Escalada e meditação no oeste dos Estados Unidos

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Com o cancelamento da expedição ao pólo sul por falta de patrocinadores de repente me vi com 5 meses sem compromissos e sem muitos planos. Até o último momento ainda acreditava que miraculosamente algo iria acontecer e que o patrocínio aconteceria, mas infelizmente o padrão que vinha se repetindo durante todo ano mais uma vez ocorreu. O último patrocinador potencial me enviou um email dizendo que o projeto era maravilhoso, mas que não se encaixava com as prioridades da empresa no momento bla bla bla…

A Lisete tinha se inscrito em um curso de montanhismo no Utah durante o mês de dezembro em preparação para a escalada do Manaslu, a oitava mais alta do planeta em setembro de 2012 e era apenas isso que tínhamos de compromisso até Marco quando começaríamos novamente a guiar.

A primeira idéia era visitar o Canadá, pais que está na minha lista há muitos anos e por uma razão ou por outra nunca acontecia. Chegamos ao Brasil vindos do Kilimanjaro e a primeira providência era tirar o visto dos Estados Unidos para ela fazer o curso. Quando recebemos o passaporte de volta fomos ver o do Canadá achando que em poucos dias teríamos o visto nas mãos, mas qual não foi nosso desapontamento quando vimos que ele demoraria 20 dias para sair. Como nesta altura já tínhamos a passagem para Salt Lake City no Utah resolvemos mudar de destino e passar os dois meses que tínhamos pensando em ficar no Canadá para os Estados Unidos. Apesar de sempre ter pensado que seria legal conhecer os famosos parques nacionais americanos confesso que a idéia de viajar pelos Estados Unidos nunca me atraiu.

Já tinha passado alguns dias em New York e em Los Angeles e um mês escalando o Denali no Alaska e em nenhuma dessas oportunidades a país me chamou a atenção. Mas, por falta de opção melhor resolvemos que seria este nosso destino. No final de setembro embarcamos rumo a capital dos mórmons. No avião e nos dias seguintes encontramos com vários daqueles rapazes vestidos de adultos com cara de bons meninos, que andam pelo mundo convertendo pessoas de um modo geral pobres em países do terceiro mundo a sua fé. Mas, desde o primeiro dia também começamos a encontrar pessoas que nos acolheram de maneira fantástica nos dando muito de seu tempo com ajudas, informações, sorrisos e aos poucos minha imagem dos americanos começou a mudar.

No Kilimanjaro tínhamos conhecido o Eric, um advogado que estava escalando aquela montanha com seu pai e tinha nos dado seu telefone quando contamos a ele que iríamos para sua cidade. Ele nos levou a almoçar, nos apresentou a um amigo que tem uma academia de escalada fantástica chamada Momentum (http://www.momentumclimbing.com). Ele não só nos convidou para passarmos a tarde escalando de graça em sua academia mas também nos deu dicas preciosas sobre lugares para escalar. E após dois dias em Salt Lake City fomos para Uinta Rock, uma área de escalada super bonita próxima a Park City, sede de uma das olimpíadas de inverno. Lá passamos 3 dias escalando e desenferrujando já que não escalávamos em rocha há quase um ano desde que passamos 20 dias na Tailândia. De lá seguimos para a Califórnia em nosso Jeep alugado para uma atividade muito diferente, um retiro budista com minha mestra Tenzin Chogkyi com quem já havia feito retiros na Índia e na Nova Zelândia.

Chegamos um dia antes e nos encontramos com ela em Santa Cruz, uma cidade super agradável tipicamente californiana com restaurantes orgânicos, lojas hipongas e uma população bem alternativa. Passamos toda a tarde contando um para o outro o que havia acontecido com nossas vidas desde o ano anterior. Por razões bem distintas, para ensinar budismo, ela viaja quase tanto quanto nós e com seu bom humor e risada super cativante passamos uma tarde agradabilíssima. No dia seguinte fomos para o monastério, mas a caminho paramos em nosso primeiro parque americano, o Red Woods State Park, um santuário das que são as mais altas ávores, na realidade os mais altos seres vivos deste planeta, as Red Wood Trees algumas delas com mais de 100 metros de altura e com mais de 2000 anos. Difícil descrever a sensação que se tem ao estar rodeado dessas maravilhas da natureza, uma mistura de calma, assombramento e deslumbre.

Com este estado de espírito fomos para o monastério que também está dentro de uma região dessas mesmas árvores. Imediatamente me senti em casa como sempre me sinto quando vou a um monastério. Os próximos quatro dias foram passados na maior parte em silêncio, meditando e tendo aulas sobre o fantástico conceito de aspirar Bodochita, ou seja, o desejo de se iluminar para poder ajudar a todos os seres sensientes a atingir a iluminação. Isto significa dedicar cada minuto de sua vida com este propósito, o de ajudar os outros no caminho. Um conceito fantasticamente bonito e ao mesmo tempo quase inatingível. Nos despedimos da Tenzin com o coração apertado não sabendo quanto tempo tardará para reencontrarmos novamente, mas ao mesmo tempo super felizes de ter tido esta oportunidade.

De lá resolvemos subir em direção norte para uma das meças de escalada em rocha dos Estados Unidos, Smith Rock no Oregon. Aliás, essa está sendo uma das delícias desta viagem. Ela começou por acidente, a idéia era ir para o Canadá, e segue sem planos definidos. Vamos conversando com as pessoas que nos contam de lugares que gostam e assim definimos nosso roteiro. Após dois lindos dias de estrada chegamos ao camping que seria nossa casa pelos próximos 7 dias. O lugar não poderia ser mais bonito. Uma área plana com banheiro, chuveiro quente, mesas de madeira espalhadas por um gramado coberto de árvores a beira deste canyon formado por glaciação e por um rio que rodeia um maciço de basalto onde existe mais de 1800 rotas de escalada de todos os níveis tanto de escalada tradicional como esportiva. Nesta semana nossa rotina foi muito simples. Acordávamos as 7 da manhã com a temperatura na casa dos 4 graus, tomávamos café da manhã e caminhávamos até a parede que tínhamos escolhido para aquele dia, uma caminhada de 20 a 30 minutos. Passávamos o dia escalando e voltávamos para o camping para jantar e dormir. Por 6 dias escalamos rotas curtas e progressivamente mais difíceis até que no último fizemos uma rota com 5 pitchs com ao redor de 150 metros de altura, desafiadora e lindíssima. Do topo da montanha nos despedimos deste lugar sabendo que possivelmente não vamos voltar, mas que se acontecer será maravilhoso.

No dia seguinte, pela primeira vez o céu amanheceu nublado e escuro e em breve estava chovendo. Nosso timing tinha sido perfeito. Cruzamos as montanhas já com neve e descemos de volta a Califórnia pela lindíssima costa do Oregon com pequenas baias com a floresta chegando até a praia e rochedos despontando no mar azul escuro.

Próximo destino não poderia ser melhor, o famoso Yosemite…

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Sobre o autor

Manoel Morgado - Colunista

Manoel Morgado é médico de formação, mas trabalha como guia de montanha há 20 anos, atuando em vários países ao redor do mundo. Há 15 anos é montanhista, tendo como ápice de sua carreira a conquista do Everest e também a realização do projeto 7 cumes. Ele nasceu no Rio Grande do Sul, se criou em São Paulo e dede 1989 não tem casa.

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