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Interiores: Novo Setor de Escaladas no Anhangava
por Edson Struminski (Du Bois)

Vias: Diversas vias de 4 a 8 graus. (Croquis ao fim da matéria)

Conquistadores: Du Bois, Thomás Alexandre Kämpf (Tomi) e Flora Kesselring Zugaib.

Neste ano de 2006, segundo o guia de Escaladas do Anhangava, este nosso conhecido campo-escola de montanha paranaense completa 60 anos.
Posso testemunhar que este lugar sempre foi um palco privilegiado para inovações e foco de experiências interessantes para o montanhismo. Nos últimos 15 anos, por exemplo, o morro viu surgir a escalada livre, a desportiva e surgiram projetos ambientais bem sucedidos. Por outro lado, o lugar foi palco da ação de assaltantes, área de intensos processos de degradação ambiental resultantes de pedreiras abandonadas ou de trilhas caóticas, assistiu a polêmicas sobre a abertura de uma estrada para asa deltas e continua enfrentando anualmente a incerteza gerada pela missa do 1o de maio (com sua visitação maciça) e pela implantação (ou não) do parque da Baitaca.
Ao mesmo tempo, a idéia de se abrir novas vias no Anhangava teve de ser abandonada há 10 anos através de uma “moratória” de colocação de novas proteções fixas, em função da degradação gerada pelo excesso de problemas ambientais causados pelos escaladores, como compactação de bases de vias e platôs, erosão ou deslizamento de trilhas de acesso, ou mesmo pela simples falta de padrões de segurança ou critérios para a colocação das tais proteções fixas. Além disso, havia grande número de vias na época com manutenção precária.
A moratória poderia ser, então, entendida dentro de uma visão conservadora, ou seja como uma justificativa para não se fazer nada, ou pelo contrário, como um estímulo à ação, de modo que estes problemas pudessem ser resolvidos no tempo mais curto possível e, desta forma, fosse atingido novamente um ponto de equilíbrio no uso do local, de forma que pudéssemos novamente usufruir o potencial que o lugar sempre teve, não só como escola de escalada, mas também como irradiador de idéias inovadoras.
E, de fato, as atividades foram intensas nos últimos anos. Trilhas foram recuperadas, ou fechadas, bases de vias ou platôs foram estabilizados, vias clássicas foram regrampeadas. Criou-se uma cultura de cuidado com o lugar que mantêm-se através de iniciativas individuais expontâneas. Esta cultura difundiu-se para outros lugares como Pico Paraná, Marumbi, São Luis, Canal, etc e é reforçada por projetos recentes. Oficialmente o Anhangava participa do Adote uma Montanha, um programa nacional de conservação de montanhas.
Assim, iniciativas como o Adote, ou seu antecessor no lugar, o Projeto Anhangava, nos ajudam a nos colocar como parceiros da natureza das montanhas que frequentamos.
O último grande mutirão realizado no Anhangava, por exemplo, em abril de 2005, serviu praticamente para encerrar a fase de grandes trabalhos na trilha principal do morro, como também viu ações ocorrendo em diferentes pontos da montanha. Pinus (espécie invasora do local) sendo cortados em variadas localizações; degraus sendo colocados em pontos críticos; a trilha do Campo dos Panelas sendo refeita, com trechos degradados sendo isolados para recuperação. Aliás, a retificação desta última trilha acabou promovendo o aumento do interesse por aquele setor: duas novas e atraentes vias com mais de 100 m foram abertas; uma nova via desportiva foi equipada em uma parede virgem. Grampos foram colocados isoladamente. Iniciativa de conhecidos escaladores: Chicão, Chiquinho, Ingo e Tomi.

UM NOVO SETOR DE ESCALADAS NO ANHANGAVA: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

A partir do último grande mutirão realizado no Anhangava e da abertura destas novas vias fiquei mais à vontade para retomar um projeto de cerca de três anos atrás, que era a abertura de um novo setor de escaladas na face nordeste do morro, em uma parede bela e íngreme, mas cujo acesso era pouco evidente, o que deve ter afastado eventuais pretendentes. Por estar localizada mais para o interior do morro e, ao mesmo tempo, próximo à parede das Capitais resolvi fazer um duplo jogo de palavras e chamá-la de “Setor Interiores”.
Em meados de setembro de 2005 fiz uma primeira investida à base da parede e constatei que havia potencial imediato de abertura de umas seis vias, o que já caracterizaria um novo setor e não uma escalada isolada. Em outubro instalei uma parada no topo da parede e testei a possibilidade da rocha.
Para abordar este setor estaria buscando referências em dois importantes trabalhos realizados no Anhangava nos últimos 10 anos. O primeiro foi o exemplar trabalho de recuperação de vias clássicas realizadas pelo escalador Marcus Valério França, que não só regrampeou várias vias tradicionais do morro com equipamento fixo adequado para costuras expressas (chapeletas), um tipo de costura (mais segura) que se tornou comum entre os escaladores, como também atualizou o desenho destas vias, com critérios como duplicação de paradas, uso de chapeletas e parabolts mais resistentes, linhas das vias compatíveis com a segurança do escalador, etc.
Uma segunda referência diz respeito aos trabalhos do Projeto Anhangava, que ressaltaram a importância do diagnóstico ambiental em qualquer tipo de intervenção nas montanhas, bem como de ações preventivas e minimizadoras do nosso impacto, como escaladores, nestes ambientes.
Busquei então um companheiro que participou de ambas as experiências (o biólogo Alexandre Lorenzetto, o Sassá, da FEPAM) e com ele desci a parede, em dezembro, no intuito de fazer uma avaliação compartilhada.
Naquele momento ficou claro para nós que se quisessemos investir neste setor e, ao mesmo tempo, deixar um legado duradouro para os futuros escaladores do Anhangava, em termos de segurança e de trato ambiental adequado digno para o lugar, teríamos de abandonar a pretensão de sermos “conquistadores” do setor, no sentido clássico de abrir as vias de baixo para cima, como costumamos fazer em diversos lugares da serra, passando a ser meros “equipadores” das rotas, ainda que isto não excluísse a necessidade de guiar todas as vias antes da abertura do setor ao público.
Era dezembro e havíamos então batido o martelo, mas a faina seria grande: seria necessário conseguir equipamento fixo e equipar várias vias, calçar a base da parede para protegê-la contra a erosão, realizar um calçamento mais modesto do cume da parede até a rampa de pedra de acesso às Capitais, para evitar quedas e degradação da vegetação sensível daquele trecho e também realizar algumas contenções e calçamentos preventivos na trilha de acesso à base, que seria aberta a partir da parede das Caverninhas.
No início de janeiro de 2006 reunimos um grupo grande no local: eu, Sassá, Gali (namorada dele), Chico Putini (eng. Florestal estagiário do Sassá), Targa, Pajé (funcionário da Bonier) Flora e Tomi. Discutiu-se tanto a questão das vias, a moratória, a necessidade de readequação das trilhas e da base da parede. Nosso amigo Irivan Burda (da Bonier) nos cedeu parabolts e chapeletas de costura e de rapel de inox, para proteger de forma adequada e duradoura a parede. O mesmo aconteceu com o Milton da Snake, que foi também receptivo e nos patrocinou equipamentos. Houve empréstimos de martelos, brocas, enfim, a parafernália necessária para começar a equipar o setor. O trabalho começou.

UMA VIAGEM PELOS INTERIORES

O mês de janeiro, época em que os escaladores migram para o sul, acabou sendo atípico no Anhangava. No lugar de dias chuvosos e frios, tivemos dias secos e quentes, propícios para escalar.
Sassá estava de partida para um mestrado na Espanha e a equipe de parede ficou reduzida a três pessoas (Flora, Tomi e eu) e a ajudas eventuais nos fins de semanas. Nestas condições iniciamos um período intensivo de três semanas de trabalho que iniciava-se às 4:30 da manhã e ia até meio-dia, após o que o sol se tornava esturricante na rocha. Passamos pelos percalços comuns a este tipo de atividade: quebra de brocas, falta de material, pequenos sustos (cobras, quedas e espinhos), cansaços diversos, dizque-dizque de outros escaladores, mas tudo foi sendo superado.
Com o passar das semanas o novo setor foi sendo desenhado. Das seis rotas iniciais surgiram mais quatro. Variantes foram sendo acrescentadas com uma ou outra chapeleta. Abriu-se a possibilidade de duas grandes linhas horizontais ligando as diferentes vias. Um bloco para boulder apareceu no caminho.
Em paralelo a isto as trilhas de acesso à parede, tanto na base como no topo foram calçadas (desde o acesso do boulder das Caverninhas) a partir do uso de uma fartura de pedras disponíveis no próprio local.
Um trabalho de “jardinagem” acabou acrescentando melhorias ambientais no lugar: foram cortadas árvores de pinus (cujos troncos foram usados nas contenções) e retiradas moitas de painas, também espécie invasora deste ambiente montanhoso. Bambus e samambaias (espécies propensas a causar incêndios) foram cortadas e usadas nas trilhas. No seu lugar foram plantadas árvores. Uma grande e inesperada quantidade de lixo de décadas passadas foi encontrada, fruto do descaso de visitantes que passaram na trilha normal, situada alguns metros acima na montanha. No lugar de derrubar os platôs de vegetação que estavam na linha das escaladas, houve uma retirada cuidadosa e recolocação em locais seguros. Afinal de contas, aquele “mato” já era habitante do local antes da gente...
Mais do que os aspectos ligados à segurança na escalada, estes cuidados ambientais tem forte componente didático, servindo de parâmetros para qualquer um que queira abrir novas escaladas, boulderes ou setores, tanto no Anhangava como em qualquer outra montanha bem frequantada.
Os nomes das vias começaram a refletir o sentimento interiorano daquelas escaladas: Rancho Fundo, Luar do Sertão, Vida Marvada, Moça Formosa, Boi Bandido, Febre Aftosa... As graduações estão para todos os gostos, de 4o a 8o grau. Foram 55 chapeletas, um grande número (certamente haverá quem ache que deveria ter mais uma ali, ou acolá). Uma das vias foi aberta em móvel (Rapaz Caipira).
O Setor Interiores está concluído. Esperamos que ele possa servir, não só como novo lugar de escaladas, mas também como forma dos escaladores refletirem sobre o uso e cuidados na abertura de novas áreas para nosso esporte.
Quem quiser entrar no clima do lugar deixe as músicas destes cantores estrangeiros de lado (U2, Rolling Stones) e bote na vitrola um Renato Teixeira, um Pena Branca e Xavantinho e currrta um som do interior, com muito “r” arrastado.
Um abraço apertado, com todo o calor do interior procês!

Edson Struminski (Du Bois)

> Clique aqui para ver as vias com a imagem da pedra ao fundo (arquivo powerpoint - tamanho 657KB)

> Clique aqui para ver o croqui das vias (JPEG)

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