Escalada na Escócia

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Podemos escalá-las mas não podemos pronunciar o nome!

Nestas pequenas grandes montanhas foi onde eu aprendi a não julgar montanhas pelo tamanho. O clima predominantemente ruim e as estranhas condições de neve tornam este lugar muito peculiar para escalar.

As aproximações normalmente duram entre minutos até algumas horas mas mesmo assim podem se tornar comprometedoras por causa do tempo que pode surpreender até mesmo os himalayistas. Para aqueles que acham que efrentaram qualquer clima ou podem se virar em qualquer terreno com um GPS, tente escalar uma rota longa durante os curtos dias de inverno escocês e com neblina tão densa que não permite você ver o seu próprio pé.

O maior pico escocês, o Ben Nevis, tem apenas 1344 metros de altitude, sua base porém está a apenas 50 metros de altitude. A face norte chega a ter paredes de 700 metros de desnível com rotas extremamente comprometedoras. A base da parede norte possui um refúgio de onde se podem avistar praticamente todas as rotas técnicas da montanha.

Escalando uma rota na face norte do Ben Nevis, vi pela primeira vez como a neve lá cobre todas as superficies rochosas, mesmo as negativas.

Talvez isso seja pelo fato da altitude tão baixa e a proximidade do mar.

Além do Ben Nevis, areas como Glen Nevis, Glen Coe, Cairngorms e outras oferecem inúmeras rotas mixtas ou canaletas de gelo. Todas as rotas mais óbvias já foram escaladas e documentadas. No livro “Winter Climbs Ben Nevis and Glen Coe” por exemplo, você pode encontrar todas as linhas que foram escaladas nestes 2 complexos.

Escoceces falam de suas montanhas com muito orgulho e tem até graduação própria:

Scottish Winter Grade

Vai de I a IX seguido por um numeral indicando o crux (ex: IV,7 300m). A graduação é aplicada em vias mixtas com neve, rocha, gelo e musgo (exclusivo da Escócia), além do mau tempo. No geral, a gradução escocesa é mais complexa que o sistema francês de graduação alpina pois se encaixa em um rango de dificuldades mais “estreito” que a francesa.

I – uma ascensão simples por canaletas de neve ou filos (e mau tempo)
II – subida um pouco mais inclinada em neve na qual duas ferramentas técnicas de gelo podem ser necessárias (e mau tempo)
III – escalada mixta com canaletas de gelo e/ou escaladas médias em rocha (e mau tempo)
IV – cordadas longas em gelo com grande inclinação e escaladas mixtas que exigem boa técnica (e mau tempo)
V – escaladas mixtas com movimentos sérios e gelo em até 80 graus (e mau tempo)
VI – escaladas semelhantes ao grau francês TD+/ED mas constantes e gelo vertical (e mau tempo)
VII – múltiplas cordadas de VI com verglass e/ou finas camadas de gelo (e mau tempo)
VIII-IX – ED2/3 com mau tempo – mude de profissão, vire surfista!

O pior na Escócia é certamente pedir informação sobre uma rota. A graduação é dada em SWG e o nome é geralmente em gálico escocês. Estes chegam a assustar.

Imagine você escalar o Sgurr a´ Mhàim pela Achriabhach que é apenas um II,3 no inverno. Esta passa por Allt Coire a´ Mhàil acima da cachoeira An Steall Ban que no inverno congela e chega a ser um V,6. Do topo você consegue ver Stob Choire a´ Chairn. É possível fazer uma travessia passando por Am Bodach e acabando em An Gearanach.

Tudo bem escalar tudo isso, mas o problema é lembrar.

Escalei um pico na Escócia na região do Glen Coe, mas jamais consegui realmente ver o pico e não lembro o nome pois esqueci deste rapidamente. Como falei, você consegue escalar elas, mas não vai conseguir pronunciar o nome!

Agora, se alguém for para Nova Zelandia, pode tentar subir o Taumatawhakatangihangakoauauotamateaturipukakapikimaungahoronukupokaiwhenuak itanatah que tem apenas 305 metros de altitude. O nome significa “O cume onde Tamatea, o homem com joelhos grandes, o escalador de montanhas, o engolidor de terras que viajou por aí, tocou o seu koauau (flauta polinésia) para sua amada”.

Só não tente lembrar do nome depois!

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Sobre o autor

Maximo Kausch

Maximo é atualmente guia em grandes montanhas do Himalaia e Andes. Ele passa praticamente o ano todo em grandes altitude e ganhou muita experiência. Ele escala há 15 anos e além de escalar em grandes altitudes, ele pratica escalada mista nas horas lives, escalada em gelo, escalada em rocha e livre. Maximo é responsável por grande parte dos artigos técnicos do AltaMontanha.com

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