Crônica da Temporada de Primavera 2016 no Himalaia

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Embora a maior parte dos sites tenha destacado que a temporada de primavera no Himalaia não foi das mais empolgantes em termos gerais, diversas coisas interessantes ocorreram e são sintetizadas no relato abaixo.

por Rodrigo Granzotto Peron
 
 
EVEREST
 
Problema com a fixação de cordas até o cume
 
No flanco mais movimentado do Everest – lado nepalês – as cordas normalmente são fixadas nas encostas mais elevadas por um pool de sherpas altamente experientes cedidos pelas principais companhias comerciais que operam na montanha. Nos anos anteriores, por exemplo, as cordas foram fixadas sob o comando de Danuru Sherpa [da empresa IMG, com 14 cumes no Everest], Lhakpa Rita e Kami Rita Sherpa [da empresa Alpine Ascents, com 17 e 19 cumes no Everest], e Phurba Tashi e Son Dorje Sherpa [da empresa Himex, com 21 e 12 cumes no Everest]. Contudo, em 2016 nenhum deles participou da equipe que fixou as cordas. A explicação dada é a de que o dinheiro anteriormente destinado a esta atividade passou a ser canalizado para os vôos de helicóptero para abastecer o ABC e o C2. Com menos dinheiro, apenas sherpas menos experientes toparam participar do time, incluindo alguns que nunca haviam culminado. Por isso, o processo tornou-se lento e foi concluído apenas em 11 de maio, o que ocasionou um “estouro da boiada” e engarrafamentos em alguns dos dias de assalto ao cimo.
 
Do lado tibetano, também houve confusão na fixação das cordas e apreensão nos líderes de expedição. Os trabalhos – a cargo de alpinistas do China Tibet Mountaineering Association – CTMA – terminaram bem tarde: 18 de maio.
 
Brasileiros
 
Após os planos frustrados em 2014 e 2015, finalmente Rosier Alexandre culminou o Everest, o primeiro nordestino a fazê-lo. Também culminaram Carlos Santalena (2ª vez), Thais Pegoraro (a 4ª mulher brasileira e a 13ª sulamericana) e Cristiano Muller. Infelizmente, Cid Ferrari e Fátima Williamson, ambos em suas terceiras tentativas, tiveram que desistir.
 
Latinoamericanos
 
Todos os cumes latinos na Alta Ásia na primavera de 2016:
 
19.05 – Everest – Barbara Padilha del Águila (Guatemala)
19.05 – Everest – Carlos Santalena (Brasil)
19.05 – Everest – Thais Pegoraro (Brasil)
19.05 – Everest – Silvia Vasquez-Lavado (Peru)
19.05 – Dhaulagiri – Mariano Galván (Argentina)
21.05 – Everest – Rosier Alexandre (Brasil)
21.05 – Everest – Cristiano Muller (Brasil)
22.05 – Everest – Carla Perez (Equador)
22.05 – Everest – Esteban Mena (Equador)
23.05 – Everest – Facundo Arana (Argentina)
23.05 – Everest – Juan Manuel Boselli (Argentina)
23.05 – Everest – Alejandra Ulehla (Argentina)
23.05 – Everest – Ulises Corvalán (Argentina)
23.05 – Everest – Aldo Valência (México)
23.05 – Everest – Rodrigo Jordán (Chile)
23.05 – Everest – Juan Pablo Alcalde (Chile)
23.05 – Everest – Misael Alvial (Chile)
23.05 – Everest – Patricio Urzúa (Chile)
 
O maior destaque ficou com o incrível cume sem oxigênio engarrafado de Carla Perez (ECU), a 6ª mulher na história a conseguir o feito e a 1ª latinoamericana.
 
Planos Frustrados
 
Mais Idoso – O nepalês Min Bahadur Sherchan, que escalou o Everest aos 80 anos de idade em 2011, tentou bater o atual recorde, que pertence a Yuichiro Miura (JAP). Sherchan fez tentativas em 2013 (aos 82 anos), em 2015 (aos 84 anos) e em 2016 (aos 85 anos), mas sem êxito.
 
Mais Jovem – Tyler Armstrong (EUA), com 12 anos de idade, tencionava o título de mais jovem a culminar o Everest. A autoridade chinesa negou a Tyler o permit em abril, não abrindo exceção ao banimento de escaladas a menores de dezoito anos. Em 2010, o permit havia sido negado também a Tseten Sherpa, 9 anos de idade.
 
Tentativa de Rota Diferenciada – Os eslovacos Vladimir Strba e Zoltan Pal tentaram realizar a primeira repetição da Rota Britânica na Face SW do Everest em 20 anos. Foram colhidos por uma avalanche por volta dos 7200 metros e foram evacuados de helicóptero.
 
Recorde de cumes no Everest – Em 2016, Mingma Tshering I Sherpa estava em três permits para tentar chegar a 22 cumes e sagrar-se o alpinista com mais cumes no Everest. Após ter alcançado o cimo em 19 de maio (seu 20º cume), acabou abandonando as outras duas escaladas.
 
Oxigênio
 
Em informes preliminares, apenas 6 alpinistas fizeram cume sem oxigênio engarrafado no Everest em 2016 (cerca de 1%), incluindo Thomas Lammle (Alemanha), David Roeske e Cory Richards (EUA), Azim Gheychisaz (Irã). Além deles, também as mulheres atingiram o topo noox, casos da equatoriana Carla Perez (a primeira mulher sulamericana a culminar noox) e Melissa Arnot (em seu 6º cume, o 1º sem oxigênio extra).
 
Outros alpinistas que tentaram sem oxigênio não completaram a escalada desoxigenada: Esteban Mena, Jorge Hermosillo, Jorge Antônio Gavia, Adrian Ballinger, Mick Allen, Alex Barber, Isaiah Janzen, Richard Hidalgo, Rick Parks, Jelle Veyt, Mingma Sherpa.
 
Alguns Recordes e Fatos Notáveis
 
1º tunisiano – Tahar Manai
1ª mulher peruana – Silvia Vasquez-Lavado
1ª mulher tailandesa – Napassaporn Chumnarnsit
1º emiradense (Emirados Árabes Unidos) – Hashel Obaid Al Tunaiji
1ºs birmaneses (Mianmar) – Aung Pyae-Phyo, Win Ko-Ko
1º cingalês (Sri Lanka) – Weerahennedige Kuru Utumpaala
1º casal a culminar juntos por ambos os flancos do Everest – Noel Hannah (IRL) & Lynne Hannah (UK) [em 2009 pelo Nepal e em 2016 pelo Tibete]
Veteranos de guerra (com deficiência/amputação) – Charlie Lindsville, Chad Jukes, Tim Medvetz, Harold Earls, Jeff Glassbrenner e Elyse Ping Medvigy (EUA)
1ª mulher a 7x Everest – Lakpa Sherpani (NEP/EUA)
3º alpinista a 20x Everest – Mingma Tshering I Sherpa (NEP)
Mais Jovem Australiana – Alyssa Azar (19 anos)
Mais Jovem Japonesa – Marin Minamiya (19 anos)
 
7 Cumes
 
No meio da grande massa de alpinistas que atingiu o cume em maio (perto de 600, segundo as notas preliminares), ao menos 20 pessoas completaram os 7 Cumes, incluindo o cearense Rosier Alexandre (que se tornou o 6º brasileiro e 12º sulamericano a angariar todos os 7).
 
LHOTSE & KANGCHENJUNGA
 
Não houve atividades no Kangchenjunga nesta temporada.
 
No Lhotse, a fixação das cordas na canaleta foi interrompida pela morte de um sherpa e isso levou a que a montanha continuasse invicta pelo terceiro ano consecutivo: desde 2013, ninguém pisa no cimo do Lhotse.
 
ANNAPURNA
 
Recorde de Cumes
 
O Annapurna teve o seu ano mais exitoso, com 31 cumes. De fatos notáveis, tivemos:
 
1º húngaro – David Klein
1º israelense – Nadav Ben Yehuda
1ª mulher australiana – Chris Jensen Burke
Mais idoso – Carlos Soria (ESP), aos 77 anos
 
Vários “colecionadores” de 8000ers atacaram o cume em conjunto no dia 1º de maio, incluindo Boyan Petrov (6º oitomil), Mario Vielmo (9º), Luo Jing (8º), Kim Mi-Gon (13º), Sanu Sherpa (10º), Chris Jense Burke (9º). Além disso, de se registrar o magistral feito de Chhitjee Nurbu Sherpa, que culminou o Annapurna pela 3ª vez (recorde).
 
O Annapurna NÃO é o 8000 mais perigoso
 
O Annapurna possui a fama de ser o oitomil mais perigoso, devido à história de mortes em suas encostas. Todavia, esse cenário mudou bastante nos últimos tempos.
 
Mortes em Números Absolutos (1895-2016):
 
Everest – 280
K2 – 84
Manaslu – 80
Dhaulagiri – 79
Annapurna – 66
 
Como se vê, pelos números absolutos, o Annapurna é apenas a 5ª que mais ceifou vidas. A “antiga” periculosidade devia-se ao fato de que o Annapurna tinha muito poucas escaladas bem sucedidas, situação que teve alteração nos últimos anos. 
 
De 1950 a 1995, foram apenas 86 cumes e a maior parte das fatalidades. Nos últimos 20 anos, o número de cumes foi de 170 e poucas fatalidades. Com isso, não apenas em termos absolutos, mas também percentuais, a periculosidade teve queda drástica.
 
Grau de Periculosidade Moderna (1996-2014):
 
Dhaulagiri – 15,5251
K2 – 14,5038
Annapurna – 14,2857
Nanga Parbat – 9,8214
Gasherbrum I – 8,8353
 
Em números relativos, o Annapurna fica apenas em 3º lugar de periculosidade e, portanto, em nenhum dos índices ele lidera.
 
Logo, nos dias atuais o Annapurna NÃO É o oitomil mais perigoso.
 
ATIVIDADE NOS OUTROS 8000 DO HIMALAIA
 
Tivemos pouca atividade nessas cinco montanhas.
 
No Dhaulagiri
 
Apenas Alberto Zerain (ESP), Mariano Galván (ARG), Prasad Joshi (IND) e dois sherpas (Dorjee e Tenzing) conseguiram cume nesta temporada. O septuagenário Carlos Soria, que tentaria uma dobradinha (Annapurna + Dhaulagiri), desistiu devido ao excesso de neve e perigo de avalanches.
 
No Makalu
 
No Makalu, houve duas ondas de cume bem sucedidas, a primeira no dia 12 a outra no dia 23. Assim como no Annapurna, vários colecionadores de 8000 saíram vitoriosos, casos de Marco Confortola (9º oitomil), Marco Camandona (7º), Boyan Petrov (7º), Ferrán Latorre (12º), Hanz Wenzl (6º), Sophie Lavaud (4º).
 
Os pontos mais impressionantes da temporada do Makalu foram a ascensão de Parvaneh Kazemi (1ª mulher iraniana) e do queridíssimo casal italiano Nives Meroi e Romano Benet, que culminaram juntos 13 oitomil, faltando apenas o Annapurna.
 
Segundo informações da montanha, Cleo Weidlich (a paraense que mora em Natal), guiada por Ali Sadpara, novamente não conseguiu cume no Makalu (tentou em 2012).
 
No Manaslu
 
A expedição do exército holandês, liderada por Bo Boumeester, atingiu apenas a antecima e voltou para casa sem cume. No dia seguinte, Horia Colibasanu (ROM), Peter Hamor (SLK) e Michal Gabris (SLK) foram até o cimo. Era apenas um aquecimento para a nova rota que o time intentava abrir na Aresta Nordeste, mas que não se confirmou devido ao mau tempo. Não obstante, este foi o 13º oitomil de Peter Hamor (só falta o Dhaulagiri para ele).
 
No Cho Oyu
 
Excesso de neve na parte superior da montanha foi a queixa mais ouvida na temporada, que teve pouquíssimos cumes. Apenas a empresa Summitclimb e alguns outros poucos integrantes de expedições menores venceram a exaustiva travessia na neve.
 
No Shishapangma
 
As quatro expedições da Face Norte (rota normal) logo desistiram. Do outro lado da montanha – Face SW – a expedição dos top climbers Ueli Steck e David Gottler fez duas investidas na tentativa de abrir uma nova rota em estilo alpino, mas acabaram defletidos a 7600 e 7200 metros.
 
TENTATIVAS DE NOVAS ROTAS
 
As promessas de novas rotas na temporada não se concretizaram, apesar das janelas duradouras de bom tempo.
 
Como acima visto, no Manaslu (Face NE) e no Shishapangma (Face SW), as expedições abandonaram pelas condições climáticas e pela intensidade dos ventos.
 
Além dessas, no Nuptse, a dupla italiana Hervé Bermasse e Daniele Bernasconi pretendia uma nova rota em estilo alpino na Parede Sul, mas não conseguiram ir além dos 6000 metros devido a um problema que assolou a temporada: o clima estava seco demais e as partes antes nevadas ficaram expostas, aumentando a dificuldade de escalada.
 
Por fim, as informações ainda são preliminares, mas dão conta de que o trio David Lama, Alex Blumel e Hansjorg Auer, apelidados de “Dream Team” pela mídia americana, não conseguiu completar a nova rota na imensa Aresta Sudeste do Annapurna III (7555m).
 
NÚMEROS FINAIS DA TEMPORADA
 
Everest – 588 cumes [dados preliminares]e 5 mortos
Kangchenjunga – sem atividades
Lhotse – 0 cumes e 1 morto
Makalu – 24 cumes e 2 mortos
Cho Oyu – 21 cumes e 0 mortos
Dhaulagiri – 5 cumes e 1 morto
Manaslu – 3 cumes e 0 mortos
Annapurna – 31 cumes e 0 mortos
Shishapangma – 0 cumes e 2 mortos
 
TOTAL – 672 cumes e 11 mortos [periculosidade de 1,64% (baixa)]
 
 
por Rodrigo Granzotto Peron
data: 02.06.2016
 
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Sobre o autor

Texto publicado pela própria redação do Portal.

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