.
Se você mergulhar, sabe que a pressão sobre seu corpo aumentará, devido à coluna d´água acima, tanto mais quanto mais fundo estiver. O inverso ocorre quando você sobe, pois a coluna de ar sobre você torna-se menor, ou seja, cai a pressão sobre seu corpo. Veja no gráfico ao lado que, a 2.500m a pressão é de ¾ daquela ao nível do mar, aos 5.000m é de pouco mais da metade e, na altitude do Everest, cai para apenas um terço.
Qualquer que seja a altitude, o ar contém 20% de oxigênio, o combustível de nosso corpo. À medida que subimos, a quantidade de moléculas de O² num mesmo volume de ar irá diminuir, pois há cada vez menos pressão para aglutiná-las. Ou seja, um ar vazio. Assim, quando um montanhista aspirar o ar, sua admissão de oxigênio será tanto menor quanto mais alto ele estiver.
Veja na tabela que, a 3.000m, ele disporá de 95% do oxigênio a nível do mar, mas na altitude do Everest, pouco mais de 30%. É por isto que se considera que as perturbações se iniciam a 2.400m, quando começa a existir um déficit do gás. A deterioração do corpo humano a partir de 5.200m torna-se inevitável. Não há habitações permanentes acima deste nível.
Vou fazer duas ressalvas. Existe uma proteína que oxigena o sangue – é a hemoglobina. Na falta de oxigênio, o corpo tende a produzir mais dela, tornando o sangue mais espesso e oxigenado. Assim, se seu organismo for privilegiado, você sentirá menos os efeitos da altitude.
A segunda ressalva é ligada à latitude. No Equador a camada atmosférica é máxima, com cerca de 16 km. Na latitude de 90 dos polos, ela se reduz a meros 9 km. Portanto, nos trópicos a mesma altitude contém mais pressão e, portanto, mais oxigênio do que nos polos. É muito possível que você se sinta pior nos cerca de 5.000m do Monte Vinson na Antártica do que aos quase 7.000m do Huascarán no Peru.
Os sintomas descritos acima ocorrem exatamente pela ausência de oxigênio pleno no corpo: inchaço e fadiga, náusea e tontura, inapetência, insônia e disritmia. Nas altitudes moderadas, podem em geral ser revertidos se o montanhista simplesmente descer. A maior pressão no local mais baixo irá recompor sua saturação de oxigênio.
Mas, em altitudes ou condições extremas – por exemplo, acima de 6.000m, com esforços excessivos, ingestão de álcool ou desidratação – o mal da montanha poderá evoluir para edemas potencialmente fatais. Vou descrever a seguir o mecanismo dos dois edemas conhecidos. Às vezes eles regridem em até dois dias de repouso em baixo.
Edemas resultam da infiltração de líquido nos tecidos. O primeiro dos edemas acontece no pulmão (o nome técnico é HAPE). O oxigênio que chega ao sangue provém do pulmão, cujos alvéolos operam sua passagem para o sangue. Este sangue enriquecido é bombeado para o coração e alimenta o corpo.
Os vasos sanguíneos reconhecem quando há pouco oxigênio e reagem contraindo-se, de forma a impedir que o sangue empobrecido chegue ao coração. Esta constrição espreme o sangue para dentro do pulmão, causando seu edema. Os sintomas são a tosse, a perda do fôlego e a febre.
O segundo edema ocorre no cérebro (é chamado HACE). Aparentemente, o baixo nível de oxigênio aumenta de forma compensatória o fluxo sanguíneo para o cérebro, pois o corpo entende que desta forma irá abastecê-lo – o mecanismo é curiosamente inverso do anterior.
Este fluxo é aumentado pela vasodilatação, que ocasiona vazamento para os tecidos do cérebro – note que é o contrário da vasoconstrição no pulmão. Os sintomas são terríveis: dor de cabeça, vômito, letargia, desequilíbrio e, finalmente, coma. De forma mais fulminante que o pulmonar, o edema cerebral pode ser letal.
Como evitar o mal da altitude? O conselho mais unânime é controlar sua ascensão na montanha, seja pela aclimatação prévia, seja pela moderação dos esforços. Os montanhistas prudentes costumam subir e, em seguida, dar meia volta e dormir em altitudes menores.
O processo é repetido tediosamente à medida que avançam: é o método climb-high, sleep-low. Assim, você pode subir de 3.000m para 4.000m num só dia, mas deve descer e dormir digamos a 3.300m. Você irá sucessivamente esticando os limites, por exemplo, dormindo a 4.500m após chegar a 6.500m, com algum retorno eventual ao acampamento base.
Se a aclimatação a 3.000m pode levar apenas dois dias, para 5.000m é recomendável até uma semana, e para 7.000m, mais de uma. Mas isto irá depender de sua capacidade e forma de aclimatação. Mas, além de certa altitude, a aclimatação é impossível. Em condições extremas, um alpinista normalmente perde 4 a 5 kg, não só de gordura, mas também de músculo.
O processo climb-high, sleep-low é lento e oneroso e pode ser abreviado tanto pelo uso de oxigênio complementar, cujo efeito equivale a baixar a altitude, como pela prática do chamado estilo alpino, subindo rápido e leve até o cume sem bivaque intermediário, desde que você tenha o condicionamento necessário.
Algumas vezes câmeras hiperbáricas são usadas, quando descidas rápidas mostram-se impraticáveis – lembro-me quando um grupo de escandinavos ia testá-las no cume do Illimani (ver a câmara inventada por Igor Gamow nos anos 80).
E também medicamentos, como o diurético universalmente usado Diamox ou ibuprofeno. Existem outros, específicos para os casos de HAPE e HACE, como a dexametazona. Até Viagra já foi usado, mas talvez com outras intenções.
Acho curiosa a opinião de que pessoas idosas sejam mais imunes à altitude – bem como a suspeita de que isto realmente só ocorre porque tendem a possuir mais bom senso e avançar mais lentamente, não cedendo ao perigo dos impulsos traiçoeiros.

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Sobre o autor

Alberto Ortenblad - Colunista

Nasci no Rio, vivo em São Paulo, mas meu lugar é em Minas. Fui casado algumas vezes e quase nunca fiquei solteiro. Meus três filhos vieram do primeiro casamento. Estudei engenharia e depois administração, e percebi que nenhuma delas seria o meu destino. Mas esta segunda carreira trouxe boa recompensa, então não a abandonei. Até que um dia, resultado do acaso e da curiosidade, encontrei na natureza a minha vocação. E, nela, de início principalmente as montanhas. Hoje, elas são acompanhadas por um grande interesse pelos ambientes naturais. Então, acho que me transformei naquela figura antiga e genérica do naturalista.

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