DOS -15 AOS + 5

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De novo, aquela época do ano de escaladas efémeras. A estação das vias mágicas que, um dia estão lá e, no outro, já não existem. Itinerários que surgem com o descer das temperaturas e desaparecem quando o mercúrio volta a subir. Por vezes, o estar e o não estar, são dois mundos apenas divididos por escassas horas. Uma metamorfose apenas concebivel no universo fantástico das cascatas de gelo.


Depois de uma fugaz passagem pelos Pirinéus onde a neve cobriu tudo, tornando as aproximações impossíveis, resolvemos rumar um pouco mais para leste, terminando num dos maciços mais belos da Europa. O maciço dos Ecrins.

Também nos Alpes o manto branco fez das suas e, qualquer incursão em terreno de alta-montanha seria o equivalente a uma tentativa elaborada de suicídio. O risco de avalanche encontrava-se a 1000, numa escala de 1 para 5.

No entanto, num horizonte invisível pela neve que caía incessante, sorria uma alternativa muito interessante, de resto, responsável pelos muito quilómetros calcorreados em estradas francesas. Essa alternativa tinha um nome. Esse nome era: Escalada em gelo.

A adicionar ainda mais um ponto à motivação, ali estava um outro detalhe muito atraente: cascatas de gelo muito grandes a escassos minutos de caminhada desde o estacionamento mais próximo.

Os 16 graus negativos indicados pelo termómetro garantiam a estabilidade do elemento. Garantiam também uma neve profunda de transformação impossível pois, esta depende da oscilação das temperaturas. Detalhes que, a bem da verdade, pouco nos importavam. É que a “Les formes du chaos”, em Ceillac, estava mesmo ali, a 15 minutos de “arrastadeira”.

“Que sorte!” A primeira actividade invernal da temporada tinha “uma pinta” de se lhe tirar o chapéu. Um funil azul de água parada no tempo. Gotas aprisionadas pela inclemência do frio. Trezentos metros de gotas prisioneiras!

Mas, não existem rosas sem espinhos. Estamos em França e não no paraíso das “vias lógicas abandonadas” de Portugal. Uma cordada acaba também por entrar na “nossa” cascata. Apesar de simpáticos, os dois “française parlants”, ignoram as prioridades e, em breve, temos as cordas cruzadas. Decidimos esperar que se afastem um pouco. Por sorte estamos bem agasalhados e as reuniões são muito cómodas, compostas por plataformas amplas e pouco expostas ao gelo que cae, desprendido pelas estocadas dos ilustres desconhecidos glaciaristas.

As esperas nas reuniões foram aproveitadas para rejuvenescer o corpo ao sabor de uns goles de café, mantido quente na garrafa térmica e, para apreciar a beleza surrealista na qual estávamos entranhados.

Os piolets deixaram de funcionar aos 200 metros de escalada. Uma película demasiado fina deixava ver a água que corria a jorros por debaixo da cascata. Era como vidro frágil de uma janela que, despedaçada, conduziria a um desfecho muito perigoso.

Hora de baixar.

Tinha sido um dia divertido.

David Falt é um escalador sueco que assentou bases nos Alpes. Conhecemo-lo num local improvável, muito mais longínquo da nossa terra natal que a França. Trata-se de um tipo de humor mordaz, de frases directas e irónicas e com uma atracção quase paranóica pelo “light and fast”. A sua aversão pelas grandes caminhadas de aproximação é enfaticamente colorida pelo próprio. O que não deixa de ser um paradoxo considerando que conhecemos David no campo base dos Gasherbrums, no Karakorum, que fica a sete dias a pé, por um dos terrenos mais escabrosos do planeta. David fazia parte de um grupo, que tinha tanto de divertido como de peculiar e, que tentava abrir uma via nova no Gasherbrum III.

A convite de David, partilhámos as “pioladas” numa das cascatas mais clássicas de “La Grave”. A “Caturgeas”, têm uns 600 metros e encontra-se a uma distância do estacionamento que chega a tardar uns perturbadores três minutos a ultrapassar!

É no entanto, uma cascata fácil, que nas devidas condições permite uma escalada tranquila e cadenciada. Trata-se também de uma cascata bastante frequentada pelos guias e as instalações fixas, nas rochas marginais, são ridiculamente numerosas.

O encadeado ininterrupto de gelo termina a quase 400 metros de escalada. Outros 200 metros de corredor fácil separam-nos do topo da parede. Mas, o carro está lá embaixo, por isso, descemos em rapel.

Dois dias depois, as temperaturas sobem em flecha. Dos quinze graus negativos, passamos, para os cinco graus positivos. São vinte graus de diferença, de um dia para o outro. Com essas amplitudes, o mundo transformou-se e o gelo estatelou-se sobre o seu próprio peso. A metamorfose voltou a ocorrer e as gotas de água, outrora paradas no tempo, voltaram à vida e retomaram o seu curso, por vezes de uma forma violenta e espectacular. Acabámos por testemunhar o colapso da mega “Les formes du chaos ”, que tínhamos escalado apenas há dois dias.

Antes de abandonar os Alpes, como ultimo recurso e, no primeiro dia de realmente bom tempo da semana, virámo-nos para uma pequena montanha da região, quase esquecida pelos locais, certamente obscurecida pelo grandes picos mais famosos da área.

Seguindo a linha dos nossos vícios lusos, resolvemos tentar a nossa sorte numa abertura de via. A aproximação curta, de apenas uma hora, seduzia e, metemo-nos a caminho, com uns esquis nos pés e uma atitude confiante.

A neve, perfeitamente horrível, impediu uma entrada séria na parede e, a decisão de descer foi rápida e indolor. Não havia nada a fazer.

Mais dolorida, foi decerto a nossa tentativa de esquiar a vertente que acabáramos de subir. Seguiu-se portanto, um memorável épico de trambolhões e figuras tristes que, felizmente, pensamos não terem sido testemunhadas.

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Sobre o autor

Daniela e Paulo - Colunistas

Daniela Teixeira e Paulo Roxo é uma dupla portuguesa que pratica escalada (rocha, gelo e mista) e alpinismo. O que mais gostam? Explorar, abrir vias! A Daniela tem cerca de 10 anos de experiência nestas andanças e o Paulo cerca de 25. A sua melhor aventura juntos foi em 2010, onde na cordilheira de Garhwal (India - Himalaias), abriram uma via nova em estilo alpino puro na face norte da montanha Ekdante (6100m) e escalaram uma montanha virgem que nomearam de Kartik (5115m), também em estilo alpino puro. Daniela foi a primeira e única portuguesa a escalar um 8000 (Cho Oyu). O Paulo é o português com mais vias abertas (mais de 600 vias abertas, entre rocha, gelo e mistas). Daniela é geóloga e Paulo faz trabalhos verticais. Eles compartilham suas experiências do velho mundo e dos Himalaias no AltaMontanha.com desde 2008. Ambos também editam o blog Rocha Podre, Pedra Dura (rppd.blogspot.com.br)

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