A primeira decolagem de Parapente da Montanha mais alta do Brasil e o recorde nacional de Slackline de altitude

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Pela primeira vez é realizada uma decolagem de Parapente e o recorde nacional de Slackline de altitude no Pico da Neblina. Confira o relato de Leandro “Montoya” sobre a expedição.

Texto por Leandro “Montoya”

Os protagonistas desta aventura são os Yanomamis, há 7 anos eles deram iniciativa ao Projeto Yaripo – Ecoturismo Yanomami, que tem o objetivo de guiar turistas ao Pico da Neblina ou, em linguá yanomami, Yaripo: a montanha dos ventos de tempestade. O projeto conta com apoio do ICMBIO, FUNAI, ISA, AYRCA e outras entidades competentes.

Myka e eu fizemos parte de uma expedição experimental do projeto Yaripo. A organização de toda expedição levou mais de 6 meses entre contatos, notificações de todas entidades e detalhes logísticos.

O Projeto Yaripo é uma grande iniciativa para levar receita aos Yanomamis, está praticamente pronto e deverá ser lançado para público em geral ainda em 2019. Nossa expedição seguiu estritamente o formato previsto no projeto, portanto serve sim de referencia para futuros aventureiros.

Partimos de São Gabriel da Cachoeira, local de inicio da expedição, em 03 de Janeiro de 2019 as 5am. Myka e eu somos montanhistas e pilotos de parapente de São Paulo. O objetivo, claro, era chegar ao cume do Pico da Neblina, aos 2993 m, passar uma ou duas noites no cume e retornar. Levamos os parapentes para, em caso de bom tempo, tentar um voo do cume. Myka também levou equipamentos de Slackline.

Organizada sobretudo por Myka, a expedição foi formada por 1 guia yanomami: “Beto Gol”, 1 Organizador Logístico: Branco Shock e dois portadores também yanomamis: Francisco e Amancio”. Tardiamente juntou-se a equipe a enfermeira Hamyla, de São Gabriel da Cachoeira, indígena da etnia Baré. Um total de 7 pessoas, sendo 3 não indígenas, 3 Yanomamis e 1 Baré.

O primeiro encontro de toda equipe aconteceu na aldeia de Maturacá. O caminho de São Gabriel da Cachoeira até a comunidade indígena Yanomami levou 7 h de veículos 4×4 + 14 h de voadeira, a demora no barco foi devido o baixo nível de Aguá nos rios Cauaburi e Maturacá. O trajeto normal de voadeira fica em torno de 5h.

Passamos poucas horas em Maturacá. O Tuxaua (cacique/pajé) da aldeia realizou o ritual da Recura, quando usa o paricá para entrar em transe e pedir permissão aos espíritos do Yaripo para a nossa escalada. O ritual de grande intensidade foi pela manhã e trouxe bom presságio, todos os membros participaram e também o prático e proeiro do barco. Logo em seguida ajeitamos os equipamentos nas voadeiras e partimos para navegar até o inicio da trilha.

Os rios ainda baixos fizeram nosso progresso lento, chegamos a foz do igarapé Tucano, local onde deixamos a voadeira e inicia a caminhada, apenas a tardinha e os guias decidiram acampar ali mesmo. Foi o tempo de armar o acampamento, dividir as cargas, jantar e deitar. Ao final da divisão de peso, Myka ficou com uns 20 kg de carga, eu com uns 15 kg, nossos parapentes subiram conosco. Os portadores levaram nossas barracas e equipamentos de resgate, e toda a comida das refeições principais, chamada rancho.

O guia Yanomami assumiu a liderança da expedição e a nomeou expedição “Myka”. Branco Shock assumiu o posto de cozinheiro. Hamyla, a enfermeira Baré, levava uma mochila de ataque, ela também era responsável por medicamentos e primeiros socorros. Nossos portadores yanomamis, Francisco e Amancio, também estavam animados e fortes. Foi uma noite de chuva.

Iniciamos a marcha para a maior montanha do pais em uma altitude de aproximadamente 100 m do nível do mar. A trilha bem marcada e embrenhada na floresta amazônica cruza alguns igarapés e rios. A cada duas ou três horas de caminhada passávamos por um ponto de acampamento ou descanso, caracterizado por clareiras e estacas ondem se armam as redes e lona, perto de pontos de água.

Parávamos a cada hora para breve descanso e acampávamos quando o dia se aproximava das 17 h. A media diária de caminhada foi de 6 h e 11 km. A noite, Branco Shock preparava uma refeição com feijão, uma proteína, farinha e arroz. As comidas de trilha eram por nossa conta.

Assim se passaram os três primeiros dias na mata. Neste tempo passamos de 100 m para os 2100 m de altitude, sendo 800 deles no terceiro dia. Pouca chuva, quase sempre a noite. Um calor úmido e pesado, consumo de 3 a 5 litros de água por dia. Poucos insetos. Banhos sempre nos igarapés, cozinhava-se no chão.

O quarto dia amanheceu nublado e fresco, desde o acampamento no plato, próximo a antigo ponto de garimpo aos 2.000 m de altitude, partimos para o ataque ao cume. Os portadores foram na frente para preparar o campo base, que também fica a 2.100 m e 1,5 h a frente na trilha, próximo ao inicio da subida a face oeste do neblina, bem mais encostado a parede comparado ao nosso ponto de pernoite. Eles levaram as barracas e “equipos” de resgate e deixaram no cume e retornaram ao acampamento base. Yanomamis não gostam de pernoitar no cume.

Nós prosseguimos mais lentos. A escalada ao cume é em rocha com trechos de bromélias, “escalaminhada”, degraus em aço inox (recém instalados para o projeto Yaripo pelo montanhista Nelson de São Paulo). Durante a escalaminhada, perto dos 2.600 m despencou uma chuva muito forte, aliada ao vento gelado do venturi, vento acelerado, que se forma entre o Pico da Neblina e o Pico 31 de Março. Continuamos pelas grotas, agora verdadeiras cachoeiras e alcançamos o cume por volta das 15:30 h.

Primeiro o Guia Yanomami Beto Gol, Myka e Eu, em seguida o Branco Shock, por volta das 17:30 h. Ele vinha mais atrás com Hamyla que infelizmente desistira no meio do ataque ao cume e retornara ao acampamento base junto com os portadores, nós ficamos tristes por ela não subir, porém tranquilos pois ela estaria bem com os rapazes logo ali embaixo.

Armadas as barracas no cume, que é pequeno porém suficiente, celebramos uma sopa, os 4 dentro de uma barraca iglu. Vento forte e chuva la fora, foi quando nos deparamos com uma linda pererequinha dentro de nossa recém transformada em sala de jantar. Foi uma onda de piadas para fechar a noite e voltarmos a nossas barracas tremulas.

Apesar de levarmos os parapentes até la em cima, sabíamos que as chances de voo eram minimas. O Yaripo esta sempre com vento e sempre encoberto com neblina, outras expedições resistiram 10 dias no cume tentando condições de voo e não tiveram sucesso. Nós tínhamos, no máximo, duas noites e duas manhãs.

Encolhido em meu saco de dormir, com frio e incomodado com o sacolejar intenso da barraca, eu não conseguia acreditar nas previsões do tempo positivas que minha esposa Lygia me enviava via Spot, eu não tinha nenhuma esperança que o tempo fosse melhorar na manhã seguinte.

Com frio, puxei o “paraca” de dentro da mochila para reforçar o saco de dormir. Quando a chuva cedeu, Myka ainda saiu para ver as estrelas, eu preferi ficar no quentinho. Estávamos em barracas separadas.

Despertei com a penumbra da manha, o vento forte ainda estava presente sacolejando tudo, por um instante agradeci por não precisar sair no frio, mas logo resolvi ir la fora ver o nascer do sol e o infinito plano verde, estendido quase 3.000 m abaixo de nossos pés a leste da parede vertiginosa do neblina, a Amazônia tão extensa que poderíamos naufragar nela com toda a serra do Imeri junto.

Vaguei de crocs sacando fotos de um lado a outro e gravei uns videos, vislumbrei o plato, chamado de bacia, atrás do neblina, abaixo de sua face oeste, local por onde subimos e onde ficavam nossos amigos portadores e Hamyla no acampamento base, perto dos 2.100 m.

Foi quando uma briza familiar me acariciou o pescoço e me despertou o olhar firme a leste. As nuvens estavam distantes, a mata bem abaixo claramente visível, o vento diminuíra a intensidade e arredondava vindo de nordeste, a direção padrão nessa região. O vento estava liso, quase macio entre 10 e 15 km/h. Outra olhadela para o plato, a oeste, e as faíscas de nuvens baixas flutuando, magicamente paradas.

Mesmo a maior ameaça para quem quisesse se aventurar a voar e pousar no plato, o venturi que passa entre o Pico da Neblina e o 31 de março, a norte do cume do Pico da Neblina, mostrava apenas uma língua de nuvens não muito espeças que se espreguiçavam lentamente. As previsões que a Lygia passou se confirmaram. Foi um estalo. Passei a correr:

– Ei caras, vamos voar!

Apanhei minha cargueira e embolei todas minhas coisas dentro, menos a barraca que levaria muito tempo para desmontar e os guias poderiam levar para mim. A abertura no neblina é coisa rara e eu tinha que decolar imediatamente.

Os guias não tinham muita ideia dessa urgência: – Ei Montoya, não vai querer um chocolate quente?

Não dessa vez, Branco.

Quando fui apanhar o parapente na barraca, notei as linhas completamente embaraçadas. Eu havia feito um bolo completo com ele a noite e, para piorar, eu não tinha familiaridade com o ozone single face. Desembaraçar tudo levaria precisos minutos. (Depois, já no aeroporto, com espaço e sem vento, levei 45 min para desembaraçar tudo).

Myka acompanhava tudo de perto, inclusive havíamos revisto há pouco a rota e zona de pouso. Ele preferia seguir para um pouso nas praias do rio Cauaburi, enquanto eu votava pelo pouso no plato atrás do neblina. Foi quando ele sugeriu que eu voasse com o equipamento dele.

Nós nos olhamos por alguns segundos, este foi o maior gesto que companheirismo que eu presenciara em toda a vida. Ele não queria pousar na bacia. Ele então correu na sua barraca, sacou seu parapente e sem delongas começou a prepara-lo para mim.

Depois de clipado ao equipamento, checado e algumas tentativas de decolagem frustadas, finalmente o mentor 3 light estava alinhado sobre minha cabeça, me virei e corri entre pedras e bromélias para decolar sobre o abismo bíblico da face leste, agradeci a todos com um sonoro Awey!, a celebração Yanomami. Beto Gol me rebatizou lá de cima:

MohomoIriwe*.

Balançando nas barbas de Deus, tive pouco tempo para apreciar todo aquele vazio ao redor, as paredes da Serra do Imeri, algumas nuvens longíncuas, a parede da face leste, todos os pequenos cumes ao redor do Neblina. Saquei a camera para um vídeo rápido e quando me vi eu estava sobre a serra do Montila, quase no centro da bacia/plato a oeste do Neblina.

Para pouso havia um campo de Bromélias ou a bacia do Gelo, o antigo garimpo desativado. Optei pelas bromélias porque estavam muito mais perto do acampamento base. Ainda tive tempo de informar via radio a Amancio e Francisco, os portadores yanomamis do campo base, para que fossem me ajudar a voltar ao Acampamento.

Um pouso macio, um grito, algumas lagrimas e a gratidão pelo presente dos céus. O pouso do voo da montanha mais alta do Brasil foi solitário, mas lá em cima, no cume, me assistindo, eu sabia que tinha um amigo, um irmão selado na montanha que havia me dado a chance de voar em seu lugar.

Myka, por sua vez, não parecia preocupado em não voar, pelo contrário, tao logo constatou meu pouso seguro, armou um slackline no cume, logo abaixo da bandeira do Brasil, e estabeleceu o recorde Brasileiro de maior altitude nessa modalidade.

A tarde todos nos reunimos no campo base, houve abraços e uma celebração sincera. Nossos guias também haviam instalado um novo livro de cume, no qual ficou dedicado o primeiro voo da montanha a meu sobrinho Adam Estevam.

E assim iniciamos o retorno e o fim da expedição Myka, com os recordes de altitude de decolagem de parapente e linha de slackline, O Yaripo nos recebeu, a mais alta montanha do Brasil nos abraçara, um presente de Deus.

Confira o vídeo curto Expedição Myka:

Confira o vídeo completo da Expedição Myka:

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Sobre o autor

Renato Santini

Escalador, montanhista, ciclista, viajante e gerente da loja Alta Montanha nas horas vagas.

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