Displicência – Inimiga do Escalador

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A Displicência é inimiga do escalador – Lendo a estatística publicada anualmente pela American Alpine Club, da qual sou sócio, em 2008 ocorreram 117 acidentes nos EUA, com 211 pessoas envolvidas e 15 mortes. A média de mortes de escaladores lá é de 20 pessoas/ano e uma parte considerável tem como causa a falta de atenção do escalador.


Entretanto, displicência, burrice e azar não tem nada a ver com experiência. Vejam, dos 7.320 casos de acidentes registrados nos EUA, 36% eram de escaladores com muita experiência; 31% de escaldores com experiência mediana e 33% sem experiência.

Certa vez estava escalando o Ás de Espadas 6 VIIA (Pão de Açúcar) com alguns amigos. O Gabriel Fonseca fazia cordada com a esposa. Ele estava ocupado na base contando histórias e se encordando ao mesmo tempo… Terminei a primeira enfiada e esperei por eles. Quando o Gabriel guiava e já estava a 40m da base, a corda simplesmente saiu de sua cadeirinha e ele ficou “travado” num lance estranho. Sorte dele eu estar perto. Já esqueci de me ancorar na descida de alguns rapéis, quando a parada é feita sobre platôs… E o susto? Aqui na Colômbia todos tem o hábito de checar o encordamento um do outro, não importando a experiência do escalador.

Obviamente a displicência tem várias causas…

Estava escovando os dentes e percebi que a pasta de dente não fazia espuma e era cremosa. Depois percebi que estava usando pomada para assaduras de bebê… A embalagem é parecida com pasta dental… Displicência de pai.

Por causa de uma larica absurda, abri a geladeira e comi 1/3 de massa de tomate de um pote… Pensava que era geléia de morango. Descobri o erro na manhã seguinte… Isso foi a 20 anos!! Não faço mais isto.

Você já jogou a banana no lixo e colocou a casca na boca? Eu lembro de ter feito isso pelo menos uma vez, depois de ter bebido muito na noite anterior.

Tudo isto é displicência ou sentido alterado, o que pode não terminar de forma tão engraçada quando estamos escalando. O que mais me incomada na escalada esportiva é a quantidade pessoas na base conversando e isto já causou muitos acidentes fatais. Em escaladas longas é bom estar com todos os sentidos aguçados, não importando o grau da via.

Displicência + Burrice + Azar

Certa vez, dirigindo sozinho  de Red Rocks (NV) para o Grand Canyon (AZ) para escalar, peguei uma tempestade de neve no caminho, mas dentro do carro estava quentinho. Tive que parar para abastecer em plena tempestade. De camiseta, sai para encher o tanque, mas esqueci a chave na ingnição. O vento bateu a porta e a mesma trancou. Ainda por cima, fui ameaçado de ser preso pela polícia por tentar arrombar meu próprio carro!!! E o frio?

Estava indo escalar no Vale de Todra (Marrocos). Quando entrei no deserto, a gasolina também acabou e eu estava sozinho. Parei num posto, mas encantado com a paisagem,  não prestei atenção que o fretista enchia o tanque com Óleo Disel. Porém, o carro era a gasolina…

Com o carro parado e aquele monte de fumaça preta, comecei a “discutir” com o fretista sobre a merda que ele havia feito.  Discutindo na base da mímica, a única palavra que sei de árabe é Alá. Obviamente a culpa foi minha. Depois de trocar os combustíveis e lavar o motor, consegui chegar ao vale para escalar.
Abraços.

Antonio Paulo Faria

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Sobre o autor

Antonio Paulo Faria - Colunista

Antonio Paulo escala há tanto tempo que parece que já nasceu escalando... 30 anos. Até o presente, abriu mais de 200 vias no Brasil e em alguns outros países. Ele gosta de escalar de tudo: blocos, vias esportivas, vias longas em montanhas, vias alpinas... Mas não gosta de artificiais, segundo ele "me parecem mais engenharia que escalar propriamente". Além disso, ele também gosta de esquiar, principalmente esqui alpino no qual pratica desde 1996. A escalada influenciou tanto sua minha vida que resolveu estudar geografia e geologia. Antonio Paulo se tornou doutor em 1996 e ensina em universidades desde 1992. Ele escreveu sobre escalada para muitas revistas nacionais e internacionais, capítulos de livros e inclusive um livro. Ou seja, ele vive a escalada.

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