Estrada de Tijucas

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O despertador chama as cinco em ponto e imediatamente pulo da cama. É uma noite quente e curta, alguns sabiás já despertos enchem a madrugada com seu canto e visto as roupas de batalha. Nada além de calção, camiseta, um agasalho de pille e as botas de caminhada, tomo um rápido café enquanto a Solange prepara os sanduíches para a primeira jornada. Minutos depois estamos a caminho para apanhar o Elcio e o Batista que nos esperam na outra extremidade da cidade.
Fotos de Elcio Douglas Ferreira


A cidade está as escuras e nada lembra que ainda estamos no inverno. Fora do carro a temperatura chega aos 8ºC, mas assim que entramos no contorno norte é visível a mudança e começamos a penetrar numa densa e gélida neblina. A cidade realmente tem o poder de alterar o clima com seus edifícios, asfalto, rede elétrica e brutal concentração de seres vivos adicionando facilmente uns 5ºC à temperatura ambiente. Primeiro se torna necessário ligar o ar-condicionado para desembaçar internamente o para-brisa, depois acionar o limpador para remover a delgada lâmina de gelo de que se forma no lado de fora a medida que mais e mais nos afastamos da civilização.

 
O dia estava claro quando viramos a direita na comunidade de Matulão, antes da descida da serra. As 7:00h a Solange nos deixou aos pés do Araçatuba e retornou para casa. É do Mikael a frase sempre apropriada quando se chega aqui e o carro vai embora: “Agora sim estamos num Matulão sem os cachorros”.

 
Longe de mim ter planejado tal travessia. Para o bem da verdade só queria mesmo era fazer um bate-volta muito do tranqüilo até o Ciririca, mas aí entrou o Elcio e tudo se foi distorcendo. Primeiro sugeriu esta mesma travessia que cortei de cara, depois insistiu em subir o Ferraria e descer pela picada do Cristóvão até a Conceição de ataque e sair em Bairro Alto a tempo de tomar o último ônibus para Antonina. Ficou tudo acertado para isto até que o Batista me ligou e apesar do combinado, o Elcio continuou firme na política em prol desta travessia. Este é o “cara” que nunca desiste.

 
A travessia Araçatuba-Monte Crista e suas variantes nunca me atraíram por dois motivos; o primeiro é que no meio dela existe a área da Confloresta e caminhar de 7 a 10 horas por estradinhas poeirentas com sol no coco não faz parte dos meus desejos sado-masoquistas e finalmente a grande distancia que separam estes dois pontos. Sempre entendi este relevo exatamente como estão nos mapas. Aqui em cima a Serra do Papanduva com destaque para o Araçatuba, o Baleia e o Moréia e lá embaixo a Serra do Quiriri, mas confesso que a minha quase completa ignorância prática sobre esta primeira região sempre me incomodou e acabei cedendo para a curiosidade diante da insistência de meus dois companheiros.

 
Com mochilas muito compactas apesar de cargueiras e equipamento completo, sem barracas que abolimos já há algum tempo em favor do bivaque, cruzamos a mata ciliar que envolve o riacho e nos embrenhamos nas samambaias até despontar nos campos de altitude, onde optamos pela trilha direta. Esta trilha é o oposto daquela que escolhi para conduzir o Jorge Soto e sua trupe em sua investida no início deste inverno. Enquanto aquela faz uma longa e agradável travessia pela face norte da montanha em busca do esporão leste e brinda o espectador com belíssimas paisagens das serras ao redor e também do oceano distante para se aproximar do cume com magníficas panorâmicas, a trilha direta é uma caminhada estéril e exaustiva por terrenos a pique que desemboca diretamente abaixo do cume, mas economiza uma boa hora de caminhada.

 
Não examinei as horas, mas o sol já estava alto quando terminamos o primeiro lanche e começamos a descer chapinhando pelos brejos da pouco pronunciada aresta sul com o Baleia bem a frente. Não existe trilha e quando muito se identifica por onde alguém um dia já passou, mas também não há qualquer risco de desorientação pelo menos enquanto houver visibilidade, coisa rara por aqui. A aresta se afunila e dobra para leste num pequeno esporão rochoso encoberto pelo mato alto que preenche todo o fundo do vale entre as duas montanhas peladas. Por aqui existe uma precária trilha que contorna esta rocha pela esquerda para depois seguir numa suave diagonal a direita até o fundo da grota e subir a face oposta aproveitando uma depressão que separa uma pequena proeminência do restante do Baleia.

 
Este trecho é o próprio inferno na terra e a trilha quase impossível de ser encontrada por entre as pedras, de fato perdemos o trilho pouco antes da grande rocha e ao invés de contorná-la pela face externa acabamos descendo pela face oposta enfrentando buracos insondáveis, cipós, espinhos e taquaras. As taquaras se prendem as mochilas, amarram o corpo e imobilizam os movimentos, então saquei o canivete e fui abrindo caminho até cruzar a trilha que não é muito melhor de passar do que o mato virgem. A luta se prolonga até o fundo da grota onde existem alguns panelões de água parada e fétida, e ainda depois durante a primeira parte da subida pela encosta do Baleia, muito íngreme no princípio, pela esquerda de uma depressão que o separa de um morro também a sua esquerda.

A subida termina no colo de ligação onde existe o “totem” para assinalar a mudança de direção. O totem é apenas uma pedra enterrada no chão com pouco mais de 80 centímetros de altura e outros 30 de diâmetro que se apresenta como um cupinzeiro esquisito no meio do capim alto. Tem a forma de um menir daqueles que se vê nas histórias do Asterix, mas em miniatura, e pintado de vermelho sobre um fundo amarelo. Não posso afirmar ser natural ou artificial, mas é uma visão bastante insólita que jamais será esquecida. No totem se faz uma curva de 90º a direita e começa pra valer a subida pela face do Baleia.

O capim alto e fofo dificulta o avanço e nos obriga a flexionar bastante os joelhos em cada passada. Aqui está o melhor treinamento para caminhar pelas íngremes encostas forradas de neve fofa acima das canelas. Facilmente me imagino nos Alpes suíços com muito verde ao redor, sol de fritar os miolos, neve acima dos tornozelos e o céu de um azul imaculado. Neste momento o sol já cozinhava três formigas que subiam a montanha e a luz cegante me obrigou a sacar dos óculos escuros e generosamente espalhar gel-protetor pelo rosto. Vagarosamente atingi o cume do Baleia, onde me deliciei com comida, um pouco de suco feito pelo Batista e a fresca brisa da montanha que por ali circula livre de qualquer obstáculo.

Ao meio-dia descemos pela face oeste e o Moréia desponta a nossa frente. Agora não existe mais dúvida nenhuma quanto a realmente termos atravessado algum “buraco de minhoca” naquele vale povoado de quiçaça e tenho certeza de estar nos Alpes. A direita o Araçatuba despeja límpidas cascatas que correm por sobre amplos lajeados até o fundo do vale de onde emerge uma linda floresta de pinheiros alpinos que vai se rareando ao atingirem as imponentes encostas rochosas sulcadas de capim. O céu azul carmim e a luz primaveril completam o quadro espetacular.

Restam dois esporões rochosos para o fundo do vale que divide o Baleia do Moréia e deixo o Elcio e o Batista se afastarem enquanto me delicio com a paisagem idílica. No alto da última crista, aos berros, dou indicações da rota para o Batista vencer o paredão com mais facilidade e a seguir também inicio a escalaminhada, no princípio pelas fissuras forradas de capim e caraguatás, mas depois de algumas doloridas espetadas me decido a enfrentar diretamente a face da pedra que nesta hora estava pegando fogo de tão quente. Apesar da mochila puxando para trás e o tempo todo querendo desequilibrar a disputa atingi o cume com tranqüilidade para encontrar o Batista confortavelmente deitado no capim. O Elcio já demonstrava toda sua costumeira impaciência e havia voltado para me procurar na face menos íngreme da montanha.

Do alto do Moréia se vê toda a desolação do terreno a frente onde a Confloresta colheu toda uma safra de pinheiros e replantou outra, mas esta segunda ainda não faz sombra e os morros mostram-se desnudos e cortados pelas estradas de serviço que se estendem para além do horizonte numa desolação sem limites. Iniciei a descida com muito cuidado as 13:30 horas pelo capim alto e fofo que esconde muitos buracos e se torna muito fácil torcer o tornozelo numa passada vacilante. Mais ousados, o Elcio e o Batista novamente se distanciam bastante e me esperam no início da estrada onde se faz ouvir o rumor de uma cascata. Cheguei lá ávido por enfiar a cabeça na torrente e beber metade do rio, mas o Elcio estava já angustiado querendo seguir adiante e de olho no relógio.

Meia hora a frente vamos cruzar com um riacho, disse ele para me fazer desistir de descer uns poucos metros e saciar toda a minha sede. A estrada é árida, compacta e coberta com um cascalho amarelo. O sol está implacável e não existe sombra em lugar algum, as encostas cobertas de entulhos da última derrubada. Uma hora depois cruzamos um pequeno riacho de águas cristalinas, mas de gosto ácido. Mesmo com forte suspeita, nos refrescamos e até bebemos um pouco. Lembrei de um ano atrás quando projetei as instalações físicas para uma empresa de reflorestamento, as mudas com menos de um ano são atacadas pelas formigas e para combatê-las são colocadas iscas com veneno e realmente vimos algumas placas alertando “água imprópria para consumo”. Mas não comuniquei meu conhecimento aos outros, não tínhamos outra escolha naquele momento.

Seguimos adiante com os pés fritando dentro das botas, os miolos cozinhando ao sol e nenhuma brisa para aliviar. A frente mais do mesmo remédio estéril até onde a vista alcança e muito além como havia visto dos cumes que cruzamos. Não era nada animador seguir por mais 6 ou 7 horas de caminhada nesta paisagem do apocalipse antes de encontrar os campos do Quiriri. Vinha andando sempre bem atrás, sozinho, e sabia que para terminar esta empreitada seria necessário apertar o ritmo. Até que tinha forças para isto nesta tarde, mas seguir assim por mais um dia e ainda trabalhar na segunda feira era outra história bem diferente, então decidi que já era passada a  hora de liberar os rapazes para a correria.

 
Na pouca sombra oferecida por um barranco poeirento, comemos um último sanduíche e eles seguiram para o sul. Não tinha a mínima idéia de onde estava além de que aquilo era um labirinto de estradas de serviço que sobem e descem morros a esmo, mas tinha tudo de que poderia precisar nas costas, dentro da mochila. Tomei a direção do norte imaginando me aproximar e contornar as vertentes do Araçatuba, mas dele não vi nenhum sinal pelo resto da tarde. A estrada seguiu sinuosa pelas vertentes dos morros, sempre calcinada pelo sol e cercada pelo caos até que cheguei a uma espécie de acampamento ou refúgio com alguns telheiros e duas casas abandonadas. Adentrei pela primeira chamando por alguém e só encontrei lixo aos montes. Copos plásticos, lonas plásticas e caixas de papelão espalhados as centenas pelo chão, restos de alguma comemoração recente, mas nem viva alma para me fornecer alguma informação.

No fundo do vale, a menos de cem metros, uma cascata enchia o ar com seu clamor e da estrada podia ver a espuma branca por entre o arvoredo. A mata envolve a estrada em sombra depois de vencida uma porteira fortificada com uma guarita também deserta e o rio correndo barulhento pelo lado direito. As horas custam a passar enquanto sigo pela estrada deserta sem nenhuma companhia além dos pássaros e dos meus pensamentos. Lembrei do Elcio e fiquei imaginando o que teria acontecido para que nosso desempenho tenha se tornado tão diverso. Na realidade sempre fui mais contemplativo, um verdadeiro turista pelas montanhas, me dedicando a entender e colecionar histórias muito mais do que tempos ou performances, mas por muitos anos andamos juntos sem grandes diferenças. Não é mais assim, agora ele toma grande dianteira e depois fica bufando com o atraso que sempre acaba frustrando as suas metas.

 
A princípio debitei a culpa na idade, afinal 10 anos a mais tem seu peso e lembrei que na mesma idade dele fui com o Douglas escalar o Aconcágua, a progressão é geométrica, mas depois fui estabelecendo outros parâmetros que amenizaram as comparações, afinal até mesmo os novatos com menos de 25 anos sofrem para acompanhá-lo. A verdade é que bem poucos conseguem e por fim concluí que ele avançou um patamar, subiu de nível e agora deve fazer uma opção; andar sozinho, encontrar novos amigos do mesmo nível dele ou sossegar o facho e contentar-se com os companheiros que ainda lhe restam. De minha parte estou ficando sacudo em andar sozinho.

Apareceu uma estrada a direita e logo a frente uma ponte cruzando o rio. Um pedaço do paraíso com sombra, água fresca e uma viga de madeira em forma de divã na linha d’água. Que delícia vagabundear ali recostado na mochila! Naquela altura já ficará obvio que a estrada me conduzia para longe do sítio do Seu Amadeu, do Matulão e da BR, estava indo diretamente para o oeste, para Tijucas do Sul. Devorei uma embalagem de amendoins e ovo cozido com sal. Mais a frente, pela estrada principal, encontrei uma casa de fim de semana, fechada, mas ouvi um cachorro, então fui invadindo pronto pra arregaçar os beiços do bicho com um botinaço.

O caseiro veio me encontrar no meio do campo de futebol, mas foi de pouca valia e o velho mal sabia que estava vivo e apenas me informou que faltavam muitas horas para chegar a algum lugar que nem ele sabia onde. Aconselhou-me a pegar uma carona. Alguns quilômetros adiante ouvi um motor aproximar-se pelas costas e me enchi de esperança com o polegar estendido. Dois caipiras chapeludos numa 4X4 e o passageiro com o dedo em riste me mandou praquele lugar. Cacete! Os pés fritando e as costas alquebradas pelo peso da mochila numa rampa interminável. Equilibrei a mochila na cabeça tal qual uma baiana carrega a lata d’água. Outra casa deserta, sol, poeira, calor e mais estrada.

O dia prometia ser magnífico. Uma boa parada no cume do Araçatuba com suco em pó, sanduíches e muita conversa, depois outra igual no Baleia para apreciar toda a vista com ângulos inusitados do próprio Araçatuba, do Moréia e dos campos ao sul. No Moréia faríamos um verdadeiro banquete acabando com toda a comida e as piadas para depois tomar um banho de hidromassagem naquela cachoeira até congelar a alma, então do outro lado do rio traçaríamos uma diagonal pela encosta oeste do Araçatuba até atingir a trilha que percorre a crista do esporão norte descendo até o carro estacionado no sítio. Muita conversa, muita piada, muita comida e um banho de piscina. O calor estava provocando alucinações e a mochila teimava em quebrar meu pescoço.

Saí numa estrada maior, uma placa de “pare” e um ponto de ônibus feito de troncos com banco e cobertura. Será a civilização? Outros tantos quilômetros e nada de civilização, já estava pensando até em dormir no mato, sozinho, quando apareceu um ciclista todo paramentado, mas sem bagageiro que era tudo o que me interessava naquele momento. O cara afirmou: “conheço você!”

            – Nos encontramos descendo o Camapuã a alguns anos quando você retornava de um bate-volta no Ciririca que teus amigos estenderam ao Agudo.

A estrada até que ficou agradável com a boa companhia enquanto trocávamos figurinhas. Na realidade ele conhecia todo mundo, o Hilton, o Pedro Hauck e havia escalado recentemente com o Taylor. Me senti quase em casa, só não foi melhor devido as informações prestadas: a frente uma serrinha, depois apareceriam as chácaras e mais 8 quilômetros até a comunidade de Ambrósios, outros 4 km até o asfalto e o ponto de ônibus. Caracas! Prá amenizar convidou-me a parar em sua casa, tomar um chimarrão e retornar a Curitiba com ele. Uma casinha velha e verde ao lado da estrada.

Caminhei mais animado por uns trocentos quilômetros até chegar à serrinha e a mochila voltou a pesar toneladas. Cinco e meia da tarde e as costas em frangalhos numa subida sem fim. Quantos pecados terei ainda que pagar? Depois de cada curva mais subida, virei a mochila de cabeça para baixo e prendi a barrigueira na testa, a moda índia, com o peso novamente teimando em me quebrar o pescoço. Um ronco de motor ecoou na ponta da rampa, mas desta vez nem me virei para não desarranjar o peso precariamente equilibrado. O Uno Mille parou ao meu lado e o motorista perguntou se queria uma carona, pulei pra dentro do carro antes que ele mudasse de idéia.

Até que enfim Deus se apiedou de minha pobre alma e mandou seu auxiliar mais graduado na região, o próprio vigário de Tijucas, para me socorrer. Padre Germano é belga, bom coração e muito simpático, perguntou-me o que fazia no meio do nada.

            – Caminhando e escalando montanhas, Padre.

            – Ohhh! atrapalhei o passeio entooom! Queeer continuar caminhando?

            – Não, não Padre, estou satisfeito por hoje. Muito obrigado.

            – Também já fiz muita loucurrra – completou – corrida de aventura e escaladas quando era mais novo e tinha saúde.

            Padre Germano tem 77 anos e operou o fígado no ano passado.

            – Onde quer ficar? – Voltou a perguntar.

            – Na casa de um amigo que vai me dar carona para Curitiba.

            – Onde é a casa do seu amigo?

            – É uma casa verde e velha perto de Ambrósios.

            – Tem muitas casas verdes e velhas em Ambrósios. Qual o nome do teu amigo?

            – Não sei Padre! – e me senti ridículo, um idiota – Não sei o nome dele.

            – Entooom é melhor ir para Tijucas pegar o ônibus.

 
A rodoviária fica ao lado da igreja. Deus o abençoe e ilumine Padre Germano para que continue a fazer muitas loucuras como a que fez hoje dando carona para um mochileiro cansado.

 
Desci do carro, atravessei a rua e pedi uma cerveja no boteco.

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Sobre o autor

Julio Fiori - Equipe AM

Julio Cesar Fiori é Arquiteto e Urbanista formado pela PUC-PR em 1982 e pratica montanhismo desde 1980. Autor do livro "Caminhos Coloniais da Serra do Mar", é grande conhecedor das histórias e das montanhas do Paraná.

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