Espinhento

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Ano 2015 : Aparecida (Cidinha) T.A. da Silva, Alisson C. Wozniak, Christopher Thomas Blum, Daros A.T. da Silva, Guilherme F. Rosa, Hadassa M.M. Ceslak, Jorge Soto, José Carlos (Zeca) Reinert, João A. Zaparoli, Julio César Fiori, Marcelo Brotto, Maria (Lila) J. da Silva, Moisés Lima, Natan F.L. Lima, Ollyver Rech Bizarro, Paulo Marinho, Rafael Voltz, Renan Vieira, Sergio (Serginho) A. de Lima, Vinicius Ribeiro, Vinicius (Vine) T.B. Monteiro e Wilson Rulka Ceslak.

Éramos 10 caboclos espalhados sobre ilhas de pedra cercadas de quiçaça braba, no cume do Espinhento. O sol a pino fritando os miolos, o suor salgado escorrendo pela nuca e encharcando a camisa. Congratulações de velhos companheiros como o Paulo Marinho, o Moisés Lima, o Jorge Soto e o Marcelo Brotto junto com os recém conhecidos Christopher Thomas Blum, Daros A.T. da Silva, Rafael Voltz, Renan Vieira e Ollyver Rech Bizarro. O vento fresco varria o cume sob o céu azul e muito verde espalhado no horizonte luminoso às duas da tarde. Todos tranquilamente observando a paisagem sob um ponto de vista inédito e eu vendo lá embaixo, no campo, a mochila com meu charuto comemorativo. Melhor assim, se pude esquecê-lo é porque nem preciso dele, mas subir o Espinhento se fez necessário desde a primeira vez que o vi se levantando imponente do selado. Aquela pedra demonstrava personalidade.
 
O Henrique (Vitamina) Paulo Schmidlin me orientou para procurar a esquerda da montanha por uma estreita canaleta marcada com velhas fitas vermelhas e assim que despontamos no selado, saídos das entranhas do Chapéu, avistamos a piazada lagarteando nos campos. Nem bem joguei as tralhas no chão e alguém perguntou:
 
      – Então Fiori, vai subir o Espinhento?
      – Vim pra isto – respondi afirmativo – somente para subir este bicho.
 
Num pulo, todos se levantaram e desceram pelo bosque que envolve a montanha até bater nas imensas e lisas pedras na base das paredes. Cada um explorando uma fresta naquele caos de grotas escuras e frescas até que o primeiro gritou: “Fita”. Um após outro, cada macaco foi se dependurando nos troncos mirrados que vegetam na canaleta até despontar acima das pedreiras e descobrir porque o Espinhento tem este nome. Caraguatá sobre caraguatá, ao lado de mais caraguatás. A encosta toda só tinha caraguatás e nós subindo entre os espetos com os espinhos venenosos perfurando mãos, braços e canelas. Suados, retalhados, espetados e felizes como bons masoquistas, cada um escolheu seu pedregulho para, sossegado, lamber as feridas.
 
Mas esta história não começa assim, antes de marcar a data liguei para o Natan perguntando onde o Nas Nuvens Montanhismo (NNM) iria passar o feriado. Fiquei contente em saber que estariam muito distantes, escalando o Capacete no Rio de Janeiro. NNM na Alpha-Ômega é certeza de mau tempo e ralação exatamente como nos dias 15 e 16 de maio do corrente ano, quando o Alisson C. Wozniak e o Natan F. L. Lima passaram, a meia noite, direto sobre o cume do Morro do Canal debaixo de vento forte e garoa gelada para 27 horas depois ressurgir na Estação Marumbi sob as mesmas condições. 
 
Com esta garantia de bom tempo convoquei o pessoal e as 7:00 horas da manhã de 04/06/2015 cruzamos a porteira do falecido Seu Zezinho para uma hora e meia depois ver o Jorge Soto chegar a beira do primeiro ataque cardíaco na descida pela corda. O sol já ardia na cachola quando cruzamos pelo Vigia e encontramos refresco nas verdejantes matas que antecedem o Ferradura (Zanlute), mas foi no fundo da próxima grota que sentamos no riacho para respirar.
 
Na madrugada gelada, neste vale úmido também pararam o Alisson e o Natan para aquecer os ossos com chá quente depois de 3 horas de caminhada. Mas agora no calor do meio dia fomos alcançados pelo grupo dos seis engenheiros florestais que saíram da chácara as 8:30 horas e após os cumprimentos de praxe, partiram direto para cima do Carvalho. A subida continua na mesma, tensa e desmoronando o pouco de lodo que resta pendurado antes da cachoeirinha. No cume reencontramos os engenheiros descansando e trocamos algumas palavras. Informaram-nos que um terceiro grupo se concentrava na chácara para também fazer a travessia e nos convidaram a sentar por ali, mas dissemos que descansaríamos no vale onde é mais fresco. Então surgiu a pergunta marota:
 
      – No acampamento onde o Élcio  perdeu as calças?
 
Lá mesmo e descemos o barranco até encontrar o calmo riachinho escorrendo sobre a areia branca, no limiar do bosque luminoso. Subimos até a já famosa clareira e nos espantamos ao encontrar um acampamento fantasma com mochila, boné, roupas e outras traquitandas penduradas num varal. Mas a discussão se concentrou no par de botas aparentemente ainda boas para uso, apesar do limo verde que começava a cobri-las. Quem em perfeito juízo abandonaria um par de botas Salomon ou levaria um par reserva para uma travessia deste tamanho? É mais um mistério na Alpha-Ômega e a engenheirada estava com a corda toda. Não se detiveram mais que dez minutos e seguiram adiante. No cume do Sem Nome pudemos ainda vê-los sobre as pedras do Mesa, mas depois desapareceram no matagal.
 
A subida do Mesa foi tranqüila comparada com a rota que enfrentei na última vez que passei por ali e as gretas foram quase todas desviadas. Alcançamos o cume por entre as pedras e não sobre elas. Pouco nos demoramos e tratamos de deitar o cabelo, mas notei que a rota havia sido alterada descendo à esquerda e não sobre a crista. Como os seis peões deixaram um bom rastro a seguir, com pista livre das teias de aranha e as taquaras todas deitadas, nos deixamos levar pela comodidade. 
 
No fundo do vale, junto ao riacho, os NNM tiritaram de frio. Encharcados até a medula prepararam novo chá quente ao amanhecer, cochilando sentados. Nós, pelo contrário, nos preparávamos para o pernoite carregando as mochilas com muitos litros de água. Na metade do subidão já estávamos com as lanternas ligadas e arrependidos de ter desprezado meus instintos. Na vez passada subi por uma suave crista em vez de camelar pela face íngreme da montanha, desviando de pedras imensas agarrados nos caules das capoeiras. Cruzamos pelo Alvorada 4 sem dizer boa noite e despontamos no cume do 3 para encontrar as barracas dos engenheiros ocupando os únicos lugares razoavelmente planos e secos. Foi divertido dividir o lugar com eles e a conversa fluiu agradável durante o jantar.
 
Mas na hora de deitar a coisa complicou. Encontramos terreno quase seco de frente para o norte, encostado numa das barracas, mas bastante inclinado. Durante boa parte daquela noite acordei a cada hora distante um metro ou mais do lugar em que inicialmente adormecera. O isolante escorregava sobre o impermeável que revestia o solo e o saco-de-dormir escorregava sobre o isolante até travar os pés umedecidos no lodo do campo. Então mudei de tática deitando em oposição à inclinação e a cada meia hora acordava rolando pelo barranco tal qual um saco de batatas. Levantei injuriado, a procura de lugar menos ruim e encontrei um valetão afastado das barracas onde me joguei com mala e cuia para finalmente roncar tranqüilo até o sol alto queimar o rosto. Acordei com o som das batidas de panela anunciando o café da manhã.
 
Contabilizando o avanço do dia anterior, o Paulo Marinho projetava o próximo pernoite no cume do Olimpo. “Sabe nada inocente!!!” e o Jorge Soto acreditava na fantasia. O Marcelo Brotto penteou o capim e pediu desculpas por tê-los amassado a noite. Achei engraçado tanto carinho com a quiçaça partindo de alguém cuja especialidade é cortar árvores. Então justificou sua profissão de maneira inusitada:
 
      – Lembre de nós, engenheiros florestais, sempre que for usar o papel higiênico. 
Fiquei traumatizado com esta observação. Maculou um momento sagrado e terei que voltar para o divã da analista. 
 
Só Marcelo Brotto e Dadá Maravilha flutuam no ar. No Alvorada 1 caminhou sobre as copas das árvores que encobriam uma greta, para observar de perto uma plantinha exótica. Travou no meio do caminho quando olhou para baixo:
 
      – Galera, acho que preciso de ajuda!
E montaram uma ponte humana para resgatar o incauto, precariamente suspenso sobre os galhos a dez metros do chão.
 
Descemos do cume do Alvorada 2 enquanto a rapaziada descia também do cume do 1 para nos encontrar no vale entre o Chapeuzinho e o Chapéu. É ali, naquele lugar, que a “criança chora e a mãe não ouve”. As perdidas do Natan e do Alisson se juntaram as desgarradas dos seis a nossa frente e tinha rastros em todas as direções. Por comodismo acabamos seguindo a boiada, mas ao fazer uma curva em meio às gretas nos deparamos com um buraco instransponível, então desliguei o piloto automático e passei a operar em manual. Descemos até uma cota razoável e interceptamos o ponto em que deveria existir água no pé das gretas, mas estava praticamente seco e profetizei que subiríamos mais uns vinte minutos por rampa suave até um barranquinho de um metro e meio para despontar nos campos ao sol do meio dia. Os engenheiros bordejaram o paredão do Chapéu por entre as gretas, levando toda a quiçaça no peito e na raça e mantiveram a pequena vantagem. Os encontramos lagarteando ao sol, rasgados pelas taquaras e unhas-de-gato, de frente para o Espinhento.
 
Em meados de 2009 surgiu grande polêmica em torno da abertura da lendária via “Água-de-Vina” percorrendo a parede noroeste desta montanha. Consta que o controverso montanhista Vinicius Ribeiro a fez toda em móvel usando um jogo de estacas de ferro surrupiadas de uma velha barraca canadense. A suposta linha seguia pela borda de uma laca coberta por liquens, derivando para uma fenda e finalmente chegando ao platô onde encontrou um ninho de andorinhas ainda em serviço. Equalizou a parada em duas bromélias gigantes, coisa de profissa, e não se tem notícia de qualquer repetição.
 
Retornando ao selado fui, gentilmente, recebido pelo Marcelo Brotto:
            – Puxa Fiori, você está acabadaço!
      – Acabadaço é pouco – respondi ainda bufando – meu consolo é que outros na mesma idade usam fraldão faz tempo.
 
Pela primeira vez fizemos contato visual com o grupo que nos seguia a distancia. Descendo dos Alvoradas estavam o José Carlos (Zeca) Reinert acompanhado por Aparecida (Cidinha) T.A. da Silva, Guilherme F. Rosa, Hadassa M.M. Ceslak, João A. Zaparoli, Sergio (Serginho) A. de Lima, Vinicius (Vine) T.B. Monteiro, Wilson Rulka Ceslak da Associação Montanhistas de Cristo (AMC) e Maria (Lila) J. da Silva que veio especialmente de Volta Redonda, Rio de Janeiro. O atraso da viajante fez com que partissem da chácara somente as 11:00 horas, passaram desconfiados pelo acampamento fantasma e pernoitaram nas proximidades do riacho que antecede o Mesa. O Serginho bradou seu grito de guerra “Bom diaaaa Vietnããããn” as 6:00 horas da manhã e  caminharam para se perder entre as gretas do Chapéu.
 
Nós, depois de uma hora e meia com o Espinhento, juntamos os cacos e partimos rumo ao Pelado. Tinha um rastro que aproveitava ao máximo a vegetação campestre, mas penetrava no vale bem abaixo de onde a água corre na superfície. Em poucos minutos estávamos novamente envoltos pelo caos de pedras cobertas por limo verde, raízes e galhos podres, debaixo das arvores. Paramos quando nosso riacho subterrâneo recebe pela esquerda um tributário igualmente invisível e o vale todo se dobra, imperceptivelmente para o sul. O Paulo, sendo o mais magro do grupo, ganhou a honra de se enfiar inteiro dentro dos buracos escuros. Armado de lanterna e caneca desceu aos subterrâneos para retornar carregado com o precioso líquido. 
 
E finalmente partimos pra cima do Pelado. No primeiro paredão instalaram uma corda fixa e no segundo também, mas de pouca ajuda, e a escalaminhada aconteceu da maneira tradicional com joelhos e barriga no barro. Os campos do ante cume oferecem algum refresco antes de se enfiar novamente no mato alto, e no pé da última subida paramos para coletar a água fresca que corria dentro do valetão.  Chegamos com visão desimpedida para o distante Olimpo e descemos para a asa do avião onde as barracas dos engenheiros já estavam montadas. Sem arvores por perto ou bambu pra cortar, nosso bivaque seria ao relento outra vez, mas quem tem o Moisés não passa fome jamais. Em minutos já estava fritando lingüiça Blumenau com alho, mexendo os ovos noutra panela e montando as omeletes nos pratos. Só parou quando todo mundo estava de bucho bem cheio.
 
Desta vez não faltou lugar plano para esticar o esqueleto, mas o vento trazia umidade do mar e o orvalho cobria o capim com uma fina película de água. Acordei de madrugada completamente ensopado. Escondido atrás das moitas lembrei das pragas do Marcelo Brotto e decidi marcar com urgência uma sessão de hipnose. Com as roupas molhadas e o saco-de-dormir vertendo água, tive tempo para pensar em muitas coisas. Foi complicado reencontrar a posição de conforto, mas o amanhecer me encontrou roncando mais que o leão da metro.
 
O campo no Pelado parecia até o quintal de uma lavanderia com tanta roupa e tralha secando ao sol. Às oito horas assistimos o grupo da AMC desmontar o acampamento no selado do Espinhento e descer a grota em longa fila indiana. Uma hora depois partimos rumo ao distante Ângelo e no fundo do vale alcançamos a engenheirada, naquela confusão de riachos. A subida foi sossegada com a turma toda bem alegre e confiante. Até a bifurcação onde tomaram a direção do Bandeirantes e nós a do Ângelo. Nos campos o vento estava descomunal e no cume uma multidão de urubus planava sobre nossas cabeças sem sair do lugar. Pareciam se divertir com isto. Pouco nos demoramos ali e partimos para o Leão onde coletei o que sobrou da caixinha do Stamm para entregá-la ao Vitamina. Esperamos pelos engenheiros, para juntos descansar e comer alguma miudeza antes de descer para a grota. 
 
O caminho começa aos pés da pedreira na direção do Boa Vista, mas é completamente invisível e foi trabalhoso encontra-lo. Do cume a entrada do mato foi só tateando o chão com as botas. Fizemos longa pausa no riacho antes de enfrentar a subida pelo brejo até as correntes. Soube depois que o Serginho (AMC) quase se estrepou tentando subir pela primeira. Mais safo desta vez, desviei a direita no paredão até a segunda corrente e todos chegaram sem estresse ao cume, a tempo de nos despedir do Daros enquanto o resto da turma já caminhava para a Pedra da Lagartixa. 
 
Nas proximidades do Olimpo encontraram um baita cocozão no meio da trilha, e os sinais de civilização continuaram depois. Descendo do cume, entraram num início de vale e cruzaram pela latrina recheada do produto interno bruto. Papéis alfandegários selados com ordens de despacho. Seguiram pelo leito seco com lanternas ligadas por mais de hora, até nivelar e desacreditarem daquele rumo. Explorando o entorno reencontraram a vala de drenagem que se inicia no Olimpo, depois água e os campos do Bom Jardim. Acamparam no centro de um anfiteatro cercado de montanhas sob a luz do luar.
 
Os nove da AMC preferiram pernoitar num mocó semi abrigado da ventania no cume do Leão e, como de costume, despertaram com o berro de “Bom diaaaa Vietnããããn”. Com as mochilas quase prontas dentro das barracas, alguém estranhou a demora da alvorada e olhando o relógio descobriu que o galo da madrugada endoidou de vez, cantando a meia noite e vinte minutos. 
 
Poucas semanas antes tínhamos subido pelo Pau do Maneco, dormindo no Boa Vista e no dia seguinte rumando para o Olimpo, descendo pela Noroeste depois de passar pelo Gigante e Ponta do Tigre. Desta vez imaginava chegar ao Olimpo e descer pela Frontal com luz do dia, mas consciente das dificuldades do Jorge Soto com trepa-pedras muito expostas e correntes, convenci a turma a descer pelo Pau do Maneco. Não demorou a nos arrependermos amargamente desta decisão. Passamos ainda tranqüilos pela entrada da Free Way e depois do cruzo do Facãozinho a escuridão nos alcançou.
 
Foi neste mesmo vale que o Alisson e o Natan surgiram, vinte e um dias antes, também na boca da noite. Passaram algumas horas perdidos nos vales do Chapéu e chegaram ao selado do Espinhento com 14 horas de pernada. Na Free Way só pararam na Cascata Dourada para comer e depois procurando pela trilha que seguidamente desaparecia no mato fechado. Do Vale dos Ovos ao cume do Boa Vista seguiram tropeçando sem descanso para nos campos receber na cara o beijo do capeta. 
 
Escuridão, neblina, chuva gelada, vento forte e frio de trincar osso. Tatearam as cegas pelo descampado com cagaço crescente, medo de perder o rastro para o Olimpo. No meio do taquaral, com barro até o pescoço, perderam a trilha muitas vezes e apelaram até para a carta e o GPS. Descendo do Olimpo, completamente esgotados, vestiram todas as roupas que ainda carregavam nas mochilas e ligaram para o resgate. O Natan com os pés inchados e o Alisson arrastando a perna com o joelho mais parecendo uma batata doce. Gigante, Ponta do Tigre, Vale das Lágrimas e cruzo do Abrolhos. Só tinham forças para se arrastar até a próxima referencia. Chegaram ao limite em que um não consegue mais ajudar o outro nem com a companhia. Mais abaixo, na barroca, o Natan pensou ter visto o Alisson esperando:
 
      – Tudo bem, piá? – silêncio.
      – Tudo bem Alisson? Fale alguma coisa! – sem resposta.
 
E adiantou o passo para descobrir que conversava com uma fita refletiva amarrada ao tronco de uma árvore. 27 horas e 13 cumes depois de partir, já nas imediações da Estação Marumbi, encontraram-se com duas lanternas subindo o morro. Eram o Juliano e o Xandão partindo para o resgate.
 
Com os joelhos já em frangalhos chegamos às barrocas do Pau do Maneco para ver o mundo de ponta cabeça. Árvores imensas deitadas na grota com as raízes para cima, encostas inteiras deslizando morro abaixo, pedras soltas pipocando como mísseis em volta da cabeça e os fachos da lanterna nunca iluminavam o fundo do buraco. Os rastros desapareceram depois de uma descida de água e a tigrada se dispersou pelo barranco a procura de pistas. Fiquei muito nervoso quando me vi num pedregulho instável, cercado pelo abismo, e cheguei a repreender rispidamente os camaradas para retornarem ao lugar seguro. Deus nos livre de alguém despencar naquela grota e quebrar os chifres.
 
Respirando com calma recuperamos a lucidez e reencontramos a trilha mais embaixo por entre toneladas de entulho. Passamos direto pela entrada da Frontal e nunca demorou tanto para chegar ao Rio Taquaral. O Jorge Soto, de tão cansado, já não conseguia nem se lamber e mergulhou acidentalmente com as botas na água. O Paulo ia retornando para o mato sem cruzar o rio, pensando que ainda estávamos na Cachoeira dos Marumbinistas, rio acima. E o Moisés confundia as Estações ao dar orientações a um turista de que era possível chegar em 4×4 até Estação Marumbi. Os funcionários da ferrovia faziam um churrasco embaixo da Estação e ao entrarmos no mato reclamou que tínhamos combinado de seguir pela estrada.  Na cabeça dele Marumbi era Engenheiro Lange e vice versa. Eu vinha ligadão no modo zumbi desde o cruzo da Frontal e só despertei para o mundo depois de chegar ao IAP. Graças aos céus o Luciano, irmão do Moisés nos esperava com o carro.
 
O grupo de engenheiros florestais registrou dezenas de espécies da flora silvestre nesta travessia, algumas raras. E no Bom Jardim constataram a integridade dos campos e da floresta que os protege. Retornaram ao Olimpo a plena luz, pelo belo bosque que percorreram a noite. Depois seguiram para a Passagem Noroeste escalando ainda a Esfinge e o Abrolhos antes de tomar o trem para Curitiba.
 
No quarto dia de jornada, o pessoal da AMC chegou ao Olimpo debaixo de sol forte e praticamente sem água. O desgaste era visível e só iria se intensificar. Na Ponta do Tigre ganharam meio litro de almas caridosas que lá encontraram, mas rendeu apenas um gole para cada um. Com o Vale das Lágrimas seco e o desgaste crescente, o grupo foi se dispersando na descida, com sinais preocupantes de fadiga extrema. A situação só foi resolvida ao chegar à Torneirinha e a travessia acabou num bem-vindo banho na casa do Giancarlo (Cover) Castanharo.
 
Uma única travessia, quatro equipes, vinte e uma experiências impares e outras tantas histórias de sucesso e companheirismo. Ao começar esta mítica travessia só se tem a certeza de sair dela transformado, para melhor.
 
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Sobre o autor

Julio Fiori - Equipe AM

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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