Escalada do Dedo de Deus Paulista

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História da terceira escalada ao Dedo de Deus Paulista na Serra dos Itatins (nariz de pedra) no litoral sul de São Paulo. O relato ilustra as dificuldades e o arrojo dos montanhistas paranaenses, marumbinistas, no enfrentamento aos desafios inusitados em meados do século passado.

Neste ponto retroagimos ao ano de 1957, ocasião em que com um grupo de companheiros do Circulo de Marumbinistas de Curitiba – Capitaneado pelo falecido DUDU – Augusto Riciardela Correia, fizemos um programa de viagem para o Litoral de S. Paulo, o qual culminaria com a escalada do chamado Dedo de Deus Paulista, situado na Serra do Mar no Mun. de Pedro de Toledo. Deste grupo participaram também o Gavião, o Fernando Ribeiro, o Bodinho, o  Eduardo Motter e o filho Omar, bem como o Álvaro Junqueira. 

Este programa começou no dia 1° de julho no aeroporto Afonso Pena em Curitiba, meu “Debu” em viagens de Aeroplano, cujo destino final seria Congonhas em S. Paulo. Imaginem… viajar de Avião, para S. Paulo? de DC3-?  que aventura!! não dá para descrever essa emoção…

Passaríamos o dia em S. Paulo e depois seguiríamos para Santos de ônibus. Tudo novidade, pura adrenalina, iríamos conhecer a Via Anchieta, a mais famosa rodovia do país… a única, na época com duas pistas. Um luxo !!

Antes da segunda etapa, vem o almoço inesquecível que fizemos, eu e o Fernando Ribeiro, num restaurante português, próximo ao Largo Paissandu, no centro de SP. Foi onde comi, pela primeira vez um filé a portuguesa legítimo, com o filé mignon em cima de uma fatia de pão torrado, com um ovo cosido, lingüiça, pimentão, cebola cosida inteira, tudo ao forno, com um bom vinho e, tudo o mais que o freguês tinha direito para não esquecer jamais !!

Tanto não esqueci que, alguns anos mais tarde, quando tive chance de voltar a S. Paulo, a trabalho, fui direto ao local tentar saborear novamente aquele prato, mas infelizmente, não existia mais o restaurante consequentemente não consegui comer outro file a portuguesa igual a aquele. Mesmo  depois, quando morei 4 anos e meio naquela metrópole.

Bem, seguindo em frente, pousamos aquela noite no Hotel Moderno, que ficava próximo ao citado Largo Paissandu, no centro de S. Paulo, para então, no dia seguinte às 7:55 horas, embarcarmos rumo a Santos pela Via Anchieta.

Lá chegando, procuramos um tal de Adolfo, amigo do Dudu, que nos cederia o Apto. da praia do Gonzaga onde passaríamos as duas noites seguintes. Tal decisão nos permitiria aguardar uma possível melhora do tempo pois, nessa ocasião chovia a cântaros, na baixada Santista.

O Gavião – Waldemar Bucken, se incorporaria ao grupo no dia seguinte. Porém nesse primeiro dia, apesar de chuvoso, fomos conhecer a praia tão famosa, só que a areia era escura, notando-se, já naquela época, evidências de poluição e resíduos de óleo, dejetos dos navios que adentravam ao porto próximo do local.

Nesta altura o Fernando conta um fato pitoresco que aconteceu com o Junqueira. Ele queria porque queria comprar um conjunto, casaquinho e blusa de “Ban-lon” para a Rutinha (esposa do Junqueira) Era novidade na época e só se conseguia de contrabando. O Dr.Junca, embuido em conseguir tal intento,  foi para o cais do porto tentar abordar algum tripulante de navio ali ancorado. Passado algum tempo, volta o próprio todo contente por ter conseguido seu objetivo. Quando mostrou o produto e falou do valor pago, o Dudu, que era um exímio gozador, deu uma gargalhada e emendou … Você pagou tudo isso por essa mercadoria de 2ª linha? Lá em Curitiba eu conheço uma pessoa que vende os de 1ª linha, pela metade do preço que você pagou por este. Foi uma gargalhada geral… Estragamos o dia do Doctor.Junca, ele ficou o resto do dia emburrado, sem falar com ninguém. Só que era tudo brincadeira do Dudu e o mesmo acreditou… e como acreditou – Ah coitado!!

Seguindo viagem, saímos e Santos de trem, rumo a Juquiá e de lá, para Pedro de Toledo, na carroceira de um Jipão – daqueles sucata do glorioso exercito brasileiro. Em Pedro de Toledo conhecemos um caboclo de nome Oresio que nos serviu de guia rumo ao Pico do Dedo de Deus Paulista.

O tempo continuava fechado, uma garoa fina incomodava, porém o grupo estava decidido seguir em frente. A escalada, propriamente dita, começaria no dia seguinte. Torcia-mos para que amanhece-se um dia lindo, propício ao nosso objetivo, mas, qual o que, continuou do mesmo jeito,  fechado pra balanço…

Antes de falar da escalada, lembramos de um fato pitoresco que se passou na noite anterior. Estávamos nos preparando para dormir, tendo como colchão e cobertor somente o saco de dormir, sobre um chão duro que nem pedra, apesar de ser de madeira, na casa do próprio Oresio. Este estava contando historias sobre a escalada, sobre a mata que iríamos enfrentar e, da existência de Onças nas redondezas. Onças?? o Eduardo Motter perguntou assustado … sim Onças, retrucou o Oresio. Foi o bastante para acabar a conversa ali mesmo. Cada um tratou de se acomodar como pôde e tratar de dormir. Dormir? alguns sim, outros não.

A notícia da existência de onças nas redondezas, prejudicou o sono da maioria, porém, quem ficou de antena ligada a noite inteira foi o Motter, tanto que de madrugada acordou todo mundo, dizendo ter escutado um barulho, parecia um bicho rondando a casa pois havia derrubado algo na varanda da casa. Não seria a onça?

Resultado, o dito não deixou mais ninguém dormir. Só que, não era onça coisa nenhuma, apenas, o gato do Oresio que estava passeando na varanda. imaginem a cena!!!

Depois desse inusitado acontecimento, não precisávamos mais dormir, visto que já  estava na hora  dos preparativos para a árdua caminhada que teríamos, logo a seguir. A escalada propriamente dita.

Eram 6:00 horas da manhã do dia 5.07.57 quando iniciamos a caminhada rumo ao Dedo de Deus Paulista. Compunham a equipe todos os atras mencionados, menos o Junqueira que preferiu ficar pois, escalar não era o seu forte.

O tempo continuava fechado, sem nenhuma visibilidade mas, como nosso objetivo era subir a montanha, lá fomos nós rumo ao desconhecido. Nosso guia, como já disse, foi o Oresio, só que, agora empunhava uma espingarda “Pica-pau”, sabe como é…podemo encontrá uma onça no caminho né? Novo arrepio passou pela nuca mas, ninguém quis dar o braço a torcer, seguimos em frente.

Acho que o Junqueira não veio de medooooo….

A picada lembrava em alguns trechos a subida do Facãonzinho, na região do Marumbi, sempre subindo entre uma vegetação típica da mata atlântica, porém sem nenhuma visibilidade. Ainda bem que o Oresio conhecia bem o caminho porque, em vários pontos, havia bifurcações de caçadores que poderiam nos tirar da rota sem o conhecimento do Oresio.

Perto das 11:oo horas nos encontrávamos fora da mata, percorrendo um caminho com arbustos baixos, típicos da parte alta da montanha que pretendíamos atingir.

De repente, através de uma pequena abertura por entre as nuvens, visualizamos o litoral de S.Paulo, poderia ser Iguape ou Cananeia, não tínhamos certeza mas, nada de aparecer o Pico ou sua silhueta, o qual tanto almejávamos.

Mais meia hora de caminhada, agora já em terreno de pedras e alguns paredões não muito íngremes nos fazia deduzir que estávamos próximos do cume. Este veio a se confirmar após mais 15 minutos de escalada íngreme e com o auxilio de uma pequena corda que,  prevenidos, havíamos levado.

Que pena… Que decepção… Não dava para se ver nada, nada mesmo, nem um rasgo do Céu e, pela bulha do vento; somados a espessura das nuvens que nos cercavam, dificilmente deixava transparecer esperanças de melhora. O vento era de Sudeste, forte e com garoa, portanto sem chance.

Bem nesta altura dos acontecimentos já passava do meio dia e nada mais justo que nos acomodarmos do jeito que dava e saborear o lanche que havíamos levado. Ninguém é de ferro Ne… e saco vazio não para em pé.

Ficamos ali mais de uma hora, sem expectativa de melhoras, com o Dudu gozando de todo mundo, pegando no pé do veio Motter, dizendo que ele era o pé-frio do grupo etc. etc. iniciamos os procedimentos de descida, sim, procedimentos de descida porque, parecia estarmos num avião no meio do nevoeiro, seguindo serra abaixo pelo rumo.

Chegando de volta à base, deparamos com o Junqueira nos esperando e para variar, também se achou no direito de nos gozar, pelo infortúnio do tempo, dizendo que havia previsto tal situação, razão pela qual decidiu não nos acompanhar.

Bem gozação a parte, aceitamos o delicioso café oferecido pela esposa do Onesio, trocamos de roupa e, em seguida empreendemos viagem no Jipão de volta para Pedro de Toledo onde, já a bordo de um ônibus, descemos a serra rumo a Cananeia, local em que pretendíamos pernoitar.

Nosso grupo ficou reduzido a cinco pessoas: Eu, Dudu, Veio Motter, Bodinho e Fernando Ribeiro. Os outros haviam retornado a Juquiá e de lá para Curitiba.

Chegando a Cananeia, procuramos um hotel para pernoitar pois, no dia seguinte cedo, pretendíamos seguir viagem por mar, via canal do Varadouro, até a Ilha do Mel, onde desfrutaríamos mais três dias de férias.

O hotel que encontramos foi, se não me engano, o único que existia na cidade na beira do mar, de frente para a baía, existe até hoje. Um Casarão antigo, de três pavimentos, cujos quartos era divididos em meia parede. Era um sarro porque, quando um trocava de roupa no outro quarto, os que estavam no quarto de cá, viam tudo pela sombra refletida no teto, quando o abajur estava aceso, entenderam. Não tinha foco no teto só lâmpada de cabeceira e meia parede, aí já viu, né!.

O Dudu foi quem mais se divertiu com a situação. Gozou com a cueca samba canção do veio Motter e vice-versa. O Bodinho então, acanhado como é, ficou todo vermelho de encabulado, quando disseram-lhe que dormia de óculos e toca.

O mais pitoresco desse hotel era a variedade de comida que ofereciam nas refeições. No almoço: Arroz feijão, peixe e salada. Na janta: Salada, arroz, feijão e Peixe …No dia seguinte, repetia tudo de novo.

O hotel era de Japoneses, e quando o garçom trouxe os pratos, o Fernando mais do que depressa retrucou… Aroiz de novo!!! Daí para frente ninguém conseguia parar de rir. O Dudu até chorava, de tanto que ria. Foi uma gozação geral.

No dia seguinte saímos cedo para procurar uma condução e zarparmos em direção a Ilha do Mel, nosso objetivo final.

Fala com um, fala com outro, todos indicavam conhecidos e amigos que possuíam embarcações, porem ninguém se dispunha a nos levar. Alegavam, ser muito longe e que precisava ser uma embarcação grande e outras desculpas. Em fim, nossos apelos foram infrutíferos naquela manhã. Voltamos ao hotel para almoçar… Aroiz de novo…

Só no final da tarde é que obtivemos a promessa de condução para o percurso, porém, a confirmação, somente se concretizaria no dia seguinte, bem cedo. Resultado, lá fomos nois para o …Aroiz de novo!!!

Passada a noite e depois do café da manhã, com pão e margarina, aportamos de mala e cuia no trapiche combinado, às 6:oo horas da madrugada. Esperávamos uma traineira, uma pequena lancha ou coisa parecida, porém o que veio, não podíamos acreditar… Uma canoa de um pau só… inacreditável. Só que era uma senhora canoa, com 12 metros de comprimento, por um metro de boca. Motor de centro “Catarina” e já carregada com cachos de banana, sacos de farinha e outros ingrediente de encomenda no caminho. Caberia mais cinco indivíduos e o piloteiro… Cabia… e assim embarcamos todos, temendo é lógico, pela estabilidade daquele pau-oco.

Zarpamos, finalmente, rumo ao desconhecido. Sim, porque nenhum de nós havia feito tal percurso antes. Havíamos ouvido falar no “tar canar” do Varadouro mas, não tínhamos a menor idéia como era e nem do maravilhoso percurso que se nos revelaria, daí para frente.

A canoa acomodou todo mundo, com um certo espaço, porém, 12 horas sentados numa tábua, numa só posição, foi dose. E esse “taime” todo, para fazer a metade do percurso… Para atingir Guapicú, ponto de saída da região do canal e a baia dos Pinheiros.

Antes disso, cabe uma explicação de como surgiu o Canal do Varadouro. Entre o rio Guapicú no Paraná e  Ararapira – S. Paulo,  existia uma faixa de terra de alguns quilômetros, sendo em ambos os lados navegável. Pois bem, em 1955 através de um convênio realizado  entre os governos de ambos os Estados, mais a participação da divisão de engenharia do Exercito, foi aberto um canal  tornando navegável a região pelo interior dos dois Estados. Da baia de Cananeia até a Baía de Paranaguá. Beleza não!!

É importante ressaltar que esse canal afetou todo um ecossistema, além de criar uma ilha artificial, chamada de Superagui. Assim sendo o tal canal, embora tenha se revelado de grande utilidade para a população local, do ponto de vista ecológico, prejudicou seriamente  todo um sistema de preservação ambiental.

A paisagem é magnífica: várias ilhas na saída da baía de Cananeia; rios e canais; as montanhas ao fundo; vários vilarejos no caminho, tais como: Ararapira, Itajubá, Guapicu, Tibicanga etc. todos com seus encantos particulares.

Mas, foi em Guapicú, vilarejo da saída do canal para a Baia dos Pinheiros, que passamos aquela noite, com o bumbum quadrado, depois de 12 horas de viagem desde Cananeia, naquela confortável canoa de um pau só.

O hilário desse último pernoite antes da Ilha do Mel, aconteceu na casa do pescador que nos deu abrigo. Depois de um jantar magnífico que não esperávamos, composto de peixe, feijão e arroz, com um delicioso tempero caseiro, coisa de primeira, nos preparamos para dormir pois nosso piloteiro, já havia nos avisado, a seqüência da viagem, se daria a partir das 5:00 horas da matina. Pois bem, mal tínhamos nos acomodado naquele chão duro de tábuas largas, quando, ouvimos um barulho de pinico ! sim senhor pinico! e logo em seguida um chuaaaaa… Devia ser a mulher do pescador, que, não tomando conhecimento de nossas presenças, fez suas necessidades fisiológicas, bem ali, do outro lado da parede, sem cerimonia.

O Dudu, que não pagava imposto para rir, começou a rir baixinho, ria de tal maneira que, começou a contagiar todo mundo. Imaginem a cena, de repente acabou o silencio na casa. O Dudu chorava, o Veio Moter soluçava. Ninguém se conteve, até que o próprio dono da casa veio ver o que se passava. Pronto, de repente todo mundo ficou mudo. Como explicar o inusitado acontecimento? Foi o próprio Dudu que achou a desculpa. Sabe, fulano … (não lembro o seu nome) é que uma lagartixa safada passou por cima do bigode do Bodinho e este quase se borrou de medo … Qua, qua, qua … de novo. Felizmente a mentirinha colou. Só o Bodinho não gostou, menos mal.

Às cinco horas da manhã do dia seguinte, pontualmente,  tomamos um ligeiro café preto, com algumas bolachas e zarpamos de novo em direção ao nosso objetivo final, a Ilha!

Novas paisagens, igarapés, manguesais, inúmeras ilhas, enfim, um lugar esplendoroso essa baia dos Pinheiros. Encantou a todo mundo.

Ao chegarmos em Tibicanga estávamos na porta de entrada da Baia de Paranaguá e, a poucas milhas da Ilha do Mel. Estávamos chegando. Ufa! Até que enfim…

No meio do caminho, o Dudu, o Moter e o Bodinho resolveram seguir em frente até Paranaguá, voltando a Curitiba. Somente eu o Fernando Ribeiro é que aportamos na Ilha, dando então por encerrada nossa eletrizante aventura. Diga-se de passagem, foi adrenalina pura!

 

 

Protagonistas: Álvaro Junqueira, Arlindo Renato Toso, Augusto Riciardela Correia, Eduardo Motter, Fernando (Bondinho) Ribeiro, Omar Motter e Waldemar (Gavião) Bucken.

Locais visitados: São Paulo, Santos, Juquiá, Pedro de Toledo, Dedo de Deus Paulista, Cananéia, Canal do Varadouro, Guapicú, Tibicanga, Ilha do Mel e Paranaguá.

Data da aventura: 5 de julho de 1957

Referencias explicativas:

                        (1) Instalaram a placa de bronze

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Sobre o autor

Arlindo Renato Toso - Colunista

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