Confio em você cegamente

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Guiar montanhas exige muita concentração, autoconfiança, rápida tomada de decisões, conhecimento em meteorologia, logística, idiomas, medicina, psicologia, ser humorista, motivador, entre muitos outros atributos. Agora, quando você guia em montanhas de 8.000 metros, precisa de tudo isso e mais uma boa dose de sorte e muita paciência! Todos os erros cometidos em tais altitudes, você paga de algum jeito mais tarde. Não foi diferente naquela montanha tibetana de 8.200 metros de altitude.


Era fim de maio de 2011 e fim de um inverno fortíssimo. Muitas das novas mudanças climáticas fizeram com que o gelo não derretesse a tempo. Por isso passamos muito frio. Nossa expedição acabou durando seis semanas e foi uma das poucas expedições comerciais que tinha chegado ao cume naquela primavera. Trabalhamos duro para fixar cordas e restabelecer a rota após cada nevasca – no total, foram seis.

Ao chegar ao cume dela, me descuidei e tentei ter alguns minutos de curtição. No descuido, uma de minhas clientes tirou os óculos devido ao mau tempo. Não foi por mais de 10 minutos. Paguei caro por isso. Porém a história me ensinou uma grande lição sobre superação.

O ataque ao cume por si só não tinha sido tão difícil, e tudo saiu bem.
Tivemos uma longa descida até nosso último acampamento, localizado a 7.500 metros. Todos estavam bem e decidimos continuar descendo até nosso segundo acampamento. Eu acabei ficando para trás com uma cliente chamada Grace. O resto do time desceu e nos esperava na base da montanha.
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Estávamos, nós dois, extremamente cansados quando chegamos a nossas barracas, a 7.100 metros. Ainda tive de derreter neve e fazer alguns litros de água. Ficar acordado foi meu maior desafio naquele momento. Grace dormia enquanto eu derretia neve.

Ao terminar de derreter 3 litros de água, acordei-a, assim poderíamos começar a nos hidratar. Alguns segundos após acordar, Grace começou a reclamar de uma coceira nos olhos, que começou a ficar cada vez mais forte até o ponto de ela não conseguir mais enxergar.
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Eu já desconfiava do que poderia ser. Com muito temor, dei uma examinada em seus olhos e constatei que as notícias eram ruins mesmo: Grace estava com cegueira de neve. Esse tipo de cegueira acontece quando as córneas da pessoa se queimam devido ao excesso de luz. Trata-se de algo frequente em regiões nevadas, pois a neve reflete a luz solar, que fica até cinco vezes mais forte. Na altitude, a situação fica ainda pior.

Minha ficha caiu e eu me lembrei dos breves momentos em que ela tirou os óculos para fotografar a chegada ao cume. Naquele momento, eu estava com tanta preguiça, tão cansado, que nem pensei como iria fazer para descer no dia seguinte. Apenas continuei derretendo neve.

Aquilo foi muito cruel. Agora, além de ter de desmontar o acampamento e descer com uma mochila de 40 quilos a 7.100 metros, minha cliente estava cega! Confesso que não achei a idéia de descer nessas condições nada agradável.

Não tinha certeza se Grace entendia a gravidade da situação. Uma pessoa simplesmente não consegue carregar alguém a uma altitude daquelas. Seriam necessárias pelo menos oito pessoas e dois dias para carregar alguém até a base da montanha, localizada a 5.700 metros.

Imediatamente me veio à cabeça a idéia de que uma mulher naquelas condições perderia a razão assim que tivéssemos que fazer algo técnico. Eu pensava comigo mesmo: “Quanto controle emocional numa situação dessas uma advogada canadense que escalou três montanhas na vida pode ter?”. Assim continuei mentalmente subestimando a pobre garota, sem ao menos ter tentando nada ainda.
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Nos últimos momentos dentro da barraca, olhei para o rosto dela e pensei como é que iríamos fazer isso na prática. Confesso que eu estava extremamente preocupado com aquela descida. Obviamente eu não podia falar isso para ela. Mas ali, na barraca, olhando para ela, percebi que Grace sorria.

Ela mesma disse: “Bom, de algum jeito vamos ter que descer”. Apresentava uma calma incrível. Por alguns momentos, pensei que ela estivesse blefando e tentando parecer forte. Suas palavras, porém, me transmitiram muita confiança naquele momento.
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Comecei a ver nossa descida com outros olhos e a pensar nos detalhes logísticos. Tive várias idéias do que faríamos nas partes técnicas e, assim, realmente acreditei que poderíamos conseguir. Enquanto ela se hidratava antes de começar a andar, eu disse:
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“Tive umas idéias boas de como faremos isso, mas você vai ter que confiar em mim.”
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Grace abriu um sorriso enorme e disse num tom engraçado:
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“Max, eu confio em você cegamente!”
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Ambos caímos na gargalhada, pois o termo não podia expressar literalmente outra situação. Eu sabia que ela tinha receio, e ela sabia que eu também tinha. Ninguém, no entanto, disse isso. Continuamos rindo.
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Era hora de colocar a teoria em prática e começar a descer. Tive uma dificuldade extrema em colocar minha mochila de 40 quilos nas costas. Ter escalado um cume de 8.200 metros no dia anterior não ajudava muito.
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Começamos a descida por uma extensa rampa de neve. Passei um mosquetão com uma longa fita na cadeirinha dela, unindo a outra ponta na minha. Ao mesmo tempo, dei um bastão de trekking para ela enquanto eu segurava a outra ponta. Foi um bom método para que ela soubesse a direção que seguíamos. Logo após a saída encontramos neve até o joelho. Grace, porém, se deu muito bem ali, pois para qualquer direção que ela fosse seria o mesmo.
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Lembrei de uma greta a mais ou menos 600 metros abaixo do acampamento 2.
Durante a subida, todos ficaram com medo de pulá-la, pois era realmente funda. Ali, com Grace cega, eu obviamente imaginava que seria um tanto difícil fazer com que ela pule uma greta de olhos vendados. Ao avistar a greta, notei uma pequena e instável ponte de gelo mais à esquerda. Decidi atravessar pela ponte e nem mencionei a palavra greta. Grace seguiu o bastão e nem percebeu onde estava pisando. Mais tarde ela perguntou se já havíamos chegado às torres de gelo e onde estaria a greta. Num tom meio cínico eu tive que contar a verdade:
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“Entããão… a greta já passou. Mas você não perguntou nada…”
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Às gargalhadas e tapas, chegamos ao topo da primeira sessão de torres de gelo. Começou a nevar forte. Grace me impressionava cada vez mais. Ela fazia tudo o que eu pedia e se mostrou totalmente cooperativa e aberta para resolver os problemas.
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Em determinada parte, tivemos que fazer uma travessia lateral com gelo por baixo da neve. Tivemos que gastar bastante tempo ali, pois era necessário mover cada pé dela precisamente para que não houvesse acidentes. Aos poucos ela me convenceu que conseguiria.
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Finalmente chegamos às primeiras cordas fixas localizadas a 6.950 metros. Ali pelo menos Grace tinha uma ajuda extra para guiá-la fora o meu bastão de trekking. Tivemos que iniciar uma série de rapéis até os 6.750 metros. A descida foi mais tranqüila do que pensei. Ancorei Grace na minha cadeirinha e descemos as cordas juntos. Confesso que o pior não foi descer com ela, mas sim o fato de ter uma mochila tão pesada nas costas.
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O tempo estava cada vez pior, e eu olhava o horizonte preocupado. Até esquecia de que Grace estava cega. Muitas vezes, ela me perguntava coisas muito obvias do tipo: “Como está o tempo?”. Nesses momentos, eu voltava à mim e lembrava que ela não enxergava absolutamente nada.
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Num grande platô coberto de neve chamado “campo de futebol”, o tempo fechou e tivemos um white-out. Nesse fenômeno, a visibilidade fica tão baixa que até mesmo a linha do horizonte desaparece. Noções de distância e profundidade são perdidas também. Reclamei várias vezes dizendo que eu não conseguir ver nada. Grace retrucou:
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“Eu sei como você se sente!”
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Após o platô vinha o teste de fogo: um rapel de 90 graus com mais ou menos 40 metros, em gelo, a 6.700 metros. Nevava e estávamos exaustos. Até aí tudo bem, mas tente fazer isso cego! Durante a descida, havia ancoragens muito precárias e quase escapando. Eu não tinha como consertar as ancoragens naquele momento e pensei várias vezes: “Ainda bem que Grace não enxerga nada!”.
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Eram 15h naquele princípio de monção quando nós nos vimos pendurados a 6.650 metros em uma parede de 80 graus de gelo duro. Era fim de temporada e não conseguíamos avistar nenhuma barraca nem ninguém na montanha. Meus sherpas tiveram que descer no dia anterior com a mesma carga que eu e outros clientes. Não sabíamos exatamente se conseguiríamos chegar ao acampamento 1, muito menos à base da montanha ainda naqueles dias. Eu tentei me concentrar na descida, enquanto observava Grace descendo. Também pensei no que eu iria comer depois daquela expedição de seis semanas. Talvez carne, talvez pizza.

Justamente na pior ancoragem de todas, ela caiu e pendulou uns 5 metros numa corda, batendo com a mochila e as costas numa torre de gelo. Consegui travar a queda, pois estava fazendo uma segurança com a corda por baixo dela. A pendulada não a machucou, mas confesso que imediatamente sentenciei nossa descida. Imaginei que depois do incidente ela iria ficar maluca, chorar, talvez ficar histérica ou mesmo travar. Comecei a imaginar o que eu teria que fazer para descer ela cega e empacada – como esperar e chamar sherpas para talvez a carregarmos. Um Um “U-huh” vindo de Grace me mostrou que, de certa forma, ela havia gostado. Continuei pensando em comida…
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Sem mais nenhum problema, chegamos aos 6.600 metros, onde começaríamos umas caminhadas e desescaladas um tanto técnicas até o acampamento 1 a 6.400 metros. Dali em diante tivemos muita dificuldade em prosseguir, pois eu tinha que abrir as pegadas na neve, que iam quase até o joelho, e Grace deveria colocar seus pés exatamente onde eu coloquei os meus. Caso contrário ela tropeçaria a cada passo. Foi exatamente isso que aconteceu a cada metro, mesmo sendo ela guiada pelo meu bastão de trekking.
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Apesar de bastante descontraída, Grace também estava bem cansada. Parávamos a cada 10 metros para descansar. Eram pelo menos 20h quando fizemos o último rapel até o acampamento 1, localizado a 6.400 metros. O pôr do sol foi lindo, com tons de violeta, laranja e amarelo. Infinitas montanhas tomavam conta do Tibete no nosso panorama norte. Foi muito bonito.
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Várias vezes eu fiz várias piadas malvadas para Grace:
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“O pôr do sol está lindo… Ah, esqueci que você não enxerga!”
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Ou mesmo quando estávamos num lugar totalmente plano:

“Se você conseguisse ver o abismo do seu lado.”
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Assim finalmente chegamos aos 6.400 metros para passar nossa última noite em altitudes extremas daquela temporada. Ainda tivemos 8 horas de pedras do tamanho de máquinas de lavar no dia seguinte. Tive que orientar cada passo que Grace dava. Ali, as instruções ficaram extremamente complicadas. Era uma gritaria só:
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“Esquerda, desviar pedra direita, passo longo esquerda, pedra na direita, a outra direita, nãoooo!”
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Só conseguimos ajuda aos 5700 metros, quando um grupo de carregadores tibetanos apareceu e carregou Grace nos últimos 2 quilômetros restantes até a nossa base. Ela se recuperou totalmente 2 dias depois.
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Aquela ocasião me ensinou muito sobre bravura. Seja qual for seu trabalho, pessoas corajosas como Grace podem aparecer em qualquer lugar.
Isso me ensinou a não mais julgar alguém pelo trabalho ou experiência.
Montanhas me ensinam cada vez mais sobre coisas que só se sabe de uma pessoa quando se está em uma situação extrema como aquela num remoto glaciar no meio do Tibete.
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Quando alguém me pergunta a razão pela qual escalo, sempre me vêm momentos como esse à cabeça. Não sei de outro esporte onde se consiga testemunhar o mesmo.

Esta coluna foi publicada na GoOutside em 29/06/11.

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Sobre o autor

Maximo Kausch

Maximo é atualmente guia em grandes montanhas do Himalaia e Andes. Ele passa praticamente o ano todo em grandes altitude e ganhou muita experiência. Ele escala há 15 anos e além de escalar em grandes altitudes, ele pratica escalada mista nas horas lives, escalada em gelo, escalada em rocha e livre. Maximo é responsável por grande parte dos artigos técnicos do AltaMontanha.com

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