Derretimento: Só nos restam mais 10 anos

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Sou da geração que começou a escalar após os sinais óbvios do aquecimento global terem começado. Desde que eu tinha 7 anos de idade, comecei a notar diferenças no clima de ano a ano até o ponto de eu estar escrevendo em Agosto no em São Paulo, com 30 graus Celsius positivos do lado de fora!

Este ano tive a oportunidade de voltar a escalar em lugares nos quais eu estive 7 anos atrás e realmente pude ver o que está acontecendo. A minha maior decepção é ouvir pessoas comentando sobre suas noções sobre o aquecimento global. Muitos acham que se pararem de usar o carro vão conseguir parar ou mesmo reverter a situação.

O derretimento já aconteceu e está cada vez pior. Basta olhar para os sinais na montanha. Há muita presença de rochas polidas, morenas frontais e laterais recém expostas por glaciares que retrocederam. Estas áreas geralmente tem uma cor mais clara do que as outras ou às vezes estão desprovidas de liquens. Estes são sinais de que o gelo este ali há algumas décadas. Seja lá qual seja o motivo pelo qual o aquecimento global está acontecendo, não tem mais volta.

Quando fui aos vulcões gêmeos na Bolívia em 2002 pela primeira vez, eu estava começando a conhecer montanhas geladas, lembro que pegava água de um velho campo de penitentes a 4900 metros de altitude no colo existente entre as duas montanhas. Naquela época eu já achava que 4900 metros era muito alto para eu começar achar neve… Quando voltei para lá este ano não encontrei sinal algum de penitentes não só no colo, mas em toda a encosta da montanha. Só comecei a chutar penitentes a 5900 metros de altitude, já perto do cume do Parinacota. O gelo que encontrei era bem velho e esculpido pelo vento, formando pequenos penitentes de 40 cm de altura.

Lembro que quando vi o Sajama pela primeira vez em 2002 imaginava que ele seria difícil de ser escalado por ser tão nevado. Este ano só encontrei algo congelado a 5700 metros de altitude. Conversando com José Manuel Miranda, um guia UIAGM que guia há pelo menos 20 anos na Bolívia, fiquei sabendo que antigamente (10 anos atrás) as pessoas montavam barracas na neve quando acampavam ali e tinham que colocar os crampons a 5200 metros de altitude, quando chegavam à crista noroeste da montanha.

Fora os climatologistas que estão estudando estudando estes fenômenos há anos, nós montanhistas somos os poucos que tem a sorte (ou azar) de ver estas grandes mudanças de perto. Para nós a mudança não é de década a década, é de ano a ano!

Lembro que em 2003  quando eu escalava uma das minhas primeiras montanhas nos Alpes, eu cheguei apenas 1 semana após uma avalanche rochosa que levou um importante diedro que estava descrito nos livros de história do alpinismo desde o final do século XIX.

Assim passou a minha breve carreira de montanhista e acabei acostumando a escalar em lugares que estão mudando ou mudaram, tornando-os completamente diferentes do que as fotos que eu vejo antes de ir.

Inúmeras vezes a minha auto-estima foi derrubada pois eu não conseguia escalar o suposto grau rota que eu estava escalando. Não demorei muito para perceber que na verdade a rota estava bem graduada…. para a época. Esta pode ter sido 10 ou 20 anos atrás e hoje a mesma rota pode ter dificuldades não encontradas quando esta foi escalada pela primeira vez.

O Huascarán no Peru, por exemplo, tinha o seu cume sul graduado como AD+ pela rota normal. 25 anos passaram desde que esta graduação foi estabelecida e hoje em dia esta é graduada como D pelos novos seracs presentes na rota e pelo perigo destes se moverem enquanto você está na rota. Bergschrunds são os favoritos eleitos como agraventes de grau pelos escaladores. Qualquer pequena diferença na espessura glaciária faz com que estes aumentem ou diminuam alguns metros.

Para nós, uma adição de 1 metro num teto de gelo é um grande agravante numa escalada. A presença ou ausência de cornisas também faz uma grande diferença. O Alpamayo no Peru, por exemplo, tem a rota Ferrari que foi aberta pela primeira vez na década de 50. Desde então todo mundo sabe que ela é um AD+. Nos últimos anos porém, um grande cogumelo/cornisa bloqueou o fim da rota tornando muito perigosa. Os que conseguem escalá-la ultimamente a classificaram como um D+.

É muito diferente você ascender um glaciar de 40 graus do que você ascender uma encosta com rocha polida de 40 graus de inclinação. É muito diferente você chegar a um cume por neve dura do que chegar a um cume tendo que atravessar campos de penitentes de meio metro de altura. Também há muita diferença você ascender uma rota graduada como D do que ascender o mesmo D com rochas voando a poucos metros da sua cabeça. Testemunhei todas essas mudanças nos Andes mesmo.

Será que esse será o mérito que a minha geração terá sobre os pioneiros da escalada? Tudo bem que eles escalavam montanhas com roupas de lã e cordas de sisal, mas nós temos que escalar montanhas mais difíceis do que as que eles escalavam. Pelo que vi nos Andes, Himalaya e Alpes, não dou mais que 10 anos para muitas rotas tradicionais derreterem completamente. O que vai acontecer com nossos filhos? Eles vão ter que treinar muito para superar todas as dificuldades técnicas. Isso se o tempo do futuro for tão bom quanto o de hoje.

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Sobre o autor

Maximo Kausch

Maximo é atualmente guia em grandes montanhas do Himalaia e Andes. Ele passa praticamente o ano todo em grandes altitude e ganhou muita experiência. Ele escala há 15 anos e além de escalar em grandes altitudes, ele pratica escalada mista nas horas lives, escalada em gelo, escalada em rocha e livre. Maximo é responsável por grande parte dos artigos técnicos do AltaMontanha.com

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