Via Lagarto Hulk
Localização: Morro do Boi
Caiobá - Pr.
Conquistador: França
Era segunda-feira de Carnaval deste ano (2005). Apesar de escalarmos em São Luis no domingo, era como se estivéssemos perdendo o feriado. Precisávamos fazer algo diferente. Foi quando surgiu a idéia da via conquistada pelo França à alguns anos atrás.
Não, não se trata de Big Wall... A via tem, tecnicamente, cerca de 105 metros de comprimento, que totaliza 150 quando somamos o trepa mato e a parte sem proteção, em que escalamos em solo. Porém, é uma via grande, bem maior que costumamos fazer, o que nos demandaria certo tempo e certeza do equipamento, para que nenhum dos dois nos faltasse.
Chegamos em Caiobá por volta das 11 e meia da manhã, o Sol estava forte. Deixamos o carro num estacionamento ao lado da praia mansa, e iniciamos a trilha que chegaria ao pé da via. Esta trilha praticamente contorna o morro, e é bem plana. Na base da via existe uma pequena praia, bem atraente, por sinal.
Colocamos a sapatilha e arrumamos o equipamento, e subimos pelo local que parecia ser mais acessível. Não tínhamos conhecimento da via, sabíamos apenas onde mais ou menos se localizava o primeiro grampo.
Essa subida inicial era bem complicada, pois estava cheia de limo, além de ser um tremendo trepa mato. Logo em seguida passamos em um pequeno trecho de terra e mato. Deu dó das sapatilhas, mas o caminho era esse mesmo e não as trocaríamos pelos tênis naquele local...
Chegamos em um pequeno platô, de onde efetivamente iniciava-se a rampa de escalada, contudo o primeiro grampo estava um pouco mais acima (cerca de uns 10 metros), sobre outro platô. A escalada em solo até lá é tranqüila, calculamos que deva ser de 3º Grau...
Chegamos no platô onde estava o primeiro grampo, passamos uma expressa por ele e iniciamos a escalada. Ficou definido que eu (Hilton) guiaria a primeira cordada.
A via em toda a extensão da cordada inicial é de aderência, e deve ser de 5º grau. A primeira proteção é uma chapeleta "cabulosa", onde o "parabolt" encontra-se bem gasto e a pedra bem corroída ao seu redor. A chapeleta, para piorar, é feita de alumínio e provavelmente é caseira... Só pensava em não cair ali!!!
Todas as demais proteções eram em grampos "P". Apesar de demorar um pouco mais, optei por fazer a coisa certa e passar fita nos grampos, pois os mesmos estavam com ferrugem e, apesar de aparentarem integridade interna, não me pareciam muito confiáveis.
Foram mais dois grampos até onde decidi fazer a primeira parada. Como não existe proteção dupla para as paradas, e como já tinha utilizado cerca de 50 metros da corda e estava bem cansado, resolvi parar por ali mesmo.
Os pés doíam um pouco devido à sapatilha. Sempre sinto dor quando faço escalada de aderência. E aquela via era bem suja, onde o líquen que encontrávamos esfarelavam quando pisávamos nas agarras, fazendo com que tivéssemos que firmar fortemente os pés, o que acabava por doer mais. Tirar a sapatilha, portanto, foi a primeira coisa que fiz.
Preparei a parada como pude. Passei a corda no sistema de freio, aproveitei para tomar um pouco d'água (fazia muito calor) e falei para o Maurício subir.
Quando ele chegou, tiramos algumas fotos, e rapidamente ele iniciou a segunda cordada. Esta era tecnicamente mais difícil. Por isso também mais protegida. Ao invés das quatro proteções anteriores, agora seriam seis! Cerca de uma a cada dez metros!!!
Antes de subir, por uma infelicidade, acabei derrubando o ATC... Marquei mais o menos o local que ele caiu e subi.
Nesta segunda cordada, a via mesclava aderência com técnicas de micro agarras (reglets), o que resultava em elevação do grau. Certos trechos apresentavam dificuldades maiores e, em parte devido ao estado das proteções, que em sua maioria encontravam-se enferrujadas por fora, e em parte pelas distâncias que estavam uma das outras, acabamos demorando um pouco mais que o previsto para a escalarmos.
A via não possui parada dupla no final, contudo, existe, aos pés do último grampo, um excelente platô, que possibilita um pouco de conforto.
Após, unimos uma corda à outra (levamos duas cordas, para facilitar o rapel), e descemos. Tive de fazer o rapel utilizando o nó UIAA, que acabou "enozando" toda a corda... Fui onde imaginei ter derrubado o ATC, e para a minha surpresa, na queda, este acabou engatando em um pequeno galho da vegetação. Parei no primeiro grampo que vi, e troquei o UIAA pelo ATC, mas a corda continuava toda "enozada", o que prejudicava bastante o rítimo. Resultado: Demoramos quase 4 horas pra fazer a via e tive que agüentar a minha noiva reclamando da demora!!!
Recomendo ainda, a escalada com a mochila e a saída por cima, via trilha do cume. Penso que seria bem mais fácil, pois a descida do primeiro lance (em solo), complica um bocado!
Hilton Benke