Em busca da montanha perfeita

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Tudo começou com uma simples pergunta: “O que é mesmo, afinal, uma montanha?”. E acabou virando uma obsessão, que resultou no maior projeto exploratório de montanhismo dos Andes na atualidade.

Explicando em poucas palavras: eu sou montanhista e, ao lado de meu amigo Pedro Hauck, estamos tentando definir matematicamente o que é uma montanha. A ideia é tentar descrever se uma elevação é ou não uma montanha usando uma simples equação. Claro que tudo isso é uma desculpa para sair rumo ao desconhecido e escalar montanhas virgens imensas e ainda sem nome. 
 
Eu e Pedro acabamos de voltar de uma escalada na qual acreditamos ser a maior montanha virgem dos Andes! Sempre que possível, respeitamos a grafia e as nomenclaturas locais. Primeiramente escalamos três montanhas virgens, e depois decidimos extrapolar nesta última: batizamos a belezura de Monte Parofes, em homenagem a nosso amigo Paulo Roberto Felipe Schmidt, o Parofes, morto em 2014 vítima de leucemia. A montanha tem 5.845 metros de altitude e consumiu quatro dias seguidos de escaladas e caminhadas longas, com ventos congelantes e temperaturas de 35ºC negativos durante a noite.
 
Após um ano puxado, no qual guiei três expedições no Aconcágua, na Argentina, uma no Monte Elbrus, na Rússia, e também ao Kilimanjaro, na Tanzânia, decidi tirar férias das expedições comerciais. Em vez de ficar de papo para o ar em alguma praia, optei por escalar montanhas virgens em alguns dos lugares mais remotos da Terra: os Andes. Isso seria uma continuação de um grande projeto que comecei em 2012, quando escalei 30 montanhas andinas com mais de 6.000 metros de altitude em apenas dois meses, sozinho e me locomovendo de moto. No final daquela temporada, pensei: “E por que não escalar todos os 6.000 dos Andes?”. Após escalar a 67ª montanha com mais de 6.000 metros – batendo o recorde mundial, que era de 59 –, comecei a notar a existência de diversas montanhas um pouco menores. Não resisti ao pensamento: “Será que alguém já escalou aquela? E aquela ali? E aquela lá?”.
 
Decidi voltar aos estudos sobre o assunto e descobrir, por conta própria, quais, quantas e como são todas as montanhas com mais de 5.000 metros de altitude dos Andes. Sim, o projeto havia se transformado em uma doida obsessão.
 
Após três meses de trabalho, acabei fazendo uma “gambiarra” usando ferramentas como Google API e Excel para encontrar mais montanhas andinas e calcular sua proeminência topográfica, ou seja, o quanto elas se destacavam na paisagem. O resultado veio logo: encontrei 55 mil elevações, das quais consegui calcular que aproximadamente 1.100 delas eram elevações com independência topográfica suficiente para serem chamadas de montanhas.
 
Satisfeito com meu trabalho, falei sobre meu projeto com uma grande amiga, a inglesa Suzie Imber. A moça já trabalhou com a Nasa, na missão Messenger ao planeta Mercúrio, e é doutora em física. Obsessiva como eu, ela curtiu a ideia e usou um supercomputador de 2.500 processadores para fazer cálculos que eu demorei três meses para conseguir utilizando apenas o Excel. O resultado foi muito mais preciso e confiável do que o meu.
 
Mais tarde fizemos outra gambiarra para puxar a nomenclatura das montanhas dos institutos geográficos locais e acabamos descobrindo que centenas delas simplesmente não tinham nome. Havia 125 delas sem qualquer registros de nomenclatura.
 
Aí é que entra nossa maluquice: é claro que tínhamos que escalá-las! A ideia inicial era simples: pegaríamos um carro, dirigiríamos cerca de 3.000 km nas estradas locais, escalaríamos uma delas, dormiríamos, comeríamos e então escalaríamos outra e outra e outra.
 
De fato, conseguimos completar essa sequência até que nosso carro quebrou: o anticongelante congelou dentro do motor. Para apimentar um pouco as coisas, a primavera de 2015 que escolhemos para executar o projeto provou ser a mais fria dos últimos 95 anos.
Durante a fase de preparação da expedição, acabamos convencendo o mecânico Jovani Blume a se juntar a nós. Jovani é do interior do Rio Grande do sul, daqueles descendentes de alemães que falam “caro” em vez de “carro”. Ele simpatiza muito com essa história de montanhas de altitude, porém nunca havia experimentado uma expedição desse tipo. Seria uma mão na roda ter dois veículos conosco, caso um deles quebrasse. Sem saber da fria que estava se metendo, Jovani nem pensou, e no dia seguinte já estava na estrada.
 
Claro que não mencionamos a parte em que teríamos que abrir algumas das estradas com a pá, ou que haveria estradas com minas terrestres, muito menos o fato de o humano mais próximo de nós nessas montanhas estar a 500 km de distância. Ah, também faltou avisá-lo do “detalhe” de que a maioria das montanhas escalaríamos eram virgens, ou só tinham sido escaladas uma vez. 
 
Quando Jovani chegou, logo de cara seu carro também sofreu o “batismo” do anticongelante congelado dentro do motor. Foram necessárias nove horas de reboque até a primeira cidade. Após dois dias, estávamos de volta aos Andes. Desta vez, levamos conosco o fotógrafo e repórter paulista Caio Vilela, experiente viajante e amante de aventuras outdoor.
 
Na primeira subida que fizemos juntos aos Andes, enfrentamos uma das maiores tempestades da temporada. A neve chegou a cobrir as rodas dos carros e quebramos totalmente o parachoque do veículo do Pedro. 
 
Mas não foi só de perrengues mecânicos que se compôs a viagem: também tivemos altos perrengues nas montanhas. Para o batismo de Caio e Jovani, escolhemos uma montanha com 5.167 metros de altitude que tinha nome, porém ainda não havia sido escalada. Tratava-se da Sierra de Aliste e ficava no meio do nada. Só para chegar lá, tivemos que dirigir 350 km pela estrada internacional mais remota do Chile. Ao chegar à metade dela, você pega uma estradinha à direita e dirige mais 60 km de terreno off road, seguindo as rotas de GPS que marcamos chutando o caminho com a ajuda do Google Earth. Isso tudo só para poder avistar a montanha. No trajeto, encontramos ruínas incas abandonadas havia mais de 500 anos. A escalada em si revelou-se até fácil, porém o vento de 150 km/h quase destruiu e quebrou nossas barracas.
 
Sierra de Aliste foi, na verdade, a sétima montanha da viagem e a terceira virgem que escalamos. Antes dela, desfrutei de um mês de escaladas e estradas insanas com Pedro, que é geógrafo e alpinista, e a cientista e atleta Suzie. Sucedeu-se também série de descobertas. Suzie, por exemplo, descobriu que era possível escalar duas montanhas com mais de 5.000 metros de altitude no mesmo dia. Pedro, por outro lado, descobriu que o vento dos Andes chilenos é tão forte que pode entortar a porta do carro e até quebrar seu vidro. Encontramos dezenas de ruínas incas, inclusive algumas marcações desse povo no cume de montanhas chamadas de apachetas.
 
O que mais me deixou perplexo nessa expedição de dois meses não foi a escalada de 15 horas que enfrentamos ao Monte Parofes, tampouco a crueldade do clima andino, muito menos o isolamento daquelas montanhas. O que me deixou realmente pasmo foi chegar ao cume de uma dessas montanhas após sofrer tanto e deparar com uma ruína inca de três metros de altura construída 500 anos atrás. Isso, sim, deve ter sido um perrengue na época, sem casacos de pluma, GPS ou mesmo luvas para aguentar temperaturas abaixo de zero.
 
Maximo Kausch é alpinista e guia de montanha de sua empresa, a Gente de Montanha. É hoje o recordista mundial com maior número de montanhas de altitude extrema. Tem apoiado das marcas SPOT, Garmin, Deuter, Makalu e Julbo.
 
 
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Sobre o autor

Maximo Kausch

Maximo é atualmente guia em grandes montanhas do Himalaia e Andes. Ele passa praticamente o ano todo em grandes altitude e ganhou muita experiência. Ele escala há 15 anos e além de escalar em grandes altitudes, ele pratica escalada mista nas horas lives, escalada em gelo, escalada em rocha e livre. Maximo é responsável por grande parte dos artigos técnicos do AltaMontanha.com

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