Curso de rapel on line e a administração da escalada no Brasil

0

Rivalidades entre escaladores e rapeleiros são antigas. De certa forma existe um preconceito dos escaladores que os rapeleiros são pessoas bagunceiras, mal educadas e que tal prática, advinda do montanhismo e escalada, quando realizada individualmente, deixaria de ter o mérito que uma escalada de compromisso possui.


Independentemente dos preconceitos, é fato que o rapel adquiriu uma roupagem esportiva e cultural própria, diferente da escalada, de onde é original. É como se no futebol algumas pessoas decidissem se especializar e só praticar a cobrança de pênalti, ao ponto de surgir um novo esporte: O chute ao pênalti.

A coisa fica pior se o tal “chute ao pênalti” fica mais famoso que o futebol, o ciúmes aumenta quando os que não suam a camisa e nem correm começam a aparecer mais e a ficar mais famosos que os jogadores que fazem gol driblando os zagueiros… Que escalador já não passou pela situação de um leigo ver seus equipamentos e falar: Você faz rapel? Bem, acho que esta introdução já diz muito sobre porque escaladores não gostam de rapeleiros…

Mas o ponto que quero chegar não é este. Uma pessoa que se submete a um curso de escalada de qualidade vai saber como pode ser perigoso fazer uma ancoragem errada, ou um procedimento incorreto. Por conta disso, a comunidade de escaladores ficou estarrecida ao ver um curso de rapel feito 100% pela internet, pois todos sabem que é indispensável a presença de um instrutor para passar os conhecimentos de técnicas e procedimentos de rapel. Independente da rivalidade, um curso de rapel ou qualquer técnica proveniente da escalada é perigosa e requer a presença de um instrutor experiente e capacitado.

Engane-se, no entanto, quem pensa que este é o problema que vim relatar aqui. Este é apenas um exemplo da fragilidade das instituições de montanhismo.

A questão central é que, técnicas que pertencem ao montanhismo estão há muito tempo sendo apropriadas indevidamente e a entidade de administração desportiva (EAD), reconhecida pelo ministério dos esportes, a Confederação Brasileira de Montanhismo e Escalada (CBME) não tem subsídios jurídicos concretos que o permitam tomar uma atitude eficaz&nbsp, contra um curso que não preencha um pré requisito mínimo para cursos deste tipo, que no caso é ser realizado na presença de um profissional.

As técnicas esportivas pertencem ao esporte. Existem livros excelentes sobre estas técnicas, mas elas não são normas técnicas, são recomendações dadas por pessoas experientes que são reconhecidas como boas práticas. Entretanto, a própria CBME não possui diretrizes para cursos e nem normas de práticas esportivas. Tão pouco tem um currículo mínimo de cursos de escalada e muito menos parâmetros de certificação de instrutores.

Pior do que isso é que, as&nbsp, normas de escalada que hoje são reconhecidas juridicamente , foram feitas para regulamentar o Turismo de Aventura. Neste caso, a entidade que certifica o turismo teria o poder de homologar um curso de rapel, baseado em suas normas e a entidade que administra o Esporte no Brasil e é filiada à entidade máxima da organização esportiva mundial, a CBME, não.

Isso acontece por que o Brasil é, primeiramente, um país extremamente burocrático e faz-se necessário transformar o conjunto de boas práticas esportivas em normas técnicas. De outro lado, a constituição de 1988 dá total autonomia de administração esportiva à sociedade civil e na prática, uma confederação de esporte, onde há federações e clubes associados não significa, na prática, ser de fato uma entidade administrativa ou seja, não basta ter o nome “Confederação” em seu CNPJ.

Na ausência de leis específicas, uma norma técnica acaba tendo o peso de lei. Como nossos procedimentos foram privatizados e normatizados por uma associação de empresários do turismo, a verdadeira representatividade da CBME fica questionada: Ela tem poder de deliberar (legalmente falando) sobre o curso on line de rapel? A mesma pergunta eu faço sobre esta associação de empresários: Eles têm o poder de certificar/homologar cursos de escalada dados por clubes e associações de montanhismo? Esta associação de empresários se tornou uma EAD paralela da escalada?

Solução para este problema seria a CBME realizar suas próprias normas, mas isso não é nem fácil e nem barato. A Confederação mal consegue pagar suas dívidas com as federações internacionais para que seus atletas, tirando o dinheiro do bolso, possam participar de competições internacionais. Enquanto isso, a tal associação de empresários fez convênio com o Ministério de Turismo para receber milhões e normatizar nossas atividades via ABNT. Há algo muito errado nesta história, não acham?

Enquanto isso, montanhistas vão sendo intimidados e processados por discordarem de cursos absurdos e o correto vai se tornando ilegal e o incorreto normal enquanto que os principais interessados, que geraram todas esta confusão, posam de bonzinhos e transitam dentro dos clubes dizendo que isso tudo é desinformação. Acorda Brasil!

Compartilhar

Sobre o autor

Pedro Hauck - Equipe AM

Pedro Hauck é montanhista e escalador desde 1998. Natural de Itatiba -SP, reside atualmente em Curitiba-PR. Pedro gosta de escaladas clássicas e também de montanhismo de altitude, já tendo escalado algumas das mais altas dos Andes. É geógrafo, mestre em Geografia Física e atualmente faz doutorado em Geologia ambiental. Visite o Blog de Pedro em www.pedrohauck.net

Comments are closed.