Escalando o Mont Blanc e construindo reflexões

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No dia 27 de junho de 2010, depois de finalmente conseguirmos viajar juntos, lili e eu nos separamos. Ela pegou um ônibus deixando Paris em direção a Amsterdam, de onde sairia seu vôo de volta pro Brasil. Eu peguei um ônibus dez horas mais tarde rumando para Genebra, Suíça. Nesses vinte dias juntos em nossa viagem, passamos pela Alemanha, República Tcheca, Eslováquia, Eslovênia, Áustria, Itália, Espanha e França. Foi um pouco cansativo em alguns momentos porquê andávamos entre 15 e 20kms todo dia conhecendo os pontos turísticos, mas no final deu tudo certo.


Mochilar na Europa, apesar do contra-tempo da língua, é super fácil. Posso dizer que depois de quase 15 anos como mochileiro, foi a primeira vez que consegui concretizar 100% do planejado (tudo planejado pela lili). Pela América do Sul isso raramente passa de 60% por motivos diversos. Na Europa, se você não tiver aversão à tecnologia, pode comer, beber, se locomover, comprar selos e postar cartas, comprar passagens de trem, metrô e ônibus, tudo sem nenhum contato humano. Existe máquina pra tudo, tudo que citei e mais.

Com calma, cidade por cidade, farei relatos e posts fotográficos, cheios de detalhes e situações engraçadas. Aqui vou me ater ao objetivo principal para a mente depois de absorver tanta História visual, ver tantos lugares sobre os quais só li durantes minhas leituras particulares ou na faculdade, relaxamento mental e reflexões nos Alpes franceses!

Meu ônibus deixando Paris atrasou 40 minutos na saída só pra aumentar minha ansiedade de chegar logo nos Alpes. Fez diversas paradas, mas no final das contas chegou meia hora antes do previsto. A rodoviária de Genebra que se chama Routiere não passa de um pequeno escritório vidrado e uns 50 metros quadrados e um estacionamento que cabem no máximo dez ônibus. Cheguei cedo, 06:30h, portanto tinha meia hora pra matar antes de poder comprar a próxima passagem. Andei alguns quarteirões e já fiz algumas fotos de pontos turísticos da cidade que ficam ali mesmo. Voltei no horário e comprei a passagem bem cara pra Chamonix, 33 euros (para fins de comparação, sempre que eu colocar o preço em euro, multiplique por 2,4 para saber em R$) por uma viagem de apenas 84kms!

Pois bem, uma hora e quinze minutos depois, quando desci do ônibus, estava instantaneamente hipnotizado olhando pra uma paisagem himalaiana em plena França! Explico, a cidade de Chamonix fica a 1.035 metros de altitude, isso significa que muitos dos cumes que beiram ou ultrapassam 4.000 metros que podem ser vistos da cidade, representam uma muralha de montanhas cujo desnível é de 3.000 metros verticais!

De qualquer lugar da cidade, caso queira olhar para alguma montanha, seja ela qual for, terá que inclinar sua cabeça pelo menos 30° para cima! É realmente impressionante e belo. Não há como ser claro com palavras, fotos e vídeos, só presenciando dá pra entender do que falo.

A surreal Agulha de Midi de 3.840 metros de altitude, tem um desnível de 2.705 metros pra cidade, é a grande estrela local. É a montanha mais proeminente, tem uma parada de ônibus com seu nome e pasme: Pagando o preço caríssimo você não precisa gastar uma gota de suor sequer pra chegar a este cume, basta pegar o teleférico que após uns 15 minutos estará lá, a só uns 20 metros verticais do cume da agulha. “É um dos mais longos teleféricos do mundo”, é o que dizem lá.

Fui ao centro de informações de montanha verificar a previsão do tempo antes de subir. São informações bem precisas e mais tarde me impressionei com isso. A previsão para aquela tarde não era muito encorajadora, tempestade de neve pela tarde com temperaturas de 0°C entre 2.500 e 3.100 metros, para altitudes até 5.000 metros, -10°C. Enquanto estudava o mapa das montanhas próximas na parede, conheci dois catalães que fariam a mesma rota que eu, uma das quatro rotas normais para o Mont Blanc, a Rota Goûter (mais freqüentada). Depois de um minuto de papo me ofereceram carona até Lês Houches. Bom, eu iria andando mesmo (7km de Chamonix). Lá é ponto de partida para a ascensão.

Paramos no mercado onde comprei um lanche e um suco de laranja. Estacionamos o carro na frente do teleférico de Bellevue, pagamos e subimos. Ele nos deixou a 1.800 metros, lá andamos 200 metros onde pegamos o trem que sobe margeando o glaciar de Bionassai até a altitude de 2.370 metros. Nem paramos, começamos a andar.

De tão excitado que estava comecei no estado: camiseta e bermuda. Da parada do trem até o glaciar são apenas cinco minutos de caminhada com mochila. Depois de dez minutos andando sobre o glaciar a temperatura mudou de quase 30°C para 12°C. Isso eu já esperava é claro, aliás, sentia muito calor mesmo a essa temperatura por causa das duas mochilas.

Tinha um problema, eu subia com minhas duas mochilas. A grande Fitz Roy da Conquista de 90 litros que tinha uns bons 16 ou 17kgs nas costas, e uma nova da Quéchua que comprei na Decathlon de Paris pelo preço ridículo de 40 euros, pesando uns 5 kgs. Entretanto, por só uns 10 centímetros ela ultrapassou o conforto de estar na frente e não incomodar. Batia no meu joelho e por isso se soltava dos ombros a cada 5 passos.

Depois de uns 30 minutos isso realmente se tornou um problema, pois me atrasava demais, causando um tremendo desconforto e desgaste físico extra. Os catalães que tinham se convidado a subir comigo, perderam a paciência e disseram que avançariam mais rápido porque queriam chegar ao refúgio Goûter ainda naquela tarde. “Por mim tudo bem, não pedi pra me esperarem, isso aqui pode levar um bom tempo!”, disse eu. Cinco minutos depois, pensando, cheguei à conclusão de que talvez tenha sido um pouco rude, mas não foi minha intenção e sei que entenderam numa boa. Afinal das contas, ambos levavam só uma mochila de ataque que não devia pesar mais que 7kgs cada, nem saco de dormir levavam pois tinham reserva pra noite no refúgio, eu não e por esse motivo precisava estar preparado pra dormir no chão se necessário.

Sumiram glaciar acima. Eu continuei sozinho no jeito que dava, e conforme o terreno se inclinava mais, os escorregões se tornaram inevitáveis. Por outro lado, eu me sentia melhor sozinho porque estava livre pra curtir minha sonhada liberdade na montanha sem prazos, sem ninguém esperando por mim ou por quem esperar. É triste mas minha liberdade na montanha está quase no fim, precisava curtir sem interrupções.

Quando cheguei a 2.750 metros era 14:00h, o tempo começou a mudar. Às 14:05h já nevava, incrível. A fama do maciço do Mont Blanc é verdadeira. Parei, tirei as mochilas sobre um pequeno espaço rochoso no glaciar, coloquei fleece, anoraque, gorro, calça, botas e crampoons. Chequei a temperatura, fazia 4°C. Sabia que estava correta pois ajustei o relógio com o termômetro do centro de informações de montanha horas antes e, quando o fiz, corrigi meu relógio em apenas 0,7°C de diferença.

Esvaziei a mochila de 40l e passei tudo pra maior, pendurei a pequena na grande lateralmente, outro problema resolvido. Agora sim poderia avançar sem incômodos.

O tempo piorou mais ainda, levantei e segui em frente. Dez minutos mais e fui cercado por um whiteout, não podia ver dez metros adiante! Procurei seguir os dados pra gps que baixei no site RUMOS, observando também os rastros na neve fresca sobre o glaciar. Tinha que ser cauteloso porque só cinqüenta metros à minha direita havia um mar de gretas e enormes seracs de dez metros de altura. Prometi pra lili que não viraria picolé e sempre cumpro com minha palavra, não importam os meios.

O whiteout durou pouco, cerca de meia hora. Não fiquei parado não, avancei. Apesar do whiteout ter se dissipado, a nevasca só piorou. Estava a 3.000 metros às 15:00h, ainda me faltava 167 metros verticais e cerca de 400 em linha reta até o primeiro refúgio da rota, o Tête Rousse. A essa altura do campeonato é óbvio que eu já havia desistido de chegar ao Goûter neste mesmo dia. Com o peso que carregava e o desconforto das duas mochilas meio desajeitadas nas costas, era meio passo para um acidente. Sempre digo não à imprudência na montanha.


Subindo sozinho até o Refúgio Tête Rousse, pausa de só 5 minutos na nevasca.
Era incrível, quanto mais eu me apressava, mais a nevasca se intensificava. Uma pequena pausa de cinco minutos me permitiu um vídeo, depois recomeçou e mais forte. Quando finalmente cheguei ao Refúgio Tête Rousse, a 3.167 metros, que só encontrei graças ao GPS em meio a um segundo whiteout, estava pintado de branco. A mochila menor que estava deitada sobre a maior, nas minhas costas, tinha um bolsão de neve acumulada, enchi a mão três vezes limpando. Meu gorro deu perda total, estava encharcado.

Como nos refúgios entrar de botas é proibido, e para tanto oferecem chinelos, tirei os crampoons, as botas, calcei o chinelo e entrei para tentar uma vaga pra dormir em uma cama. Obviamente estava lotado. Cerca de 100 alpinistas no refeitório, na grande maioria franceses, alguns alemães, polacos, austríacos e poucos espanhóis. Brasileiro, moreno, usando um fleece com a bandeira nacional e da Bolívia, somente eu. Bastou entrar e já arranquei olhares curiosos cujas feições significavam uma só coisa: estudo.

Paguei pela noite o preço de 27,50 euros. Mesmo que não houvesse vaga pra cama, e eu teria que checar novamente às 20:00h, poderia dormir no chão.

Voltei pro vestiário, tirei a roupa molhada da neve, coloquei roupa seca e saí pra fotografar. O tempo já estava aberto e o céu parcialmente azul, pode?!

Finalmente pude olhar o “grande colo”, famoso pela chuva de rochas que matam alpinistas durante a sua travessia, uma rampa de gelo de uns 30° de inclinação iniciais e apenas uns 30 metros de largura. Nesses 30 metros da travessia que a merda acontece. Na parede, pude observar a dupla de bombeiros catalães na metade do caminho. Onde estavam ainda nevava um pouco. No topo da parede, o refúgio Goûter. Fiz algumas fotos, andei pelo glaciar. Depois de várias horas e muito papo com um casal francês de meia idade (Marcel – 55, Anne – 53) que conheci nos fundos do refúgio (de onde filmei uma avalanche na encosta da Dome de Goûter), às 20:00h britanicamente, recebi a confirmação positiva de uma cama.

Marcel e Anne (que não falava uma palavra sequer de inglês e por isso dependia do marido como intérprete) gostaram muito de mim, então me convidaram para acompanha-los na manhã seguinte durante a escalada do grande colo. Aceitei, seria legal ter com quem conversar durante o trajeto. Pura companhia.

Deixei minhas coisas no dormitório, peguei fogareiro, gás e panela, e fui pro lado de fora preparar um liofilizado para o jantar derretendo gelo pra ter água. Na decathlon de Paris, além da mochila, comprei 6 refeições para montanha e um bujão de gás. Uma refeição completa ao preço de 5 euros cada, nada mal. Comprei uma lata de coca-cola no refúgio a bagatela de 4,60 euros e jantei. Fui dormir.

Acordei com a movimentação das duas da manhã dos que fariam o ataque ao cume do Mont Blanc ou Dome de Goûter dali mesmo, voltei a dormir. Acordei em definitivo quando meu relógio despertou às 07:00h. Antes mesmo de ir ao banheiro passei no refeitório e chequei a previsão do tempo: Perfeito com céu aberto pela manhã, mais uma nevasca para a tarde. Muito bom pois eu só pretendia chegar ao próximo refúgio neste dia, queria curtir a montanha e não correr pro cume.

Com a intenção de me poupar, maximizando assim minhas chances de cume, deixei tudo que podia na mochila grande e a tranquei em um locker. Subiria com a de 40l pesando aproximadamente 10kg. Ótimo, melhor assim.

Não levei muito a sério o convite do Marcel e da Anne, então já fui pro lado de fora pronto, só me faltava calçar as botas e crampoons e começar a caminhar. Surpreendi-me, quando cheguei do lado de fora estavam me esperando. “Paulo, só estávamos te esperando, está pronto?”. “Sim, vamos encarar o grande colo!”, respondi.

Tudo que li sobre o mortal Mont Blanc se confirmara até este momento. Metade das pessoas que tentam atingir seu cume é turista buscando uma aventura em alta montanha, não são alpinistas. Todos com um guia em uma expedição comercial. Por um lado isso é bom porque não estão sozinhos na montanha, a própria fama do assassino dos Alpes faz com que os turistas com medo contratem um guia. Por outro lado isso é tão perigoso quanto como se estivessem sós, em determinadas situações é claro. Até onde vai a experiência e o preparo daquele guia? Será mesmo que em uma situação de perigo eminente ele dará conta sozinho de um grupo de cinco ou seis clientes (foi o que vi lá)? Será que o cliente inexperiente saberá lidar com o psicológico com “aquela rampa que nunca acaba”? E quando ele chegar no falso cume pensando que era o cume, será que saberá espremer aquela energia extra que nós sabemos como ninguém?

De todo aquele povo que vi no refeitório, pelo menos dez eram guias, cerca de quarenta clientes destes guias e o restante alpinista escalando em solo ou com algum amigo como eu.

Enquanto observava os guias passando instruções aos clientes de como vestir a cadeirinha e crampoons pensava eu: “não serei o número 69!”.

Começamos a caminhar às 08:00h. Batendo papo, trocando experiências, sem correria. Subimos a pouco inclinada rampa de gelo até uma parte rochosa antes da travessia. Atrás de nós, um helicóptero fazia repetidas viagens até o glaciar ao lado do refúgio trazendo gente, equipamentos, e até uma máquina que parecia um pequeno gerador. O objetivo, só podíamos imaginar.

Cada um colocou seu capacete e entramos na trilha rochosa. Depois de só uns trinta metros desta trilha chegamos à travessia de gelo do grande colo, conhecida como “galeria de tiro”, obviamente por causa das rochas que rolam rampa abaixo, responsáveis por algumas mortes no maciço. Combinamos um esquema simples mas que pode salvar vidas: Somente um por vez passaria enquanto os outros observariam o terreno acima com a missão de avisar com um grito no caso de uma rocha descer.

Marcel foi, tudo certo. Anne foi bem lenta. Eu mesmo já sou lento na montanha até porquê minha ascensão é sempre contemplativa. Paro sempre pra dar uma olhada ao redor e fazer uma foto. Mas a Anne, acredito que pela idade somada à falta de prática, ia muito devagar. Ao longe, acima, vi uma rocha do tamanho de um punho descendo a rampa a toda. Instantaneamente gritei alto e duas vezes: “Rock Anne, rock!”. Ela não entende inglês, mas a urgência dos gritos foram bem claras, se deitou na vala de neve. Felizmente a rocha passou a uns cinco metros laterais dela sem perigo eminente. Levantou-se e concluiu a travessia. Depois fui eu e nenhuma rocha caiu. Atrás de nós uma grupo guiado (1 guia, 5 clientes) passava na linha de travessia mais baixa uns dez metros, mais rocha rolando! Felizmente ninguém foi atingido apesar de estar o grupo inteiro ao mesmo tempo na travessia e pior, clipados ao cabo de aço que passa sobre suas cabeças. No meu ponto de vista aquilo era um erro grave, explico: 1° – O cabo de aço passa sobre as cabeças aproximadamente um metro e meio, isso dificultaria o escalador se abaixar, o que salvaria sua vida deitado na vala. 2° – O guia não fez o que fizemos, como estavam encordados, todos entraram ao mesmo tempo na travessia do colo, com distância de mais ou menos dois metros de um pro outro. Isso significa que todo o grupo composto por cinco clientes e um guia, seis pessoas, a uma distância de dois metros entre um e outro, perfaziam um total de dez metros em uma única linha de pessoas, em uma travessia assassina de trinta metros. Um terço do caminho! As chances de alguém ser atingido era irritantemente grande.

Daí pra frente o caminho se transforma em uma escalaminhada de uns 30° de inclinação, com caminho bem marcado e óbvio. Cem metros verticais acima e a simples escalaminhada passa a ser uma “meia escalada” mista com pequenas rampas de gelo e acreditem, é possível esbarrar até com finas camadas de verglass. Deste ponto em diante a atenção passa a ser de 120% e a inclinação uns 40°. Mais adiante cerca de 250 metros verticais acima, começam os cabos de aço fixos. É um aviso para aumentar novamente a atenção para 140%. Nos últimos cem metros verticais, já podia tocar o refúgio de tão próximo, porém minha atenção era de 200%, pois subia de boreal e usando crampoons. A inclinação beirava os 55° ou 60°, ou seja, a rocha a frente na verdade estava acima um ou um metro e meio. Uma simples queda significaria ficar ricocheteando nas rochas e parar provavelmente 50 ou 100 metros abaixo morto, ou vivo com múltiplas fraturas.

Enquanto a subida do grande colo é prazerosa e um pouco perigosa, a descida é apavorante e realmente perigosa. Não interprete esta leitura erroneamente, eu não disse que é difícil, pelo contrário, é fácil. Entretanto, todo cuidado é pouco no grande colo.

Pelo menos metade das pessoas que subia ou descia o fazia em grupos e encordados. Faço mais uma observação sobre isto: De minha objetiva pura “segurança psicológica” porquê segurança real mesmo não notei funcionalidade. De que adianta subir o grupo encordado em uma parede rochosa sem pôr um friend sequer na parede? A impressão que tive era que se um cair, todos cairiam. Provavelmente terminariam pendulando todos em caso de a corda enganchar em uma rocha, com alguma fratura de braço ou perna. Isso se a rocha não cortar a corda, vez que a grande maioria das rochas do grande colo são muito escarpadas, afiadas como facas. Subir encordado no gelo sim é bastante funcional em caso de queda de um do grupo, os outros podem ajuda-lo se ancorando no gelo ou evitando uma queda em uma greta profunda. Enfim, é minha opinião.

Com todo cuidado possível, depois de 3 horas exatas de caminhada, trepa-pedra e escalada, vencemos os 650 metros de desnível e chegamos ao Refúgio Goûter a 3.817 metros de altitude. Olhei para baixo ao me debruçar no corrimão e vi dúzias de pessoas mais formando uma linha colorida ao longo do colo, muitas subindo e algumas pelas quais passamos, descendo.

Parte final da escalada do grande colo, o vídeo mostra a inclinação.

Larguei minha mochila e olhei pro Marcel sorrindo, mas antes que eu pudesse falar algo ele me disse “vamos concluir a escalada do dia?”. Não entendi muito bem mas respondi positivamente. Cinco minutos e 350 metros mais distantes depois, glaciar acima, estávamos no filo do cume da Agulha de Goûter (que dá nome ao Refúgio e à rota), a 3.864 metros. Meu primeiro cume europeu.

Fizemos fotos e descemos bem a tempo por volta das 11:30h, o céu começava a mudar. Na descida ainda tiramos foto com um boneco de neve feito por um grupo de americanos que cavou um buraco no glaciar e estava acampado ali, ignorando a proibição de camping e o helicóptero da polícia que passava a cada hora sobrevoando e inspecionando a montanha.

Chegamos no Refúgio e mais uma vez entrei na fila por uma cama, na porta esbarrei com a dupla de catalães, começando a descida do colo. Disseram estarem exaustos, que o caminho era “muy largo Paulo, muy largo…”. Também reclamaram do forte frio.

Deixei minhas coisas onde deu e fui fazer um liofilizado pro almoço. Mais uma vez derretendo gelo, preferia pagar o absurdo de 4,60 euros por uma latinha de coca-cola (pelo sabor e reposição de açúcar) do que 5 euros por uma garrafa de 1,5 litros de água mineral! Depois que comi voltei ao refeitório e novamente fui o centro das atenções com minhas bandeiras no peito. Único sul-americano. Tentei puxar assunto com vários alpinistas mas me davam respostas monossilábicas, muito fechados. Por outro lado o pessoal do refúgio era super legal, muito receptivo ao papo. Me disseram que nem se lembravam da última vez que viram um brasileiro lá.

Marcel e Anne foram dormir então me sentei só em uma das mesas e passei meu tempo com palavras cruzadas até cair no sono sentado na mesa lá pelas 15:00h. Lá fora nevava forte. Acordei uma hora depois e fui pro lado de fora fazer um vídeo e curtir a nevasca que prosseguia forte.

Leia a segunda parte desta matéria.

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Sobre o autor

Parofes (in memorian) - Colunista

Parofes, Paulo Roberto Felipe Schmidt (In Memorian) era nascido no Rio, mas morava em São Paulo desde 2007, Historiador por formação. Praticava montanhismo há 8 anos e sua predileção é por montanhas nacionais e montanhas de altitude pouco visitadas, remotas e de difícil acesso. A maior experiência é em montanhas de 5000 metros a 6000 metros nos andes atacameños, norte do Chile, cuja ascensão é realizada por trekking de altitude. Dentre as conquistas pessoais se destaca a primeira escalada brasileira ao vulcão Aucanquilcha de 6.176 metros e a primeira escalada brasileira em solitário do vulcão ativo San Pedro de 6.145 metros, próximo a vila de Ollague. Também se destaca a escalada do vulcão Licancabur de 5.920 metros e vulcão Sairecabur de 6000 metros. Parofes nos deixou no dia 10 de maio de 2014.

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