Contradições de um grande parque nacional

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Da primeira vez que visitei o Parque Nacional do Caparão na divisa do Espírito Santo com Minas Gerais, como comecei a subir a estrada a pé com duas mochilas em um domingo todos estavam indo embora. Por isso não pude fazer minhas observações sobre o parque e os visitantes. Desta vez foi extremamente diferente. Era um baita feriadão brasileiro de quatro dias, esperava ver coisas perturbadoras, mas não tanto quanto vi…

Começou pela chegada à portaria do parque (lado mineiro – cidade de Alto Caparaó), um número total de reservas de 1.298 (hum mil, duzentas e noventa e oito) pessoas. Não sei qual é a lotação permitida do parque por dia, mas achei o número bem elevado. Como eu não tinha feito reserva, quase fiquei de fora. Mas na hora “H” o jipeiro que me levava conversou com o guarda-parque e tudo se resolveu, ainda passei a frente de quem estava lá há mais tempo. Isso me propiciou reflexões:


1 – Sobre a lotação: Se existe um número máximo diário e já estava lotado como fui informado, no momento que cheguei à portaria minha entrada deveria ter sido negada terminantemente e não foi. Concluo que o limite de visitação não é respeitado. Ainda ficou caracterizada falta de respeito com as outras pessoas observada a ordem de chegada.


Uma vez na parte alta do parque, notei o uso excessivo de mulas para transporte de pessoas e de carga pesada. Vi mulas carregando todo tipo de carga e pessoas também, pessoas gordas. Vi um cara que devia pesar pelo menos uns 120 kg. Cacete?!!!


2 – Sobre o uso de mulas: O fotógrafo e colega Flavio Varricchio fez algumas observações muito importantes e parecidas com as que faço neste texto, na ocasião em que visitou o parque algum tempo atrás. Deixou uma sugestão no seu texto, que a carga das mulas fosse regulamentada, restrita para evitar os maus tratos aos pobres animais. Boa iniciativa Flavio, mas eu penso que não deveria ser reduzida a carga e sim PROIBIDA. Sabem por que penso assim? Se estabelecerem uma carga, ela obviamente não será respeitada e a infração vai se caracterizar. O Brasil é um país que tem mestrado em fazer leis, entretanto tem doutorado em não cumprir as leis.


Que tipo de administração é esta que zela por um parque nacional cuja premissa maior deve ser preservação da fauna, flora, e animais, e permite este abuso aos pobres? Não entendo como forçar a pobre da mula a carregar peso e gente preguiçosa ou obesa até lá se qualifica como preservação. Está mais pra depredação. Deixei o parque com um aperto no coração vendo as pobres mulas carregando ociosos urbanos pra cima e pra baixo. O desgaste dos animais é visível, feridas, ossos quase expostos, pelagem sofrível, desidratação e cascos apodrecidos.


Talvez aqui (acredito que no mundo todo) exista uma cultura de senso comum que diz que animais como cavalos, mulas e yaks são utensílios, vez que são utilizados há muito tempo pra transporte de carga e pessoas. Por que ninguém faz isso com canídeos e felinos? Está errado! Os animais não estão aqui para nos servir.


Uso de mulas no Brasil é fora da realidade de montanha. Não sofremos nada em relação à hipóxia, sequer sentimos isso aqui. Nos Andes as pessoas usam mulas para altitude, no Himalaia usam Yaks, e eu discordo da mesma forma. Acredito que se o homem quer desafiar seus próprios limites deve levar o que é seu e não deixar nada além de pegadas. As mulas andinas trabalham e lá ainda existem carregadores de altitude. O mesmo nas montanhas mais altas do mundo na Ásia, mas aqui? Pra que isso? É absurdo. Absurdo.


Vi também turismo praticado de forma errada (mais ainda). Muitos jovens fazendo baderna, com bebidas alcoólicas (apesar de ser expressamente proibido no parque), muito lixo no chão e nas trilhas principais (recolhi luva cirúrgica da trilha do Bandeira que apareceu de um dia pro outro), e acreditem, até mala de rodinha em acampamento de montanha.


3 – Não me importo se turistas freqüentarem ambiente de montanha. Pelo contrário, é importante que visitem e vejam a beleza que possuímos. Quem sabe assim não se contagiam de sentimento de respeito e preservação? O problema é: Quer fazer? Faça direito.


Use equipamento apropriado. Compre uma barraca decente e não as porcarias que vendem em mercado que não agüentam nem sopro de boca. Use mochila e não mala de rodinha em acampamento de montanha! Não use mulas, carregue sua própria carga. Não agüenta carregar tudo? Divida com seus amigos, separe a barraca em varetas, sobre-teto e a barraca, estacas, e cada um carrega um pouco. Não alimente os animais. Jogue lixo dentro da lata adequada e tampe. Quer conversar com seus amigos? Converse em voz baixa principalmente à noite, respeite o direito dos outros de dormir e gozar da mesma tranqüilidade que talvez você mesmo tenha ido buscar.


Vi até alienígena lá, mas não vi nenhuma destas coisas. Vi tudo errado. Vi mulher subir de bota da moda de couro sintético e cor-de-rosa, cachecol cor-de-rosa, casaco cor-de-rosa, e depois na descida uma dessas madames teve que ser resgatada de maca e tudo.


Irônico. Enquanto andei pelas áreas permitidas só vi cagada, besteirada e erro de postura. Enquanto andei em área não permitida fiquei absolutamente só, não encontrei nem um pedacinho de sujeira deixada na montanha e nem uma depredação. Ninguém gritava ao meu lado e tive papo agradável com o grupo gente boa que conheci (que, aliás, eram alguns dos poucos montanhistas que estavam no Caparaó no feriadão em questão). Foi descer a montanha pra chegar ao acampamento normal, Terreirão, e encontrei na trilha uma luva cirúrgica que não estava ali na tarde anterior quando subi. Felizmente tive duas testemunhas que me viram recolhendo o “lixo hospitalar”. Um casal de idosos que passava subindo.


Acredito que a própria natureza, dentro do nosso universo de observação representada pela montanha, se encarrega por si só de filtrar quem pisa, supera e respeita. Se não existisse o advento do abuso do animal pra carregar os preguiçosos até lá em cima, a natureza se encarregava de impedi-los pois não teriam condições físicas de fazê-lo.


Os guarda-parques que andam pelo Terreirão só se preocupam com a limpeza, só isso. Não fiscalizam nada, e creio eu que, como guarda-parques, deveriam ser instruídos a verificar equipamentos dos usuários do parque: barraca, saco de dormir e isolante pelo menos. Assim evitam um trabalho posterior de ir resgatar alguém que subiu despreparado e acabou tendo hipotermia. O inverno mal havia começado dois dias antes e na segunda noite que dormi lá no Terreirão deu mínima por volta de duas e meia da manhã de -2,6°C. Suficiente pra matar algum brasileiro despreparado.


No Parque Nacional Lanin todos os seus equipamentos são verificados pra que sua escalada seja autorizada. E a ascensão ao Lanin pela rota normal tem nível técnico baixo. Você precisa literalmente esvaziar sua mochila e exibir tudo. Por que isso não acontece no Caparaó? Até no Itatiaia já há algo parecido, caso você vá ao Agulhas ou Prateleiras é exigida na entrada equipamento mínimo como cadeirinha, mosquetões e vinte metros de corda pra quem guia o grupo.


Respeito é bom e todo mundo gosta. Principalmente a natureza. Quando você não segue o protocolo, coisas tristes acontecem se ela cobra o preço (as vezes o preço máximo) como nos casos abaixo:


http://altamontanha.com/colunas.asp?NewsID=1611


http://altamontanha.com/colunas.asp?NewsID=796


http://altamontanha.com/altamontanha/noticias/noticias_id=37734.asp


http://www.altamontanha.com.br/colunas.asp?NewsID=2975


Faça trekking com responsabilidade, escale com responsabilidade, respeite para ser respeitado. Em relação à direção do Parna Caparaó: Ineficiente, incoerente.


O nosso portal tem uma frase extremamente importante mas que as pessoas sequer notam: “Atenção!!! O Portal AltaMontanha.com alerta que as atividades de montanhismo são adrenantes e viciam logo ao seu primeiro uso. Os perigos existem, principalmente quando os limites não são respeitados, porém é uma atividade muito segura se praticada com moderação, consciência e respeito à natureza!”


Abrazos a todos, vou pra montanha.


Parofes

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Sobre o autor

Parofes (in memorian) - Colunista

Parofes, Paulo Roberto Felipe Schmidt (In Memorian) era nascido no Rio, mas morava em São Paulo desde 2007, Historiador por formação. Praticava montanhismo há 8 anos e sua predileção é por montanhas nacionais e montanhas de altitude pouco visitadas, remotas e de difícil acesso. A maior experiência é em montanhas de 5000 metros a 6000 metros nos andes atacameños, norte do Chile, cuja ascensão é realizada por trekking de altitude. Dentre as conquistas pessoais se destaca a primeira escalada brasileira ao vulcão Aucanquilcha de 6.176 metros e a primeira escalada brasileira em solitário do vulcão ativo San Pedro de 6.145 metros, próximo a vila de Ollague. Também se destaca a escalada do vulcão Licancabur de 5.920 metros e vulcão Sairecabur de 6000 metros. Parofes nos deixou no dia 10 de maio de 2014.

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